Florencia Bonelli  

BODAS DE DIO - Traduo, reviso, formatao: Comunidade RTS   1









                       Bodas de dio
Florencia Bonelli
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                                 Traduo e Reviso:
                              Jossi Borges e Ceila Sarita


           Sinopse
           Bodas de dio

            Corre o ano 1840 em Buenos Aires. Com sua beleza ruiva, sua teimosia e
     seu esprito impulsivo, a jovem Fiona Malone faz honra  sua origem irlandesa.
     Nega-se a seguir os costumes portenhos da poca, pois est decidida a casar-se
     por amor. Por isso se desespera quando seu pai impe seu matrimnio com Dom
     Juan Cruz de Silva, protegido do tirano Juan Manuel de Rosas.
            De Silva, apelidado o Diabo, tem um passado negro e dbito sua
     prosperidade tanto a sua inteligncia, valor e frieza como ao afeto que lhe tem
     Rosas. Para consolidar sua posio deve casar-se com uma jovem de boa famlia,
     e a beleza da Fiona o conquistou.
            Entretanto, o matrimnio comear marcado pelo dio. Juan Cruz e Fiona
     s sero felizes se sabem ceder  imensa fora do desejo e do amor.
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                                       Captulo 1


                        "Amor! palavra escandalosa em uma jovem, o amor
                  perseguia, o amor era cuidadoso como uma depravao..."
                                                         Joaninha Snchez Thompson



           A noite de 9 de julho de 1847, Buenos Aires.
           Fiona Malone suspirou enfastiada e se entorpeceu na poltrona. De
     ali observava a sala principal da manso, lotada de gente.
           feito-se uma pausa no baile. Os homens, reunidos em pequenos
     grupos, conversavam de poltica. As jovencitas, excitadas, consultavam
     suas cadernetas e anotavam os nomes dos cavalheiros que as tinham
     pedido para esta ou aquela pea. Em um rinco, a orquestra provava os
     instrumentos, enquanto seu diretor, o professor Favero, recebia
     instrues da anfitri, misia Mercedes Senz. As mulatas foram e
     vinham com mate nas mos, bandejas com manjares e garrafas de vinho.
     Tudo parecia como foi pedido, os convidados luziam agradados e a
     proprietria de casa resplandecia pelo xito de sua reunio no Dia da
     Independncia.
           Fiona voltou a suspirar, pensando em sua cama, calentita e
     cmoda, em um bom livro, ou no copo de leite quente que lhe preparava
     sua criada cada noite. Mas no! A estava, rgida, engravatada at o
     peito, os ps gelados, e com muitos desejos de voltar para sua casa.
     sentia-se cansada; nada parecia atrai-la, sempre o mesmo.
     Definitivamente, odiava as festas; em realidade, para ela no eram mais
     que uma feira de luxo, aonde o gado se substitui com mulheres se
     desesperadas por encontrar marido. Uma solteirona: antes, ao convento.
           perguntou-se, ento, por que permanecia nessa reunio, em uma
     geada noite de inverno, entre pessoas tediosas e afetadas. Pensou-o uns
     instantes e recordou as palavras de sua av Brigid essa tarde.
           --Deve ir, Fiona --lhe ordenou a anci.
           --Se negar a todas as reunies s que lhe convidam, nunca conseguir
     uma boa partida para te casar--vaticinou sua tia Ana, lhe colocando um pente
     de prender cabelo na cabea que ela, a sua vez, tirou-se rapidamente.
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            --What are you doing, girl? No te d conta o trabalho que d coloc-la
     em um cabelo to murcho como o teu?--recriminou-lhe a tia.
            --No irei com pente de prender cabelo. As dio. Alm disso, no quero
     conseguir uma boa partida para me casar, quero me apaixonar.
            A jovencita, desafiante, observava alternadamente a sua tia e a sua av.
            --Good heavens! Essas zonceras romnticas que lhe colocaram na
     cabea, Fiona, so ridculos; terminaro por me voltar louca.
            A anci se deixou cair em uma poltrona. As idias irreverentes de sua neta
     conseguiam tirar a de gonzo.
            --por que so ridiculas, Grannie? Acaso voc no te casou apaixonada
     pela Grandpa?
            --Menina!Que perguntas faz?--exclamou sua tia.
            --Grannie... --disse Fiona, insistindo a sua av a responder.
            --Bom... no... mas com os anos cheguei a quer-lo.
            --Pois ele diz que te amou com loucura do primeiro dia em que te viu.
            Brigid observou a sua neta e tratou de descobrir em seus enormes olhos
     azuis o mistrio que a envolvia. Certamente, era uma menina intratvel. S
     Fiona podia lhe arrancar semelhante confisso ao velho Sejam Malone. Fazia
     cinqenta anos que estavam casados, tinham cinco filhos, e a ela jamais a tinha
     feito.

          --Por fim! --disse Fiona para si, ao divisar a seu melhor amiga,
     Camila Ou'Gorman.
          Camila ingressou no salo de misia Mercedes e procurou a Fiona
     com o olhar. Ao encontr-la s em um rinco, dirigiu-se para ela.
          --Por fim chega, Camila! Torrecilla j me tem mdio louca
     perguntando por ti.
          --Justo hoje que no tenho desejos nem de lhe olhar a cara.
          Camila tomou assento ao lado de seu amiga.
          conheciam-se desde pequenas e se queriam muito, como irms.
     Eram muito cupinchas e cada uma sabia os segredos da outra. s vezes
     discutiam, porque no sempre estavam de acordo, embora as irritaes
     duravam pouco. Ao momento, se amigaban e tudo continuava como
     sempre.
          --No te compreendo, Camila. Se no ter desejos de olh-lo 
     porque no o ama; se no o amar, no deve te casar com ele.
          O silogismo soava lgico para a Fiona, que desde fazia algum
     tempo no entendia o capricho de seu amiga em manter uma relao
     que no desejava.
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           --Sim, j sei.
           --Ento...
           --Ento... --suspirou Camila.
           --Sim, o que acontece ento, Camila Ou'Gorman.
           --Nada, Fiona Malone, nada.  que... OH, mas voc tambm vais
     fazer me recriminaes!
           --No seja tola, eu s desejo que seja feliz. --Tomou uma de suas
     mos e lhe sorriu--.  seu pai, verdade? Tem pnico de que se zangue
     contigo.
           -- que tatita nunca compreenderia o que sinto aqui dentro --
     disse, golpeando o corao.
           --Camila...
           Algum a interrompeu vociferando seu nome.
           --Fiona Malone! Meia festa est murmurando a respeito de ti.
           Uma jovem se aproximava direto para elas, com passo apurado e
     rosto desencaixado.
           --O que pretende obter com este comportamento absurdo, Fiona?
     Uuuyyy! Se poderia te enforcar com minhas prprias mos neste preciso
     instante.
           --Ol, Imelda!
           Camila no pde ocultar a risada que lhe provocava a fria da irm
     maior da Fiona.
           --No te ria, Camila. O que seu amiguita est fazendo nesta festa 
     imperdovel.
           escutou-se o flego da Fiona. Tinha cruzado os braos sobre o peito
     e dirigido seus olhos em branco ao cu raso.
           -- que cheguei faz uns instantes e no tenho ideia o que esteve
     fazendo seu hermanita --explicou a Ou'Gorman.
           --A senhorita Fiona rechaou a todos e cada um dos cavalheiros
     que a pediram para o minu --declarou Imelda, sem deixar de olhar a
     sua irm.
           --Talvez no goste do minu.
           --No te burle, Camila. Tambm rechaou a Estar acostumado a
     para a valsa e a Anchorena para a mazurca.  evidente, no  questo de
     bailes.
           --No, Imelda. A Estar acostumado a no o rechacei, disse-lhe que
     sim.
           --Sim, disse-lhe que sim, mas logo, quando veio a te buscar,
     espantou-o lhe dizendo que tinha desejos de vomitar.
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           --No lhe disse que tinha desejos de vomitar. To somente lhe
     disse que...
           --Bom, j basta, menina malcriada! No importa o que disse ou
     que no disse. Quo nico importa  que est fazendo ficar muito mal a
     nossa famlia em casa de misia Mercedes.
           --Misia Mercedes jamais pensaria mal da Grandpa por isso.
     Respeita-o muito. Alm disso, ela e eu somos amigas.
           --Uuuyyy! Basta, basta --ordenou Imelda.
           --te acalme, Imelda --disse Camila--. Seu rosto parece um tomate
     e no acredito que isso goste a dom Senillosa.
           --No cria, Camila, no cria --a corrigiu Fiona, com ironia--.
     Senillosa  mazorquero... N! perdo, scio popular e tudo o que seja
     vermelho sangue lhe apaixona.
           Camila no suportou mais e soltou uma sonora gargalhada, que
     chamou imediatamente a ateno de um grupo de ancis apostado em
     uns passos delas. Imelda as observava furiosa, o rosto como o gro e os
     olhos a ponto de saltar-se o das rbitas. Recolheu o arena de seu vestido,
     deu meia volta e saiu.
           --Uy, no! Agora Torrecilla, quo nico faltava --murmurou
     Fiona.
           Lzaro Torrecilla se aproximou e pediu a Camila para o prximo
     minu; a moa aceitou a contra gosto e partiu ao salo principal junto a
     seu prometido.
           Fiona ficou sozinha outra vez. Sozinha, porque no desejava estar
     com ningum mais nessa festa. Possivelmente, seria divertido acontecer
     um momento com as planchadoras. Sempre as havia nas festas. As menos
     agraciadas, as mais feias, as mais gordas, as muito fracas, as mais
     pobres; um grupo de mulheres s que ningum tinha pedido para
     danar. Elas sozinhas se encerravam nos corredores da casa ou nos
     ptios mais retirados do salo. Uma e outra vez eram humilhadas pelos
     cavalheiros nas reunies. Apesar de tudo, insistiam e no deixavam de
     concorrer. Fiona no conseguia as compreender.
           --No, no, senhorita. Outra vez com as planchadoras, no.
     Simplesmente, no o permitirei.
           Misia Mercedes deteve a Fiona em seu intento por escapar da festa.
           --OH... misia Mercedes...
           --No permitirei que te afaste como se fosse uma das mulheres
     mais feias de Buenos Aires quando  justamente o contrrio.
           --Justamente o contrrio?
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          --Sim, querida, justamente o contrrio.  a mais bela da reunio.
          --Eu, misia Mercedes? Mas se a mais bela  dona Agustina
     Mansilla.
          A proprietria de casa conduziu a Fiona pelo brao at um lugar
     mais afastado: ali se sentaram em uns tamboretes.
          --No, menina. Agustina perdeu o vio de sua pele e seu cabelo
     no brilha como antes.  que os anos no vm sozinhos, querida. Alm
     disso, voc  distinta.  especial. Ela s tem uma cara bonita e nada
     mais. Voc tem muito mais que isso.
          Fiona admirava a misia Mercedes Senz e Velazco. sentia-se muito
     a gosto com ela. Talvez era parte de toda aquela parafernlia de
     reunies, sobrenomes, estadias e coisas que ela detestava, mas havia
     algo mais nessa mulher que a atraa irremediavelmente. Sua delicadeza,
     acompanhada por uma grande firmeza; sua educao estrita e sua
     abertura ao impensvel; sua bondade, unida a uma grande sagacidade.
     Fiona amava escutar dos prprios lbios da protagonista a histria a
     respeito de como misia Mercedes se havia oposto a seus pais quando
     quiseram cas-la com um parente longnquo, muito maior que ela, cheio
     de dinheiro e linhagem. "A primeira mulher do virreinato que se ops a
     seus pais e contraiu matrimnio com o homem que realmente amava",
     gabava-se a anfitri.
          --Ho-me dito que no quiseste danar com ningum. E estavam
     todos desejosos de faz-lo contigo.
          --Misia Merc...
          --Eu te compreendo, querida, compreendo-te. Sei que estes
     crioulos nosso no so um modelo de virtudes nem nada que lhe parea.
     No tem que me explicar isso que me casei com um ingls, que Deus o
     tenha em sua glria.
          --Amm --demarcou Fiona.
          --Sim; no so do melhor mas  o que temos para escolher --
     sorriu.
          -- que eu no desejo escolher a ningum, eu no desejo um
     marido, misia. No o desejo ainda.
          --Ou talvez, o que desejas  te apaixonar, verdade?
          O pulso da Fiona se acelerou. Por primeira vez algum a entendia.
     No tinha feito falta explicar nada. To somente, tinha-a compreendido.
          --Sim, misia Mercedes, desejo me apaixonar por um homem que
     tambm esteja apaixonado por mim. S assim aceitarei me casar.
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           -- um desejo muito nobre. Espero que o alcance. Em realidade,
     sei que o far.
           --Misia Mercedes?
           --Sim, querida?
           --No esteja zangada comigo porque no quis danar com
     ningum, o suplico.
           --No, querida, como poderia est-lo.
           --Prometo-lhe que ao prximo que me pea uma pea, aceito-o.
           --Como deseja, Fiona.
           Naquele momento, um cavalheiro algo petiso e volumoso, mas
     vestido com elegncia, ingressou no salo junto a uma mulher.
           --Mas se forem o conde e a condessa Walewski!
           Mercedes se incorporou imediatamente.
           --Se me desculpar, Fiona, devo ir receber os. Isso sim: no quero
     que v com as planchadoras. me prometa que permanecer aqui, onde seu
     belo rosto possa ver-se. Alegra este lugar.
           --Sim, misia Mercedes, o prometo.
           A jovem observou afastar-se  mulher, que desapareceu detrs de
     uns cortinados.
           Outra vez sozinha. Ento, comeou a observar a seu redor. A
     manso de misia Mercedes Senz, na rua da Florida, era das mais
     formosas de Buenos Aires. Seus sales eram famosos pelo luxo e o bom
     gosto. Levantou a vista para o cu raso. O enorme candil de bronze,
     carregado de perucas e velas chorreantes de sebo, era fantstico.
     Observou-o balanar-se muito lentamente; talvez seus olhos lhe jogavam
     uma m passada e tudo era uma iluso ptica, talvez o abajur no se
     movia nem um centmetro. Mas sim, parecia que se deslocava ao som
     dos lembre da valsa que tocavam Favero e sua orquestra. Fechou os
     olhos para concentrar-se nas notas que chegavam a seus ouvidos. Sentiu
     que um ardor os alagava, deixando escapar lgrimas pelos flancos.
           --Tem descoberto acaso uma greta no teto? Ou talvez uma telaraa
     em uma esquina? Porque esta casa poder ser uma das mais belas,
     distinguidas e soberbas de todo Buenos Aires mas lhe est faltando
     muita manuteno. J no  quo mesma em tempos de dom Cecilio.
     Permite-me te acompanhar, Fiona?
           A jovem assentiu com desagrado, enquanto observava  rolia
     anci que se apoltronaba a seu lado.
           --Como te estava dizendo... O que te estava dizendo? Ai, que
     memria a minha! Sempre fui assim.
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           --De dom Cecilio.
           --Ah, sim, obrigado, querida! Em pocas de dom Cecilio... bom,
     voc nem tinha nascido ainda. Em pocas desse galhardo e honorvel
     cavalheiro rioplatense, esta casa era um verdadeiro paraso.
           Embora a mulher continuou com suas lembranas, Fiona no a
     escutava. No podia ser possvel. Tinha obtido um momento agradvel
     e nada mais nem nada menos que dona Josefina Coloma vinha a
     incomod-la. Era velha, j tinha at bisnetos qual era a necessidade de
     assistir a essas festas? Poderia permanecer em seu lar; ao menos assim
     no causaria machuco aos ouvidos e  prudncia de ningum. Em
     realidade, pensou Fiona, tivesse preferido danar Estando acostumado a
     que escutar a essa anci ladina e retorcida.
           --Que belo vestido traz hoje, Fiona. Acaso lhe fez isso... --no
     concluiu a frase. Por aquela poca o nome de uma boa costureira era um
     dado muito prezado. Ter o melhor vestido em uma festa podia chegar a
     ser a chave na busca de tin algemo. E Fiona levava o mais bonito essa
     noite.
           --Sim, dona Josefina?
           --Ejem! --pigarreou dona Josefina--. Talvez foi a senhora da
     Urrutia ou possivelmente a senhorita Torre... No sei, so as melhores
     que conheo eu. Ali se confecciona os vestidos Clela.
           A av dirigiu o olhar ao salo para observar a sua neta, que se
     desarmava por agradar ao jovem com o que danava. Fiona contemplou
     por uns segundos a jovencita e pensou dela o mesmo de sempre: algum
     caa-esposos sem muitos escrpulos.
           --Bom, no me disse onde lhe fizeram este espantoso vestido --
     insistiu a anci. Tomou o tecido da saia, roando-a com os dedos, como
     tratando de descobrir de que gnero se tratava.
           --Aunt Tricia me enviou isso de Londres, dona Josefina.
           No era certo, mas gostava de jogar esse perverso jogo de
     mentirinhas com uma velha matreira como a Coloma.
           --OH, Tricia lhe enviou isso de Londres!
           Frente a aquilo, a mulher no podia competir. Ela no tinha a
     ningum que lhe enviasse nada da Europa.
           --E, como tem feito para receb-lo tendo em conta o terrvel
     bloqueio ao que est sendo submetida nossa Santa Federao?
           No era fcil enganar a aquela velha ardilosa. Fiona vacilou um
     momento; depois, respondeu:
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           -- que...  que, se a gente tiver algum que lhe envie as coisas em
     pacotes da Inglaterra ou da Frana, o mais possvel  que cheguem,
     como meu vestido, v-o voc, dona Josefina?
           Fiona ensaiou um sorriso falso e levantou o tecido do traje. A
     mentira era to grande que teria que confessar-se com o padre Vicente se
     desejava comungar no domingo. Mas se tranqilizou pensando que se
     tratava de uma mentira piedosa, para lhe baixar as fumaas  velha
     chusma.
           --Ah, tambm o servio  lamentvel nesta casa! --comentou a
     anci com sarcasmo--. Pode acreditar que no me convidaram um s
     mate desde que cheguei, faz mais de uma hora j? --E a seguir, gritou--:
     Sofa, Sofa, me ceve um !
           Fiona compadeceu a misia Mercedes por ver-se na obrigao de
     convidar a sua casa gente como essa. Ocorria que Josefina Coloma era
     uma "boa federal": fiel  causa, amante da Federao, da cor vermelha, e
     de seu caudilho Rosas. No convid-la seria para misia Mercedes como
     parar-se em meio da Praa da Vitria e gritar "Sou unitria! Sou
     unitria!", embora isso nada tivesse que ver com a inclinao partidria.
     Mas assim eram as coisas; no havia mais remedeio que adaptar-se ou
     perecer.
           A negra Sofa j estava junto a elas.
           --Aqui tem, dona Josefina.
           --Mas, m'filha! Este mate  pior que o dos Morais... --disse a anci,
     enquanto o arrebatava de um tapa--. Por fim! Tinha a lngua seca como
     a de um louro.
           "Isso ser por falar tantas necedades", pensou Fiona, fazendo um
     gesto de indigesto to inequvoca que provocou a risada da Sofa.
           --Bom, agora j me sinto um pouco melhor, pois!
           A mulher respirou com dificuldade dentro de seu espartilho.
           --me diga, filha, como  que te encontra aqui e no est danando
     com algum de nossos guapetones federais? Est mais s que uma monja
     de clausura, Fiona. Isso no  bom se desejas conseguir marido.
           --No me sinto muito bem, dona Josefina. Talvez seja algo que me
     indigest.
           --OH, pobre menina! Com razo tem essa cara de morta, mais
     plida que um alma. OH, e essas olheiras, escuras como uma noite sem
     lua! Decididamente, no te encontra em seu melhor momento.
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           Fiona, que no tinha desejos de comentar nada mais com aquela
     senhora, se devanaba os miolos pensando frases de cortesia para tirar-
     lhe de cima.
           Os instrumentos deixaram de soar e o salo ficou em silncio; os
     homens, que se congregaram em grupos, dirigiam o olhar  estrada
     principal; algumas jovencitas comearam a cochichar, nervosas,
     escondendo-se atrs de seus leques, dissimulando a repentina
     vermelhido em suas bochechas.
           Intrigada, Fiona franziu o sobrecenho. Nesse momento viu misia
     Mercedes, que se encaminhava para a porta com os braos estendidos, e
     a ouviu dizer em um doce tom de voz: "Bem-vindo a meu lar". Como
     estavam, muito afastadas do salo principal, Fiona e Josefina no
     conseguiam ver de quem se tratava; embora de algo estavam seguras:
     tratava-se l uma grande personalidade. Misia Mercedes no recebia
     assim a qualquer. Nem sequer com o Conde Walewski tinha atuado
     desse modo.
           O piano do professor Pavero soou de novo, e embora misia
     Mercedes, perdida entre os cortinados, no tinha reaparecido ainda,
     tudo retornou  normalidade.
           -- obvio! Devi haver-me imaginado! --resmungou de repente
     dona Josefina Coloma--. Claro, como no! Se se tratar do Juan Cruz de
     Silva.
           Misia Mercedes Senz, tirada do brao de um extico cavalheiro,
     apresentou-se ante o olhar da Fiona como uma apario do mais 
     frente. Tudo parecia desenvolver-se em forma lenta; o homem
     caminhava com porte aristocrtico, um sorriso fresca e gesto vaidoso. A
     jovem no podia tirar seus olhos dele. Sabia que era imprprio observ-
     lo assim, mas no lhe importava; de todos os modos, no podia deixar
     de faz-lo.
           --Quem ? ---perguntou a dona Josefina.
           A mulher voltou seu rosto a Fiona com gesto de espanto.
           -- que acaso vive em um dedal, menina?
           Pergunta-a lhe causou risada.
           --No, dona Josefina, por que me pergunta isso?
           -- que s uma pessoa que viveu em um dedal os ltimos trs
     meses no conhece o Juan Cruz de Silva.
           --Eu no o conheo, dona.
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          --E claro, como vais conhecer o. Quase no aparece nas reunies,
     no vai  Alameda mais que para montar seu cavalo como uma
     foragida, no percorre a rua da Florida depois de missa os domin...
          --vai dizer me quem  o cavalheiro, sim ou no? --perguntou
     Fiona com insolncia.
          --Sim, m'filha, sim.  um dos homens mais ricos da Confederao.
     Alm disso,  o protegido de nosso excelentssimo governador. Agora
     que o Brigadeiro Rosas est to ocupado com as questes de estado, de
     Silva  quem dirige todas suas estadias. Voc sabe, Fiona, seu filho,
     Juancito, no  o melhor dos filhos, e como no se ocupa muito dos
     assuntos familiares... bom...
          --Jamais o tinha ouvido nomear--comentou a jovem, abstrada.
     Disse-o sem apartar o olhar do enigmtico cavalheiro, como muitas das
     outras jovencitas. Algumas, mais atrevidas, tentavam aproximar-se.
          --Em realidade, chegou do campo faz uns meses, nada mais.
          --E vai ficar?
          --Parece que te interessa conhecer sobre o mocito de Silva, no 
     certo?
          O comentrio malicioso da anci a ps em guarda. Talvez se tinha
     deixado levar pelo impacto que de Silva lhe tinha causado e estava
     perguntando de mais. Dona Josefina era muito perigosa; de um nada,
     era capaz de criar a mais fantstica das fbulas. E Fiona no desejava ser
     a protagonista de um conto imaginado por ela.
          --Sim, dona Josefina, tem razo. O que me interessa , verdade?
          Olhou-a com acuidade, direto aos olhos.
          --Alm disso, tenho que deix-la; no posso perder toda a noite
     aqui sentada se o que quero  conseguir marido. boa noite.
          levantou-se e se foi, deixando  mulher com a boca aberta, sem
     nada que dizer.
          --Ai, senhor de Silva! Que sorte que chegou! J temia que no
     viesse voc --exclamou Mercedes, que tirada do brao do jovem entrava
     com ele na sala.
          --Sim, desculpe-me, misia. Acontece que me entretive at ltimo
     momento na discusso de uns negcios --se apressou a explicar o
     recm-chegado.
          --Uns negcios O... uma rapariga, senhor?
          A mulher o olhou de marco em marco sonrindole com picardia e
     acotovelando-o nas costelas.
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           --Sente saudades, misia Mercedes! Voc sabe que ultimamente no
     penso em outra coisa que em sentar cabea e conseguir esposa --
     respondeu de Silva, com certa ironia.
           Mercedes riu. Gostava desse moo, e estava encantada com a
     misso de celestina que se imps com ele.
           --Sua demora quase atira pela amurada todos os planos que
     risquei para voc esta noite, senhor de Silva. Vamos, tenho o que me
     pediu. Agora tudo depende de seu encanto.
           Encanto era o que sobrava ao Juan Cruz de Silva quando o
     propunha. Tinha chegado  cidade envolto em um halo de mistrio que
     o fazia ainda mais apetecvel. As meninas solteiras suspiravam ao v-lo,
     e as casadas no podiam sentir outra coisa que decepo quando o
     comparavam com seus maridos. Os homens, por sua parte, sabendo que
     obteriam boas lucros, desesperavam-se por fechar algum trato com ele.
     O conhecia como homem de palavra e tinha fama de enriquecer a seus
     scios. Mas todo mundo sabia de sua rudeza e rapidez com o faco. No
     era fcil amedront-lo, e se comentava que muitos tinham passado pelo
     fio de sua faca. Seus pees no s o respeitavam: temiam-lhe como ao
     mesmo demnio. Diziam que era severo e exigente e que no duvidava
     em castig-los muito duramente quando no cumpriam suas ordens a
     rajatabla. No lhe conheciam amigos, e ele tampouco mostrava
     ansiedade por fazer muitas miolos com os portenhos. Era atento,
     educado e sucedido, mas no passava disso.
           A cincia certa, era pouco o que sabiam dele. Que era o protegido
     do governador Rosas, um lince para os negcios, e muito rico. Sua
     origem e seu passado se mantinham em uma nebulosa; talvez ningum
     desejava conhecer realmente sua histria, intuindo-a no muito Santa.
     cobriram-se tantas anedotas ao redor de Silva como mulheres havia em
     Buenos Aires. At os vares tinham seus prprios contos.
           Essa noite, Mercedes o notou nervoso e sentiu saudades. Sempre
     receoso e precavido, era o tipo de pessoa que nunca revelava seus
     sentimentos.
           A mulher enviesou seus lbios; acreditava conhecer o motivo de
     sua inquietao.
           Fiona necessitava um pouco de ar. J tinha suportado muito
     daquela reunio.
           O ptio da velha casona seria sua salvao. Cruzou os corredores
     deixando atrs o som da msica, o incansvel murmrio da gente, a
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     fumaa dos charutos, e o aroma --mdio repugnante j-- das essncias
     que se queimavam nos pebeteros da sala.
           O choque com a brisa geada a recomps o bastante. Fechou os
     olhos e inspirou profundamente. Instantes depois, soltou o ar pela boca
     com lentido.
           A noite era fria mas esplndida. Permaneceu comprido momento
     observando a lua, que aparecia sob o arco do cisterna. Logo, aproximou-
     se do poo de gua e se reclinou sobre sua parede de mrmore. Ali ficou,
     olhando o cu, fechando os olhos de tanto em tanto. No soube quanto
     tempo permaneceu assim. Possivelmente ficou dormida uns minutos e
     depois despertou. de repente, sentiu frio; talvez devia retornar  festa.
     "Assim nunca conseguir marido, Fiona Malone", disse-se, sonriendo.
           --Fiona, aqui estava! Faz momento que levo te buscando. O que
     fazia aqui, sozinha? Uuuyyy! Mas se est gelado! Vamos, entremos.
           Camila tomou pelo brao, e virtualmente a obrigou a ingressar na
     manso.
           --Viu-o?
           --A quem? --inquiriu Fiona.
           --Como a quem? Ao convidado mais popular de esta noite. Ao
     Juan Cruz de Silva.
           J se tinha esquecido dele.
           --Sim, vi-o quando chegou, faz uns minutos.
           --Fiona, estiveste bebendo? De Silva chegou faz mais de uma hora.
           --Bom, sim, faz mais de uma hora, que mais d? Mas o que tanto
     h com esse homem. Todo mundo parece pendente dele.
           --O que acontece  que  o protegido de donjun Manuel. Alguns
     dizem que  seu filho bastardo; outros dizem que  o filho de uma negra,
     que o teve com um importante pecuarista. O que sim sei  que veio a
     Buenos Aires a procurar esposa.
           --Agora entendo tanto escndalo --replicou Fiona, com um sorriso
     sardnico--. Por isso todas as solteiras da cidade tiram reluzir seus
     psteres que dizem: "busca-se marido", verdade?
           --No seja mordaz, Fiona. O que acontece  que  um homem
     verdadeiramente atrativo, acaso no o viu bem?
           --Sim, vi-o. No me pareceu nada do outro mundo.
           --No posso acreditar que te tenha parecido igual aos outros. No
     me engana.
           lhe fazendo ccegas sob os braos, Camila obteve que seu amiga
     confessasse.
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           --Sim, detenha, sim, sim, basta. Est bem, sim, pareceu-me
     interessante.
           --Bem! Ento, vamos, ao salo. Talvez te convide a danar o
     minu.
           --No, Camila, no desejo danar com ele. Em realidade, no
     desejo danar com ningum.
           --Teimosa como boa filha de irlandeses que , Fiona.
           --Voc tambm o .
           --Sim, mas trato de me controlar. Alm disso eu sou neta, no
     filha, como voc.
           olharam-se uns segundos, seriamente; logo, comearam a rir.
           --Anda, vamos. Alm disso, misia Mercedes me perguntou por ti
     mil vezes.
           --Bom, est bem, vamos. Mas antes me conte mais sobre o
     galhardo e honorvel cavalheiro --disse Fiona, parodiando a dona
     Coloma.
           --Em realidade, no  muito o que sei. Tatita o outro dia
     comentava com o Eduardo que  um homem muito rico. Parece que
     alm de administrar as estadias de dom Jun Manuel,  dono de vrias.
     Ah, sim, agora recordo!  dono de um dos salgas maiores da
     Confederao. Depois de amanh, acredito, deve almoar a casa. A
     poderei averiguar mais.
           --De todas formas, no compreendo bem por que  to boa
     partida. Se for bastardo de Rosas, ou filho de uma negra... Nada muito
     adulador que digamos... --comentou Fiona.
           --Mas isso o que importa! Para dom Juan Manuel  como um filho.
     Assim o apresentou, como seu filho adotivo. Ele mesmo o acompanhou
     ao do Lacompte e Dudignac para que o vestissem de ponta em branco,
     como o viu. --Camila fez uma pausa--. Bom, agora sim, vamos  sala ou
     misia Mercedes se zangar comigo. Foi ela a que me enviou para te
     buscar.
           --Sim, vamos.
           Caminharam uns passos, e esta vez foi Camila a que a deteve.
           --Ah, esquecia-me! Sabe como o chamam?
           --No.
           --O diabo.
           Quando chegaram ao salo principal, Camila e Fiona cruzaram um
     olhar carregado de desencanto: de Silva danava o minu com a Clelia
     Coloma. Por tratar-se de um recm-chegado do campo, pensou Fiona,
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     seus movimentos ao som da msica eram muito harmnicos e
     coordenados.
           Fiona ficou observando-o, absorta, mdio escondida detrs de uma
     porta. Era alto, muito alto. Comparado com a lnguida silhueta da
     Clelia, aquele homem parecia enorme. Seu corpo era robusto, e ao
     mesmo tempo incrivelmente belo. Vestia uma elegante levita negra que
     destacava o contorno de suas costas e terminava atendo-se a sua cintura.
     Os punhos de encaixe lhe caam sobre as mos, que sustentavam as
     pequeitas da Clelia com tanta suavidade e destreza como um
     cavalheiro da corte francesa. Em um movimento do baile, seu levita
     deixou entrever mais claramente o colete de veludo negro no que se
     destacava, como rosa branca, uma elegante gravata de seda. Ningum
     haveria dito que se tratava de um homem de campo. Havia algo nele
     que o fazia distinto; tanto, que sobressaa inclusive entre os cavalheiros
     mais arrumados da cidade.
           A cinta ferroou que pendurava da casa de seu saco era mais
     pequena que as de alguns unitrios propensos a ocultar suas inclinaes
     polticas. Sua cara, poda de barba, no exibia sequer o obrigado bigode
     federal. Levava o cabelo partido para mdio, a trovador. Entretanto,
     ningum em todo Buenos Aires teria ousado pr em dvida sua
     lealdade  causa. tratava-se do protegido de sua excelncia, o Brigadeiro
     donjun Manuel de Rosas, "presidente dos portenhos" e caudilho da
     Confederao. No, ningum teria ousado sequer mencionar essa
     possibilidade.
           --Parece que esta noite estamos destinadas a nos encontrar,
     querida Fiona.
           A jovem reconheceu a voz de dona Josefina, esta vez a suas costas.
     No lhe importou a presena da mulher. Seu mau humor inicial se
     dissipou.
           --Assim parece, dona --respondeu amavelmente Fiona.
           Tinha estado muito grosseira com a anci e tratava de corrigir seu
     comportamento anterior.
           --Vejo que sua neta foi uma das afortunadas em danar com o
     cavalheiro de Silva --comentou.
           --OH, sim! --exclamou alvoroada dona Josefina---. De Silva foi
     vrias vezes a casa de meu filho. Em todas as ocasies a desculpa foram
     os negcios, mas eu no me acredito. Alm disso, comenta-se que j
     escolheu a que ser sua esposa. Para mim que... Bom, filha, no me faa
     falar de mais.
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           Fiona a olhou surpreendida. Ela no a estava fazendo falar de mais,
     era a anci a que sempre se ia de boca com seus comentrios. Mas, que
     mais dava; aquela mulher tinha sido assim por mais de sessenta anos e
     nada nem ningum a trocaria agora.
           --Est bem, dona Josefina. Agora devo deix-la; j  tarde e tenho
     que me retirar.
           --De maneira nenhuma, senhorita! Ainda  muito cedo e no
     danaste com ningum ainda. --Permaneceu um instante pensativa--.
     Danar com meu neto Esteban.
           --OH, Por Deus, dona Josefina, nem lhe ocorra!
           Mas j era muito tarde. Esteban Coloma passava por ali nesse
     momento. Sua av tomou pelo brao e, literalmente, esmagou-o contra
     Fiona.
           --Leva-a a danar, querido.
           O jovem estava vermelho como o gro; o rosto da Fiona, em troca,
     j tinha passado  violeta intenso. Finalmente, no ficou outra opo, e
     quando a valsa comeou a soar, ela e Esteban se encaminharam 
     improvisada pista de baile. Desde outro lugar, Camila e Imelda a
     observavam atnitas. No podiam acreditar que tivesse aceito uma pea
     ao neto de dona Josefina.
           --Bem merecido o tem! Por faz-la deliciosa, ficou com o pior --
     afirmou Imelda com sarcasmo.
           Esteban tinha que suportar sobre suas costas a pesada carga de ser
     neto de sua av; apesar disso, resultou ser uma pessoa agradvel e
     sensvel. Evidentemente, ele tambm se sentiu a gosto com a Fiona
     porque a msica continuou soando e eles no deixaram de danar. A
     tenso do princpio foi dando lugar a uma amena conversao que logo
     se permutou em um dilogo de velhos amigos.
           Esteban era doce, cavalheiro, e muito tenro. Gostava do campo, a
     msica, a literatura. Fiona no podia acreditar que de uma av assim
     pudesse sair um neto como ele. Embora, havida conta da histria de sua
     prpria famlia, teve que aceitar que ela era a menos indicada para julgar
     s pessoas por seus antecedentes genealgicos.
           Seguiram danando comprido momento. de repente, Fiona sentiu
     necessidade de ir ao penteadeira, e no primeiro corte entre pea e pea,
     desculpou-se com o Esteban. Mercedes sempre lhe indicava que
     utilizasse a sala de banho contiga a seu dormitrio, de modo que no
     duvidou em encaminhar-se para ali.
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           A casa era enorme e terei que cruzar dois corredores e dois ptios
     para chegar  zona das quartos, que dava justo sobre a rua de So
     Martn. O rudo da festa se perdeu e tudo parecia tranqilo e silencioso
     nessa parte da manso.
           Por um momento, pareceu-lhe escutar um som; um pouco parecido
     a um gemido, a um lamento. No, no, era um ofego; e parecia
     angustiado. Talvez, algum chorava por a; possivelmente uma das
     planchadoras. Sentiu a necessidade de descobrir quem seria; pensou que
     poderia consol-la.
           Com essa ideia em mente, entrou nas habitaes, e foi as
     percorrendo uma a uma, tratando de alcanar aquele som que ia
     fazendo-se cada vez mais audvel. Seus escarpines de raso logo que
     roavam o cho, e tomou a precauo de elevar a saia do vestido para
     que o roce do tecido com o piso no alertasse a pobrecita que chorava.
           Advertiu ento que o som provenia do fundo, de uma das ltimas
     habitaes para hspedes. A ansiedade lhe jogou uma m passada, e
     tropeou com uma mesita apostada em um dos flancos do corredor. Um
     vaso de prata caiu ao cho, e Fiona conteve a respirao. Por sorte, o
     floreiro deu sobre um tapete grosa e o rudo no foi to estrondoso.
     Voltou a respirar, um pouco agitada.
           --O que foi esse rudo? Escutou-o? --a voz era inequivocamente
     feminina.
           Fiona se deteve, e permaneceu quieta no lugar.
           --No, no... deve ter sido o gato... no te detenha... --E outra vez
     o gemido, o lamento.
           Fiona estava mais que intrigada. Era evidente que havia duas
     pessoas nessa habitao, e que eram um homem e uma mulher, mas, que
     diabos faziam ali?
           Com muito tato, entreabriu a porta do dormitrio e viu algo que
     nunca teria podido imaginar.
           Uma mulher, de costas a Fiona, sustentava-se com ambas as mos
     de um dos dosseis da cama. Como se estivesse montado sobre ela, e
     agarrado com fora a sua cintura, um homem a empurrava uma e outra
     vez, atraindo-a para si, balanando-se sobre ela, esfregando-se nela,
     emitindo estranhos sons. A mulher tambm gemia e respirava
     entrecortadamente. O lugar estava escuro e s o banhava a luz do farol
     da rua. Fiona acreditou ver que a mulher tinha o vestido levantado, mas
     o assombro e a m iluminao no a ajudavam.
Florencia Bonelli  BODAS DE DIO - Traduo, reviso, formatao: Comunidade RTS 19
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           Uma s imagem sulcou sua mente nesse momento: a gua de seu
     av afligida sob o peso do padrillo rabe dos Terrero. Por aqueles dias
     em que o animal visitava a estadia, tinha proibido ir ao potrero; mas no
     lhe importou, e se lanou a descobrir que coisa era a que faziam os dois
     cavalos. E isso recordou.
           Agora, em troca, os que se entregavam a esse estranho bal eram
     um homem e uma mulher. Fiona mantinha apertado o trinco com tanta
     fora que sentiu como as unhas lhe cravavam na carne. Sabia que no
     devia olhar. Entretanto, os movimentos, os pequenos gritos reprimidos,
     o ofego, sobre tudo esse contnuo e persistente ofego, como se
     estivessem correndo desesperadamente, todo aquilo exercia sobre ela
     uma atrao to irresistvel que no podia apartar os olhos. Pressentia
     que logo haveria um desenlace. Alm disso, queria lhes ver os rostos.
           Respirou fundo para tratar de dominar sua agitao, e outro mau
     movimento esteve a ponto de p-la em evidncia. Tinha afrouxado sem
     dar-se conta a presso de sua mo: em meio da quietude da noite, o
     rudo do trinco ao voltar para seu stio soou como um caonazo.
           O homem e a mulher voltaram seus rostos instintivamente para a
     porta. Embora tinha oportuno a jogar o corpo para trs, Fiona alcanou a
     reconhec-los. Por um momento, pensou que seus olhos a enganavam.
     Mas no. No cabia dvida de que eram Clelia e de Silva.
           Fiona viu que o homem, tudo desalinhado, com a cala aberta e a
     camisa por fora, apartava-se a contra gosto da mulher. Era evidente que
     estava disposto a averiguar quem devia interromper sua tarefa. Fiona
     decidiu que era tempo de sair dali e correu para o ptio dos serventes.
     Para quando Juan Cruz terminou de abrir a porta, j no havia ningum.
           --Ser melhor que retornemos  festa --sentenciou de Silva.
           Fiona ingressou no salo. No se sentia bem: tinha cruzado a
     manso de ponta a ponta  carreira, quase sem respirar. O corao lhe
     palpitava a toda velocidade e as tmporas lhe pulsavam. Estava plida e
     as mos lhe tremiam.
           --O que te acontece, Fiona? Acaso viu ao diabo?
           --Talvez --respondeu ela com o flego entrecortado--. Por favor,
     Camila, me consiga algo afresco para beber.
           AI cabo de uns minutos, Camila reapareceu com um copo de gua.
           --Obrigado. Por favor, Cami, me traga minha capa. Quero ir. J
     mesmo.
           Camila no ia discutir. Nunca a tinha visto assim, to
     desencaixada.
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           Fiona sorveu a gua lentamente, tratando de no engasgar-se.
     Depois, deixou o copo em uma mesa e se apoltron em uma poltrona.
     No desejava estar ali; desejava ir-se, escapar. O que acabava de ver era
     algo horroroso. Clelia sempre lhe tinha parecido uma mentecapta
     qualquer, com seu tonito enjoativo e seus modos de garotinha bem. E
     esse tal de Silva... Tinha resultado ser... sim, o mesmo diabo em pessoa.
           --Por fim, Fiona querida! --exclamou a anfitri ao v-la--.
     estivemos te buscando laigo momento. Bom, no importa, encontramo-
     lhe.
           Mercedes lhe sorriu to docemente que Fiona sentiu pena por ela.
     A mulher no tinha idia do que acontecia sua prpria casa, em uma de
     suas habitaes...
           --Vem, desejo que conhea algum --indicou a senhora, levando-
     a uns metros mais  frente.
           --Fiona, querida --comeou a dizer Mercedes ao ver aparecer a de
     Silva--. O senhor dom Juan Cruz de Silva deseja danar contigo a
     prxima pea.
           Fiona olhou alternadamente a um e a outro sem pestanejar. Por
     fim, declarou:
           --Antes prefiro estar morta.
           Camila no teve tempo de lhe alcanar seu casaco. Fiona o
     arrebatou das mos, e abandonou resolutamente a reunio.




                                       Captulo 2


                                           "Falar do corao a essas gente era farsa do diabo,
                                                            o casamento era um sacramento
                                           e coisas mundanas no tinham que ver com isto."
                                                         Joaninha Snchez do Thompson
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           Seus ouvidos se crisparam para ouvir como chiavam as rodas da
     galera contra os paraleleppedos da rua da Florida. Seu corpo se
     balanou sobre o veludo cotel do assento e fechou os olhos; no queria
     ver nada mais por essa noite.
           To somente escutava. "Viva a Santa Federao! Morram os selvagens
     unitrios! As doze deram e nublou!". A voz do sereno ia perdendo-se 
     medida que os cavalos, aulados pelo Eliseo, ganhavam mais terreno em
     sua carreira para a casa. "As doze deram e nublou!". E nublado? Acaso no
     tinha visto a lua no ptio de misia Mercedes? Misia Mercedes... Jamais
     lhe perdoaria seu comportamento dessa noite. "Antes prefiro estar
     morta... Antes prefiro estar morta."  que sempre seria assim, impulsiva,
     arrebatada. perguntou-se que lhe haveria flanco responder: "voc
     desculpe, senhor dom de Silva, mas devo me retirar". Pensou-o uns
     minutos; em realidade, disse-se, haveria-lhe flanco muito.
           No podia acreditar que a mesma pessoa que momentos atrs fazia
     "isso" em uma das habitaes se apresentasse pouco depois ante ela e a
     convidasse a danar como se nada. Com essa cara impvida e esse
     sorriso falso. Embora, devia admiti-lo, formosa.
           Talvez tinha exagerado. O que lhe importava o que o tal de Silva
     fazia com a Clelia? No era assunto dele, no mais mnimo. Nem Clelia
     era seu amiga, nem "o diabo" seu prometido.
           "E nublado." Abriu a cortina da portinhola e deixou entrar a
     paisagem. A lua j no estava. A nuvem espessa, iluminado desde atrs,
     deixava-a entrever cada tanto, e a ocultava logo entre sua espessura
     cinza. Uma luz repentina iluminou as ruas e instantes depois um
     estrondo caiu sobre Buenos Aires. E outra vez a luz, e outra vez o
     retumbante som que dava medo.
           Em poucos minutos todo tinha trocado; o cu se transformou em
     uma espessa mescla de nuvens negras que gritavam seus antemas
     sobre a cidade; a lua aparecia, de quando em quando, com um olhar
     lnguido e mortio.
           Em poucos minutos, tinham trocado tambm a pureza de sua alma
     e o anglico de seu rosto, o brilho de seus olhos e o trepidar de seus
     lbios inseguros. Tinha chegado  reunio de uma forma e se foi de
     outra, completamente distinta. Em sua mente, as lembranas cndidas e
     inocentes de sua infncia desapareceram para dar passo s vivencias
     mais reais que jamais imaginasse.
           Escutou as primeiras gotas de chuva sobre o teto da galera e se
     arrellan ainda mais entre as almofadas. Apoiou a cabea sobre seu
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     ombro e tratou de fazer-se to pequena como um pajarillo. Como
     quando era uma menina e seu av a agasalhava na cama, enquanto lhe
     contava as histrias dos heris irlandeses.
          A galera se sacudiu ao passar por um incipiente atoleiro, trazendo
     um rudo de cascatas aos flancos das rodas. E outro buraco mais, e mais
     rudo a quebradas. A gua suja e barrosa da rua parecia partir-se para
     passo das rodas da carruagem Malone. Fiona comeou a dormitar. A
     raiva com a que tinha ingressado no carro foi esfumando-se  medida
     que um torpor incontrolvel se apoderava de seus olhos, de sua cabea,
     de todo seu corpo.
          --Menina Fiona! Menina!
          Estava profundamente dormida. Elseo a teria tomado entre seus
     braos para carreg-la at a casa, como quando era pequena. Mas agora
     no podia faz-lo. Fiona tinha deixado de ser uma menina para
     transformar-se em uma das mulheres mais belas que ele tinha
     conhecido; apesar disso, para ele seguiria sendo sempre sua menina
     Fiona.
          --Menina Fiona! --repetiu.
          Esta vez, Fiona comeou a despertar. Entreabriu os olhos, se mes
     o cabelo e estirou o brao para tirar-se de cima a modorra que a
     entorpecia.
          --Vamos, minha menina! Ainda devo retornar pela menina Imelda,
     que ficou no baile.
          esqueceu-se por completo dela. Tinha sado como uma tromba da
     manso Senz; lanou-se sobre o Eliseo e lhe tinha rogado que a levasse
     de retorno a casa imediatamente. E Eliseo jamais podia negar-se a sua
     menina, apesar de que sabia que Imelda o arreganharia por hav-la
     deixado no de misia Mercedes.
          Nesse instante, um som de cascos de cavalo e niedas de carruagem
     chegou aos ouvidos do homem. Era a volanta dos Ou'Gorman, que um
     momento depois se detinha a porta da manso Malone.
          --boa noite, Camila, e obrigado por me trazer --se despediu
     Imelda antes de descender ajudada por um lacaio.
          Uma mo de mulher fechou a portinhola. Com um rudo afiado,
     uma guasca sulcou o ar e caiu sobre as ancas do ruano. O carro dos
     Ou'Gorman arrancou a toda marcha.
          Eliseo, que apareceu por detrs da carruagem Malone, encontrou-
     se com uma Imelda quase desfigurada pela fria.
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           --Seria em vo te pedir que me explique por que me deixou no
     baile, no? --vociferou Imelda.
           --Menina Imelda, eu... --balbuciou Eliseo.
           --te cale, Imelda! No te atreva a culpar ao Eliseo por isso --
     interveio Fiona, que se protegia da garoa sob o voladizo do carro--. Eu
     lhe pedi que me trouxesse de volta quanto antes.
           -- obvio, sua majestade --replicou Imelda com tom sarcstico--.
      obvio --e fez uma reverncia--. E o fiel e servil lacaio jamais poderia
     contradizer uma urdem de sua majestade, verdade?
           --Deixa-o em paz! Fui eu a que te deixou no baile.
           --J ver amanh quando contar ao Grannie todos os papeles que
     fez no do Senz!
           --Meninas, ninas,  muito tarde e no  correto que estejam aqui
     paradas na porta discutindo --interveio Elseo--. Alm disso, esto-se
     molhando.
           --Sim, Eliseo, melhor ser entrar--respondeu Fiona sem lhe tirar
     os olhos de cima a sua irm.
           Uncida lanava fascas pelos olhos quando levantou sua Saia e se
     preparou a ingressar na manso de seu av.
           A porta principal se abriu e deu passo a uma rajada l ire quente.
     por ali apareceu Mara, que com olhos mdio adormecidos insistiu s
     jovens a entrar. Imelda passou rapidamente ao lado da faxineira, que a
     olhou curiosa. Fiona permaneceu ao lado de sua fiel criada; tinha
     sentido saudades a Maria toda a noite e agora desejava conversar com
     ela.
           --Virgem Muito santo! Parece que levasse o diabo dentro dela!
           --No faa conta. Est furiosa porque teve que voltar na volanta
     dos Ou'Gorman.
           --E no sei por que me cheira que voc tiveste que ver com isso,
     verdade?
           --OH, Maria! Jamais adivinharia as coisas que aconteceram esta
     noite. Desejo lhe contar isso todas untas, e agora mesmo.
           E agarrando  mulher pelo brao, tentou arrast-la para a cozinha.
           --me prepare um copo de leite quente com uns scons e lhe contarei
     isso tudo.
           --Um minutito, senhorita --a faxineira se deteve,
           --Que acontece?
           --Acontece que algum te espera na sala.
           --Que algum me espera na sala? A esta hora?
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           --Sim, minha menina.  seu pai. Chegou esta noite, depois que
     saram para a reunio.
           As faces da Fiona se contraram; seu olhar se endureceu. Seu pai.
     Quando dele se tratava, a jovem se convertia em outra. Seus olhos se
     apagavam, seus lbios se esticavam e comeava a respirar com
     dificuldade. Franzia a frente e suas sobrancelhas se uniam na Ana s
     linha. Fiona odiava ao William Patrick Malone, o filho maior de seu av,
     seu pai.
           --Est bem. Imelda, v a seu quarto. Devo conversar com sua irm
     --disse William quando viu entrar na sala a Fiona, sua filha menor.
           --Por favor, daddy, desejo ficar com voc um momento mais --
     suplicou Imelda--. Fazia tanto que no vinha a nos visitar.
           Fiona se tinha detido na porta e tinha os olhos fixos nos de seu pai.
     Nem um s msculo da cara lhe movia.
           --J sei. Imelda, mas agora deve ir a dormir.
           --por que no posso ficar aqui com vocs? Por favor, daddy...
           Uma vez mais a splica da Imelda. Para a Fiona, a humilhante
     splica. O dio que ela sentia pelo William e a idolatria que a outra lhe
     professava, tinham provocado uma greta profunda entre as duas irms
           Isabella, a me da Imelda e Fiona, havia falecido quando a maior
     de suas filhas tinha dois anos e a outra, apenas seis meses. Era uma
     formosa e inteligente italiana que  idade de vinte anos, tinha
     abandonado seu povo natal, Asti, ao norte da Itlia, para aventurar-se
     nas terras cisplatinas. A pouco de chegar, conheceu o William Malone e
     se casou com ele. No muito tempo depois nasceram suas filhas:
     primeiro Imelda, e um ano e meio mais tarde Fiona, ambas as formosas
     como ela e saudveis como ele.
           Pouco depois de fazer vinte e cinco anos, Isabella faleceu por causa
     de uma aguda infeco provocada por um fornculo que tinha ido
     deformando sua cara at convi-la em um monstro irreconhecvel. Seus
     olhos azuis j no podiam tirar o chapu depois do inchao; suas
     bochechas, seus lbios seu nariz, pareciam a ponto de arrebentar.
           William jamais superou a culpa. Ou talvez sim, mas sentia que sua
     filha Fiona se encarregava de recordar-lhe em cada oportunidade. Tinha
     sido ele quem provocasse a virulenta infeco ao tratar de supurar o
     gro do rosto da Isabella com uma agulha sem esterilizar.
           Compreenderia William algum dia que no era isso o que sua filha
     lhe reclamava? Fiona sabia que seu pai jamais teria feito algo assim com
     a inteno de lhe provocar a morte a sua me. Sabia que seu pai tinha
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     amado a Isabella. Assim o havia dito Grandpa, tratando de suavizar o
     rancor de seu corao. E Fiona acreditava em seu av; ele jamais a tinha
     enganado. Mas o dio seguia vivo porque no era isso o que a consumia
     de raiva por dentro.
           Aos poucos meses de falecer Isabella, William contraiu matrimnio
     com outra mulher, filha de um pecuarista vizinho. A mulher se chamava
     rsula.
           It's easier to jump over her rather than walking around her . S isso
     disse seu av ao retornar das bodas do William no campo, quando sua
     esposa Brigid e suas filhas, que se tinham ficado em Buenos Aires,
     imploraram-lhe que lhes relatasse algo a respeito da nova mulher do
     William. ficaram mudas observando como o velho irlands se
     apoltronaba na poltrona, enquanto carregava a sua pequena neta Fiona.
           --E quando iro as meninas  estadia? --perguntou Brigid.
           --Nunca.
           --Como que alguma vez, Sejam?
           --Elas ficaro a viver aqui, junto a mim. Sero como minhas filhas,
     darei-lhes tudo e nada lhes faltar.
           --Sejam, no seja nscio, sabemos que te afeioaste com elas mas...
           -- que acaso no compreende, Brigid? A nova mulher do William
     proibiu que as meninas vivam com eles. No quer fazer-se carrego delas.
           --Maldita seja, prostituta do demnio! --exclamou Tricia, uma das
     irms do William.
           Brigid observou horrorizada a sua filha antes de esbofete-la. Mas
     a jovem no chorou. acariciou-se a bochecha e se marcou a sua
     habitao.
           Os olhos do Brigid ficaram fixos na mo com a que acabava de
     golpe-la. Tinha desistido de castigar fisicamente a sua filha; sabia que
     no obtinha nada com isso, s rasgar o corao cada vez que o olhar
     inteligente e incriminatoria da Tricia se cravava em seu rosto. Mas esta
     vez no tinha podido controlar-se.
           --Ana, te retire a sua habitao --ordenou que Sejam.
           -- Yes, daddy.
           As irms pareciam o dia e a noite. Ana era obsecuente, enquanto
     Tricia no retrocedia nunca em sua rebeldia. Ana era aplicada e
     minuciosa, Tricia, desorganizada e livre. O dia e a noite, sim, mas eram
     irms e se queriam imensamente.
           --por que esbofeteou a Tricia? --perguntou Sejam ao Brigid
     quando estiveram sozinhos.
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           -- que... no sei, Sejam... esse vocabulrio que empregou para
     com a esposa nova de seu irmo.
           --Brigid, voc sabe bem que  uma imunda prostituta do demnio.
     E embora me aduela mais que um cardo parecido no p, meu filho no
     tem valor nem dignidade.  um covarde; envergonho-me dele. No
     quero pensar quais sero as conseqncias desta deciso nefasta. Ao fim
     e ao cabo, para mim isto  como uma bno do cu. Reconheo que sou
     egosta por desejar que minhas meninas permaneam aqui, junto a mim,
     para sempre.

           --Vamos, Imelda, me deixe solo com sua irm --ordenou William,
     impaciente.
           --Mas...
           --Hei-te dito que no pode ficar ! --vociferou seu pai.
           Imelda retrocedeu uns passos, com o rosto contrado. depois de
     uns segundos, correu chorando a sua habitao.
           --No te atreva a lhe gritar nunca mais --disse Fiona com os
     dentes apertados.
           A jovem tinha avanado para seu pai tirando-a capa e arrojando-a
     com rabia sobre um confidente.
           William a olhou com fria. J se tinha acostumado a que no o
     tratasse de voc, porque com nenhum parente o fazia, mas uma rabugice
     como essa, em outra famlia teria significado o desterro a um convento
     de clausura. Com a Fiona no. Ela era ama e senhora de sua vida. E toda
     graas a seu av e a sua tia Tricia, que no lhe tinham ensinado outra
     coisa.
           --Como te atreve!
           aproximou-se de sua filha com o brao elevado, disposto a
     descarreg-lo sobre ela.
           --Vamos, te atreva a me pr em cima um s dedo!
           Fiona se aproximou ainda mais a seu pai, com a cabea levantada,
     tirando peito. Ante esse espetculo, seu pai no pde mais que baixar o
     brao. Observou-a por uns segundos e se deixou cair sobre a poltrona,
     com as mos no rosto.
           Nenhuma fibra se comoveu no corpo da Fiona. Recolheu a capa e
     se disps a partir para seu dormitrio.
           --No te retire ainda, Fiona; devo falar contigo --disse William
     com tom abatido.
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           A moa se deteve. Conhecendo-a, William no esperou que sua
     filha volteasse. Simplesmente, comeou a falar.
           -- necessrio que saiba toda a verdade para que compreenda a
     deciso que tomei.
           fez-se um silncio. Fiona se voltou lentamente.
           --A situao econmica de nossa famlia  calamitosa. Estamos a
     ponto de perder todos os campos e, talvez, esta casa.
           Fiona no disse uma palavra; seus olhos encontraram os de seu pai,
     que automaticamente baixou a vista ao cho.
           --Seu tio John e eu tivemos alguns problemas desde que seu av
     nos encomendou a administrao das estadias; agora, os credores nos
     esto acossando. A verdade  que no temos nem um centavo.
           De novo um silncio. Esta vez Fiona se deixou cair em um
     tamborete e baixou o rosto.
           --Por tudo isto, tenho que te dizer que consertei um matrimnio
     que nos salvar da runa. Voc te casa com o homem, e ele se faz cargo
     de nossas dvidas.
           Surpreendida, Fiona se incorporou como impulsionada por uma
     mola, e em um instante esteve frente a seu pai.
           --Que tem feito o que? --encarou-o.
           --Fiona, no fica outra possibilidade se no querermos perd-lo
     tudo.
           --Como foste capaz? Com que direito? --repreendeu-o.
     Aproximou-lhe tanto a cara que ele pde sentir sua respirao.
           --Que direito? Que direito, pergunta-me? O direito de ser seu pai,
     ou o esqueceste, Fiona? --trovejou William ficando de p.
           Fiona se retirou para trs; no estava preparada para a repentina
     reao de fria de seu pai.
           --Voc... voc... --balbuciou sem poder modular as palavras; sua
     boca tremia de clera e seus punhos se fechavam ao flanco do corpo--.
     Voc no  meu pai; jamais o foste, e jamais o ser --resmungou ao fim.
           William se deixou cair de novo na poltrona. Esta vez respirou
     profundamente, tentando conter o pranto. No queria mostrar-se fraco
     frente a ela.
           --E quem  o homem? --Tratou de dissimular o medo com a
     fria--. No ser Estar acostumado a. Por Deus Santo! --exclamou com
     gesto de repugnncia.
           --Palmito Estar acostumado a? No, Fiona! --William fez uma
     pausa--. Em realidade, no o conhece.
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          --Como que no o conheo?
          -- um estrangeiro. veio a Buenos Aires para radicar-se no muito
     longe daqui.  milionrio. Pensa, poder viajar muito, talvez a Europa,
     at poder ver a Tricia. Tem grandes projetos e negcios nos que... --
     No pde seguir.
          --O que me importam os negcios desse estpido! O que me
     importa seu dinheiro! Nada disso me importa um cominho!
          --Fiona... --William no sabia o que dizer--. Fiona, sei que me
     detesta, sei. Se no o fizer por mim, faz-o por meu pai, por seu av.
          --Ele jamais permitir que eu me case contra minha vontade. E
     menos ainda para pagar as dvidas que voc e o intil de tio John
     contraram. Jamais o permitir.
          --No compreende...
          --Sim que compreendo, no sou estpida. Vendeu-me ao melhor
     postor para cobrir os enganos que cometeu com as propriedades de meu
     av. Vendeu-me como a uma pulseira no mercado, como a uma
     qualquer. No, no, no! Jamais o farei.
          --Sim, far-o.
          --No, no o farei.
          --Ento, sobre sua conscincia pesasse a morte de seu av. Teve a
     possibilidade de salv-lo, e por uma estpida veleidade de menina
     malcriada no o fez.
          A certeira estocada final tinha dado no branco. Fiona ficou sem
     flego.
          --O doutor Rivera disse a seu tio e a mim que o corao de seu av
     jamais poder resistir uma notcia como esta. Morrer no mesmo
     instante.
          Fiona conhecia muito bem a afeco de Sejam Malone. Seu corao
     tinha comeado a debilitar-se cinco anos atrs. Naquele momento, por
     indicao do mdico, o pecuarista irlands tinha delegado o negcio em
     mos de dois de seus filhos, William e John.
          Em ocasies, a presso estava acostumada subir s nuvens e no
     ficava outra coisa que uma sangria com sanguessugas. Nesse caso, s
     Fiona podia estar junto a seu av. S ela sabia quanto sofria, quanto lhe
     doam a cabea, o corao, o peito, o corpo inteiro. Ela padecia cada vez
     que os olhos do velho Malone se cravavam nos seus e lhe aferrava a mo
     para tratar de suportar o tortura.
          --Por isso te digo: em suas mos est a vida ou a morte de seu av.
     Sobre seu concien...
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           --te cale, te cale, amaldio-te! Maldito seja! Arruinou minha vida
     quando logo comeava. E agora, que sou feliz aqui, volta a te colocar
     nela para encher a de dio e dor! Odeio-te, odeio-te com toda minha
     alma, com todas minhas foras! E te amaldio, William Malone,
     amaldio-te por sempre!
           Desesperada-se, Fiona abandonou a casa  carreira.
           Talvez fosse melhor morrer.
           Fiona no conseguia ponderar ainda o que seu pai acabava de lhe
     confessar. Os negcios da famlia, a sade do av, a perda dos campos e,
     por fim, seu possvel matrimnio. No podia acreditar que seu pai a
     tivesse vendido. Jamais lhe tinha pertencido, nem lhe pertenceria.
     Nunca aceitaria semelhante loucura. S "desejava apaixonar-se por um
     homem, am-lo com toda sua alma e entregar-se a ele. Mas seu pai o
     tinha arruinado tudo.
           Tomou pela rua Larga de Barracos. Sabia que se estava afastando
     da casa de seu av. A casa de seu av... Estavam a ponto de perder todos
     os campos e, talvez, a casa tambm. As palavras de seu pai eram como
     um martelo. Os olhos lhe ardiam do pranto contido e sua garganta
     pulsava com intensidade.
           Caminhava pela estreita vereda dando tombos, como bria. O
     barro se afundava sob seus escarpines fazendo mais difcil ainda a
     caminhada; o arena do vestido se tramava em seu contrrio, fazendo-se
     cada vez mais pesado  medida que recolhia a mescla de terra e gua.
           Talvez fosse melhor morrer. Sua mente repetia a idia  medida
     que seguia avanando para nenhum lugar. A chuva golpeava sua cara,
     seus braos, empapava-lhe o calado, provocava-lhe espasmos de frio.
           Caiu ao cho da rua e seu corpo se inundou totalmente em um dos
     buracos de gua suja e fedorento. Suas mos se enterravam lentamente
     no fundo do lodaal e a queda parecia no ter fim. Toda ela estava
     esparramada nessa imundcie. No pde mais, e comeou a chorar. Seus
     braos cederam, e foi dar com seu rosto e todo seu peito sobre a gua
     imunda.
           Talvez fosse melhor morrer.
           ergueu-se com dificuldade. Seu vestido, suas anguas, suas
     mangas gigot, seu reflexo de crinolina, tudo pesava uma tonelada. Seu
     corpo no o suportava mais. Comeou a incorporar-se como pde,
     tratando de no escorregar, tentando no chorar mais; isso lhe tirava
     foras.
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           levantou-se e permaneceu ali, de p, em meio da rua, enlameada
     dos ps  cabea, toda enegrecida pelo lodo. Tanto que o carro que girou
     na esquina da rua da Independncia e tomou pela Larga, no conseguiu
     distingui-la do resto da paisagem noturna. Ela o viu aproximar-se,
     imparable. Os cascos dos cavalos chapinhavam no barro, e as rodas
     abriam sulcos como arados. Aquilo seria o melhor. Com estoicismo,
     disps-se a esperar a investida mortal da volanta que se precipitava para
     ela.
           --Grandpa!.
           Por fim, o grito se fez vivo na garganta da jovem. Recm nesse
     momento o chofer compreendeu que tinha frente a ele a uma pessoa.
           --Alto! Alto!
           O homem se ps de p sobre o bolia; seus braos, elevados no ar,
     sustentavam as rdeas em um intento desesperado por deter o carro. Era
     pouco menos que impossvel: os cavalos galopavam muito rpido. Alm
     disso, o lodo se confabulava para que a carreira amalucada dos potros
     fora mais veloz.
           Fiona viu que a carruagem se equilibrava sobre ela mas no pde
     mover-se. E depois, a investida final, esperada, quase sem medo.
           A carruagem passou como cortando o caminho em dois. Fiona j
     no estava ali.

           --... no era necessrio que a trouxesse aqui. No tinha outro lugar
     onde lev-la...?
           Fiona despertou escutando um murmrio longnquo. Palavras e
     frases entrecortadas que no compreendia provinham de outra
     habitao. Olhou em redor e no soube onde estava. Essa cama no era a
     sua; sentiu-se estranha, incmoda. A seu lado uma sirva negra a olhava,
     com gesto impvido. Instantes depois, a pulseira apareceu ao corredor
     interrompendo a conversao que se desenvolvia fora.
           --A senhorita despertou --disse.
           Voltou ao lado da Fiona e, com um trapo mido, comeou a lhe
     limpar os ps. A jovem tratou de incorporar-se; a mulher, sem dizer
     nada, obrigou-a a recostar-se de novo.
           Fiona fixou seus olhos nas molduras do teto e tratou de recordar o
     que tinha acontecido. Seu pai, o barro, o vestido que lhe pesava... Ele
     vestido. Apalpou seu corpo e se deu conta de que j no o levava consigo.
     Agora vestia uma bata de merino branca.
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          --Onde estou? --perguntou-lhe  negra, que espremia o trapo em
     uma bacia.
          Nesse instante, a porta se abriu e apareceu um homem alto que se
     aproximou da cabeceira.
          --Senhor de Silva! --atinou a dizer Fiona.
          --Assim , senhorita. Est voc melhor?
          Fiona ficou olhando-o. No compreendia nada. Balbuciou algumas
     palavras e seus olhos comearam a brilhar.
          --Paolina, nos deixe solos --ordenou Juan Cruz  negra--.
     Senhorita Fiona Malone. Esse  seu nome, verdade?
          Enquanto isso, aproximava uma cadeira  cabeceira. Fiona
     assentiu, baixando o olhar. Agora que as lembranas se amontoavam em
     sua mente se sentia pior ainda. Uma vez mais se arrependeu de seu
     comportamento imaturo em casa de misia Mercedes, mas ao recordar o
     que esse homem, agora to galante, tinha estado fazendo horas atrs
     com a Clelia, no pde evitar que o rubor tingira suas bochechas.
          --Posso lhe fazer uma pergunta, senhor?
          Juan Cruz assentiu.
          --Onde estou? O que me aconteceu? Quem... quem me trouxe at
     aqui?
          As lgrimas desejavam sair e a voz lhe deformava pelo pranto
     reprimido. Comeou a incorporar-se.
          --Vamos, senhorita, recoste-se --ordenou de Silva com
     amabilidade. O homem abandonou a cadeira e a obrigou a voltar para
     sua posio inicial.
          --Alm disso, essas so vrias perguntas. --Sorriu amigavelmente,
     e depois adicionou--: Est em casa de meus amigos. A traje aqui porque
     a encontrei em meio da rua Larga, a ponto de ser investida por uma
     carruagem.
          Fiona baixou o rosto e por fim comeou a soluar.
          --Voc... voc me salvou?
          A jovem levantou o olhar avermelhado e advertiu que os olhos de
     Silva a escrutinavam com intensidade; deu-lhe tanta vergonha que
     decidiu levantar-se e ir-se imediatamente dali.
          Sem lhe responder, de Silva a deixou fazer; o salto foi to repentino
     e estava to dbil, que se enjoou e caiu em seus braos. Assim
     permaneceram uns segundos; para a Fiona, uma eternidade. No o
     olhava; tinha o rosto fundo em seu peito e os olhos fechados.
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           Um instante depois, sua mente voltou para seu stio e o equilbrio n
     seu corpo. separou-se dele; no se atrevia a olh-lo.
           --Onde est meu vestido? Devo ir.
           Juan Cruz riu brandamente e se afastou uns passos dela.
           --Senhorita, no acredito que seu vestido sirva mais.
           Abriu o roupeiro e tomou um dos trajes de mulher que havia ali.
           --Tome, fique este. Ficar um tanto folgado, mas no acredito que
     pretenda us-lo para um baile, verdade?
           --Obrigado --respondeu Fiona lacnicamente.
           Depois, olhou-o direto aos olhos e, lhe assinalando o vestido,
     convidou-o a abandonar a habitao. Ele permaneceu uns segundos sob
     o dintel da porta, observando-a. Por fim, saiu.
           tirou-se o batn e o jogou sobre a cadeira. deu-se conta de que
     debaixo da roube de chambre no levava nada; sua nudez era completa.
     Olhou com receio por volta dos quatro flancos da habitao para
     assegurar-se de que ningum a estivesse espiando e, rapidamente,
     colocou-se o traje sem muitos olhares. Depois, sentou-se frente ao
     penteadeira e, ao ver seu rosto refletido no espelho, desejou que a terra a
     tragasse. Seu cabelo era uma massa compacta de barro, fibras e cabelo.
     As jubas, rgidas e retas, caam sobre seu rosto como pregos largos e
     pesados. Seu rosto, manchado de barro, no era o mesmo. Descobriu em
     seu pescoo uma crosta de lodo seco que separou com asco. Sentia
     vergonha. Durante vrios minutos tinha conversado com de Silva nesse
     estado. Estava espantosa, murcha, fedorento, suja. ficou pensativa por
     um momento; depois, continuou polindo-se.
           Levantou o brao direito para tirar as flores de seda de seu meio
     doido, murchas e sujas, e uma aguda dor, que lhe percorreu do ombro
     at o cotovelo, paralisou-a. Com muita dificuldade levantou o mais que
     pde a manga do vestido e alcanou a ver,  altura da clavcula, um
     enorme hematoma azulado.
           Agora recordava com mais claridade. Algum a tinha investido, e
     era bvio que no tinham sido os cavalos. Algum a tinha investido pelo
     flanco direito e a tinha tirado do alcance da carruagem. Esse algum era
     de Silva.
           Tomou o trapo com o que a negra Paolina a tinha limpo momentos
     atrs. Quando o enxaguou na bacia s conseguiu suj-lo mais: a gua
     estava imunda. Espremeu-o com fora e o passou pelo rosto, tentando
     eliminar as manchas. Com o cabelo no tentaria nada; no contava com
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     os elementos necessrios e s conseguiria piorar a situao. Alm disso,
     desejava terminar rapidamente com tudo aquilo e voltar para seu lar.
           Saltou ao corredor. Estava escuro e deserto. De repente, escutou
     vozes que vinham de outro setor da casa; no podia entender o que
     diziam exatamente, mas pareciam de um homem e uma mulher em
     plena discusso.
           encaminhou-se para o lado esquerdo do corredor; talvez, pensei ao
     final de este se encontraria a porta principal. S desejava escapar dali.
           --Senhorita Malone! --a voz vinha de atrs--. Senhorita! Aonde
     acredita que vai?
           Fiona se deteve e, girando sobre si, encontrou-se uma vez mais com
     l Silva. A escurido do corredor lhe impedia de v-lo bem.
           --Vou a minha casa, senhor. Devo ir. Alm disso, j causei a voc
     muitos problemas.
           --Estamos muito longe de sua casa.
           --Voc sabe onde vivo, senhor?
           Juan Cruz permaneceu mudo uns instantes, observando fixamente
     suas formas atravs da escurido.
           --No; mas suponho que uma menina de sua linhagem deve
     viver... no sei... perto da Praa da Vitria, talvez?
           --Vivo na rua Larga, perto da esquina com a da Cochabamba.
           --Pois isso est muito longe daqui. No poder ir sozinha. Eu
     mesmo a levarei em meu volanta.
           --Senhor, no desejo lhe causar mais...
           --No diga nada.  uma ordem --e a seguir gritou-- Mateo,
     prepara a volanta, saio em seguida!
           Ningum respondeu; tudo o que se escutou foi uma correria em
     outro lugar da casa.
           A figura majestosa do Juan Cruz se foi fazendo mais ntida 
     medida que se aproximava dela. Fiona no podia mover-se; aquele
     homem lhe cravava os olhos de tal forma que conseguia paralis-la e lhe
     tirar todo resto de vontade. Tomou pelo brao.
           --Ayy! --exclamou Fiona, sovando o hematoma.
           --voc desculpe --disse ele, sinceramente causar pena.
           Pela primeira vez em toda a noite, Fiona o notou desconcertado.
           --Incomoda-lhe o brao --afirmou--. O lamento; no tinha outro
     remdio que investi-la por esse lado se queria lhe salvar a vida. Teve
     sorte de que justo caminhasse por a.
           Nenhum dos dois voltou a falar at que subiram a volanta.
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           -- rua Larga, em esquina com a da Cochabamba! --gritou de
     Silva, e automaticamente os cavalos comearam a andar.
           Entre as almofadas da volanta, Fiona adotou uma postura que no
     correspondia a de uma jovem de sua classe. Sabia muito bem que em
     presena de um cavalheiro devia permanecer sentada, muito direita, os
     joelhos juntos e as mos entrelaadas sobre o regao, corno se rezasse.
     Mas no o fez assim: esparramou-se comodamente no assento, frente a
     de Silva, recolhendo os ps sob a saia. Para ela, ele no era um
     cavalheiro. Alm disso, estava exausta. Aquela tinha sido a noite mais
     larga e difcil de sua vida. No estava para protocolos; normalmente no
     o estava, muito menos agora.
           De Silva no lhe tirava os olhos de cima e ela, embora no estivesse
     olhando-o, sabia. Abriu a cortina do guich e divisou a lua. Enche, muito
     enche e branca. Agora que a tormenta tinha passado, pensou, tudo tinha
     voltado para a normalidade.
           --Seria pouco cavalheiresco, e indiscreto alm disso, lhe perguntar
     por que desejava tir-la vida. De todos os modos, como me considero
     seu salvador, acredito ter certo direito.
           Fiona voltou seus olhos a ele. Era mais belo do que lhe tinha
     parecido em casa de misia Mercedes. Embora, pensou, talvez no era
     beleza a palavra adequada. Seus rasgos no eram perfeitos. Talvez seu
     nariz era muito fina e alargada, talvez seus olhos estavam levemente
     rasgados para baixo, talvez seus lbios eram muito grossos. Mas era
     incrivelmente sensual e atrativo. Era o homem mais viril que Fiona tinha
     visto em sua vida.
           Por fim, descobriu a cor de seus olhos. Mas,  que acaso no tinham
     uma cor definida? Agora os via negros, mais negros que o azeviche. To
     negros que no podia distinguir a pupila da ris. Antes, no do Senz,
     havia-os visto distintos.
           --Evidentemente, no vai voc a me responder.
           De Silva a trouxe para terra. Extasiada no rosto daquele homem,
     esqueceu-se de tudo. Deu-lhe vergonha uma vez mais, e baixou a vista.
           --No sei... no sei por que fiz o que fiz.
           --No acredito que uma pessoa que decide tir-la vida...
           --Por favor, senhor, no volte a diz-lo!
           --Que coisa? "Tir-la vida"?--Os olhos lhes picar do Juan Cruz
     pareciam sorrir--. No  essa a verdade, pois?
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          Fiona no respondeu. Seguia com a vista baixa, s que agora se
     sentou, muito direita, os joelhos juntos e as mos entrelaadas sobre o
     regao, como se rezasse.
          --Fiz-o porque... bom, porque... Porque meu pai consertou um
     matrimnio para mim Y... --voltou a levantar o olhar. depois de diz-lo
     sentiu que se tirava o mundo de cima, embora o tivesse confessado a um
     estranho.
          De Silva continuava observando-a, impvido. Parecia no ter
     escutado a confisso da Fiona.
          --E quem  o afortunado? --perguntou, finalmente.
          --Afortunado, So Patrcio! No vai ser o jamais! Eu me
     encarregarei de lhe fazer a vida impossvel!
          De Silva riu com vontades.
          --Do que ri, senhor? --perguntou, ofendida.
          --No, de nada, de nada. voc desculpe... Possivelmente, de sua
     veemncia. --Fez uma pausa para recuperar o flego--. Ainda no me
     h dito de quem se trata.
          --No o conheo. S sei que se trata de um estrangeiro que vai
     radicar se em Buenos Aires e que... bom, s isso. No me importa.
          --No acredita que sua deciso foi um pouco... dramtica e
     definitiva? Talvez se trate de um bom homem.
          --Duvido-o muito.
          --Em seu lugar, qualquer mulher se sentiria feliz de saber que seu
     pai lhe conseguiu um marido. No  isso o que desejam todas as
     portenhas por estes tempos?
          --Todas, menos eu.
          --E o que deseja voc, senhorita Fiona Malone?
          Voltou seu rosto para ele e o olhou com desdm.
          --Senhor de Silva --comeou a dizer--. No quero que voc pense
     que sou uma pessoa mal educada e descorts. Em todo este tempo no
     lhe dei as obrigado por me haver salvado a vida. Assim... obrigado.
          --Ah! depois de tudo sim deseja seguir vivendo!
          --Sim, desejo seguir vivendo, mas no por mim. Desejo-o por outra
     pessoa.
          --Talvez seu corao pertence a algum outro?
          --A quem poderia eu lhe haver entregue meu corao? Todos os
     homens que conheo no so mais que mentecaptos aborrecidos. No,
     senhor de Silva, s desejo viver por meu av.
          No voltaram a cruzar palavra no resto da viagem.
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           De p na porta de sua casa, Fiona seguiu com o olhar a marcha da
     carruagem de Silva. Porque o chamariam o diabo?, perguntava-se. E,
     por mais que pensava, no conseguia entend-lo. Porque embora tinha
     sado de casa de misia Mercedes convencida disso, agora tudo parecia
     ter trocado.
           O rudo da porta a arrancou de seu ensimismamiento. Era Maria,
     que impulsivamente jogou os braos ao pescoo.
           --So Patrcio seja bendito uma e mil vezes porque te trouxe para
     casa s e salva! --exclamou enquanto a abraava. Fiona respondeu ao
     abrao e a beijou em ambas as bochechas.
           Maria se apartou e ficou olhando-a, perplexa.
           --Deus Santo, Fiona! O que te aconteceu? Onde estiveste? te olhe
     um pouco. O que aconteceu a seu cabelo? De quem  esse vestido,
     menina?
           A mulher no conseguia deter a verborragia reprimida durante as
     trs horas que tinham transcorrido do desaparecimento l Fiona.
           --Est meu pai?
           --No, saiu com o Eliseo. Esto-lhe procurando.
           --Pobre Eliseo! Deve estar muito preocupado.
           --A morte, minha menina, a morte. Mas, pode-se saber onde
     estiveste?
           --Ah, Maria! passaram tantas coisas esta noite que no sei por
     onde comear. Vem, vamos. Enquanto me prepara um banho lhe o
     conto.
           --Um banho, a esta hora!
           -- que, entre outras coisas, esta noite nadei em um buraco cheio
     de barro.
           A cara de espanto l Maria a fez sorrir. Tomou pelo brao a sua
     criada e a arrastou para seu quarto. internaram-se na casa em meio de
     um silncio e uma escurido assustadores. Fiona compreendeu com
     alvio que o resto da famlia tinha permanecido alheio a quanto tinha
     acontecido essa noite em sua vida.
           Ao cabo, esteve em sua cama, quente e cmoda. Recm nesse
     momento seu corpo voltou a tomar a forma de sempre. De todas
     maneiras, sentia-se estranha. Nem triste nem contente: diferente.
           Em uns instantes dormiu.
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                                       Captulo 3
           Ao dia seguinte, Fiona pediu a Maria que a desculpasse com seus
     avs. Mandou a dizer que estava indisposta e permaneceu o dia inteiro
     em cama.
           Era certo. Cada parte do corpo lhe doa e, por momentos, teve
     febre; mas era seu esprito o que tinha amanhecido mais indisposto.
           A excitao pela aventura da noite anterior tinha desaparecido ao
     despontar o sol para dar passo ao maior desgosto e angstia. Tudo tinha
     terminado; agora a realidade a afogava. A sade de seu av, a runa de
     sua fortuna, seu casamento consertado. Tudo tinha terminado: todos
     seus sonhos e fantasias tinham ficado destrudos. Tinha-os destrudo seu
     pai, uma vez mais.
           Mais tarde, chegou seu av e se sentou junto  cama, disposto a
     conversar com ela como todas as manhs. Fiona olhou esses olhos
     cansados, esvados, emoldurados por dobras secas e enrugadas de pele.
     Segundo sua av, em sua juventude os olhos de Sejam Malone eram de
     um vivido azul cu; mas o passado do tempo os tinha desbotado,
     tornando os de cor celeste clara.
           Como nunca antes, Fiona compreendeu nesse momento que se
     seria para prolongar alguns anos mais a vida de seu av, o sacrifcio de
     sua prpria vida valeria a pena.
           Conversaram a respeito de tudo. Leram os peridicos, discutiram
     um pouco de poltica e Sejam lhe relatou novas anedotas da Irlanda e de
     quando ela era pequena. Contou-lhe a preferida da Fiona; possivelmente
     a tinha escutado mil vezes j, mas no lhe importava escut-la mil mais.
     Havia algo no olhar de seu av quando a relatava que enchia de orgulho
     a jovem.
           --Uma vez, lembrana que era o dia de So Patrcio... --comeou
     Sejam.
           --O dia do aniversrio de aunt Trida... --adicionou Fiona.
           --Assim , dear. Bom, esse dia lhe arrellanaste sobre meus joelhos,
     como sempre cada manh quando me dispunha a ler a Gazela.
     Assinalou-me uma palavra do peridico e balbuciou: "Eu sei o que diz
     a, Grandpa". Assim foi como comeou a ler. Primeiro o nome do
     peridico, logo os ttulos, e assim tudo. Tenho que te confessar, princesa,
     que ao princpio me assustei. Depois, pensei que Tricia te tinha ensinado
     s escondidas. Entretanto, quando o perguntei o negou to sinceramente
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     que lhe acreditei. Consultamo-lo com o mdico Rivera. Disse-nos que
     aquilo era nem mais nem menos que uma de tantas raridades da
     natureza. Compreender que no fiquei muito de acordo com essa
     resposta, assim consultei a outros doutoras. Um deles me explicou que
     existem no mundo algumas pessoas que aprendem a ler, inclusive a
     escrever, sem que ningum lhes ensine. As chama autodidatas. S h
     umas poucas no mundo e uma dessas a tenho eu.
           Roou com sua mo a bochecha da Fiona; pensou, se sua neta lhe
     faltava, ele morreria.
           Ao cabo de um momento, a jovem e seu av pareciam haver-se
     esquecido de tudo e de todos. Inundados em suas lembranas e
     vivencias, nada os trazia de novo  realidade.
           --Que manda a dizer seu pai que mais vale que manh esteja bem
     porque vai vir a verte seu prometido pela tarde.
           depois de entregar o recado, Maria a olhou com temor, esperando
     uma exploso. Fiona escutou e no disse nada, o que preocupou 
     criada; talvez, teria sido melhor que a menina gritasse e esperneasse em
     sua cama.
           --Sabe quando se vai? --perguntou Fiona.
           --vai ?Quem, minha menina?
           --Meu pai, pois.
           --No o h dito ainda; parece-me que no tem intenes de ir-se
     logo --acol a crioula.
           --E de onde tira isso?
           --H- dito ao Elseo que esteja atento nestes dias porque tem que
     fazer muitos negcios na cidade e o vai necessitar como chofer. Alm
     disso, trouxe um ba bastante grande com roupa. Pra'mim que quer
     ficar at as bodas.
           Ao escutar essa palavra, Fiona cravou o olhar nos lenis. Maria,
     angustiada, sentiu pnico ao pensar que sua garotinha pudesse perder a
     razo por toda aquela maldita questo do casrio. J lhe tinha aceso uma
     vela  Virgem do Lujan e outra a So Patrcio, que sempre era to bom
     com ela. Mas naquele momento lhe ocorreu uma idia melhor:
     prenderia- uma vela ao Santo Antonio para que fizesse que sua menina
     se apaixonasse por prometido; assim no sofreria tanto.
           A ponto de sair da habitao para cumprir com seu encargo, Fiona
     a deteve.
           --Ningum mais sabe a respeito de tudo isto?
           --De tudo isto? O que, minha menina?
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          --Ai, mas se estiver lenta hoje, Maria! O que te acontece? No
     tomou o caf da manh? Que se algum mais sabe o de meu casamento.
          --Ningum, minha menina. Todos esto como se nada passasse;
     todos menos seu pai. Tem uma cara o pobre!
          --Que pobre nem oito quartos!  um maldito embusteiro! Entende
     o que fez, Maria? --Olhava fixo  criada, jogando fascas pelos olhos--.
     Me vendeu como a uma pulseira no mercado! Vendeu-me ao melhor
     postor --rematou com indignao, e se levou as mos ao rosto.
          --Vamos, minha menina, no chore.
          Maria tratava de consol-la, embora ao ver a Fiona como sempre,
     com o olhar aceso e a lngua mordaz, sentiu-se mais reconfortada.
          --Se no chorar, Maria, no choro. Embora quisesse, no poderia.
     Tenho tanta raiva, tanta raiva... --e, juntando os dentes, lanou um grito
     afogado.
          --por que no a ofereceu a Imelda? Ela estaria feliz de enganchar a
     um marido.
          --Mas no, minha menina, estando voc, quem quereria a Imelda?
      to bela, mais bela que a aurora no campo. A menina Imelda no 
     nem a metade do que voc. Alm disso, ela j tem noivo.
          --Senillosa? Esse no  um noivo,  um toco, J acredito eu que
     Imelda o trocaria se tivesse possibilidade.
          --E como diz o dito: 'Deus lhe d po ao que no tem dentes" --
     sentenciou Maria--. O que eu no compreendo  como no te ocorreu
     lhe perguntar a seu pai de quem se trata... Seu prometido, digo.
          --J te disse que no o conheo;  um estrangeiro, recm-chegado 
     cidade. No me interessa. Pode tratar do mesmo Jesucristo ou do
     prprio Lcifer, d-me exatamente igual.
          A criada se fez vrias vezes o sinal da cruz com os olhos fechados
     antes de deixar a habitao.
          Apesar de que nada lhe importava, Fiona estava muito belo essa
     tarde. E toda graas s mos professoras da Maria que no s lhe tinham
     confeccionado o vestido, mas tambm tambm a tinham penteado e
     maquiado. Embora a criada j tinha aceso a vela para o Santo Antonio,
     no era questo de lhe deixar todo o assunto ao santo.
          Maria suspirou. Depois, continuou marcando os cachos de cabelo
     com um ferro quente.
          --por que sussurras? --perguntou Fiona.
          --Ah, o amor, minha menina, o amor!
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           Levantou a vista do cabelo da Fiona e observou pela janela. A
     estava Eliseo.
           --Para mim, o amor j no existe.  um sonho que jamais se far
     realidade --afirmou sombramente a jovem.
           --Como pode dizer semelhante coisa, Fiona! No me faa zangar.
           --Que como posso dizer semelhante coisa? Pregntaselo ao filho
     maior de meu av.
           Comeava a fartar-se de ter que ficar rgida frente ao espelho
     preparando-se para algum a quem j tinha decidido odiar do primeiro
     momento,
           --J sei, minha menina, que no  como o sonhou. Sei porque
     falamos que isto muitas vezes. Mas a vida no  sempre como ns
     queremos, Fiona. s vezes as coisas so de outra forma e no fica outra
     detrs...
           -- que no posso aceitar que por sua culpa, justamente por sua
     culpa, minha vida tenha que ser distinta a como eu a planejei. Por culpa
     dela e do estpido de tio John.
           --Bom, minha menina, no ponha nesse estado que no estar
     linda para quando chegar.
           Maria abandonou o penteado e comeou a roar carmim nas
     bochechas da Fiona.
           -- que no entende que no me interessa estar linda alguma vez
     mais? No desejo lhe agradar. Oxal me veja feia, muito feia, assim no
     quer casar-se comigo.
           calou-se e baixou o rosto. Sabia que se o homem no queria casar-
     se com ela, o nico que sofreria seria seu av. arrependeu-se de haver
     dito isso.
           --Por mais que o tente, jamais poder obter que te veja feia porque,
     simplesmente,  formosa, a mais formosa que eu conheo.
           --No exagere. Voc me diz isso porque me quer seriamente, mas
     no tem que ser para tanto.
           --Para tanto e muito mais. No sabe quantas patronas de outras
     famlias mandam a suas faxineiras a me perguntar onde te faz os
     vestidos, onde te penteia, quem te ensinou a tocar o piano...
           --No posso acredit-lo!
           Fiona girou sobre si no tamborete e cravou seus olhos nos da
     Maria.
           --Sim, cada vez que vou  a Recova de compras, alguma das
     criadas me detm e me pergunta. Voc nunca quiseste te dar conta quo
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     bela  e sempre tentaste te manter alm da sociedade. Mas a sociedade te
     viu, Fiona; eles sempre lhe vem.
           --No posso acredit-lo! --repetiu. olhou-se no espelho do
     penteadeira e se acariciou a bochecha.
           --Pois me acredite isso minha menina, acredite-me isso  a mais
     bela. De verdade.
           fez-se um silncio. Maria continuou com seu trabalho e Fiona
     permaneceu com o olhar perdido em seu prprio reflexo.
           --J est! Preparado! Est mais linda que uma aucena. Espero que
     o cavalheiro se mora de amor por ti. E voc por ele.
           --Jamais. Jamais morrerei de amor por algum que me comprou
     como a uma vaca na feira. Entende-me, Maria? Jamais.
           --No, Fiona, no! Deve predispor seu corao para ele. Talvez seja
     um bom homem que realmente te quer bem. Se o combater, s
     conseguir fazer de sua vida um calvrio. Deve faz-lo pelo bem de
     todos.
           --Pelo bem da Grandpa  que fao o maior sacrifcio de minha
     vida, Maria. Uma vez que tenha a certeza de que esse homem pagou
     todas as dvidas de meu av, escaparei-me, fugirei longe, onde ningum
     possa me encontrar.
           Maria se levou as mos  boca para no gritar. Abria seus olhos
     muito grandes e movia a cabea de um lado ao outro negando
     insistentemente.  que sabia capaz disso e muito mais.
           --Mas, Maria, no ponha assim. Voc e Elseo viro comigo. Jamais
     os abandonaria --argumentou Fiona, lhe separando as mos da boca.
           --O que te ocorre, menina. Nunca volte a pensar em algo igual, no
     deve faz-lo.
           A palidez da Maria a assustou. Tanto que lhe prometeu que jamais
     voltaria a pensar em tal coisa. Entretanto, a idia que acabava de
     ocurrrs de no lhe pareceu to m, e decidiu mant-la em um rinco de
     sua mente para resgat-la no momento propcio.
           --Tem que tratar de am-lo, menina --insistiu Maria, um pouco
     mais tranqila com a promessa da Fiona--. Talvez, com o tempo,
     chegue a te apaixonar por ele, e tudo isto que est vivendo agora te
     resulte gracioso.
           Fiona a olhou docemente. Maria era como uma me para ela, uma
     das pessoas em que mais confiava, mas nesse momento sua criada no
     conseguia compreend-la. Pensou em tia Trida; ela sim a entenderia. Por
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     desgraa, fazia muitos anos que sua tia se casou com um poderoso
     comerciante ingls e se partiu com ele a Londres.
           Nesse momento se escutou a aldaba da porta principal. Devia ser
     ele. Fiona, muito nervosa, levou-se a mo  boca e comeou a chup-la
     ponta dou os dedos; logo, inconscientemente, estirou-se os cachos de
     cabelo que tanto trabalho lhe haviam flanco  criada; e, por fim, e sem
     querer, lhe caiu a talquera, fazendo um esparramo de p no piso.
           --meu deus, o arena do vestido est cheio de talco, Fiona! meu
     deus! O que faremos agora?
           -- um pouco de talco, Maria! No exagere! V? Sacudindo um
     pouco, tira-se --disse, enquanto se agachava para eliminar o p.
           --No te agache, Fiona! vais arrebentar o espartilho.
           Maria tomou pelos antebraos e a obrigou a endireitar-se.
           --me deixe que eu o faa.
           Nesse momento, bateu na porta do dormitrio Coquita, uma
     mulata faxineira da manso.
           --Que manda a dizer o senhor dom William que a menina Fiona v
      sala. Que algum a est esperando:
           Fiona tomou as mos da Maria entre as suas, que estavam fritem,
     suarentas, e lhe tremiam um pouco.
           --Santo Antonio, sotaque todo em suas santas mos --murmurou
     Maria.
           E a deixou ir.
           Quando Fiona chegou  sala, seu pai j no estava ali. S viu um
     homem de costas a ela, observando pela janela.
           --Boa tarde --disse Fiona, delatando sua presena.
           --Boa tarde --respondeu o cavalheiro, comeando a d-la volta.
           --Senhor de Silva? --franziu o sobrecenho, surpreendida e sentida
     saudades--. Ah...  voc.
           De Silva assentiu com um sorriso nos lbios.
           --Que confuso! --Fiona tratava de ganhar tempo para pr em
     ordem suas idias. Pressentia que algo horrvel estava a ponto de
     acontecer, e no se atrevia a enfrent-lo--. Eu acreditei que... Em
     realidade, mim pai... Ele me disse que...
           Fiona fechou os olhos e tragou saliva, tentando controlar sua
     ansiedade. Sabia que estava balbuciando como tina criatura, e isso no
     gostava.
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            -- acaso a voc... --disse um momento depois--, que se referia
     meu pai quando disse...? Quero dizer, trata-se de voc, senhor de Silva,
     com quem eu...?
            A voz lhe tinha convertido em um fio; o pnico  resposta a
     dominava. O cavalheiro se limitou a assentir em silncio.
            sem razo, Fiona tomou entre suas mos o vaso de porcelana do
     aparador e o arrojou direto  cabea. Certamente, no contou com os
     bons reflexos do Juan Cruz. O homem se escondeu e esquivou o projtil.
     O vaso foi dar justo contra o marco da janela e seus fragmentos se
     pulverizaram, em parte, sobre a levita negra de Silva.
            Fiona, em estado de shock, no disse uma palavra, no respirou,
     no pestanejou, no se moveu. Sua mente no podia sair da confuso em
     que tinha cansado; um torvelinho, um furaco a teriam comovido
     menos. "meu deus, no ele", foi o que pde pensar.
            --Jesus Cristo! What's going on fere?--exclamou Brigid ao ingressar
     na sala. O espetculo com o que se encontrou a senhora era do mais
     estranho. Um homem que no conhecia se sacudia as ltimas lascas de
     porcelana de seu levita. Sua neta Fiona o olhava como a um fantasma.
     Brigid se pendurou os culos no nariz: teve que admitir que o que
     estava vendo no era produto de sua imaginao.
            detrs da proprietria de casa entraram Ana e William. O pai da
     Fiona ficou boquiaberto ao ver as partes de vaso sobre o piso da sala
            --O que passou aqui? --perguntou a sua filha, voltando seus olhos
     a ela.
            Fiona no podia falar. ficou-se muda e no apartava o olhar de
     Silva. Novamente, seus arrebatamentos a tinham posto em uma situao
     impossvel.
            --Fiona? --insistiu seu pai
            Fiona no se alterou. Seguia com a vista cravada em de Silva, que
     nesse momento, como se nada estranho tivesse ocorrido, dedicava-se a
     recolher do cho os pedaos do vaso.
            --OH, no, senhor! Por favor, voc deixe! --Brigid j estava junto
     ao Juan Cruz. Tirou-lhe com suavidade a parte de porcelana da mo,
     tirou-o do brao e o conduziu at a poltrona.
            --Por favor, senhora --disse ento de Silva, e com uma elegante
     reverencia convidou ao Brigid a sentar-se.
            A anci lhe sorriu, adulada, e se sentou. De Silva passeou
     fugazmente seu olhar pelos pressente, consciente do suspense e o
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     desconforto que se criou entre eles. Era evidente que todos estavam
     pendentes dele.
           --Toda a culpa foi minha --disse com simplicidade, sem dirigir-se
     a ningum em particular--. O vaso me atraiu por sua colorido e
     delicadeza. Aproximei-o da janela para apreci-lo melhor, e sem que me
     desse conta me escorregou das mos. Nesse momento entrou a
     senhorita. E como  natural, ficou-se boquiaberta ante minha estupidez.
     No sei como lhes pedir desculpas...
           Brigid cruzou um rpido olhar com a Fiona, que apartou os olhos
     envergonhados.
           --voc esquea o vaso, senhor de Silva --se apressou a dizer
     William, que no necessitou nenhuma explicao para saber a verdade
     do ocorrido.
           O gesto de contrariedade que se desenhou no rosto do Bridgid --
     aquele vaso era uma antigidade da famlia avaliada em vrias centenas
     de reais-- no passou inadvertida ao Juan Cruz.
           --No, dom William, no  algo sem importncia; para mim  um
     fato abafadio. Devo repar-lo de algum jeito.
           Seus olhos enviesados se posaram alternadamente no Brigid e na
     Fiona, ainda ausente.
           --Amanh mesmo procurarei um vaso igual --disse por fim. --
     No se preocupe, senhor... --Brigid advertiu de repente que com o
     alvoroo nem sequer sabia com quem estava falando.
           --OH, mom, desculpe-me! Ainda no os apresentei! --disse
     William enquanto se aproximava de ambos os--. Mom, ele  o senhor de
     Silva, meu amigo pessoal e scio em alguns negcios. Senhor de Silva, a
     senhora dona Brigid Maguire do Malone, minha me.
           De Silva tomou delicadamente a mo da anci e a beijou.
           --Ela  minha irm menor, Ana --adicionou William--. Ah!, e ela 
     minha filha Fiona.
           Fiona cravou os olhos nos de seu pai, que baixou a vista.
           --Boa tarde, senhorita Fiona. --De longe, de Silva inclinou a cabea
     para ela.
           --Nos conhecemos anteontem  noite, em casa de misia Mercedes
     Senz, na reunio pelo Dia da Independncia --comentou Juan Cruz ao
     Brigid.
           --Tome assento por favor, senhor de Silva. E sobre tudo, esquea
     do vaso!
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           O rosto da anci tinha trocado ao compreender que o jovem Juan
     Cruz era um candidato mais que potvel para pr final ao celibato de
     sua neta.
           Enquanto isso, Ana e William se sentavam perto do Brigid e de
     Silva. S Fiona permaneceu de p, confundida.
           --Se me permitir, Grannie, eu me retiro --disse, inexpressiva. Ana e
     Brigid a observaram desconcertadas. William conteve sua fria, e de
     Silva sorriu com picardia.
           --Por favor, senhorita Fiona! No me prev voc de sua presena!
     --Juan Cruz se incorporou da poltrona. Foi direto at a Fiona, tirou-a da
     mo, e a conduziu a um tamborete perto dele. A jovem no lhe tirava os
     olhos de cima, e de Silva acreditou ver fascas neles.
           entregaram-se a uma conversa intrascendente da que s Fiona se
     manteve  margem. Ao princpio obteve no pensar em nada.
     Momentos depois, quando entendeu o giro brusco e radical que tinha
     dado seu vicia, a pele lhe arrepiou e seu corpo comeou a tremer
     imperceptivelmente.
           --Vamos, filha, toma um pouco de ch, sentar-te bem. Est muito
     plida, querida.
           Fiona tomou temblorosamente a taa que lhe alcanou sua av. Em
     seguida, de Silva sustentou a loua por ela, apoiando-a em uma mesa
     perto da jovem.
           --Esta vez no tenho feito nenhum desastre, dona Brigid. O
     comentrio do Juan Cruz causou a algazarra de todos. Fiona, em troca,
     observou-o exasperada, a ponto de estalar.
           Ao cabo de uma hora, de Silva se ps no bolso ao Brigid e a Ana.
     William estava radiante pelo triunfo. A atitude de sua filha j no lhe
     importava; se sua me e seu pai o aceitavam, o matrimnio j era um
     fato. A batalha com o Brigid estava ganha. Agora s subtraa
     impressionar bem ao velho Malone, e assunto arrumado.
           --Acredito que j  hora de me retirar, senhoras. foi um verdadeiro
     prazer compartilhar a tarde com vocs.
           Todos comearam a levantar-se de seus assentos.
           --Senhor de Silva, o prazer foi nosso. voc retorne quando desejar
     --disse Brigid, cortesmente. E ansiosa por fechar o crculo ao redor da
     escorregadia Fiona, adicionou--: Eu gostaria que o senhor Malone o
     conhecesse.
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           --Ser um prazer --replicou de Silva com galanteria. Logo, olhou
     fixamente a Fiona e acrescentou--: Alm disso, eu gostaria de voltar a
     ver seu niela se para voc no  inconveniente, minha senhora.
           Fiona lhe sustentou o olhar, implacvel e fria.
           --Insisto, senhor de Silva, volte quando desejar. As portas desta
     casa esto sempre abertas para voc --esclareceu Erija, para que no
     ficassem dvidas.
           De Silva saudou com uma leve inclinao, deu meia volta, e
     abandonou a sala.
           --alm de tudo,  um mentiroso --disse Fiona entre dentes e com o
     gesto desencaixado.
           William sabia bem a que se referia, mas no desejava discutir mais
     com sua filha.
           --por que o diz?
           --Sabe perfeitamente por que o digo. --Olhou-o fixamente, e no
     silncio que sobreveio ressonou com fora sua respirao agitada--. Me
     disse que no o conhecia e que se tratava de um estrangeiro!
           -- certo --afirmou William com sarcasmo.
           --Mas resulta ser que sim o conheo. E que no  estrangeiro.--
     Fiona adiantou seu corpo e ficou as mos na cintura, desafiante.
           --Eu no sabia que o conhecia Y... poderia-se dizer que, em rodeie
     forma,  estrangeiro. No  de Buenos Aires. Alm disso, em algo no te
     menti;  muito, mas muito rico.
           --Mentiroso! Ocultou-me a verdade porque  um bastardo. 
     bastardo! E tem a lama de um demnio maldito! --explorou Fiona--. 
     filho de uma negra ou algo assim! Por isso me ocultou a verdade! No
     pode me fazer isto, no pode isto hacenne... --de repente, sua voz
     desfaleceu.
           --Desconheo-te, Fiona. No  voc a que sempre apregoa a
     igualdade entre todos? No  voc a que sempre trata aos serventes
     como sim fossem da famlia? O que h com a Maria e Elseo? As
     respeitas mais que a mim, e no so mais que um par de mestios.
           --N te atreva a te colocar com eles, maldito embusteiro! Eles so
     dez vezes melhores que voc.
           --Basta! --gritou William, tratando de amedrontar a Fiona--. J
     est tudo arrumado. Casar-te com ele como . Se no o fizer, j sabe o
     que ocorrer nesta casa.
           De Silva voltou. E o fez quase todas as tardes. Cada vez que se
     apresentava na manso Malone, Juan Cruz trazia consigo algum
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     presente para os membros da famlia. Para todos, exceto para a Fiona, a
     quem parecia no lhe importar. O primeiro foi um magnfico vaso de
     porcelana do Svres azul marinho com delicadas orqudeas desenhadas
     em laqueia rosa plido. Muito belo, e por certo muito mais custoso que o
     que Fiona fazia voar pelo ar. Ana recebeu um par de luvas de pelica cor
     marfim que Juan Cruz mandou comprar ao do Caamao, a loja mais
     pituca da cidade. O velho Malone tambm foi surpreso com um
     presente: uma pipa de espuma de mar em cuja cazoleta estava esculpida
     com muita preciso a cabea de um soldado turco. Sejam ficou perplexo
     ao receber o presente do Juan Cruz. Fazia anos que desejava uma
     idntica e em nenhuma parte a conseguia. Nem sequer Trida, em
     Londres, tinha achado uma. Como tinha adivinhado aquele homem seu
     desejo? Ningum podia compreender como conseguia coisas to bonitas
     em pocas em que, pelo bloqueio anglo-frances, at comprar
     mantimentos resultava difcil. Ao parecer, nenhum escolho se
     interpunha entre o Juan Cruz de Silva e seus desejos.
           Frente a seus avs, Fiona aparentava ser a jovencita mais encantada
     da Confederao. Risonha, conversadora, at picasse, convertia-se em
     outra pessoa quando a deixavam a ss com de Silva na sala. Com ele era
     mordaz e atrevida, violenta e ressentida. No tinha maiores olhares em
     te expressar todo seu desprezo. Mas de Silva mostrava a pacincia de
     um beduno e a segurana de um magnata. Nada o importunava;
     nenhum dos comentrios ou as palavras da Fiona pareciam persegui-lo.
     Sempre de bom aspecto, no regulava seus elogios aos Malone.
           --At quando terei que suportar esta farsa do galante apaixonado?
     Que espera para anunciar nossas bodas? Que me apaixone por voc,
     senhor de Silva?
           Um sorriso sarcstico, quase doentia, sulcou os lbios da Fiona.
           -- to bela quando sorri, minha querida.
           O homem tomou a mo; ela a retirou como do fogo.
           --No seja hipcrita, senhor de Silva. Responda a minha pergunta.
     Quando ser as malditas bodas?
           --No sabia que estava to interessada em te casar comigo, Fiona.
     Realmente, saber que o deseja tanto  uma notcia maravilhosa.
           Fiona fechou os punhos e apertou os clientes tratando de reprimir
     um grito de impotncia. Seu rosto ficou como o gro. Por um instante,
     seus olhares se cruzaram. Mas era tanto o poderio e o domnio que de
     Silva demonstrava ter sobre ela, sobre seu pai, sobre todos, que baixou a
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     cara e comeou a soluar. No queria que ele soubesse quebrada.
     levantou-se e abandonou a sala.
           A pena que a embargava deixou no ar uma esteira que se apoderou
     da alma do Juan Cruz. Seu habitual gesto soberbo se desvaneceu, e em
     seu lugar apareceu um semblante apagado e mortio. Em realidade, de
     Silva no sabia o que fazer com a Fiona.
           Ao dia seguinte, William anunciou ante toda a famlia o
     compromisso de sua filha e de Silva, e o desejo do Juan Cruz de que as
     bodas se realizasse quanto antes.
           --Quero que saibam que aceitei o pedido de mo da Fiona que me
     tem feito o senhor de Silva.
           Ana e Brigid tratavam de conter as lgrimas: no correspondia
     chorar; Imelda se aproximou de sua irm e, disimuladamente, tomou a
     mo. Sejam Malone permaneceu comprido momento contemplando a
     seu filho. Sempre tinha pensado que lhe consultaria esse tema quando
     chegasse o momento.
           Finalmente, Juan Cruz se aproximou da Fiona e entregou um
     pequeno estojo de veludo. Todos permaneciam calados e espectadores,
     os olhos cravados nas mos da jovem. Ao fim, Fiona o abriu.
           -- muito belo! --exclamou Imelda ao descobrir o cintillo de
     brilhantes e aguamarinas.
           Juan Cruz tomou o anel de mos da Fiona e o colocou no dedo.
     Brigid e Ana se aproximaram de bisbilhotar, assombradas ante uma jia
     to soberba.
           Ao dia seguinte, toda Buenos Aires conhecia a notcia do
     compromisso da Fiona Malone e Juan Cruz de Silva. Cada uma das
     famlias mais importantes parecia um hervidero de intrigas e hablillas.
     Por fim, de Silva limpava o enigma que tinha mantido em velo s
     jovencitas da cidade. Algumas estavam verdes de inveja. Um dos
     solteiros mais cobiados da Confederao lhes tinha escapado. Tinham
     que aceit-lo, nenhuma competia com a Malone.
           Fiona era a mais formosa, a mais rebelde, a mais escorregadia de
     todas as donzelas da alta sociedade. Ele, embora bastardo, mal-educado e
     arrivista, era o protegido do governador e um dos homens mais ricos do
     pas. Razo suficiente para que todos fizessem caso omisso dos
     antecedentes genealgicos de Silva e o deixassem entrar em seu crculo
     como se se tratasse de um conde francs, embora soubessem
     perfeitamente que no se tratava de um deles.
           --No posso acredit-lo, Fiona!
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           A jovem se sobressaltou quando Camila Ou'Gorman irrompeu em
     seu quarto e quebrou o silncio no que estava sumida desde fazia
     momento.
           --Camila! --gritou Fiona. E se jogou em seus braos com tal
     mpeto que sentiu as baleias do espartilho de seu amiga sob suas mos.
           Camila sbia o do compromisso da Fiona com de Silva. O prprio
     Juan Cruz o tinha anunciado a noite anterior durante o jantar em sua
     casa. Entretanto, no pde evitar a pergunta,
           -- certo que vai A...
           Fiona no a deixou terminar. Queria falar o menos possvel do
     tema.
           --Por favor, me diga, como est sua av?
           --No muito bem.
           Os olhos da Camila se obscureceram e seus lbios desenharam uma
     careta triste. Sua av, popularmente conhecida em Buenos Aires com o
     apodo depreciativo de "A Perichona", no estava bem de sade. Por isso,
     viajava todas as semanas  Matana, a estadia de seu pai, aonde tinham
     confinado  mulher desde fazia anos, depois de seu romance com o vice-
     rei Liniers. Camila e Fiona amavam  a Perichona, talvez porque
     desejavam ser como ela. Formosa, majestosa, refinada, e livre como um
     pssaro. Um pssaro que j tinha suportado muitos anos de cativeiro e
     estava decidindo partir definitivamente.
           Fiona compreendeu que devia trocar de tema.
           --Esteve com seu curita tucumano? --perguntou em voz baixa e
     com tom cmplice, tentando lhe levantar o nimo.
           Isso pareceu suficiente para alegrar a Camila. Comeou a lhe
     relatar a seu amiga os detalhes da relao clandestina que mantinha com
     o padre do Socorro, Ladislao Gutirrez. Estava perdida de amor e
     paixo por ele. dentro dela se desataram por fim os sentimentos dos que
     tanto lhe tinha falado a Perichona.
           Depois, Fiona lhe contou a respeito de Sua relao com de Silva,
     dos acontecimentos na reunio do do Senz e Velazco at a entrega do
     cintillo frente a sua famlia. Finalmente, pde expressar o dio que
     sentia por aquele homem, a vergonha que lhe provocava o saber
     comprada, a dor de casar-se sem amor, a humilhao, a desonra.
           --Talvez, Fiona, no seja to mau como voc pensa.
           --OH, voc tambm! Parece que te tivesse posto de acordo com a
     Maria --resmungou Fiona, levantando-se da cama e dirigindo-se ao
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     penteadeira. Camila a seguiu e, tomando uma escova de cerda, comeou
     a lhe pentear o cabelo, to murcho, to largo. Sabia que isso a fascinava.
           --foi vrias vezes a minha casa. Tem alguns negcios com tatita.
     Eu no o vi muito ultimamente porque me passei isso em La Matana,
     voc sabe, mas as vezes que nos cruzamos, pareceu-me um homem
     muito interessante. Seriamente...
           Camila sorriu ao escutar o flego obstinado de seu amiga.
           --No seja teimosa e me escute --insistiu--. No  o mais belo,
     no, mas tem algo.  galante,  delicado... E muita refinao para ser um
     gacho a maior parte do ano, no crie?
           --Acredito que  um cretino. Jamais te perguntaste por que o
     chamam "o diabo"? No deve ser justamente por tratar do homem
     melhor e galante do mundo, no te parece?
           --Est bem --disse Camila um tanto zangada--. Est bem. Se no
     o suportar, por que no vai e lhe diz que no te casar com ele?
           --No! Sabe que no posso. Pela Grandpa.
           Fiona baixou os olhos. Ali, abandonado no penteadeira desde dia
     em que Juan Cruz o entregasse, estava o cintillo de compromisso.
           --Ento, faz um intento por trocar de atitude. Se no, voc vida
     ser um verdadeiro inferno.
           Fiona assentiu em silncio. As mesmas palavras da Maria. Seria ela
     uma obstinada sem razo? por que no conseguia ver a soluo que
     todos pareciam vislumbrar to claramente? Estava muito confundam!

          As bodas teve lugar em 25 de agosto de 1847, na manso Malone,
     na mais estrita intimidade. S assistiram a famlia da Fiona e os amigos
     mais amealhados. No tinha convidados pela parte do noivo, e ningum
     cometeu a indiscrio de perguntar por que; todos sabiam que Juan
     Cruz no tinha me nem pai, que tinha vivido toda sua infncia em uma
     das estadias de Rosas, e que tinha sido criado por uma negra.
          Essa manh, Fiona estava simplesmente soberba. Os convidados
     contiveram o flego ao v-la ingressar na sala acondicionada para a
     ocasio do brao de seu av. Juan Cruz simulava uma indolente
     impavidez ao observ-la aproximar-se. Entretanto, no deixou de
     entreter-se intimamente com a beleza de sua prometida; de repente, seus
     movimentos sempre estudados se liberaram, e o corpo lhe estremeceu
     de prazer; seu sorriso, mdio diablica, foi, pela primeira vez, sincera.
     Fiona, em troca, parecia alheia a tudo. Seu olhar estava perdido em um
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     ponto indefinido da parede, seus olhos tinham abandonado seu azul
     intenso e se converteram em duas safiras duras e frias.
           O vestido que lhe tinha confeccionado Maria era to belo como ela.
     Apesar de que tinha insistido em lhe fazer trazer um de Paris, ao v-la
     naquele majestoso traje, Juan Cruz teve que admitir que ningum o teria
     feito melhor. Era branco, de encaixe francs. O espartilho se atia de tal
     modo a seu talhe que revelava a estreiteza de sua cintura e a redondez
     de seus seios. Juan Cruz imaginou suaves como uma rosa, e
     imediatamente teve uma ereo.
           O Pai Fahy, um sacerdote irlands amigo ntimo de Sejam e guia
     espiritual da famlia, benzeu o matrimnio. depois da cerimnia,
     serviram-se os manjares que Brigid fazia preparar. Apesar de que tudo
     parecia como foi pedido, a anci estava desconsolada; os acontecimentos
     se precipitaram de tal modo que no tinha tido o tempo necessrio para
     preparar o tradicional plum pudding, que leva mais de um ms de
     elaborao. Brigid pensava que umas bodas sem plum pudding era um
     mau augrio para os recm casados, assim que lhe tinha rogado ao Juan
     Cruz que pospor as bodas para mais adiante; mas ele se ops com o
     argumento de que j tinha permanecido muito tempo em Buenos Aires e
     devia voltar a ocupar-se de suas estadias.
           Enquanto tudo a seu redor parecia imensa felicidade, a tristeza
     profunda do rosto da Fiona expressava a gritos silenciosos seu
     desconsolo. Era paradoxal, pensou; essa manh, sua famlia festejava o
     que acreditava sua sorte, e ela se sentia o ser mais desgraado deste
     mundo. Seu av irrompeu em seus pensamentos lomndola do brao e
     apartando-a do grupo.
           --por que est to triste, princesa?
           --No, Grandpa, no estou triste. --Tratou de ensaiar um sorriso
     como o tinha feito cada dia desde que seu pai lhe anunciasse a notcia--.
     Me sinto um pouco estranha, nada mais. A verdade  que estranho
     muito a aunt Trida. Me teria gostado que estivesse hoje aqui.
           Seu av lhe golpeou carinhosamente a bochecha, com gesto
     divertido.
           --Acredito que  normal que se sinta um pouco estranha. Hoje 
     um dia muito especial. Tudo vai trocar em sua vida.
           Sejam fez uma pausa e se sentou na poltrona. Fiona se arrellan a
     seu lado..
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           --Como te dizia, tudo vai trocar. Mas para melhor. Compartilhar
     sua vida com a pessoa que amas  o mais maravilhoso que lhe pode
     acontecer a um ser humano. Asseguro-lhe isso.
           Fiona sentiu que o corao lhe galopava no peito. esfregou-se as
     mos, cada vez mais midas e frite; podia sentir as gotas de suor que se
     deslizavam entre seus seios at perder-se em seu ventre. Como faria
     para lhe ocultar a seu av que todo aquilo era uma farsa? Uma
     espantosa e cruel farsa urdida por seu pai e seu te chamem algemo.
     Como faria para suportar sua vida ao lado de um homem ao que j
     odiava com toda sua alma? Via seu sorriso, sempre sardnica, que
     parecia lhe dizer: "No me desafie, Fiona. Agora, eu tenho o poder".
     Seus olhos profundos eram infranqueveis: nunca podia saber o que
     pensavam. E seus gestos eram to controlados que no fazia um s
     movimento, no dizia uma s palavra, sem analis-los antes. Estava
     segura disso. A s presena do Juan Cruz a intimidava, enchia-a de
     temores e vacilaes. Como faria para suport-lo uma vida inteira?
           Sejam continuou com sua argumentao, mas Fiona j no o
     escutava. Inundada em um mundo inextricable de perguntas sem
     resposta, s conseguia deprimir-se ainda mais. Se seguia assim s
     conseguiria que as lgrimas a trassem frente a seu av e o desconsolo a
     levasse a pr ao descoberto toda a verdade.
           Um pequeno alvoroo na porta principal interrompeu os conselhos
     de Sejam Malone Rosas tinha chegado.
           Sejam e Fiona ficaram de p rapidamente, como se algum os
     tivesse cravado com um alfinete. Fiona permaneceu ao lado da poltrona,
     sem mover-se; seu av saiu ao encontro do governador de Buenos Aires.
           Os convidados no podiam acreditar que Rosas tivesse concorrido
      bodas de Silva; ultimamente, permanecia encerrado em seu quinta no
     Palermo trabalhando todo o dia, quase sem dormir nem comer. Os
     portenhos se cansavam de participar o das reunies e reunies que
     organizavam, sem obter que o governador federal lhes fizesse a honra
     de pisar em seus lares. A desculpa era sempre a mesma: os assuntos da
     Federao.
           detrs de Rosas apareceu sua filha Manuelita. No era linda, mas
     tampouco feia; tinha uma figura magra e um rosto agradvel que
     conquistava os coraes de todos pela humildade de seu olhar e o
     acolhedor de seu sorriso. Sempre tinha palavras doces e cheias de
     esperana para quem visitava sua casa em busca de consolo ou de um
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     favor. converteu-se em uma das mulheres mais queridas de Buenos
     Aires e no era difcil cair sob um encanto to puro e espontneo.
           --Viva a Santa Federao! --gritou Rosas, posando seus rasgados
     olhos azuis em cada um dos que estavam perto dele.
           --Viva! --responderam os comensais ao unssono.
           Sejam chegou at o governador abrindo-se passo entre a gente e,
     lhe estendendo a mo, deu-lhe a bem-vinda.
           --Sua excelncia,  uma honra que voc se dignou a visitar minha
     casa em um dia to feliz como este.
           Continuando, o velho irlands fez uma respeitosa reverncia com a
     cabea.
           --Deixe-se de tanta formalidade, dom Malone. Se eu o conhecer
     voc desde antes de subir a um cavalo.
           Rosas o atraiu para seu volumoso peito e o abraou fraternalmente,
     provocando o assombro dos pressente. Evidentemente, o governador
     estava de muito bom aspecto esse dia; apesar disso, as pessoas a seu
     redor o tratavam com um cauteloso respeito, no que se mesclavam a
     admirao e o temor. Todos o conheciam muito bem; com suas graas
     ou seus mandatos podia chegar a fazer infeliz a qualquer.
           --Alm disso, a honra  meu --continuou dizendo Rosas com voz
     muito varonil, enquanto se separava de Sejam--. Quem tem sido amigo
     do coronel Dorrego, como foi voc, dom Malone, merece meu mais
     profundo respeito e admirao. Alm disso, agora que Crucito se uniu a
     sua neta, voc e eu somos quase como da famlia.
           Sejam se sentiu intimidado pela fogosa saudao. No s intua
     que Rosas simulava: ele mesmo o estava fazendo.

          Sete anos atrs, em 1840, o bloqueio francs fazia estragos na
     economia de Buenos Aires, apoiada fundamentalmente nos ganhos
     alfandegrios. As lojas estavam vazias e custava conseguir os artigos
     mais elementares, inclusive lamas mantimentos. O inverno, muito
     rigoroso, tinha arruinado algumas colhe.
          No vero tinham ficado os falatrios a respeito de que Rosas
     deixaria o mando e se retiraria a uma de suas estadias. A Legislatura o
     tinha ratificado em seu posto por cinco anos mais. E o caudilho federal
     tinha mais poder que nunca.
          Dois anos antes tinha imposto a ordem de no articular palavra
     sem antepor as frases "Viva a Santa Federao! Morram os selvagens
     unitrios!". Fazia pouco tinha decretado o uso obrigatrio da divisa
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     ferroou, no meio doido para as damas, no peito para os homens, com o
     lema "Federao ou morte", sem exceo. O governador tinha criado
     uma fora especial, os monitores, encarregada de controlar o uso da
     divisa, que devia ser visvel e ostentosa. Os monitores castigavam aos
     cidados que no levavam o distintivo e, em meio da rua, pegavam-lhes
     um emplastro vermelho com cauda. No s isso, tambm pesquisavam
     as casas procurando algum elemento que delatasse a seus donos como
     unitrios. Bastava um objeto celeste para enfurecer aos soldados
     federais.
           Mas a que se tornou muito dura era a Espiga de milho. Todas as
     manhs se anunciava a gritos os quais tinham sido degolados, quantas
     cabeas se haviam estaqueado na Praa da Vitria, que casas se
     assaltaram. O prego durava muito; as vtimas e os acusados eram cada
     vez mais. Rosas era claro com os mazorqueros; "No estado a que
     chegaram as coisas nos povos argentinos, todos os meios de obrar so
     bons... os meios sempre ficam legitimados pelos fins". E seus homens
     no se separavam de suas ordens.
           A Confederao estava sumida em uma cruel guerra civil. Os
     mortos eram muitos e os nimos se exacerbavam  medida que o sangue
     corria. O dio se acentuava e a sanha com os do bando contrrio se
     voltava feroz. Era comum a morte por aqueles dias; todo mundo parecia
     haver-se acostumado aos fuzilamentos, s decapitaes. Cada homem
     levava  vista sua adaga, "a espada da federao", como a chamavam.
           Os emigrados a pases vizinhos eram milhares. refugiavam-se
     especialmente no Montevideo e no Santiago do Chile. De ali, iniciavam
     uma luta encarniada contra o regime do "abominvel tirano".
     Escapavam de Buenos Aires como podiam. Alguns de navio, durante a
     noite. A empresa era mais que temerria; a Espiga de milho sempre
     vigiava o Baixo e a Boca. Outros, os que fugiam por terra para o Chile,
     deviam tomar cuidado na zona de Cujo; era muito difcil passar os
     controles dos caudilhos nessa parte da Federao.
           A Sejam, todo esse assunto de unitrios e federais lhe importava
     um cominho. Tinha deixado seu a Irlanda natal enojado das lutas entre
     catlicos e protestantes, entre ingleses e irlandeses. No se renderia
     agora a nenhum bando, por mais razo que tivessem um ou outro. O
     pecuarista pensava que os dois tinham suas verdades e seus desacertos.
     "Embora nenhum  um santo", estava acostumado a lhe dizer a sua
     esposa.
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           Mas a realidade o arrastava; seus melhores amigos eram unitrios e
     estavam sendo perseguidos e assassinados sem compaixo. Lhe devia
     muito a esses crioulos que o tinham ajudado em seus primeiros anos no
     Virreinato. Tinham-no acolhido no seio de seu grupo social, tinham-lhe
     dado uma mo em seus primeiros negcios, tinham-lhe aberto as portas
     necessrias para sua integrao.
           O pior era esse mocito, o tal Joaqun Echevarra, do que sua filha
     Ana estava apaixonada, e que era mais unitrio que o prprio Lavalle.
     Os scios populares, surpreendendo-o no Baixo, em plena fuga para o
     Montevideo, tinham-no ferido gravemente de um disparo.
           Aquela vez, um amigo, Martn Uturralde, conseguiu salvar o da
     revolta. Mas Joaqun perdia muito sangue e Martn no conseguia lhe
     estancar a ferida. Lev-lo a sua casa equivalia a conden-lo; os
     mazorqueros estariam rodeando-a para esses momentos, dispostos a
     echrs de cima. E como ele tambm estava pontuado de unitrio e sua
     manso era assediada diariamente pelos soldados de Rosas, Martn no
     atinou a outra coisa que a lev-lo a casa de sua prometida, a tal Ana
     Malone.
           Sejam no queria comprometer-se, mas os rogos e o pranto de sua
     filha puderam com ele. Joaqun permaneceu em sua residncia da rua
     Larga at que morreu. Tinha perdido muito sangue, a ferida estava
     muito infectada e no se atreviam a chamar um mdico: isso os teria
     convertido imediatamente em suspeitos. Embora tinham oculto ao
     Joaqun em uma zona pouco visitada da casa e a servido era da maior
     confiana, havia um par de negras que teriam ido correndo a lhe avisar a
     Rosas que seu patro tinha escondido a um unitrio.
           Foram dias muito duros para todos; no s deviam ocultar ao
     prometido da Ana mas tambm suas prprias emoes. As meninas,
     Fiona e lmelda, permaneciam alheias aos horrores que aconteciam
     dentro e fora da casa obrigado a que os adultos faziam um esforo
     sobre-humano para lhes ocultar a realidade. Ana chorava nos rinces e
     Joaqun tinha que morder o punho para no gritar da dor. Sua morte
     deixou na famlia Malone uma amargura que demoraria anos em
     apagar-se. Ana nunca o esqueceu. No voltou a freqentar a nenhum
     moo, e consagrou sua vida aos cuidados de suas duas sobrinhas.
           depois da morte do Joaqun, algo trocou em Sejam. Sem definir-se
     politicamente por nenhum bando, tomou aberta participao nas fugas
     de seus amigos unitrios. Qualquer recurso era vlido se a vida de
     algum corria perigo e terei que lhe facilitar a fuga do pas. Malone se
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     fez famoso pela ajuda que emprestava aos inimigos de Rosas e logo a
     Espiga de milho teve notcias dele. Entretanto, dirigiu-se com tanta
     habilidade que jamais puderam apanh-lo. Nem as duas faxineiras
     negras, devotas do governador, puderam dar um dado certeiro que o
     comprometesse.
           Rosas se comia os cotovelos da fria. "Esse velho irlands de
     mierda algum dia me vai pagar isso." Mas o governador no era tolo e
     conhecia muito bem o poder do Malone dentro da Confederao. Era
     dono das estadias mais ricas do Rio da Prata e amigo do ministro
     Mandeville, representante da Inglaterra em Buenos Aires. Alm disso,
     mantinha contatos muito fortes com os franceses. Para pior, sua filha
     Tricia estava comprometida com um comerciante ingls to capitalista
     que a reina Vitria o tinha renomado "Sir". Os pees de seus campos se
     contavam por centenas e o adoravam por sobre qualquer causa poltica.
     Se o queria, o irlands podia revoltar a grande parte da populao rural
     contra Rosas.
           No, tinha que ir com cuidado. Se enfurecia ao Malone, podia
     desatar uma hecatombe.
           "Algum dia, algum dia", repetia o governador, golpeando-a mo
     com o punho.

           Quando Rosas afrouxou seu caloroso abrao deixou mdio
     aturdido ao Malone, que se fez a um lado para que o governador
     saudasse sua esposa.
             Naquele momento, Juan Cruz acreditou conveniente irromper na
     cena.
           --Dom Juan Manuel, pensei que j no viria! --exclamou.
           --Ah, filho, Manuelita me teve mdio louco toda a manh me
     recordando suas bodas! J sabe como  esta menina contigo --replicou
     Rosas, desviando o olhar ao rosto carmesim de sua filha.
           --Ai, ratita, como ! --comentou a jovem, acostumada s sadas
     imprevisveis de seu pai.
           As apresentaes e saudaes duraram um bom momento. Em
     todo esse tempo, Fiona no se moveu do lugar no que seu av a tinha
     deixado, ao flanco da poltrona, calada, pendente da cena. Comeava a
     vislumbrar o verdadeiro poder do homem com o que se casou. Sentiu
     que a pele lhe arrepiava. Que Rosas se dignou a aparecer essa manh em
     casa de seu av palha saudar o Juan Cruz punha de manifesto o imenso
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     carinho que sentia por ele. E nesses tempos, o carinho e a avaliao de
     Rosas valiam mais que qualquer outra coisa.
           Quando viu que o Brigadeiro Rosas e sua filha se aproximavam
     dela, tragou saliva. Acaso tinha esperado acontecer desapercebida e que
     no a saudassem? Se essa iluso tinha passado por sua cabea,
     desvaneceu-se apenas o governador tomou sua mo e lhe beijou a ponta
     dos dedos sem tirar seus olhos dos dela, que a essa altura j era incapaz
     de dissimular seu terror.
           Rosas era realmente um homem muito arrumado, alto, e de corpo
     hercleo e lhe avassalem. De pele branca e bochechas rosadas, suas
     grandes plpebras emolduravam o azul escuro de seus olhos; sua boca
     era s uma linha purprea sob o nariz magro e reta-, sua frente ampla
     terminava em um denso e suave cabelo castanho com alguns cachos no
     topete. Fiona decidiu que o nariz e os olhos eram as partes que melhor
     definiam o carter desse homem. Os olhos, pequenos, no permitiam
     imaginar o que estava pensando; e o nariz, reta e alargada, outorgava-
     lhe um ar autoritrio, imperioso, que dava medo desprezar. Ela o tinha
     visto fugazmente em algum ato pblico, ou alguma vez que se escabull
     junto  Camila ao candombe dos domingos, mas fazia muito tempo j
     disso. Ento eram apenas umas meninas.
           Camila era amiga da Manuelita; sempre ia s reunies do Palermo
     e, s vezes, a filha de Rosas a mandava chamar s para conversar.
     Apesar de todo seu entorno, Manuelita era uma moa muito sensvel
     que gostava da gente como ela, romntica e com sentimentos bondosos,
     algo que escasseava em seu lar. Por isso, Fiona sentia simpatia pela
     jovem, embora jamais tivessem cruzado palavra.
           Juan Cruz se ocupou das apresentar, e logo depois dos beijos de
     rigor, tomou a posta na conversao. Suas ocorrncias, que fizeram rir a
     Manuelita, s conseguiram arrancar dos lbios apertados da Fiona um
     sorriso falso e afetado. Mas a filha do governador pareceu no not-lo.
           O professor Favero, o professor de piano da Fiona, tinha devotado
     como presente de bodas a sua melhor aluna tocar com sua orquestra
     algumas valsas para ela e o noivo; quando os lembrar comearam a soar,
     Juan Cruz tomou ansiada estreiteza da cintura de sua esposa e se
     encaminhou com ela para o setor da manso no que se improvisou uma
     pequena pista de baile. Fiona era quase arrastada, apenas se movia os
     ps; dura e ereta como uma vara, a repentina e inesperada intimidade
     das mos de seu marido a tinham posto extremamente nervosa. Os
     dedos de Silva, speros e grandes, entrelaaram-se com os da jovem,
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     pequenos e suaves. Juan Cruz apoiou sua mo na curva mais
     pronunciada e excitante da cintura dela e, com a mestria de um
     cavalheiro, comeou a lev-la ao ritmo da valsa atravs da galeria
     principal.
           Os convidados e os donos de casa se congregaram ao redor dos
     noivos. Logo se somaram novos casais  pista e em poucos momentos
     no ficou lugar para um mais.
           Juan Cruz tinha o olhar cravado no rosto de sua mulher. Pensou
     que essa era a primeira vez que danavam juntos e no pde evitar
     sorrir ao recordar a nica ocasio em que o tinha pedido. "Antes prefiro
     estar morta." A voz de sua esposa chegava agora como a lembrana de
     um passado que, apesar de ser prximo, lhe desejava muito to
     longnquo como sua infncia em "Os Cerrillos". De Silva estava seguro
     de que aquela noite Fiona o tinha visto encetado com a Clelia. Como
     explicar, se no, semelhante resposta a um simples convite a danar? De
     todos os modos, era algo que no lhe importava no mais mnimo; Clelia
     s tinha sido uma de tantas.
           Fiona, em troca, esquivava os olhos do Juan Cruz. No os
     suportava; pareciam despi-la com o olhar. Tambm ela recordou aquela
     noite no de misia Mercedes e no pde evitar um estremecimento. Nesse
     momento percebeu que a mo de seu marido se atia com mais firmeza
     sobre ela e seu rosto se aproximava mais ao dele. Uma deliciosa
     fragrncia lhe alagou os sentidos, mais afligidos e confundidos que
     nunca. Enquanto isso, seus ps seguiam pressurosos os passos destros
     de Silva, que a guiava como a uma pluma na mo; por momentos,
     quando um acorde mais pronunciado convidava ao danarino a faz-la
     girar entre seus braos para tom-la com mais vigor e fogosidade que
     antes, sua cabea parecia dar voltas. Sentia que devia aferrar-se ao corpo
     do Juan Cruz porque os ps lhe falhavam; o remdio era pior que a
     enfermidade: o homem respondia com mais ardor.
           Salvou-a seu av. Pediu a de Silva a prxima pea e o noivo aceitou
     com desagrado.
           Enquanto danavam. Sejam Malone, extasiado e orgulhoso, olhou-
     a sem esboar o menor comentrio. Que menina especial era essa! por
     que? No sabia. Possivelmente, sua formosura sem igual. No, no era
     s isso. Sua inteligncia. Talvez, mas havia algo mais nela que a fazia
     singular. Fiona era seu niela adorada, sua alma geme-a. Ningum o
     conhecia como ela, nem sequer Brigid, depois de tantos anos juntos.
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           Apesar de que Fiona j no viveria sob seu teto, Sejam estava
     contente de que se casasse com de Silva. No podia queixar-se; o homem
     era educado, apresentvel e muito rico. Asseguraria a sua neta a vida
     cmoda a que estava habituada. Alm disso, era o nico ao que ela tinha
     aceito.
           Ao Malone no importava muito o fato de que Juan Cruz fora um
     bastardo. Algum podia culp-lo por isso? Em troca, de Silva tinha
     mostrado sua dignidade abrindo-se caminho em meio de um mundo
     antagnico que o condenava sem misericrdia, at chegar a ser o que
     agora: um homem importante, refinado e agradvel.
           Alm disso, Fiona Malone necessitava a algum como ele, de
     carter, com convices firmes e esprito valente. Talvez tinha sido
     muito brando com sua neta, talvez a tinha estragado com suas idias
     romnticas e utpicas. Mas quando a menina chegou a sua vida, ele j
     estava velho e com o guarda baixo. Como poderia ser duro e estrito com
     uma doura como ela?
           Por sua parte, a jovem parecia apaixonada. Isso era seguro; se no,
     jamais teria mimado em casar-se com de Silva. E embora a via nervosa e
     consternada, tranqilizou-se pensando que no tinha conhecido nunca
     uma noiva que no estivesse assim o dia de suas bodas.
           Tampouco lhe incomodava que Juan Cruz de Silva fora o protegido
     de Rosas. Primeiro, porque o moo, embora era federal, no parecia do
     tipo exacerbado e fantico. Segundo, porque ele jamais tinha
     considerado que dom Jun Manuel fosse seu inimigo. Sejam no era
     nem unitrio, nem federal. Anos atrs, o destino o tinha posto em uma
     encruzilhada e ele tinha tomado uma deciso: colaborar com seus
     amigos unitrios. De todas formas, sabia muito bem que estes tampouco
     eram os bons da histria. Ou acaso no tinha sido um general unitrio,
     Lavalle, que tinha mandado a fuzilar a seu mais ntimo amigo, o coronel
     Dorrego? No, ningum se salvava, todos eram pecadores, todos tinham
     culpa; a guerra tinha sido suja e ningum resultou sem mcula.
           Inclusive, em algumas questione fundamentais lhes recuava a
     razo aos federais. Agora o destino lhe brindava uma nova
     oportunidade: demonstrar que ele no guardava ressentimentos por
     ningum, e que s desejava viver em paz. No queria sentir como uma
     sombra o olhar lhe espreitem dos rosistas, nem pensar que sua famlia
     corria riscos por suas aventuras na poca das lutas civis. Que melhor
     forma de obter isto que entregar em matrimnio a sua neta mais querida
     a um homem como de Silva, a mo direita do caudilho da Federao?
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           depois de tudo, Rosas sempre lhe ter resultado simptico; um
     pouco autoritrio e gritalho, sim, mas agradvel ao fim, e alm disso
     cheio de brios e idias. Recordava-o em seus anos moos, com vrios
     quilogramas menos e mais corto no topete. Uma briga com sua me,
     uma mulher nada fcil, lanou ao jovem Juan Manuel ao mundo; s e
     sem um centavo. fez-se de abaixo, sem a ajuda de ningum, e logo
     chegou a ser dono de vrias fazendas em Buenos Aires. Eram vizinhos
     em vrias estadias e, mais de uma vez, Rosas lhe tinha pedido conselhos
     a Sejam, para ento j um velho acostumado nas artes rurais.
           " incrvel as voltas que d a vida", pensou Sejam, sem deixar de
     lhe sorrir a sua neta.
           As valsas deixaram de soar e tudo foi terminando. Os primeiros em
     partir, dom Jun Manuel e sua filha, saudaram cordialmente aos noivos.
     Juan Cruz acompanhou ao governador at a porta, enquanto Manuelita
     rogava a Fiona que a visitasse em So Benito do Palermo, e lhe
     assegurava que agora, que eram quase como irms, desejava como
     nunca sua amizade.
           --Porque deve saber, Fiona, que Crucito  para meu pai como um
     filho, de modo que, para mim,  como um irmo muito querido.
           Fiona no soube o que responder ante um comentrio to sincero;
     nesses dias, toda sua vida era uma mentira. No soube, nem pde dizer
     nada; algo lhe teria divulgado falsa e torpe a Manuelita Rosas e Ezcurra.
           E  medida que se foram desvanecendo os lembre da msica, a
     gritaria dos convidados, o falatrio controlado dos serventes na cozinha,
     o som do choque das taas de cristal, Fiona compreendeu o que ter
     estado fugindo durante todo esse tempo: que devia partir de seu lar, do
     lar de seus avs, seus seres mais queridos e adorados, para dirigir-se 
     estadia de um homem que, embora todos, a Igreja e a sociedade
     portenha, chamavam seu marido, para ela no era mais que um
     estranho.
           --Nem te ocorra mencion-lo, Fiona Malone! --Maria parecia
     furiosa esta vez--.  que acaso todo isto conseguiu te transtornar,
     menina?
           --Suplico-lhe isso, no me deixe sozinha com ele.
           --Mas, no te d conta de que ele  seu marido e que ter que
     passar seus dias a seu lado?
           A criada a olhou direto aos olhos, contendo o flego por uns
     instantes. Depois, suspirou, e baixando o olhar, cedeu.
           --Est bem.
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           Fiona se equilibrou a seus braos.
           --Basta, Fiona! Parece um cachorrinho, basta!
           --Obrigado, Maria, obrigado.
           A reao da Fiona tinha sido to infantil que Maria no pde
     esgrimir uma careta de desgosto. Iria com os recm casados na
     carruagem, sim, j que no tinha tido a fora suficiente para negar-se.
     No a deixaria a ss com seu marido at que chegassem  estadia. E
     depois o que? Lhe punha a pele de galinha de s pensar que Fiona no
     se adviesse logo a entrar em razo.
           Saram todos  rua. Trs volantas esperavam ante a porta. Os bas
     com a roupa e o enxoval da Fiona j tinham sido carregados. Seu cavalo
     baio, enganchado ao carro principal, corcoveava impaciente, em tanto
     Maria e Eliseo esperavam a partida junto a sua ama; Fiona jamais teria
     mimado que seus dois serventes no fossem viver com ela  casa de
     Silva. Ningum, nem sequer o mesmo de Silva, tratou de interpor uma
     desculpa para impedi-lo; todos sabiam o afeto que a jovem lhes tinha e o
     respeito e idolatria que eles lhe professavam. A Sejam Malone nem lhe
     teria ocorrido opor-se: sabia que ningum a protegeria melhor que essas
     duas pessoas.
           A despedida foi rpida, em um intento por dar fim ao que parecia
     ser uma tortura para os membros da casa Malone. Fiona se pendurou do
     pescoo de seu av e tratou de no derramar nenhuma lgrima. Por sua
     parte, o irlands tentou manter-se inclume e no demonstrar que sua
     alma se rasgava. Quando conseguiu separar a dele, s lhe acariciou
     torpemente o ma do rosto, insistindo-a a partir.
           William permanecia a um flanco. Finalmente, aproximou-se de sua
     filha e lhe murmurou algo com medo.
           --No te atreva a me dirigir a palavra nunca mais --murmurou
     Fiona, com os dentes apertados, quase sem separar os lbios. depois de
     perfurar o olhar de seu pai, girou sobre si, e ordenou com voz firme:
           --Maria, vamos j, por favor.
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                                       Captulo 4
           A mandbula do Juan Cruz caiu por um muito breve instante ao
     observar que Maria subia de um salto  carruagem no que se supunha
     s ele e Fiona foram viajar. Com a mo ainda na portinhola, Juan Cruz
     olhou para dentro em busca de uma explicao, mas a faxineira manteve
     a vista baixa. Fiona, por sua parte, volta para o outro guich, parecia
     contemplar com soma ateno o rio, que de ali se divisava claramente.
           Por fim, e sem ter obtido nenhuma elucidao, Juan Cruz subiu 
     carruagem.
           No terminava de entender qual era o feitio que emanava dessa
     mulher capaz de transformar sua irritao --que em outra ocasio no
     teria demorado para aflorar-- no sorriso de perplexidade que agora se
     desenhava em seus lbios. Talvez fora sua constante arrogncia o que
     obtinha o milagre; talvez fora esse gesto valente que a fazia mais bela
     ainda. Ou possivelmente suas respostas encorajadas e bem elaboradas.
     Ou o brilho de seus olhos, sempre atentos e inteligentes. De algo no
     tinha dvidas: por muito menos teria feito aoitar ao que se atreveu a
     desafi-lo assim.
           Enfiaram pela rua Larga de Barracos e, ao chegar a da
     Gochabamba, dirigiram-se para o Baixo. por ali, e bordeando o rio,
     encaminhariam-se para a manso que Juan Cruz tinha terminado de
     construir recentemente em meio de uma de suas estadias mais
     prsperas, A Candelaria, na paragem chamada Os Olivos, a trs lguas
     da cidade. A viagem lhes levaria algumas horas.
           Juan Cruz apareceu pelo guich e observou com chateio que sobre
     o rio se projetava a sombra escura da nuvem. O cu se conveio em uma
     massa espessa de cores cinzas e marrons. Um momento depois, voltou o
     rosto ao interior da volanta.
           Fiona, sentada frente a ele e ao lado de sua criada, tinha tomado
     um livro de tampas vermelhas de sua pequena bolsa de couro e lia
     atentamente, com uma expresso de paz e serenidade que para o Juan
     Cruz foi toda uma novidade. E como tinha esperado uma cena de pranto
     e recriminaes com o passar da viagem, a estica atitude de sua esposa
     o surpreendeu.
           O rosto de sua mulher despedia um aura de brancura que se
     projetava desde sua pele como se estivesse acetinada e uma luz prpria
     a fizesse brilhar. Seus lbios grossos eram de por si desejveis; sua cor
     vermelha carmesim e sua umidade natural os faziam mais apetecveis
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     ainda. O nariz era diminuto e reta, e suas fossas to pequenas que lhe
     custou imaginar como conseguia respirar por a. Seus mas do rosto se
     elevavam femininamente e sua leve tonalidade rosada parecia a de um
     beb. Sentiu um desejo irrefrevel de ro-los; sabia que seria como
     acariciar uma parte de algodo. estremeceu-se sobre o veludo cotel do
     assento e sua respirao se acelerou; nenhuma das duas mulheres
     pareceu not-lo, embora, por um instante, sua esposa elevou os olhos
     por sobre a leitura e vislumbrou a paisagem. Depois, Fiona voltou a
     vista ao livro, e a congelou uma vez mais sobre suas pginas.
           Foi um momento fugaz, mas a imensido de seus olhos se projetou
     sobre a pupila do Juan Cruz, e se gravou em sua mente para sempre.
     Sua forma rasgada para cima, suas pestanas largas e espessas,
     delicadamente arqueadas, a cor azul profunda da ris, esse delineado
     natural que lhe concedia certo ar ameaador. Seus olhos outorgavam a
     Fiona essa nervura de fierecilla que o resto de suas faces tratava de
     desmentir.
           Um relmpago iluminou o interior da volanta, Lina luz forte e
     esbranquiada que se projetou sobre os rostos dos viajantes. Segundos
     depois, pareceu que a cidade inteira se sacudia com o trovo.
           Mara deixou sua malha e Fiona levantou novamente o olhar do
     livro, em tanto Juan Cruz no apartava a sua dela.
           --O que os? --sua voz grosa quebrou o silncio.
           Mara deixou de tecer, mas no apartou a vista das agulhas. Fiona
     permaneceu calada uns instantes, com o rosto ainda submerso no livro.
     Por fim, levantou o olhar e arqueou suas sobrancelhas.
           --Hamlet --sussurrou, embora seu gesto dizia a gritos: "O que lhe
     importa?".
           Fiona voltou para seu livro. Seu marido, em troca, parecia cansado
     de tanto silncio.
           --Hamlet, do Shakespeare! Genial como poucos! No o crie assim.
     Fiona?
           Sabia que a estava incomodando com seus comentrios, mas aquele
     jogo comeava a lhe gostar de.
           --Tem-no lido?
           O tom petulante de sua esposa no pareceu importun-lo;
     justamente o contrrio, insistiu-o a continuar com o enredo no que
     ambos se colocaram.
           --Tenho lido toda a obra do Shakespeare, Fiona.
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           depois de lanar esse comentrio como um caonazo inesperado,
     esperou sua reao. A jovem permaneceu calada, evidentemente
     surpreendida, embora em seguida trocou esse gesto sincero por um mais
     estudado. Depois, voltou a inundar-se na leitura.
           --Tem lido Macbeth, querida?
           --No.
           --Encontrar-o em minha biblioteca. No s tenho as tragdias e as
     comdias. Tambm os sonetos.
           Sabia que com isso picaria o anzol. Mercedes Senz lhe tinha falado
     da paixo da Fiona pela leitura, e como por aqueles dias a metade dos
     livros estavam proscritos e a outra metade no era fcil de encontrar,
     uma fonte de boa literatura significava que sua possuidor era, no melhor
     dos casos, um afortunado e no pior, decididamente um audaz.
           --Voc tem uma biblioteca, senhor?
           --Sim; e muito completa. Poder tomar o livro que goste.
           Juan Cruz estava feliz. Por fim lhe tinha ganho uma batalha, por
     fim tinha encontrado algo com que atrai-la. Porque, definitivamente,
     Fiona era a primeira mulher que se negou a seus encantos. Famoso pela
     impetuosidade de seu membro entre as mulheres de m vida e pelo
     aprimoramento de suas maneiras entre as da alta sociedade, nunca tinha
     tido que suportar irem-na alguma do sexo oposto. Ao menos, no at
     que conheceu a Fiona.
           --O que outros livros tem, senhor?
           Fiona luzia aprazvel, mas seu tom seguia sendo srio e formal,
           --Tenho-os todos --respondeu Juan Cruz.
           Estirou o brao para alcanar o livro, que descansava no regao de
     sua esposa. Fiona deu um coice ao sentir a mo dele sobre sua saia.
     Maria levantou os olhos da malha pela primeira vez; fixou-os no
     matrimnio de Silva e conteve a respirao. Juan Cruz demorou seus
     dedos sobre a Fiona mais do necessrio e sentiu uma estranha sensao
     de prazer ao faz-lo. Por fim, tomou o livro. A jovem tratou de
     arrebatar-lhe por um instante, mas logo o deixou.
           --Humm! Em ingls... --comentou, enquanto o folheava.
           Fiona sentiu que a fulminava com o olhar. Seus olhos no tinham
     perdido ainda esse carter turvo que lano a atemorizava.
           --Sim. Aunt Tricia me enviou isso de Londres.
           Juan Cruz sorriu com um gesto que a Fiona incomodou; no podia
     discernir se era divertido ou zombador. A moa se preparou uma vez
     mais para a batilla que parecia ter abandonado momentos atrs. Seu
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     marido o advertiu em seguida, e estirando o brao, devolveu-lhe o livro.
     Fiona o arrebatou da mo. Sem adicionar nada mais, abriu-o e continuou
     com a leitura.
           Se tivesse estado sozinho, faria caso omisso da tormenta que se
     morava. Mas sua solido tinha terminado, e devia pensar na segurana
     da mulher que viajava junto a ele. O caminho bordeaba as abra do rio e
     eram comuns as sudestadas que o arrasavam tudo, inclusive carretas ou
     carruagens que percorriam a zona.
           Juan Cruz golpeou o teto da volanta com a ponteira metlica de
     sua fortificao. O carro se deteve, e todos em seu interior sentiram
     como se balanou quando o corpo macio e pesado do Elseo abandonou
     o bolia, indo ao chamado de seu novo amo. junto a ele, apareceu a
     carita jovem do lacaio, que levava em sua mo uma escopeta.
           --Eliseo, lhes diga a outros que no continuaremos a viagem.
     Faremos noite na estalagem dos Fleitas --ordenou Juan Cruz.
           --Sim, senhor--respondeu Eliseo, e imediatamente, com um gesto,
     insistiu ao moo a cumprir a ordem.
           Agora que as rodas se detiveram, o silncio no interior da volanta
     se fez mais insondvel. Fiona seguia lendo. Mara tecia a um ritmo
     frentico, e o leve choque metlico das agulhas era o nico som que
     alagava o lugar. Juan Cruz, absorto, mantinha seu olhar naquela mulher
     teimada em recha-lo com uma indiferena que j comeava a lhe
     resultar incomoda. Agora desejava seus ataques, suas palavras duras e
     hirientes, seu olhar frio e depreciativo; algo seria melhor que essa mortal
     indiferena.
           depois de reatar a marcha, os carros se desviaram para a esquerda
     e tomaram um atalho que os conduziria mais rapidamente  estalagem.
     J era quase de noite: os espessos nubarrones a ponto de estalar tinham
     precipitado o crepsculo. As primeiras gotas, grosas e pesadas,
     repicaram sobre o teto. A brisa fria que invadiu o interior da volanta e
     uma gota que lhe salpicou a pele trouxeram para a Fiona novamente 
     realidade. de repente, seu corpo se ergueu, suas mos se apoiaram na
     janela e olhou espantada para a paisagem escura que se desenhava fora.
           --Quero que Eliseo entre aqui, conosco. No deve molhar-se --
     opinou quando compreendeu que logo a chuva aumentaria.
           Juan Cruz a olhou pasmado; um segundo depois, seu semblante
     pareceu obscurecer-se. O arranque de fria que o atravessou como uma
     corrente galvnica, sacudiu seus hbitos autoritrios adormecidos.
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            --De maneira nenhuma --foi a resposta. Seu tom era srio; tinha
     abandonado o gesto zombador e j no parecia estar jogando com ela.
            --Ou o detm voc ou o fao eu.
            Fiona se tinha estremecido de medo ante a nova atitude de seu
     marido, mas seu orgulho no lhe permitia ceder. Maria guardou a malha
     na bolsa e se acurruc em um rinco; com as mos entrelaadas, parecia
     rezar, morto de medo.
            Juan Cruz, por sua parte, ficou-se paralisado. Sentia que a raiva lhe
     esquentava as bochechas e que a jugular comeava a lhe sobressair no
     pescoo. O que lhe estava acontecendo? Era para tanto? Embora no
     acostumava a ter consideraes com seus servidores, a proposta da
     Fiona no era to descabelada; ao fim e ao cabo, Elseo j era um ancio.
     Ento, por que de repente essa raiva to profunda? Um pensamento
     penetrou de repente em sua mente e o enfureceu: perguntou-se o que
     aconteceria o chofer fora ele; de seguro, Fiona nem se alteraria. Sentiu
     cimes do Elseo, terrveis, infantil e intratvel cimes. E isso o ps pior
     ainda porque nunca tinha experiente uma sensao semelhante. Sua
     negra Candelaria, seus amantes, seus amigos, seus serventes, todos se
     prostravam a seus ps, ele era o centro do universo. Mas aquela jovem,
     doze anos menor que ele, tinha conseguido p-lo em carne viva, sem
     mscaras, sem sua couraa. Tinha conseguido lhe arrancar um
     sentimento que, por novo e desconhecido, estava-o voltando louco.
            --Nem te atreva a deter a volanta. Devemos chegar quanto antes a
     detrs...
            Fiona no o deixou terminar. ficou de p, e agitou com fria o teto
     com seus ndulos. Eliseo no teria podido escutar; nesse instante, um
     estrondo alagou os ouvidos de lodos. Ento, Juan Cruz tomou
     fortemente pelo brao e, atraindo-a, murmurou-lhe perto dos lbios:
            --J me cansaste, menina caprichosa. tratei que te ter pacincia,
     mas seus remilgos de pequena bem me enojaram. Ou permanece em seu
     stio, ou te darei uma sova que jamais esquecer.
            Finalmente Fiona compreendeu por que o chamavam "o diabo": a
     fria cinzelava em sua cara profundas rugas que lhe deformavam o
     rosto at convert-lo no de uma criatura monstruosa. O medo a
     paralisou. Era a primeira vez que algum a tratava assim. Nem sequer
     seu pai se atreveu nunca.
            Embora Maria a atraiu para si, em um primeiro momento de Silva
     no quis larg-la. Depois, com um gesto de profundo desprezo, soltou-a
     bruscamente, e ato seguido se tornou com todas suas foras contra o
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     respaldo do assento. Por fim, deixou escapar um grande flego que fez
     tremer s duas mulheres.

           Durante o resto da viagem, Fiona permaneceu ovillada sobre o
     regao da Maria. Mantinha a vista para baixo e j no tinha desejos de
     ler. O olhar e o rosto enfurecido de seu marido a tinham perturbado.
     Uma angustiosa desesperana a alagava; sabia que dentro de algumas
     horas estariam em casa de Silva, em seu territrio, no que ele era amo e
     senhor. No teria escapatria. Afogou um lamento e fechou os olhos
     para que as lgrimas no escapassem to facilmente; no queria
     humilhar-se ainda mais frente a ele.
           Recolheu os ps sob a saia para acomod-los entre seu tontillo e o
     assento, tal como a noite em que de Silva a ressaltou da morte. A
     lembrana a encheu de naufraga; no podia esquecer que lhe tinha
     salvado a vida. E aquela mesma noite em casa de misa Mercedes tinha
     conseguido impact-la. Seu andar sereno, seu cabelo negro, comprido e
     murcha, bifurcado ao mdio por obra de um redemoinho que insistia em
     partir suas mechas em dois, outorgavam-lhe um ar muito especial.
           Chegaram  estalagem. A chuva descarregava todo seu mpeto
     sobre a terra, que se tornou lamacenta e escorregadia.
           O carro se deteve e de Silva se apeou com agilidade. J fora,
     disfarou-se em sua capa e se encaminhou  hospedaria, no sem antes
     dar instrues aos choferes. Fiona e Maria permaneceram caladas;
     acostumadas ao silncio lhe reinem, resultava-lhes difcil quebr-lo com
     o som de suas vozes. de repente, Eliseo, empapado, apareceu sua cabea
     lhe jorrem pela abertura do carro.
           --Vamos, minha menina. O patro me pediu que as fizesse entrar.
           Fiona apareceu e divisou, entre a espessa cortina de gua, uma casa
     de tijolo cru com teto de palha que se parecia mais a uma pulpera que a
     uma estalagem. Suas janelas, localizada-se a ambos os lados da porta,
     deixavam entrever as chamas trepidantes das velas que ardiam no
     interior. Tragou saliva e suspirou. S desejava uma cama confortvel;
     estava exausta.
           Quase arrastada atravs da chuva e do vento pelos fortes braos do
     Eliseo, Fiona ingressou no lugar trastabillando. Retirou de sua cabea o
     capuz e enxugou algumas gotas que rodavam por seus olhos. Olhou a
     seu redor; o panorama era desolador.
           A tormenta tinha afugentado a todos os clientes a suas casas; o
     salo estava completamente vazio. Divisou ao Juan Cruz apoiado sobre
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     o mostrador, conversando com o pulpero. Para ouvi-los entrar, de Silva
     volteou e, com ar hiertico, cravou-lhes o olhar por alguns instantes; s
     um momento fugaz, mas suficiente para atorment-la mais ainda.
           A esposa do hospedeiro apareceu depois de um trapo que
     pendurava de uma abertura  direita do salo.
           --Por favor, senhora, aproxime-se do trbede! Aqui est mais
     calentito. Uy, mas se est empapada! --comentou a mulher ao tomar
     entre suas mos a capa da Fiona.
           --Obrigado, senhora, mas ela e eu no estamos to molhadas.  ele
     o que est passado por gua.
           Fiona tomou pelo brao ao Eliseo e, virtualmente, arrastou-o at o
     fogo.
           --Seria voc to amvel de conseguir um pouco de roupa seca? Eu
     lhe pagarei...
           No pde terminar; uma aguda dor no brao a deteve. Juan Cruz
     cravava seus dedos nela e atraa com fora seu rosto para o seu; esta vez
     o tom foi mais circunspeto que o de antes.
           --Fiona, eu arrumarei nossa noite aqui.
           "Desautoriza-me uma vez mais frente a meus empregados e estes
     fonderos e te estrangulo"; ao menos, isso foi o que a jovem interpretou.
           Ela e Maria ocupariam uma das duas habitaes que tinha a
     estalagem, explicou Juan Cruz. Na outra se hospedaria ele. Os trs
     choferes e os jovens lacaios se acomodariam no celeiro.
           --No... --murmurou Fiona ao pensar que Eliseo, molhado como
     estava, passaria a noite sobre um jergn de palha, quase  intemprie.
     De Silva, ao escutar o murmrio de sua voz, girou sobre si, desafiando-a
     com o olhar. Fiona baixou os olhos, curvada.
           Comeram algo em uma das mesas do comilo. Maria, sem que
     ningum o indicasse, foi sentar se junto ao Eliseo e os moos. Fiona
     ficou, pela primeira vez, a ss com seu marido.
           Apesar de que no tinha provado bocado em todo o dia, a jovem
     brincou com a comida que lhe acabavam de servir e no se levou uma s
     parte  boca. Juan Cruz, em troca, devorou com avidez o guisado, quase
     sem levantar a vista do prato.
           --Deveria comer; est muito magra --comentou de Silva.
           Fiona o olhou furiosa. Ao not-lo outra vez afvel e com esse tom
     mordaz, seu carter impulsivo ressurgiu.
           --No acredito que a voc deva lhe importar minha anatomia,
     senhor --disse, com os dentes apertados.
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          Juan Cruz comeou a sorrir brandamente.
          --OH, sim que me interessa.
          fez-se para trs na cadeira, como procurando o melhor ngulo, e se
     entregou a olhar a Fiona com descaramento. Depois, continuou:
          --Embora tenha que confessar que me natura te esculpiu mais
     que harmoniosamente. Tem os vultos necessrios, e onde deve os ter.
          Seus olhos se cravaram no pronunciado decote da jovem.
          --No seja insolente, maldito depravado! --bramou Fiona com o
     rosto vermelho. levantou-se da mesa de um salto, cobrindo-se ao mesmo
     tempo o peito com as mos.
          --Maria, por favor, vamos  antecmara.
          Momentos mais tarde, Juan Cruz entrou na habitao sem chamar.
     Fiona se levantou como propulsada do bordo do leito e Maria deu um
     passo atrs, levando a escova de marfim  boca.
          --nos deixe a ss.
          Fiona observou chateada como Maria se escorria mansamente pela
     porta, com a cabea encurvada e a escova ainda sobre os lbios. Furiosa,
     descobriu que naquele lugar no havia nada apropriado para lhe arrojar.
          --Sua educao deixa muito que desejar, meu senhor. No lhe
     ensinaram que deve bater na porta antes de entrar em quarto de uma
     dama?
          Juan Cruz sorriu, enquanto jogava uma olhada de ps a cabea. O
     cabelo solto lhe caa sobre as costas e os seios, talheres agora por uma
     bata de l que se aderia a seu contorno. Caminhou os passos que o
     separavam de sua esposa. J perto dela, permaneceu quieto uns
     instantes, inspirando a fragrncia de sua pele. Agora seus olhos
     percorriam cada centmetro do rosto dela, de seu pescoo, de seus seios.
     Tomou em suas mos uma mecha de cabelo to comprido que quase
     roava os quadris da jovem. O levou ao nariz e absorveu seu perfume,
     fechando os olhos quando o aroma o alagou. De Silva ardia de desejo.
     Quando a soltou, a juba caiu pesadamente.
          Fiona estava alterada. No podia falar, nem brigar; sentia que as
     foras a tinham abandonado, e uma estranha sensao de comicho lhe
     percorria o corpo.
          --Realmente crie que devo bater na porta da habitao de minha
     esposa?
          Ela no soube o que responder.
          --O que necessita, senhor de Silva? --sussurrou.
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          Baixou a cara, dando um passo atrs. Juan Cruz lhe levantou a
     cabea roando apenas seu queixo com os dedos. Os aladares que
     emolduravam o rosto da jovem pareciam danar ao ritmo do brilho do
     abajur de sebo, que acentuava ainda mais o tom avermelhado de seu
     cabelo. Por momentos o tornava quase de um carmim nacarado, e logo
     seu matiz trocava de mais intenso a mais suave, ao compasso do
     movimento contnuo da chama.
          --O que necessita? --voltou a perguntar Fiona com a voz em um
     fio.
          --O que necessito, perguntas? --De Silva sorriu outra vez--. S
     queria te avisar que manh, logo que amanhea, sairemos para a estadia.
     Desejo que para essa hora estejam preparadas; no quero perder um s
     minuto.
          Deu meia volta e abandonou o quarto. Quando Fiona atinou a
     reagir, de Silva j tinha deixado a habitao.




                                       Captulo 5
          Juan Cruz fechou os olhos. No desejava dormitar: precisava
     pensar. Fiona, sentada frente a ele na volanta, continuava lendo seu livro
     de tampas vermelhas, embora sabia que fazia meia hora seu olhar se
     perdia na mesma pgina.
          casou-se com ela porque queria unir-se a uma mulher de linhagem
     que lhe tirasse o ltimo vestgio de arrivista. O dinheiro tinha feito
     muito. Sua estreita relao de mais de vinte anos com Rosas tinha feito
     outro tanto. De todas maneiras, ele sabia que a gente de ascendncia o
     olhava com desprezo e arrogncia por sua origem incerta, por ser um
     bastardo. s vezes desejava gritar aos quatro ventos sua verdade; mas
     no podia, fazia uma promessa.
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           No era o olhar altivo das pessoas com linhagem o que lhe
     incomodava; simplesmente precisava branquear seu sobrenome para
     que os negcios lhe facilitassem. Alm disso, desejava um herdeiro que
     continuasse o que ele tinha construdo.
           Por isso a tinha eleito. Ela era da mais alta sociedade portenha, seu
     av era um dos pecuaristas mais reconhecidos da Federao, sua tia
     Tricia tinha contrado matrimnio com um famoso comerciante ingls e
     vivia agora em Londres. Todas essas coisas o tinham decidido.
           Mas, por que insistia nesse raciocnio? Ele jamais se enganou. por
     que o estava fazendo agora? Ou acaso no recordava o primeiro dia em
     que a viu? No trio do Socorro, depois da missa do domingo, com seu
     vestido de loira lils claro e a mantilha de encaixe branco que lhe cobria
     a cabea e emoldurava as linhas femininas mais belas que ele tivesse
     visto.
           --Nem o pense, senhor de Silva --lhe tinha sussurrado ao ouvido
     Mercedes Senz nessa ocasio--.  inalcanvel.
           Mercedes Senz no sabia que para ele nada era inalcanvel.
     Entretanto, devia reconhecer que por aqueles dias Fiona Malone lhe
     tinha convertido em uma obsesso. Era difcil encontr-la nas reunies,
     quase nunca ia; jamais percorria a rua da Florida depois de missa os
     domingos. Mais estranho ainda era ach-la no passeio da Alameda, ao
     que s concorria em contadas ocasies para montar seu cavalo, afastada
     de todos e sem dirigir um olhar ao grupo de gente; jamais assistia a
     tomar o ch ao da Manuelita as quartas-feiras. A obsesso o levou a
     averiguar a respeito de sua famlia. Misia Mercedes o ps a par da
     calamitosa situao econmica em que se encontrava seu av.
           Entreabriu os olhos ao escut-la espirrar. Tinha sido um som curto,
     delicado, at divertido, como o de um gatinho. Observou-a repassar seu
     nariz com um leno de linho e seus modos lhe resultaram to femininos
     que no pde evitar que seu peito se enchesse de uma sensao de
     orgulho. Fiona era distinta a todas. Sua rebeldia, sua inteligncia, sua
     liberdade, faziam-na diferente. Seus arrebatamentos e mpetos eram
     definitivamente divertidos. Alm disso, estava ferida porque se sabia
     comprada e isso tinha jogado por terra seus sonhos romnticos; j o
     tinha advertido misia Mercedes quando lhe exps seu plano.
           E o que lhe importavam os sonhos romnticos de uma jovem que
     nada entendia da vida, que sempre tinha tido tudo em bandeja de prata,
     que jamais tinha passada fome ou fria? Sua inflexibilidade, sua extrema
     severidade, inclusive sua crueldade, tinham-lhe merecido a de Silva o
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     famoso mote: o diabo. Mas ser assim lhe tinha servido, e muito. Seu
     mundo era distinto, ao conto de fadas no que pareciam estar os meninos
     e meninas bem da cidade. Viver no meio do campo, entre gachos
     brutos, tendo que ulcer-las mos at as ver sangrar nada mais que por
     uns centavos para comer, e defendendo o pouco que tinha com unhas e
     dentes, isso no era um conto de fadas. Dirigia o faco como ningum e
     era famoso por suas punhaladas certeiras e mortais, que lhe tinham
     granjeado desde muito jovem o temor e o respeito dos gachos e ndios
     dos pampas; seu nome tinha transpassado os confine de suas estadias
     para chegar alm da fronteira.
           --Senhor de Silva, estamos chegando!
           A voz do lacaio ressonou dentro da volanta e sobressaltou s duas
     mulheres. Juan Cruz no demorou para sair de seu ensimismamiento.
           --Por Deus e Mara Muito puro! --exclamou Maria, com a vista
     cravada na paisagem.
           A curiosidade carcomia a Fiona, mas seu orgulho no lhe permitia
     aparecer pelo guich. Tinha fechado o livro, que descansava agora sobre
     seu regao, e insistia em retorcer o pauelito de linho entre suas mos.
           --Maria, te deixe j de tanto dramalho e entra! No pode ter meio
     corpo fora do carro --exclamou Fiona em ingls, descarregando toda a
     tenso na pobre mulher. Maria, sem emitir som, acomodou-se
     obedientemente ao lado de sua menina. Sabia que quando sua jovem
     patr lhe falava nesse idioma era porque desejava que um terceiro no a
     compreendesse ou porque estava furiosa com ela. Mas a imagem do que
     acabava de ver voltou a refletir-se em sua retina e, esquecendo a
     provocao da Fiona, comentou:
           --OH, Fiona! Deveria v-la,  preciosa. --Continuando, e sem olhar
     ao Juan Cruz, disse--: Senhor, tem voc uma casa muito belo.
           --Obrigado, Maria.
           Fiona teria querido estrangular a Maria. sentia-se trada ao v-la
     tratar com tanta deferncia a de Silva. E embora a fulminou com o olhar,
     s obteve da mulher um gesto de descaramento que a deixou atnita.
           --Talvez deveria fazer caso a Maria. A vista da manso se aprecia
     muito melhor daqui --adicionou Juan Cruz.
           --Desgraadamente para mim, senhor, terei toda a vida para
     apreci-la. por que adiantar a tortura?
           O sarcasmo do comentrio incomodou a de Silva: entretanto no o
     demonstrou. Ao contrrio: fixou seus olhos nela e lhe dedicou um olhar
     amoroso.
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           Maria se incomodou pela acidez, das palavras de sua ama. Sabia
     que podia ser venenosa com as pessoas que lhe desagradavam, mas
     devia tratar de trocar essa atitude imatura com seu marido.
           Fiona jamais tinha visto algo como aquilo. A impresso que lhe
     causou a manso de Silva a deixou sem flego. Seu rosto deixava
     entrever facilmente a fascinao que a embargava.
           Elseo a ajudou a baixar os degraus da carruagem. Seus olhos no
     podiam apartar do palacete que se erguia frente a ela. Era majestoso,
     parecia a residncia de algum rei europeu, uma dessas que via nos
     quadros que aunt Trcia lhe enviava de Londres. Desde dois pisos, muito
     mais elevada que os altos do Riglos, estava claramente dividida em
     caminhos asas separadas por uma construo circular que finalizava em
     um teto cnico com uma pequena clarabia em seu pice, como se se
     tratasse de um abrigo. Na parte superior, cada uma das asas possua
     vrias puertaventanas que davam a um varanda deslocado que as
     comunicava. O teto era a duas guas, de modo tal que algum caa para
     diante e podia ser divisado em sua totalidade, enquanto o outro se
     perdia por detrs e era difcil v-lo. O telhado era estranho; de cor negra,
     brilhava sob a luz do sol e se tornava por momentos de uma cor azul
     ptrea que logo voltava a converter-se em azeviche. Tempo depois
     soube que se tratava de uma rocha muito exclusiva chamada piarra,
     que seu marido tinha feito trazer de umas pedreiras na Itlia.
     Finalmente, e sobre a cumbrera do telhado, um corrimo o circundava
     de um extremo ao outro, lhe imprimindo um toque to especial como
     estranho para a poca. Sua soberba fachada cinza calcria possua
     alguns detalhes em tijolos cor terracota que bordeaban os sotabancos das
     puertaventanas.
           Quo nico cruzou por sua mente nesse momento foi que jamais
     poderia terminar de conhecer aquele palacete que se erguia arrogante
     ante ela. A incrvel manso era uma prova mais do poder e domnio de
     seu marido, que tanto tinha podido construir essa fastuosa casa como
     tom-la a ela em troca de algumas avultadas dvidas. Este pensamento a
     afogou, e uma sensao de angstia lhe oprimiu o peito.
           Vrias faxineiras apareceram pela porta principal para receber ao
     patro e baixaram solcitas as escadas de mrmore at alcanar o
     caminho de pedregulho no que esperavam as trs volantas. Algumas
     eram negras, outras mestias, e todas vestiam impecveis guarda-ps
     brancos e levavam as cabeas cobertas com lenos vermelhos.
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           Fiona, ainda de p perto do carro, divisou entre a servido a uma
     negra que se destacava por sua vestimenta. Um traje de seda borravino
     com detalhes em encaixe cor marfim festoneando o decote, demonstrava
     que se tratava de algum especial. Obviamente, essa era a negra que se
     supunha sua me. Mas no podia ser certo; os rasgos do Juan Cruz no
     apresentavam nem sequer um espiono da raa africana que to bem
     caracterizava  mulher. De lbios muito grossos, nariz largo e esmagado
     contra o rosto, olhos um tanto achinados, frente ampla e cabelo hirsuto e
     negro, essa mulher no podia ser sua me. A divisa ferroou que a negra
     tinha acomodado no lado esquerdo de sua meio doido era to vistosa
     que Fiona sentiu que a sua apenas se via.
           De Silva estava afastado, perto da primeira volanta, dando ordens
     aos outros choferes, quando seu olhar se encontrou com a da
     Candelaria. Fiona soube naquele instante que seu marido a adorava:
     jamais havia visto semelhante expresso em seu rosto. Pareceu que os
     olhos lhe iluminavam como os de um menino frente a um doce,
     enquanto o sobrecenho, sempre franzido, lhe suavizava. aproximou-se
     de grandes limiares  mulher, que o observava sria, mas no zangada.
           --Esperava-te ontem  noite --disse a negra Candelaria com ar de
     repreenso, provocando o sorriso cmplice do Juan Cruz, que tomou
     pelos ombros e a beijou nas bochechas.
           Logo, conduziu-a onde Fiona, que no podia apartar seu olhar da
     dele. De Silva a escrutinava seriamente como lhe dizendo "te atreva com
     ela e lhe Mato".
           --Candelaria, apresento a minha esposa, a senhora Fiona de Silva.
     Fiona, Candelaria  como uma me para mim; espero que a trate com o
     respeito que merece.
           -- um prazer, senhora.
           A jovem a beijou em ambas as bochechas, tal como visse faz-lo a
     seu marido. sentiu-se estranha ao conferir esse trato to especial a uma
     negra; por aquela poca eram quase como escravos, mesmo que a
     Assemblia do ano XIII tivesse abolido essa prtica. De todos os modos,
     tinha a certeza de que com de Silva a seu lado nada voltaria a ser
     normal.
           --O prazer  meu, senhora de Silva --respondeu a mulher, sem
     dissimular seu desgosto.
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          As trs primeiras noites em La Candelaria, Fiona dormiu no sof
     da sala principal. Jamais consentiria em compartilhar uma habitao
     com de Silva; economizaria-se essa humilhao.
          De Silva, por sua parte, tampouco dava o brao a torcer e no lhe
     permitia ocupar outro dos tantos dormitrios da casa. Ou se instalava no
     dele ou em nenhum outro.
          O matrimnio ainda no se consumou, Fiona no queria
     compartilhar sua cama e, o que era pior ainda, olhava-o de soslaio e com
     desprezo. Estava de um humor dos mil demnios e os empregados da
     estadia eram suas vtimas. Nunca tinha resultado um patro fcil mas o
     pagamento era bom, seus campos os mais famosos, e trabalhar em uma
     de suas estadias ou no salga era uma chave segura para qualquer outro
     emprego. Agora, estava definitivamente insuportvel., jamais o tinham
     visto assim. Parecia um vulco a ponto de entrar em erupo,
     incomodava-se por tonteras e, por momentos, parecia distrado. Era
     bvio que se tratava do assunto com a mulher, concluam os pees na
     ronda do mate, perto do fogo, de noite.
          Por fim, a quarta manh, Mara despertou de seu incmodo sonho
     na poltrona. Ao erguer-se, ainda amodorrada e enjoada, todos e cada
     um de seus msculos estavam contracturados. As olheiras, cada vez
     mais violceas, acentuavam-se sob seus olhos avermelhados, e o
     semblante plido pela falta de bom dormir dava um aspecto
     fantasmagrico. Quase no tinha comido; sentia que tinha as paredes do
     estmago pegas, e isso lhe provocava uma espantosa sensao de
     frouxido.
          acomodou-se na poltrona com as mos sob a cintura e descobriu
     seu aspecto refletido em um espelho da sala. Quase cai de costas. Os fios
     de seu cabelo ruivo estavam murchas e estragadas e tinham perdido seu
     brilho natural. Sua bata, toda enrugada, j comeava a cheirar mau.
     Durante esses primeiros dias apenas se tinha podido lavar-se um pouco
     suas partes ntimas com um trapo embebido em gua de flores-de-
     laranja na diminuta habitao da Maria.
          --Vamos, minha menina.
          Quando Maria a chamava "minha menina" era porque estava
     sentindo pena por ela.
          --A negra Candelaria me h dito que deve te localizar na quarta
     habitao da asa direita --explicou sua criada.
          Fiona a olhou sentida saudades, franzindo o sobrecenho, enquanto
     mesaba as mechas de sua cabea.
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           --Isso te disse? --Observou-a assentir em silncio--. Pensar que eu
     sou a senhora da casa, e ela decide o que quarto posso tomar!
           --Bom, Fiona, coincide comigo em que no te comportaste
     justamente como a senhora da casa desde que chegou.
           --O que diz! O que pretende? Que durma com ele? Na mesma
     cama?
           Seu rosto refletia a funda perturbao que se deu procurao dela.
           --Mas Fiona! Voc aceitou te casar com ele. Sabe o que um homem
     espera de sua mulher. Sua tia Tricia lhe explicou isso... --Maria deixou a
     frase em suspense.
           --Aunt Tricia no foi muito explcita com esse tema. Sim, algo me
     disse mas... Camila tampouco sabe muito, embora pelo menos Lzaro a
     beijava nos lbios quando eram noivos. Eu, nem isso.
           Tinha baixado os olhos e a imagem de Silva e Clelia lhe
     apresentava agora mais ntida que nunca.
           Chegaram ao incio da escada de mrmore, com seu imponente
     corrimo de ferro negro e madeira escura. Era a primeira vez que Fiona
     subia  parte alta; os primeiros dias tinha perambulado entre a habitao
     de sua criada e os sales da planta baixa. Tinha matado o tempo lendo e
     escrevendo seu jornal ntimo, em ingls, pelas dvidas.
           Embora no o tinha visto virtualmente nesses dias, havia-se sentido
     humilhada, inerme e vulnervel frente a seu marido. Ele saa muito cedo
     pela manh, minutos antes de que amanhecesse; para quando retornava,
     j era de noite; passava como flecha para seu dormitrio na planta alta e
     Candelaria lhe levava algo de comer em uma bandeja.
           Sabia que a servido estaria fazendo disso a fofoca do ano. No lhe
     importava absolutamente; o que sim lhe importava era que essa fileira
     de rumores chegasse para ouvidos de sua famlia e seu av se inteirasse
     do plano que seu filho William e de Silva tinham esboado. Isso seria o
     fim.
           Chegaram  habitao; os bas com sua roupa tinham sido
     deixados a um flanco. No queria sequer imaginar o estado deplorvel
     de seus vestidos depois de vrios dias de fechamento; estariam mais
     enrugados que um fole.
           No podia neg-lo: a habitao, ampla como um salo, era
     deslumbrante. A cama com baldaquino era enorme, como para um
     matrimnio. "Para um matrimnio." sobressaltou-se. No seria essa,
     finalmente, a habitao de Silva? Correu espavorida por volta de um dos
     roupeiros. Mara, assombrada, seguiu-a com o olhar. Fiona abriu uma
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     das portas do armrio e comprovou que estava vazio. Suspirou aliviada;
     se a roupa de Silva no estava ali era porque essa no era sua
     antecmara. Quando Maria compreendeu a corrida de sua ama, arqueou
     uma de suas sobrancelhas com irritao. A seu entender, Fiona estava
     dirigindo mal as coisas.
           -- formosa, no o crie, Fiona?
           --No me parece --mentiu a jovencita, que no podia separar os
     olhos das paredes forradas com um estranho papel aveludado cor
     adamascada.
           --Por Deus, Fiona! Troca essa atitude, pelo bem teu e o de todos.
           A faxineira se dirigiu para ela e, tomando-a pelos ombros, sacudiu-
     a levemente, como se queria faz-la entrar em razo.
           --O que est procurando? Que seu av saiba toda a verdade? Isso
     quer? Porque te asseguro que isso o levar a tumba antes que as dvidas
     dos campos.
           Fiona abriu seus olhos to grandes que Maria pde ver dentro
     deles alguns derrames.
           --Isso quer, Fiona?  isso o que est procurando? --insistiu,
     encorajada ante a evidente vulnerabilidade da jovem.
           --No! No!  obvio que no.
           A sala de banho estava ao lado do dormitrio e s se podia
     ingressar por uma porta situada na parede direita. No centro, havia uma
     tina de lato transbordante de gua quente. O banho lhe sentou de
     maravilhas; Maria o completou com essncias de jasmins e lhe esfregou
     o pescoo e as duras costas com azeites aromatizados.
           Ao sair do toilette, chamou-lhe a ateno uma porta enfrentada,
     localizada-se na parede contrria. Caminhou descala para ali. Tentou
     abri-la, mas estava fechada com chave; quis farejar pelo olho da
     fechadura, mas algo o cobria do outro lado. Ao fim, deu-se por vencida,
     e, dirigindo-se  cama, pediu a Maria que acendesse o pebetero de prata
     que acabava de descobrir.
           Se arrellan entre as almofadas e deixou que seu corpo se relaxasse
     sobre o colcho. Sentiu que cada osso, cada msculo, cada tendo,
     acomodava-se novamente em seu stio, lhe provocando uma estranha
     sensao, entre prazenteira e dolorosa. Dormiu mais de oito horas
     seguidas.



           --Fiona! Acordada, vamos!
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           A voz da Maria parecia vir de ultratumba. Estava ainda dormida e
     as plpebras lhe pesavam toneladas; no podia abri-los. esfregou-se os
     olhos. Como na lonjura, escutava os passos pressurosos de sua criada.
           Tratou de se localizar a janela de sua habitao: no a encontrou.
     Mediu com a mo, procurando o leno em sua mesa de noite, mas a
     cama parecia no ter fim. Por ltimo, olhou para cima para situar a
     aranha com perucas que tanto gostava; s descobriu o teto do dossel
     coberto por uma magra musselina branca.
           --Onde estou?
           Embora sabia que no estava no dormitrio da casa de seu av a
     no ser no de Silva, precisou perguntar.
           --Encontra-te em casa de seu marido, o senhor dom Juan Cruz de
     Silva, recorda-o? --replicou Maria, seguindo o jogo.
           Por fim, Fiona se incorporou. Sentia uma dor muscular nas costas e
     a cabea lhe pesava. Em meio de seu embotamento atinou a reconhecer a
     Maria, abocada  busca frentica de algo dentro de um dos bas.
           --O que faz?
           --Vamos, Fiona, te levante. --Foi tudo o que lhe disse, de costas a
     ela, sem interromper sua tarefa.
           --No quero me levantar; quero seguir dormindo --disse com
     preguia e voltou a recostar-se sobre o travesseiro de pluma de ganso.
           --Vamos, Fiona!
           Esta vez a mulher deu meia volta e a olhou fixamente. Fiona voltou
     a incorporar-se.
           --Vamos, te levante! De Silva mandou dizer que te espera no
     comilo hoje s oito e meia para jantar --insistiu Maria, enquanto
     retomava a busca--. Ah, por fim! Encontrei-o! Por-te este;  muito belo
     e no est to enrugado --disse, mostrando em alto o vestido.
           --Que de Silva quer jantar comigo? Quem te disse?
           --E quem vai ser. Candelaria, pois --respondeu Maria, sem tirar os
     olhos do vestido--. Anda, te levante. Ainda h muito por fazer. Tenho
     que tratar de compor um pouco essas olheiras e te arrumar o cabelo;
     parece um ninho de ratos.
           Quando baixou ao comilo, de Silva e Candelaria j estavam
     sentados  mesa. Ao v-la entrar, Juan Cruz ficou de p e saiu a seu
     encontro; sem dizer uma palavra, ofereceu-lhe o brao para acompanh-
     la at seu stio, ao lado dele e frente a Candelaria. A mulher a observava
     seriamente, com um olhar carregado de desaprovao. "No ser fcil",
     pensou Fiona, lhe dirigindo uma olhada furtiva.
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           Uma vez em seu lugar, pela extremidade do olho tratou de olhar
     uma vez mais ao Juan Cruz. Seu cabelo escuro brilhava sob a luz das
     velas por efeito do fixador com o que o tinha penteado, tudo para trs;
     Fiona, perplexa, teve que admitir que lhe sentava muito bem. Essa noite
     vestia uma impecvel camisa de cambraia branca com punhos de
     encaixe da mesma cor. Ela odiava os coletes tintos rameados em negro,
     mas ao Juan Cruz ficava muito bem o seu, talvez pelo contraste com sua
     pele to branca e o cabelo to escuro, talvez pela forma em que
     contornava seu peito.
           Estava nervosa; as mos lhe tremiam, e lhe punham cada vez mais
     midas  medida que os minutos corriam e ningum falava. Quando as
     tripas comearam a lhe fazer rudo temeu que Juan Cruz ouvisse.
     Tomou sua taa de cristal e bebeu um pouco de azedo, mas a acidez da
     bebida sortiu o efeito contrrio: acentuou ainda mais o vazio do
     estmago e os rudos de suas vsceras. Tinha desejos de levantar-se e
     sair correndo sem dar nenhuma explicao, apesar de que lhe tinha
     prometido a Maria que se comportaria como uma dama.
           --A habitao resultou de seu agrado, Fiona?--perguntou Juan
     Cruz, rompendo abruptamente o silncio.
           --Sim, senhor. --Sua voz soou como um grasnido que a encheu de
     vergonha; seu rosto ficou de mil cores e, rapidamente, baixou a cara.
           Naquele momento uma das faxineiras anunciou a presena de um
     mensageiro.
           --Quantas vezes devo repetir que no devem me interromper
     quando estou jantando! --vociferou de Silva.
           A jovencita tremia, com as mos apertadas no regao e os olhos
     cravados no cho. Fiona, aterrada como se lhe tivesse gritado a ela, pde
     sentir ao longo de sua coluna vertebral o pnico que de Silva inspirava.
     Candelaria, em troca, olhava-o sem alterar-se.
           -- um mensageiro de sua excelncia, patro. Pensei que..,
           --Est bem, faz-o passar --resmungou.
           Juan Cruz, mal-humorado, arrojou o guardanapo sobre a mesa e se
     incorporou. Ao cabo, ingressou um homem envolto em uma capa
     vermelha de nanqun rstico, com o clssico gorro ferroou cansado para
     um flanco que levavam os servidores de Rosas.
           --Viva a Santa Federao! --gritou a modo de saudao.
           --Viva --disseram ao unssono Candelaria e Juan Cruz sem muito
     mpeto. Fiona permaneceu calada.
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           --boa noite, dom de Silva. Senhoras... --inclinou sua cabea,
     primeiro em direo a Candelaria, logo a que certamente seria a senhora
     de Silva.
           --O que o traz por para c, Cosme?
           --voc desculpe a hora, dom Jun Cruz. Mas sua excelncia o
     governador envia a voc uma missiva que pediu seja respondida agora
     mesmo, assim eu levo a resposta antes do amanhecer.
           O homem estendeu a mo ressecada e gretada pelo frio e lhe
     entregou um sobre lacrado com o selo de Rosas. Juan Cruz quebrou o
     ato de lacre, abriu o sobre e retirou um papel cor giz dobrado em dois.
     Candelaria ficou de p e abandonou o comilo sem dizer uma palavra.
     Fiona a observou partir com os olhos dilatados pela surpresa. Juan Cruz,
     que parecia no haver-se precavido da escapada da mulher, continuou
     enfrascado na leitura da carta.
           Ao cabo de uns minutos, a negra retornou com um tinteiro, uma
     pluma e uma barra de lacre que depositou sobre a mesa. Juan Cruz, que
     acabava de finalizar a leitura da missiva, tomou a pluma, embebeu a
     ponta no tinteiro de bronze e comeou a rabiscar algumas palavras na
     folha cor giz. Fiona ficou atnita; parecia que de Silva e Candelaria
     podiam comunicar-se com apenas olhar-se, era estranho v-los juntos.
     Sentiu certa inveja e cimes dessa mulher que tanto conhecia seu marido
     e que, mais que am-lo, parecia idolatr-lo.
           --lhe diga a Carmelita que te d algo bem quente para comer e um
     pouco de vinho antes de partir. lhe pea ao Celedonio que te troque o
     cavalo, o teu deve estar esgotado--ordenou de Silva ao mensageiro,
     enquanto derretia o lacre em uma das velas dos candelabros de prata.
     Continuando, estampou o selo de seu anel e lhe entregou o sobre.
           --Obrigado, dom Juan Cruz. Obrigado e boa noite. --Olhou s
     damas e novamente saudou com a cabea.
           --boa noite. --Esta vez, responderam os trs.
           O jantar foi servida. Tudo estava delicioso, mas Fiona quase no
     provou bocado.
           --No lhe gostou da comida, senhora? --perguntou Candelaria,
     seria como sempre e com tom imperioso--. Mara me disse que o pudim
     de espinafre  um de seus pratos prediletos.
           --A comida  toda deliciosa --se apressou a responder Fiona--.
     Mas no tenho muita fome por estes dias.
           --Est muito magra. Deve comer para estar forte, senhora.
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           O comentrio da Candelaria soou mais como ordem que como
     sugesto.
           --Necessita algo mais em seu quarto? Deixei toalhas no roupeiro
     do penteadeira e mais lenis nas gavetas do armrio.
           --Obrigado, Candelaria. Tudo est bem. --Fiona se levou a taa
     aos lbios para no ter que falar mais. Pressentia que em qualquer
     momento cometeria algum engano do que se arrependeria.
           Juan Cruz, que observava alternadamente a uma e a outra, no
     pde deixar de perceber a tenso entre elas.
           --Jun Cruz, vais tomar o mate como sempre no estudo?
           "Juan Cruz, vais tomar o mate como sempre no estudo?". Fiona
     repetiu em sua mente uma a una as palavras da Candelaria com o tom
     mais zombador. Uma raiva incompreensvel a alagava cada vez que a
     negra tratava com tanta familiaridade a seu marido. Era evidente que
     conhecia cada um de seus segredos e costumes. Sabia bem o que gostava
     e o que odiava, suas preferncias e seus deleites. Ela, em troca, no sabia
     nada dele.
           --No, Candelaria. Manda preparar o salo azul. Tomarei um
     conhaque ali junto  Fiona.
           Juan Cruz olhou a Fiona de flanco e seus olhos se encontraram por
     um instante. As plpebras da jovem bailotearon, sem saber o que fazer.
     Finalmente, deixou que seu olhar se perdesse outra vez em algum
     bordado da toalha.
           --Faz dias que no abrimos esse salo... --comentou Candelaria--.
     Deve estar gelado, Y...
           --No importa, que levem o braseiro --ordenou ele, sem tirar a
     vista do cabelo de sua mulher.
           Fiona parecia ter perdido a acidez dos ltimos dias; no usava
     palavras acres e estava um pouco mais serena. Juan Cruz tinha cedido
     outro tanto; em grande parte, pelos rogos da Candelaria que, embora
     no adorava a muchachita, tampouco podia v-la dormir em um sof ou
     perambular pela casa como alma em pena sem ter piedade dela. Alm
     disso, j no suportava a fofoca das faxineiras.
           Fiona ficou pasmada ao entrar em salo. Nem sequer misia
     Mercedes tinha uma habitao como essa em sua casa. Acabavam de
     ilumin-la e as velas acesas refletiam sua chama sobre as perucas da
     aranha e mirades de luzes iridescentes sulcavam a sala de ponta a
     ponta. O empapelado azul escuro chegava at a metade das paredes,
     que finalizavam em uma estucado cor cinza clara, quase branco. O piso
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     de madeira, de um tintura escuro, ressonava  medida que os botas de
     cano longo da Fiona avanavam. Os mveis de mogno escura eram de
     estilo ingls e os canaps estavam estofos em um tecido adamascado
     amarela muito tnue. O piano foi o primeiro que atraiu sua ateno.
     Com taconeos curtos e pressurosos, chegou at ele; apoiou a ponta dos
     dedos sobre a madeira brunida da cauda e acariciou a superfcie.
           --Mandei-o comprar para ti antes de nos casar. Disseram-me que
     toucas o piano melhor que Favero. --A voz profunda do Juan Cruz
     carregou o ambiente de uma tenso intratvel--. E como nunca acessou
     a toc-lo em casa de seu av, pensei que talvez agora... bom...
           A frase ficou em suspense. Fiona, de costas a ele, no disse nada.
           Nesse momento, entrou no salo uma faxineira. Trazia, em uma
     bandeja, uma garrafa de cristal, duas taas e uma cesta de filigrana com
     pstelitos de pssego.
           --Branca, fechamento a porta.
           A domstica fez uma reverncia antes de trancar as duas folhas de
     madeira quase sem fazer rudo.
           --Jamais pede as coisas "por favor", senhor?
           --No --respondeu Juan Cruz, divertido.
           Fiona continuou calada, investigando as paredes do salo,
     carregadas de quadros de grande beleza e mestria.
           --Fiona, poderia tocar algo para mim, "por favor"?
           Os olhos faiscavam a de Silva, e seus lbios se curvavam em um
     sorriso picasse. Fiona deu meia volta para olh-lo, surpreendida pelo de
     "por favor". No pde advertir o gesto divertido de seu marido, que
     agora, enquanto servia a bebida, dava-lhe as costas. Um momento
     depois, quando chegou at ela para lhe oferecer a taa, seu rosto estava
     to srio como de costume.
           --Quantos "por favor" mais devo dizer antes de que toque algo
     para mim no piano? --perguntou, ao tempo que lhe alcanava o gole.
           Ela se molhou apenas os lbios: a bebida lhe resultou muito forte.
     Deixou-a sobre uma mesa. encaminhou-se ao piano e se sentou frente a
     ele. Levantou a tampa e admirou por uns instantes as teclas novas e
     reluzentes. Fez ranger seus dedos, e logo brincou uns segundos,
     provando sons e acordes. Perfeito.
           De Silva, enquanto isso, acomodou-se em um confidente, e taa em
     mo, preparava-se a escut-la tocar. As primeiras notas chegaram a seus
     ouvidos e fechou os olhos; parecia-lhe que assim podia as escutar
     melhor. Pouco a pouco, a melodia foi entorpecendo-o, lhe transmitindo
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     uma sensao de paz e harmonia. Imaginou que os lnguidos dedos da
     Fiona se enchiam de vigor e descarregavam todo seu mpeto sobre as
     teclas. Imaginou que o gesto ousado de seu magnfico rosto,
     concentrado agora na melodia que to magistralmente estava
     executando, permutava-se em uma expresso anglica como a que lhe
     visse alguma vez. Imaginou que suas mechas de cabelo cor fogo
     escapavam do meio doido e bailoteaban enlouquecidos sobre suas
     tmporas. Imaginou seu peito agitado e seus lbios apertados, Y...
           Quase, como um autmato, chegou onde ela e lhe posou a mo
     sobre o ombro, nu e suave ao tato como veludo. O roce desses dedos a
     sobressaltou e deixou de tocar. De Silva a sentiu estremecer-se com seu
     contato.
           --No deixe de tocar. --A voz dele soou tensa e torturada.
           Com menos brios que antes, Fiona retomou a melodia, mas a mo
     do Juan Cruz sobre ela a tinha em velo. Sentia que seu corao palpitava
     alocadamente e sua respirao se acelerava. Sentia no estmago o
     mesmo comicho que tanto a tinha aflito quando passaram a noite na
     estalagem, uma sensao estranha que antes nunca havia sentido, e uma
     ansiedade que se contrapunha com o dio que aquele homem lhe
     inspirava.
           Juan Cruz no suportou mais: rodeou com suas pernas os quadris
     da Fiona e ficou sentado escarranchado detrs dela. Os sons do piano se
     cortaram em seco; o profundo silncio que seguiu denunciou a agitao
     em que ambos estavam sumidos. Com um movimento automtico, a
     jovem se correu para frente, at o bordo do tamborete.
           Fiona sentiu que sua mente comeava a girar vertiginosamente.
     Seu peito subia e baixava, sua garganta se ressecou e j no sentia as
     pernas. O que sim sentia sobre suas ndegas era a potente e ereta
     virilidade do Juan Cruz.
           As teclas retumbaram quando, desde atrs, de Silva entrelaou
     seus dedos com os dela, inertes sobre o piano, e a envolveu com seus
     musculosos braos. Ato seguido, Juan Cruz afundou o rosto no cabelo
     da Fiona. Inspirou profundamente e se encheu de essncias balsmicas
     que despertaram nele um desejo irrefrevel. Tomou o pescoo de sua
     mulher com ambas as mos e o beijou com umas nsias que
     alimentavam ainda mais sua paixo.
           A garganta da Fiona se contraiu convulsivamente quando sentiu as
     mos speras do Juan Cruz. Estava assustada, morto de medo. Jamais
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     tinha experiente semelhante intimidade com um homem. Sentia que o
     flego de seu marido lhe queimava o pescoo.
           --Fiona...
           A voz do Juan Cruz a assustou mais que nunca. Como pde,
     liberou-se da presso que a mantinha apanhada contra o piano;
     espavorida, abandonou o salo azul.
           Estava a ponto de alcanar o patamar da escada quando a seus
     ouvidos chegaram, magnificamente executados, os primeiros acordes de
     uma sonata do Mozart.

           --Saia, Maria. -- Depois de uma pausa, adicionou--: Por favor.
           Juan Cruz ingressou pela porta que se elevava na parede esquerda
     do quarto da Fiona. Evidentemente, a habitao contiga era a sua.
           Ao escutar sua voz, Fiona emergiu dos braos da Maria que, desde
     fazia uns minutos, consolava-a. Tinha o rosto avermelhado e as pestanas
     empapadas. A criada a separou de seu regao e a deixou sozinha ao
     bordo do leito.
           Uma vez que se certificou de que a criada estava fora e a porta
     tinha sido fechada Juan Cruz se aproximou dela. Com os cabelos
     revoltos e o engominado perdido, mechas caprichosas lhe caam agora
     livremente sobre o rosto. tirou-se o colete rameado e levava a camisa
     fora da cala, aberta at a metade do peito.
           O que lhe estava acontecendo? por que com ela no podia? Era
     seriamente inalcanvel? Estava enlouquecendo; pressentia que se no a
     fazia sua algo exploraria dentro dele. Mas no queria machuc-la. Por
     Deus! A fim de contas, s tinha que arroj-la sobre a cama, lhe abrir as
     pernas Y... Sim, assim era sua natureza, embora o que parecia ser sua
     prpria essncia lhe voltava em contra quando se tratava da Fiona.
           --Fiona... --Tentou que sua voz se ouvisse tranqila e doce.
           A jovem levantou o olhar choroso fixando-a na dele. Parecia um
     animal ferido disposto a qualquer ardil com tal de defender-se.
           --Fiona...  minha esposa.
           No sabia o que dizer. Jamais lhe tinha faltado eloqncia;
     ningum se atrevia nunca a refutar seus agudos e convincentes
     argumentos. Fiona, em troca...
           Tentou tom-la pelo brao. A jovem se separou dele como se sua
     mo a tivesse queimado. Deu um coice e se escabull pela cama para o
     outro setor da habitao.
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           --N se atreva a me tocar! --Escondida, Fiona tinha o olhar atento
     procurando a melhor oportunidade para escapar.
           --J me cansei de seus caprichos, Fiona Malone! Suportei-te mais
     do que minha mente pode compreender. encheste minha pacincia!
           De novo a fria esculpia em seu rosto esses sulcos profundos que o
     convertiam em outro ser: um ser diablico e posedo. Fiona tinha
     comeado a tremer; no sabia o que fazer para afugentar o de seu
     quarto.
           --Para que saiba, de Silva, voc no  meu primeiro homem! --
     gritou, em um intento desesperado por ganhar tempo.
           O infantil da suposta confisso fez rir a gargalhadas ao Juan Cruz.
     Agora, seu rosto se suavizou e j no parecia o monstro que tanto a
     assustava. Entretanto, era evidente que no tinha inteno de abandonar
     o dormitrio.
           --Isso j o veremos --disse ao cabo, com os olhos fixos no decote
     da Fiona.
           --No h nada que ver, senhor! Eu o estou dizendo!
           --Assim no h nada que ver... --repetiu ele, com ironia.
           A expresso de desconcerto de sua mulher o deixou atnito.
           --Realmente  mais candida do que imaginei, meu amor --
     concluiu, e avanou para ela.
           Fiona no o suportou mais e tratou de escapulir-se da habitao.
     Mas no foi suficientemente rpida. Com um gil salto, Juan Cruz lhe
     fechou o passo, e em um instante a teve apanhada em seus braos. Fiona
     se debateu com fria entre aquelas tenazes, desesperada-se por escapar.
     Seu mpeto comeou a desvanecer-se quando entendeu que de Silva era
     imensamente mais forte que ela. Seus msculos eram zunchos que a
     apertavam contra seu peito at sufoc-la. Uma sensao de raiva fez
     afluir as cores a suas bochechas. Estava vencida, humilhada, e no podia
     olh-lo pela vergonha. No queria perder essa batalha. Comeou de
     novo a lutar, em um ltimo intento por tirar-lhe de cima. Mas Juan Cruz
     a sujeitou mais forte ainda, at machuc-la.
           --Fiona... deve aprender a te relaxar. No vou fazer te danifico;
     somente quero fazer o amor contigo. Sou seu marido,  meu direito.
           --Direito adquirido como todo um cavalheiro, verdade?
           Foi mordaz e deu justo no branco: conseguiu ferir seu amor
     prprio. Mas no conseguiu que a soltasse; ao contrrio: arrastou-a sem
     o menor esforo at a cama e a depositou brutalmente ali, como quem
     arroja um costal de batatas ao cho.
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          A cabea da Fiona elevada no ar e seus cotovelos afundando-se no
     colcho, as pontas do cabelo roando a manta e o decote deslocado da
     camisola deixando entrever a perfeio dos seios, esses olhos que no
     cessavam de olh-lo e a boca entreabierta deixando escapar um ofego
     irreprimvel, tudo naquele momento o avivava.
          Fiona estava paralisada. Assim, sem poder articular palavra, viu
     como Juan Cruz se tirava a camisa e se desfazia logo da cala. Viu o
     peito nu de seu marido, empapado de suor que o fazia brilhar a pele.
     Apartou a vista e viu na parede a sombra dos msculos de seu torso.
          Ento, seus olhos se encontraram com os dele, enigmticos e
     profundos, e nesse instante Fiona compreendeu que a olhava em uma
     forma estranha, completamente nova, e advertiu que esse olhar parecia
     despertar nela sentimentos desconhecidos. E esses sentimentos, teve que
     admiti-lo, no lhe resultavam desagradveis.
          Um comicho a percorreu quando Juan Cruz comeou a
     aproximar-se dela, quase nu; uns cales curtos rodeavam suas pernas
     cobertas por um espesso plo negro e essa proximidade inquietante
     arrancou um gemido afogado a sua garganta. De Silva o escutou, e em
     sua boca, uma vez mais, desenhou-se esse sorriso entre divertida e
     zombadora. Fiona tratou de escapulir-se pelo outro flanco da cama; Juan
     Cruz a sujeitou pela perna e a arrastou para ele com facilidade.
          --No, por favor... me deixe--sussurrou Fiona, tratando de afastar-
     se.
          A voz lhe quebrou ao sentir o peso de seu corpo sobre ela. Com
     doura inesperada, Juan Cruz comeou a lhe acariciar o rosto, enquanto
     lhe dedicava uma dessas olhadas que tanto a desconcertavam.
          --me deixe, o peo por favor --insistiu a jovem, sabendo que era
     em vo.
          --No, Fiona, no. Esta vez sou eu o que te pede por favor --
     sussurrou ele. Beijou-lhe o pescoo e o aroma de sua pele o enlouqueceu.
     Habilmente, suas mos a despojaram da camisola--. Por favor, meu
     amor, por favor... Fiona... --voltou a sussurrar.
          Fiona j no podia lutar. Sua mente tentava ordenar a seus braos,
     a suas pernas, a seus dentes, que defendessem sua dignidade, mas uma
     fora desconhecida estava dobrando sua vontade.
          --me deixe, o suplico... --murmurou-lhe ao ouvido, j sem
     convico--. No me toque, por favor...
          --Fiona...  to formosa... Desejo-te tanto...
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           Era evidente que Juan Cruz de Silva no a escutava. Estava
     extraviado em um mundo de sensaes. Centenas de vezes tinha
     fantasiado com ela nua, como agora, mas nunca tinha imaginado a
     extrema magnificncia de seu corpo. Cada centmetro da pele de sua
     mulher era sua maior fortuna, seu maior Conquista. Por isso, tocava-a
     com suavidade, como se temesse danific-la, ou talvez manchar sua
     perfeio.
           --me deixe te mostrar, Fiona...
           Os lbios do Juan Cruz procuraram desejosos os dela, e pela
     primeira vez sentiram sua carnosidade. Sua lngua se abriu passo entre
     os dentes apertados da jovem e tentou sem xito brincar com a dela.
           Fiona sentiu que o mundo girava alocadamente quando as mos
     dele se fecharam brandamente sobre seus peitos nus. E a vertigem
     cresceu quando uns dedos peritos roaram seus mamilos endurecidos
     como se se tratassem de inapreciveis gema.
           Juan Cruz no suportou mais. O arremesso no pde ser lenta:
     estava transtornado pelo desejo que o consumia. Sabia que para ela era
     sua primeira vez, mas no podia esperar. As unhas da Fiona se
     cravaram em suas costas e um grito de dor que se fez vivo nela,
     destroou-o por dentro.
           --J est, meu amor, j passou... --sussurrava Juan Cruz,
     respirando com dificuldade sobre os lbios dela--. te Relaxe, Fiona. te
     relaxe e ver.
           Fiona, transida de dor como estava, no podia tirar os braos das
     costas de seu marido. depois de sentir esse rasgo, tinha permanecido
     hirta sob o corpo do Juan Cruz, que, entre gemidos e ofegos, parecia no
     poder deixar de mover-se dentro dela.
           de repente, algo ocorreu; sentiu que uma energia sulcava como um
     fluido veloz suas zonas mais ntimas, e isso a assustou; assustou-a
     porque a encheu de gozo, de um muito estranho prazer que a incitou a
     friccionar a plvis contra o corpo de Silva. Mas no, no queria faz-lo...
     no devia faz-lo.
           Fiona abriu desmesuradamente os olhos quando de Silva curvou o
     corpo para trs, separando o torso de seu peito, e levou a cabea para
     cima, como em transe. O homem soltou um grito profundo, dilacerador,
     semelhante ao de um animal ferido de morte, que a estremeceu de susto.
     Os braos de Silva se esticaram aos flancos de seu rosto, os msculos lhe
     remarcaram sob a pele transpirada e seus rasgos apolneos se deixaram
     ver quando, por fim, caiu exausto sobre o corpo nu dela.
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           Fiona sentia que o peito do Juan Cruz se sacudia e chocava
     ritmicamente contra seus seios. Aos poucos instantes, de Silva se retirou
     de em cima dela, tendeu-se a seu lado, e se cobriu a cara com o
     antebrao esquerdo. Ainda estava agitado.
           A jovem o observava atnita. No sabia o que fazer; se fazia algo
     depois disso? deu-se volta e contraiu instintivamente o corpo; pegou os
     joelhos ao peito, escondeu o rosto e ocultou as mos sob o queixo. Nesse
     momento, sentiu uma umidade fria entre as pernas, um lquido meio
     pegajoso que jorrava lentamente. Ao descobrir do que se tratava,
     proferiu um alarido to estremecedor que arrancou bruscamente ao Juan
     Cruz de sua letargia.
           --No deve preocupar-se!  absolutamente normal! --disse-lhe, ao
     descobrir a causa de seu pnico.
           O homem se incorporou e tratava de voltar o rosto da Fiona para o
     seu, mas a jovem, que no podia conter seus soluos, insistia em mant-
     lo oculto atrs de suas mos ensangentadas.
           --Assim que ningum lhe explicou isso... --De Silva no podia
     acredit-lo. Ela parecia to segura de si, to inteligente e cultivada--. 
     normal a primeira vez que o faz. Depois, nunca mais volta a passar.
           Fiona no queria escut-lo.
           --V-se... V-se, por favor --disse entre suspiros--. Por favor...
           Quando Juan Cruz abandonou a habitao, sua esposa no cessava
     de soluar. antes de fechar a porta, voltou seu olhar e a viu feita um
     bollito, acurrucada entre os lenis, com o cabelo esparso detrs dela. O
     corao lhe contraiu, mas outra sensao mais grata o embargou.
           Depois, de Silva se tendeu em sua cama, com o olhar fixo no cu
     raso, os braos estendidos para trs lhe servindo de travesseiro, um
     charuto que se consumia em seus lbios, e a imagem dela em sua mente
     ainda excitada.
           Na hora do jantar, quando Juan Cruz se apresentou no comilo, s
     Candelaria o esperava sentada  mesa.
           --Onde est? --quis saber.
           --desculpou-se com a Maria. Diz que no jantasse porque no tem
     apetite. --A negra parecia medir cada palavra; tinha advertido que Juan
     Cruz tinha cara de poucos amigos--. No tem que ser nada. Deve sentir-
     se um pouco cansada, j sabe, o ar de campo...
           Candelaria tentava suavizar as coisas. Dias atrs tinha havido
     outro escndalo, quando Juan Cruz descobriu que Maria lhe estava
     levando o caf da manh  cama.
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           --Nada de frivolidades em minha casa --havia dito a Fiona com
     dureza--. Desde manh, toma o caf da manh no comilo, como todos,
     s sete em ponto. --Sem dizer mais, retirou-se, deixando s duas
     mulheres boquiabertas.
           --Talvez esteja um pouco... --comeou a balbuciar a negra; mas de
     Silva j no a escutava.
           Subiu os degraus da dois, e rapidamente esteve na planta superior.
     Caminhou a passo rpido pelo corredor, chegou a seu quarto, e se
     plantou frente  porta que comunicava as habitaes: procurou abri-la.
     O nico ferrolho estava de seu lado, totalmente aberto; no entendia por
     que a porta no cedia.
           Depressa, saiu ao corredor e tentou entrar pela porta principal do
     quarto de sua esposa, mas tampouco pde. Provou vrias vezes o trinco,
     mas nada.
           De dentro, Fiona seguia com ouvidos atentos e os olhos muito
     abertos cada um dos movimentos de Silva. No lhe seria to fcil entrar
     em seu dormitrio esta vez. Com uma das cadeiras tinha trancado a
     porta comum, colocando-a reclinada em duas de suas patas sob o fecho;
     na outra, a que dava ao corredor, tinha jogado a chave que Maria tinha
     conseguido lhe arrancar a contra gosto a uma das faxineiras.
           Desde sua cama, escutava os inteis esforos do Juan Cruz e seus
     olhos pareciam sorrir satisfeitos. sentia-se divertida com a situao, e ao
     mesmo tempo um pouco estranha. No mais recndito de sua alma
     desejava que seu marido sorteasse cada uma das ciladas que lhe tinha
     tendido. Queria lhe ver o rosto, certamente encarnado de fria depois
     que abrisse a porta, para assim poder rir na cara com ironia e desprezo.
           Por uns segundos, os intentos cessaram e Fiona se sentiu
     decepcionada.
           Um momento depois, o estrondo que produziu o golpe do Juan
     Cruz sobre a porta l sacudiu. A cancela de madeira golpeou totalmente
     contra a parede: virtualmente se saiu de suas dobradias. O espelho que
     recebeu o impacto caiu feito pedacinhos, o que adicionou um pouco
     mais de escndalo  cena. Juan Cruz, com o rosto avermelhado e
     desenquadrado, no caiu de bruces por milagre. Tinha descarregado
     sobre a porta todo o peso de seu corpo.
           Fiona, boquiaberta, observava como seu marido recuperava o ar.
     Rgida, sentada no leito, presenciava a cena com a metade do corpo
     coberto pelos lenis.
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           Viu-o aproximar-se at os ps da cama Seus olhos, carregados de
     dio, pareciam vermelhos. Suas sobrancelhas, unidas em uma mesma
     linha, tinham recuperado esse aspecto satnico que conseguia imobiliz-
     la e emudec-la. Pressentiu que se aproximava seu fim.
           Juan Cruz chegou ao extremo do leito e, sem tirar seu olhar dos
     olhos da Fiona, sacudiu no ar os lenis que a tampavam, deixando-a ao
     descoberto. Sem lhe dar tempo a nada, tomou pelos tornozelos e a
     arrastou para ele como se se tratasse de uma boneca de trapo. Fiona
     gritou de terror.
           As pernas ficaram pendurando a ambos os flancos do corpo do
     Juan Cruz que, ao bordo da cama, erguia-se colossal frente a ela. Desde
     essa perspectiva, parecia um gigante. sentiu morrer quando lhe
     aproximou o rosto ao dele e tomou pelo pescoo. Tratou de baixar a
     vista: no suportava olh-lo.
           --Ah, no, minha senhora! Agora me vai olhar direto aqui --
     exclamou Juan Cruz, lhe tirando a mo do pescoo por um segundo, e
     destacando o sobrecenho. E como ela insistiu em no olh-lo, levantou-
     lhe o rosto, pressionando com seus polegares sob o queixo.
           --Se no desejar que te faa o amor --murmurou com dio--, no
     o farei; mas diga-me o de frente e no atue como uma menina malcriada
     e torpe.
           Juan Cruz permaneceu uns instantes mais sustentando a cara da
     Fiona; ela sentia que sua respirao lhe golpeava a pele. Pensou,
     aterrada, que com um movimento de suas mos poderia lhe quebrar o
     pescoo. Mas no o fez.
           Quando se separou dela, disposto a sair, seus olhos se chocaram
     com os serventes da manso, entre eles Mara e Candelaria, que
     contemplavam atnitos a cena da porta.
           --Fora! Fora daqui, corvos malditos! --gritou, fora de si.
           Todos se fizeram fumaa.
           antes de sair, divisou a cadeira que impedia o acesso pela entrada
     comum. aproximou-se dela lentamente. Logo, deu a volta, cravou seus
     olhos nos da Fiona, e lhe sorriu sarcsticamente.
           --Muito engenhosa --disse, com expresso turva. A madeira da
     cadeira rangeu com o chute que o propin de Silva, que a desencaixou
     do trinco, e a enviou a vrios metros de distncia.
           Fiona lanou um grito dilacerador, e um momento depois rompeu
     em um pranto amargo e lastimero.
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           --Acredita que lhe tenho medo! --bramou no momento em que
     Juan Cruz transpassava a porta--. Acredita que lhe temo porque pode
     me matar com uma s mo! No, no!
           De Silva se deteve sob o dintel.
           --Odeio-o, maldito de Silva! Odeio-o com toda minha alma! E voc
     sim deve ser o mesmo diabo como dizem, porque isto se converteu para
     mim no inferno!
           Sem sequer olh-la, Juan Cruz abandonou a habitao.
           Com as palavras da Fiona ainda lhe golpeando os ouvidos, Juan
     Cruz saiu ao corredor. J no havia ningum ali; os serventes tinham
     desaparecido.
           Baixou a passo rpido a escada e deu uma portada ao ingressar em
     seu escritrio. deixou-se cair no sof, e ocultou o rosto entre as mos. de
     repente, incorporou-se e foi direto  bandeja com o conhaque. serve-se
     uma taa e a esvaziou de um gole. Logo, sem alterar-se, apurou outras
     trs taas mais. Finalmente, voltou para sof, recostou-se, e fixou a vista
     no cu raso.
           Tratava de entend-la. Queria faz-lo, mas no podia. No
     conseguia ordenar seus pensamentos. Estava muito humilhado e ferido
     para controlar-se. Sabia que se retornava  habitao da Fiona era capaz
     de estrangul-la. Golpeou com rudeza o piso de madeira e proferiu um
     insulto. Depois, levantou-se do sof e abandonou o estudo.
           Viu a porta do salo azul entreabrida e o piano que tinha
     comprado para ela. Um calafrio recorrio seu corpo ao recordar aquela
     primeira noite. Tudo tinha comeado ali. A silhueta da Fiona, formosa e
     tentadora, reaparecia frente a ele, sentada nesse tamborete,
     descarregando sua paixo sobre as teclas novas do piano. Voltou a ver
     seu rosto concentrado, sua boca entreabierta, e a escutar os lembre
     harmoniosos que acompanharam o despertar de seu irrefrevel desejo.
     Alcanou depressa a porta principal e abandonou a manso. O frio da
     noite lhe golpeou o peito, mas no lhe importou. de repente, o som do
     violo dos pees alagou seus ouvidos; decidiu seguir aquela melodia at
     que a cor alaz do fogo apareceu uns quantos metros mais  frente. S
     desejava escutar a msica, de modo que se manteve afastado, mdio
     escondido. Entretanto, tampouco assim pde deixar de pensar na Fiona.
     Cada lembrana voltava para sua mente aoitando-o cruelmente. por
     que tinha travado as portas? por que se tinha encerrado? por que no o
     desejava? por que no era amvel e doce com ele? As perguntas sem
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     resposta lhe provocavam uma sensao de tristeza e vazio que nunca
     havia sentido.
          Quando voltou a olhar para o grupo de pees, as cordas do violo
     j no soavam e o fogo se extinguiu.




                                       Captulo 7
            depois da noite em que Juan Cruz rompeu a cadeira e a porta da
     habitao de sua esposa, no se soube nada dele por vrias semanas.
             manh seguinte, Fiona despertou de muito mau aspecto. Tinha
     passado uma noite terrvel, dando voltas na cama sem poder fechar os
     olhos sequer um instante. O pranto e a angstia faziam que a noite
     parecesse mais escura ainda. Em algum momento ouviu rudos na
     habitao do Juan Cruz. Uma portada, uns passos; depois, nada mais.
            Apesar de tudo, s seis e meia esteve em p para no faltar 
     entrevista do caf da manh. No lhe desagradava, absolutamente. Era
     um momento de fruio para ela; gostava de observar aos capatazes e
     aos pees que desfilavam um a um ante o Juan Cruz, com a cabea
     encurvada, a boina de felpa entre as mos e os ps indecisos ao
     transpassar o vo da porta, enquanto eles se deleitavam com o melhor
     caf com leite e os manjares mais deliciosos.
            --Viva a Santa Federao! --gritava-lhes de Silva, sem dar-se
     volta. Sua voz profunda e viril, que enchia a habitao, arrepiava-lhe a
     pele.
            --Celedonio, que selem meu cavalo. Sairemos a preparar o
     rodeio, ter que separar o gado para a feira --ordenava, sem olh-lo.
            --Sim, dom Juan Cruz --respondia submisso o capataz.
            --Miranda, j est preparado o gado para a feira?
            --Estamos com o Pi...
            --Est ou no est?
            --No, dom Juan Cruz.
            --Melhor que esteja tudo preparado antes que termine este caf
     da manh e v aos currais. Agora, sal daqui.
            --Sim, dom Juan Cruz.
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            O domnio que tinha sobre essa gente era incrvel; a pesar do
     temor que lhe tinham, o respeito que lhe professavam era total. Fiona se
     sentia extraamente orgulhosa disso.
            s sete, tal como seu marido o tinha ordenado, baixou as escadas
     rumo ao comilo. Vestia um traje de seda verde Nilo com uma bata de
     fofoqueiro em gaze da mesma cor que se ajustava a seu corpo lhe
     delineando as formas. Sabia que o avivaria. Os contornos de suas
     faces se destacavam melhor ainda com o meio doido: um s coque,
     algo estranho para a poca, que se levantava sobre o cocuruto, adornada
     com florcitas de seda. Os cachos de cabelo, que lhe caam ao redor do
     pescoo e sobre as costas, balanavam-se ao ritmo de seus passos.
            --bom dia, Candelaria --saudou, com tom despreocupado.
     Chamou-lhe a ateno que Juan Cruz no tivesse chegado ainda; mas
     por muito que lhe picasse a curiosidade estava decidida a no
     perguntar.
            --bom dia, senhora de Silva --respondeu framente a mulher.
            Fiona se sentou no stio de sempre e advertiu que no lugar de seu
     marido no havia nada. Nem taa, nem prato, nem guardanapo. Nada.
     Teria tomado o caf da manh j? No perguntou.
            Uma das faxineiras ingressou no salo com uma cafeteira de prata
     e lhe encheu a taa. Tomaram o caf da manh em silncio. Nenhuma
     das duas disse uma palavra e mantiveram seus olhares desviados para
     no enfrentar-se-a uma com a outra. Fiona, por orgulho. Candelaria, por
     raiva.
            Esse dia, e os que seguiram, no resultaram to desagradveis
     para ela depois de tudo. Desde que chegasse  estadia quase nunca tinha
     sado; por isso, a partir de ento, todas as tardes pedia ao Elseo que lhe
     selasse seu cavalo e, junto a ele, saa a percorr-la. Era fastuosa, mais do
     que ela se imaginasse, mais que as de seu av, que eram das mais
     importantes da Confederao.
            Eliseo estava muito contente ali. Tinha passado quase toda sua
     vida no campo, e agora, por fim, estava de volta em seu querencia. Ao
     nascer a menina Fiona e antes de que falecesse sua me, dom Sejam lhe
     pediu que se transladasse  cidade a viver com eles na manso da rua
     Larga. Nesse momento, com duas meninas na casa, fazia falta mais
     servio. Embora no duvidou um minuto em ir ao pedido de seu velho
     patro, lamentou ter que abandonar o posto de capataz que ostentava
     desde fazia anos em uma das estadias maiores do Malone. De todas
     formas, afeioou-se tanto com a Fiona que jamais voltou a pensar em
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     retornar ao campo. Agora tudo parecia haver-se acomodado; estava
     trabalhando em uma fazenda importante, junto  menina Fiona e junto 
     Mara, seu amante de muitos anos. depois de tudo, de Silva no era to
     mau patro. No era um tipo fcil, certamente. Dizia as coisas uma vez e
     terei que as fazer tal e como ele as tinha pedido. No se podia falhar;
     melhor, desaparecer. Tinha-o visto castigar duramente com sua vara a
     um peo por ter extraviado dois bezerros do rodeio que mais tarde
     foram encontrados mortos, destroados por alguma animlia. O homem,
     humilhado e cheio de dio, tinha tirado seu faco com a inteno de ferir
     o Juan Cruz, mas este, com a velocidade de um raio e a habilidade dos
     melhores, o arrebatou da mo sem que o peo se desse conta.
            --Desaparece de minha vista antes de que te estripe com seu
     prprio faco. No volte a aparecer por aqui em sua vida. Hoje lhe
     perdo isso, mas a prxima vez preferir no ter nascido.
            O homem se foi dali quase dobrado pela vergonha. O resto da
     peonagem no se atreveu a dizer nada; a cena era um claro exemplo do
     que seu patro era capaz de fazer quando algo no era de seu agrado.
            Apesar de tudo, dom Juan Cruz lhe agradava. E lhe agradava que
     se casou com a menina Fiona; ela necessitava um pouco de mo dura.
     Talvez seu av e a menina Tricia a tinham malcriado muito e ela agora
     tinha que pagar as conseqncias. Eliseo sabia que seu novo patro
     conseguiria dom-la.
            --Em que pensa? --perguntou Fiona.
            --Em voc, minha menina --respondeu Eliseo com serenidade.
            Fiona lhe sorriu. Depois, voltou o olhar  paisagem, acomodando-
     se um pouco sobre a arreios. Passaram uns segundos antes de que
     voltasse a lhe perguntar.
            --E que coisa pensa de mim?
            --Penso em voc e no patro.
            --Em mim e em de Silva? --Sorriu com desprezo.
            --Seu marido no  um mau homem, minha menina --disse
     Eliseo, carrancudo--.  um dos homens mais respeitados da Federao.
            --Sim. Um homem que precisa comprar a sua esposa porque de
     outra forma no a conseguiria --replicou ela.
            --Vamos, menina, voc jamais o teria aceito. Isso voc sabe. Ele
     fez o que lhe pareceu conveniente para t-la a seu lado.
            Fiona observou atnita a seu servente.
            --Puseste-te que sua parte...
            Eliseo sorriu antes de responder.
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            --O que me diz, menina? Se voc souber que eu lhe sou mais fiel
     que um co. O nico que lhe digo  que o senhor dom Juan Cruz no 
     to mau homem. Talvez deveria lhe dar uma oportunidade.
            depois desse interldio, os dois voltaram a inundar-se no verdor
     de La Candelaria e no cruzaram mais palavras.
            Uma tarde, Fiona decidiu visitar os pees que viviam mais perto
     da manso. S encontrou nas casas s algemas e aos meninos, pois os
     homens estavam esparramados ao longo e largo de La Candelaria
     fazendo seu trabalho.
            Receberam-na orgulhosos em seus lares. Embora humildes, Fiona
     pde ver que nada lhes faltava. Era evidente que no passavam fria nem
     fome.
            No pde deixar de perguntar-se se teriam chegado para ouvidos
     dessa gente os rumores de seus escndalos com de Silva. sentiu-se
     causar pena, embora o carinho com que a acolheram a ajudou a esquecer
     esse pensamento.
            Nenhum dos meninos ia  escola e, como quase todas as mes
     eram analfabetas, os filhos tambm o eram. Aquilo inspirou a Fiona a
     idia de abrir uma escola; ela seria a professora. Desde s pensar nesse
     projeto lhe voltaram um pouco as vontades de viver.
            Resultou muito estimulante organizar a abertura da escuelita.
     Decidiu que ditaria as classes na capela que Juan Cruz tinha feito
     construir no muito longe da manso. Ali havia bancos suficientes para
     todos os meninos; no altar colocaria seu suporte de livro de pintura, e
     ainda por cima dele uma piarra que tinha mandado comprar na loja de
     abarrote do Caamao.
            Tudo isto lhe trazia reminiscncias de seus dias de professora
     juntou a Camila na igreja do Socorro, onde, medeio s escondidas,
     ensinavam a ler e escrever. A Rosas, todo isso da escola e os livros
     parecia no lhe gostar de muito. Entretanto, at a Eugenia, sua amante,
     tomava classes com elas; obviamente, s escondidas do governador.
            O primeiro dia de classes esperou mais de uma hora; nenhum dos
     meninos se apresentou. Saiu da capela com deciso e partiu no carro a
     ver as mes.
            --Senhora, no  que no queira.  o Braulio. H-me dito que me
     vai matar a pauladas se sotaque ir  a Crispina a sua escola.
            A mulher estava assustada. Por um lado, no desejava
     contradizer  esposa do patro; pelo outro, no queria desobedecer a seu
     marido. No gostava quando da aoitava com o chicote.
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             --Mas... --Fiona no podia acredit-lo--. por que Braulio no
     quer que Crispina aprenda a ler e a escrever?
             --Diz que o patro de Silva no sabe nada da escuelita. E que
     quando voltar vai se pr furioso.
             A cena se repetiu com as outras mes. A causa era sempre a
     mesma: o medo que lhe tinham ao patro.
             Ao dia seguinte, Fiona preparou dois carros, a gente conduzido
     por ela e outro pelo Eliseo, que apesar de sua reticncia inicial,
     finalmente acessou a secund-la. Visitaram casa por casa e em cada
     visita somaram ao carro um ou dois meninos, os que houvesse na
     famlia. Quando tiveram recolhido dez meninos, Fiona ordenou ao
     Eliseo partir para  capela para comear a classe.
             Resultou muito divertido, para ela e para os dez meninos. Tinha
     esprito docente, sabia ensinar e conseguiu ganh-la ateno do
     auditrio, que era bastante matizado. Meninos e meninas de entre cinco
     e treze anos, alguns negros, outros mestios e mulatos, e at um ndio
     pampa.
             Cada dia, ela e Eliseo percorriam as casas dos meninos e os
     recolhiam. O grupo ia aumento obrigado a que os alunos contavam aos
     outros meninos quo divertido era estar com dona Fiona na capela.
     Alguns, por curiosidade, aproximavam-se das janelas e apareciam o
     nariz para espiar  professora. Fiona advertia esses ojitos curiosos, mas
     no lhes dizia nada; ao contrrio, se fazia a indiferente. Seguro que ao
     dia seguinte esses ojitos a estariam observando desde um dos bancos,
     junto ao resto dos meninos. Tarde detrs tarde, Fiona se preparava para
     dar suas aulas, que se tinham convertido para ela no prazer de seus dias.
     O fazia com muito desprendimento e carinho. Os meninos a queriam
     muito, embora eram relutantes a demonstrar-lhe porque lhes tinham
     inculcado o medo ao patro, e, depois de tudo, ela era sua mulher. De
     todas formas, alguns no podiam conter as nsias e lhe enchiam o
     escritrio de flores silvestres de belas cores e fragrncias. Fiona se sentia
     orgulhosa cada vez que as recebia e as oferendava  imagem de quo
     virgem havia no altar. Assim que entravam na capela rezavam em voz
     alta o Ave Mara; depois, comeavam a classe.
             Tampouco as mulheres tinham instruo alguma. S atendiam a
     casa e ao marido. Umas poucas sabiam costurar, e outras poucas,
     bordar. Fiona sentia que j era tarde para lhes ensinar a ler e escrever, e
     se devanaba os miolos pensando em alguma outra atividade que os fora
     til e lhes enchesse o esprito. Mas no lhe ocorria nada.
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            --No que pensa, senhora de Silva? --perguntou Candelaria uma
     manh, enquanto tomavam o caf da manh.
            Fiona levantou a vista e a fixou no rosto da mulher. Embora o
     gelo entre elas no se quebrado ainda, ao menos durante os cafs da
     manh que compartilhavam em solido se cruzaram algumas palavras
     amveis. Talvez porque os silncios se tornavam muito profundos e
     incmodos; ao melhor, porque queriam ser amigas. A questo era que se
     estava produzindo uma imperceptvel aproximao entre as duas.
            --Penso nas mulheres dos pees. No sabem fazer quase nada.
            --Assim viveram toda sua vida, senhora. No deveria preocupar-
     se com elas.
            A Candelaria incomodava a atitude da Fiona. Estava convencida
     de que, em vez de preocupar-se tanto por outros, deveria cuidar mais a
     manso e a seu marido.
            Fiona no emprestou ateno ao comentrio da mulher; resultou-
     lhe vazio. Tomou uma parte de po com uma feta de queijo em cima, e o
     levou a boca.
            --Que queijo to delicioso! --comentou, lambendo-se com
     sinceridade.
            --Fiz-o eu --disse Candelaria com orgulho.
            --Seriamente? --E sem esperar resposta, acrescentou--: 
     excelente!
            Fiona ficou um momento pensativa. Candelaria o advertiu e
     guardou silncio.
            --Isso! --disse Fiona de repente, entusiasmada--. Lhes
     ensinaremos a fabricar queijo. Abriremos nossa prpria queijaria. --
     Olhou a Candelaria, e, pela primeira vez, sorriu-lhe.

                                            * * *

           Fazia trs semanas que Juan Cruz tinha deixado A Candelaria e
     Fiona no sabia nada dele. Tratava de pensar que isso era o melhor; que
     se mantivera longe dela e que no a incomodasse nem a tocasse mais.
     Entretanto, uma sensao de vazio a perturbava sem que pudesse lhe
     encontrar uma explicao lgica.
           S em sua cama, quando a noite se extinguia como um lenho no
     fogo e o sol comeava a despontar, ela estava atenta a qualquer rudo
     que proviesse da porta contiga; talvez, ele chegasse esse dia. Logo,
     zangava-se tanto consigo mesma por aqueles pensamentos que
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     precisava deixar escapar um grito afogado entre os travesseiros, para
     aliviar o sentimento de culpa que a afligia. Ela odiava a de Silva. E no o
     necessitava.
            --Maria, sabe onde est de Silva? --perguntava de tanto em
     tanto, e fingia estar mais interessada no estado de suas unhas que no
     destino de seu marido.
            Maria, que a conhecia como se a tivesse parido, olhava-a de
     soslaio, e lhe respondia com um "No" mais que displicente, e
     continuava arrumando a cama.
            --No se comenta nada entre a servido?
            --E para que te interessa saber onde est? No est melhor assim,
     sem ele? At que volte, desfruta-o. No era isso o que tanto queria?
            --Justamente... O que quero saber  quando volta; assim sei at
     que dia exatamente posso desfrutar.
            --Est bem. Averiguarei onde est e quando volta, mas deve me
     confessar que o estranhas. Vamos, Fiona, no me engana.
            --O que diz, Maria! J est como Elseo, dizendo estupidezes.
            Luzia furiosa nessas ocasies. O rosto lhe encarnava e seu olhar
     parecia lanar chamas. Ento, Maria a deixava sozinha.



                                            * * *



            --Est trabalhando nas estadias do governador --comentou
     Maria uma manh.
            --Ah, para isso deve ter vindo aquela vez o mensageiro de Rosas,
     o tal Cosme! Lembra-te, Maria? Essa noite, enquanto jantvamos... --
     calou-se. Uma lembrana repentina a assaltou. Essa noite, no salo azul.
            --Deve ser --murmurou a mulher com apatia. Estava lhe
     costurando o arena do vestido e mantinha a vista fixa no trabalho.
            --E me diga... --Com atitude cmplice, Fiona se sentou junto 
     Maria no bordo da cama--. me Diga, que mais averiguou?
            --No se sabe quando volta. Pode chegar amanh como o ano
     que vem. --Maria, sem olh-la, continuou revisando o vestido de loira
     que Fiona vestiria ao dia seguinte em casa de seu av.
            --O ano que vem!
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            -- decepo o que escuto em sua voz, Fiona Malone? --A
     faxineira cravou os olhos nos de sua ama--. No deveria estar encantada
     de no voltar a v-lo at o ano que vem? Confunde-me, menina.
            Fiona no respondeu. Preferiu trocar de tema.
            --Em um dos estbulos, que est perto do tasque de tipas, sabe de
     qual te falo? Bom --seguiu Fiona--. A h uma mesa que est deixada
     de lado, arruinando-se. Tambm esto as cadeiras.
            A criada a ajudava a vestir-se e, sem olh-la, perguntou:
            --E o que h com isso?
            --Poderamos traz-la para a casa, limp-la, arrum-la. Eliseo
     sabe arrumar essas coisas, sempre as arrumava em casa da Grandpa.
     Bom, acondicionamo-la e a damos a Mara Isabel, a filha desse peo, o
     tal Rudecindo. Acaba de casar-se e no tem nada a pobre.  uma menina
     muito...
            --Fiona, pelo amor de Deus! Deixa em paz a mesa, a Mara Isabel,
     ao tal Rudecindo e a todo mundo! Est fazendo cada confuso desde que
     se foi de Silva, que em qualquer momento se vai armar uma de Pai e
     meu Senhor!
            Fiona a olhou sobressaltada. Maria nunca lhe tinha gritado assim.
     sentiu-se to mal que comeou a soluar. Ao v-la, a criada se
     arrependeu. Embora sentiu piedade por ela, seguiu pensando que
     algum devia lhe pr um freio; do contrrio, quando retornasse seu
     marido, sobreviria o desastre. As faxineiras da manso j comentavam a
     barafunda que ia desencadear a escuelita.
            --Ai, minha menina, no chore! --disse Maria, tratando de
     consol-la, e a abraou.
            Foi intil. Fiona se ovill em seu regao e seguiu chorando. Sabia
     que, depois de tudo, no tinha sido para tanto, mas as lgrimas
     brotavam e brotavam e ela sentia tanta angstia que no podia
     controlar-se.
            Maria entendeu que Fiona, por fim, desafogava-se. O matrimnio
     forado tinha sido para ela um verdadeiro tortura. A sensao de no ter
     sada, e a certeza de que se no se casava punha em perigo a vida de seu
     av, tinham sido muito. Maria deixou que descarregasse sua dor e no
     voltou a insistir em suas recriminaes; limitou-se a acarici-la e a beij-
     la no cocuruto.
            --Onde diz que esto a mesa e as cadeiras? --perguntou Maria
     quando lhe pareceu que sua ama se tranqilizou o suficiente.
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             Fiona emergiu de seus braos, com o rosto avermelhado e as
     pestanas midas. Estava adorvel, como quando menina.
             --A srio quer me ajudar com o da mesa?
             Maria assentiu com a cabea.
             --E pedir ao Eliseo que nos ajude, tambm? Ele nunca te diz que
     no.
             --Sabe muito bem que jamais te nego nada. E Eliseo, menos.
             Um momento depois, entravam em celeiro. Cheirava mau, a
     umidade. Da porta escutaram revoar uns pssaros na parte alta. O lugar
     estava lotado de coisas velhas; alm da mesa, havia centenas de objetos
     que ningum usava. A Fiona lhe fez gua a boca pensando no bem que
     lhe viriam essas coisas aos pees. Maria a olhou de soslaio sabendo o
     que pensava. mordeu-se o lbio para no lhe dizer nada.
             Um rudo estranho chamou a ateno da jovem; Maria assegurou
     que se tratava dos pssaros. O som se repetiu mais audiblemente e j
     no puderam atribuir-lhe s aves. Era um gemido.
             aproximaram-se com precauo, e detrs de uns tablones viram
     um homem recostado sobre o cho, com a perna ferida. Maria se
     assustou e insinuou saindo do estbulo em busca do Eliseo. Talvez se
     tratava de algum malfeitor que, escapando de uma maldade, ocultou-se
     no celeiro. Mas Fiona a deteve.
             Ao as ver, o homem tratou infructuosamente de incorporar-se.
     Fiona tentou ajud-lo, mas era muito pesado para ela.
             --me deixe ver sua ferida, senhor --pediu Fiona.
             Maria tentou armar um escndalo. Sua menina ia tocar a ferida de
     um asqueroso delinqente? Que loucura! Fiona a fez calar e lhe ordenou
     que trouxesse seu estojo de primeiro socorros.
             --O que lhe aconteceu, senhor? --perguntou Fiona, enquanto
     tirava como podia pedaos de cala do talho.
             O homem se mordia para no gritar. O que mais lhe pesava,
     entretanto, era que justamente a esposa do patro o tivesse encontrado
     ali, e nessas condies. Sua sorte no podia ser pior.
             --Ter que lev-lo com um mdico --disse Fiona, depois de
     examinar a ferida.
             --No, senhora, o suplico! Com um mdico no! --falou pela
     primeira vez o homem.
             --por que? Esta ferida se v muito mal, pode infectar-se.
             --No, senhora, se o patro se inteira me matar! Mata-me e me
     deixa sem trabalho!
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            Fiona o olhou e descobriu o terror nos olhos do homem. teve
     piedade dele. Ela mesma havia sentido esse pnico cada vez que de
     Silva lhe aproximava. disse-se que devia resolver o problema o mais
     rapidamente possvel e sem conseqncias nefastas para ningum.
            O homem parecia ndio, dos do sul. Era comum que seu marido
     os contratasse para determinadas tarefas do campo.
            --Est bem, no diremos nada. Mas algo devemos fazer com a
     ferida. Como se chama voc?
            --Sanc Niet, seu servidor, senhora de Silva.
            --Ah, voc sabe quem sou eu!
            --Todos por aqui sabemos quem  voc, senhora --adicionou
     Sanc Niet.
            Nesse momento, ingressou Maria com a cajita, que continha
     vrios frascos, potes com ungentos, esparadrapos e diversos elementos
     para curas. Entre as duas lhe limparam a ferida, cobriram-na com uma
     mistura fedorento e lhe envolveram a perna com gazes. Sanc Niet se
     mordia o lbio para no bramar de dor Ao terminar a cura, Fiona
     levantou a vista e se encontrou com o rosto mudado do homem, a ponto
     de desvanecer-se. Ento, ajudou-o a acomodar-se melhor sobre um fardo
     de alfafa, enxugou-lhe o suor da frente e lhe deu a beber algo de mau
     sabor que, ao momento, adormeceu-lhe a perna. O ndio estava
     desconcertado pelo comportamento da esposa de Silva e no sabia como
     atuar. Nunca um patro lhe tinha prodigalizado tantos cuidados. Fiona,
     por sua parte, decidiu no lhe perguntar nada mais. O ndio no tinha
     querido que o atendesse um mdico, e isso s podia significar uma coisa.
     A ferida devia ser produto de alguma trifulca, e ela sabia to bem como
     o ndio que de Silva tinha proibido a seus homens resolver suas
     diferenas a navalhadas.
            O homem lhes contou que vivia longe de ali, mas que desde fazia
     anos trabalhava pra de Silva na temporada da tosquia. Falava do Juan
     Cruz como se fora um deus. Respeitava-o e lhe temia tanto como os
     outros. Fiona o escutava e no conseguia entend-lo. Como obtinha de
     Silva inspirar essa devoo em seus homens?
            Apesar de sua evidente fortaleza, o ndio no podia manter-se em
     p por si s. A jovem compreendeu que precisaria repousar em um leito
     confortvel e receber boa alimentao, ao menos por uns dias. O
     problema seria Celedonio; dele se encarregaria mais tarde, pensou.
            --Vamos, Sane Niet, apie-se na Maria e em mim --ordenou
     Fiona.
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            O homem comeou a transpirar. A s idia de roar  mulher do
     patro alterou as pulsaes. Se de Silva se inteirava de que ele a havia
     meio doido, arrancaria-lhe as mos. Balbuciou algumas palavras
     incompreensveis e tratou de levantar-se solo uma vez mais. Tinha o
     rosto encarnado e luzia muito transtornado.
            --Vamos, no seja nscio --insistiu Fiona.
            O homem apoiou os braos nos ombros de ambas as mulheres e
     se deixou levar, convencido de que no tinha alternativa.
            Sanc Niet passo vrios dias na casa grande; dormia em uma
     habitao para a servido e comia com o resto na cozinha. Fiona e Maria
     lhe curavam a ferida diariamente, e ao pouco tempo pde caminhar
     sozinho, quase sem renguear. Elseo, cmplice das mulheres, ajudava a
     vesti-lo. No passou muito e se fizeram grandes amigos. Sanc Niet
     resultou uma pessoa encantadora e com muitas histrias entretidas para
     contar. Estava-lhe muito agradecido a Fiona. Uma tarde, durante uma
     cura, disse-lhe que ele daria sua vida por ela se fosse necessrio. A
     jovem riu; talvez nesse momento no advertiu at que ponto era sincera
     a adorao que o ndio lhe professava.
            Para justificar sua presena na casa, Fiona lhe pediu que
     compusesse a mesa e as cadeiras do celeiro; era um trabalho leve, e
     podia realiz-lo sentado no ptio traseiro da casa. Resultou hbil com a
     madeira, e terminou o acerto com muito esmero e prolijidad. Mara
     Isabel, a filha do Rudecindo, mostrou zz encantado com o presente de
     bodas e no terminava de agradecer-lhe  patr.
            Celedonio no se privou de destrambelhar. No podia entender
     que a senhora de Silva dispusera dos pees como se fossem dela. Sanc
     era um dos melhores em seu trabalho e sua falta se sentiria nos dias que
     a patr o destinasse a outras tarefas.
            --Resta! --queixava-se na ronda do mate--. Esta mulher  mais
     perigosa que um gato Montes! Descuida-te um momento e j deu volta
     todo. A est o ndio Sanc lixando mesas. Habrase visto!
            Mas no passou disso. Ao pouco tempo, Sane retornou a suas
     tarefas, e tudo voltou para a normalidade.



                                            * * *
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            Todos os dias, pela manh, Fiona trabalhava na "cremera" que ela
     e Candelaria tinham organizado. Fiona no podia acreditar que a
     mulher tivesse aceito sua proposta. Alm disso, era boa nisso. Ainda no
     tinham provado nenhum dos queijos porque o estacionamento ainda
     no era suficiente; Candelaria era muito estrita a respeito. Mas sim
     tinham saboreado a nata e a manteiga ao estilo irlands. Fiona ficou
     muito assombrada; quando lhe perguntou como conhecia a receita desse
     tipo de manteiga e a negra lhe respondeu com evasivas, decidiu que
     seria melhor no insistir.
            Pela tarde seguia dando classes aos filhos dos pees. Alguns j
     tinham aprendido o alfabeto; outros, um pouco menos dotados, ainda o
     balbuciavam sem muito xito.
            Os que estavam zangados eram os pees. Desde o Celedonio at o
     mais crave de todos. Por um lado, seus filhos j quase no ajudavam no
     campo: se no estavam na escola, tinham que estudar. Por outro lado,
     suas mulheres perdiam algumas horas do dia na cremera. Celedonio
     estava furioso com a Fiona, que lhe tinha feito acondicionar um celeiro
     com poro no muito longe da casa para a famosa "fbrica de queijos".
     Alm disso, tinha-o obrigado a destinar vrias vacas mais para o
     ordenha e alguns pees para que o fizessem diariamente. Antes, com
     uma vaca, como muito dois, era suficiente para o consumo da casa
     grande.
            Por outra parte, Celedonio temia a reao do patro quando
     chegasse e visse as mudanas feitas sem seu consentimento. "Aqui
     arder Troya", dizia a outros pees na ronda do mate; nem ele nem os
     que o escutavam tinham a menor ideia do que significava aquela frase,
     mas no tinham nenhuma dvida de que indicava que algo mau ia
     acontecer.
            Durante o exlio voluntrio do Juan Cruz, Fiona visitou duas
     vezes a seus avs. E as dois em domingo. Partia rumo  cidade muito
     cedo, antes do amanhecer, acompanhada pelo Elseo e Marta, para
     chegar  missa de dez no Socorro, da qual eram habituem sua av, aunt
     Ana e Imelda. Sejam Malone fazia anos que tinha deixado de ir a missa e
     isso lhe custava ao Pai Fahy vrias cs  semana.
            depois de missa, como era seu costume, Imelda percorria junto a
     seus amigas a rua da Florida. Fiona, que tinha detestado sempre esses
     passeios, retirava-se a seu antigo lar junto ao Brigid e a Ana, desejosa de
     encontrar-se com seu av.
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             Sejam Malone esperava com nsias a chegada de sua neta, e at
     que ela no aparecia no lia o peridico. Juntos se sentavam na poltrona
     do living a repassar as pginas, comentando as notcias e rendo das
     ocorrncias de um e de outro. The British Packet, o peridico em ingls
     que se distribua com a vnia do senhor governador, era um dos
     preferidos da Fiona; lia-o com avidez e recortava os artigos que mais lhe
     interessavam. Cada domingo, dom Pedro do Angelis enviava a casa de
     seu amigo Sejam Malone um exemplar gratuito do Arquivo Americano, de
     que era diretor. Mas esse no gostavam tanto. Tambm liam, como
     sempre, a Gazeta Mercantil.
             Ela no sabia como, mas seu av sempre conseguia algum dos
     jornais proibidos. O Comrcio do Prata, do Montevideo, ou O Mercrio do
     Chile. Embora eram mais que cidos com Rosas, a Fiona gostava de
     algumas de suas notas, especialmente as da Alsina ou Echeverra. Os
     "monitores" do governador castigavam com severidade  pessoa que
     possusse esses peridicos. Sacudiam com gosto a verga sobre o lombo
     dos "traidores", sem importar se era homem ou mulher, ancio ou
     jovem. Estas coisas a Fiona punham os cabelos de ponta. De todas
     formas, estava tranqila, sabia que nenhum "monitor" se animaria a
     ingressar na manso Malone com a inteno de realizar uma pesquisa;
     nem sequer lhes ocorreria.
             O segundo domingo que foi visita casa de seus avs, tambm seu
     pai, com sua esposa rsula e seus cinco filhos, estavam passando o dia
     ali.  esposa do William no lhe dirigia a palavra. A seu pai, menos. De
     seu meio irmos a separava uma barreira que William mesmo,
     empurrado por rsula, tinha levantado. Jamais tinham convivido, e isso
     fez racho na relao. Alm disso, tinha que reconhec-lo, estava um
     pouco ciumenta, e isso aumentava ainda mais seu ressentimento.
             A pesar do acrrimo odeio para seu pai e a indiferena para seus
     filhos, quando os encontrou esse domingo em casa da Grandpa no se
     sentiu muito molesta por sua presena. sentou-se junto a Sejam a ler o
     peridico, almoou com todos na mesa, conversou com aunt Ana, com a
     Imelda e com Granule, e em algum momento at intercambiou algumas
     palavras com a Brenda, a maior dos cinco filhos do William e rsula. De
     todas formas, por mais que a presena dessa famlia j no a enchesse de
     ira, a indiferena era mortal. Fria e cortante.
             Depois do almoo, William e ela se encontraram no ptio da
     servido. Em realidade, Fiona tinha ido a ver a Maria, e seu pai
     aproveitou para ir atrs dela.
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             --Queria te dizer que de Silva j pagou todas as dvidas.
     Cumpriu seu trato, Fiona.
             O olhar da jovem teria turbado ao homem menos escrupuloso.
             --Ejem... --William pigarreou, nervoso--.  um homem de
     honra... Ejem... Alm disso nos est ajudando na administrao das
     estadias. Graas a isso est indo melhor.
             --Acredito te haver dito tempo atrs que no voltasse a me dirigir
     a palavra --lhe recordou Fiona, framente. Sem mais, deu meia volta e
     ingressou na cozinha. morria de vontades de lhe perguntar a respeito de
     Silva, se o tinha visto ultimamente, se sabia onde estava agora, o que
     tinham conversado, se tinham falado dela. Mas seu orgulho irlands no
     o permitiu, e ficou com as vontades de saber.
             Essas vontades de saber cresciam to vertiginosamente dia a dia
     que faziam perigar as mais fortes convices que Fiona Malone se
     riscou.



                                            * * *



            A negra Candelaria estava sentada a seu lado no carro e se
     dirigiam, como de costume, a cremera. De propsito, Fiona havia dito
     ao Eliseo que essa manh no o necessitaria: ela mesma conduziria o
     carro. Nesse momento, o homem suspirou com alvio; lev-la e traz-la a
     todos lados o fazia perder muito tempo e no conseguia cumprir com as
     tarefas que lhe encomendava Celedonio, que eram as que em realidade
     gostava. Quo nico desejava Eliseo era que a menina Fiona
     permanecesse na manso, bordando ou fazendo algo assim, em lugar de
     armar tanto alvoroo entre a peonagem com suas ocorrncias.
            Fiona desejava falar do Juan Cruz e sabia que Candelaria era a
     pessoa que melhor poderia inform-la.
            --Desde quando conhece senhor de Silva, Candelaria?
            At para ela, pergunta-a soou estranha. Jamais tinham falado
     dele; era um pacto tcito que havia entre as duas; agora, sem razo
     aparente, Fiona o estava violando.
            --Do mesmo dia em que nasceu, senhora --respondeu
     lacnicamente a mulher, sem sequer olh-la.
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            --Ah... --replicou Fiona, atalho. No sabia como continuar a
     conversao, mas a curiosidade pde mais e prosseguiu--. E que dia
     nasceu?
            Agora Candelaria girou a cabea, desconcertada.
            --Em 5 de novembro de 1816.
            --E, onde?
            J era muito.
            --Com todo o respeito que voc se merece, senhora de Silva...
     No acredita que isso deveria perguntar-lhe voc mesma?
            A negra esperou a resposta sem lhe tirar os olhos de cima.
            --Sim, tem razo, Candelaria.
            Era certo, tinha razo, mas a tinha humilhado dizendo-lhe assim,
     to sinceramente. Por um momento, acreditou sentir o que os outros
     cada vez que ela lanava alguma de seus "diretas", e ficou mau. Pensou
     na Imelda, em aunt Ana, em seu pai. Mas no, o de seu pai era farinha
     de outro costal.
            Quando chegaram a cremera, Fiona j tinha tomado uma
     deciso. Essa manh no ficaria no lugar. De modo que deixou a
     Candelaria na porta do celeiro que abandonou o carro sem saud-la. A
     jovem retornou  manso, e pediu a um dos muchachitos do Celedonio
     que lhe selasse seu cavalo baio.
            Depois, saiu a percorrer A Candelaria.



                                            * * *



            O cavalo se deteve de repente, como se soubesse que no devia
     ingressar ali. Dava coices impaciente contra o cho, levantando terra.
     Fiona o acariciou tratando de acalm-lo.
            A jovem olhou em direo ao bosque de tipas que se encontrava
     frente a ela, uns metros mais  frente. Sabia que no devia aventurar-se
     por essas paragens; Candelaria lhe havia dito que de Silva no permitia
     que ningum visitasse essa parte da estadia. Talvez os cuatreros,
     possivelmente os ndios ou algum gato Montes, fosse o que fosse, o certo
     era que essa zona da estadia, que ainda no tinham explorado muito, era
     perigosa.
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            Claro que, se seu marido o tinha proibido, essa era uma razo
     suficiente para que ela desejasse transgredir a ordem e investigar essa
     parte do campo.
            Como no conseguiu tranqilizar ao cavalo, apeou-se e seguiu a
     p, levando a animal pelas rdeas. O lugar era formoso, embora algo
     sombrio pela espessa folhagem das rvores. At cheirava distinto: um
     aroma mido, como quando est por chover. No havia muita maleza
     no lugar, mas bem uma espessa folhagem que corredor  medida que
     avanavam.
            Deu a volta, e por entre as rvores divisou a manso, cada vez
     mais longnqua. Melhor seria voltar, pensou por um instante; mas
     desistiu rapidamente. Para que voltar? No tinha nada importante que
     fazer e esse lugar tinha um encanto especial.
            Continuou caminhando, lentamente, observando tudo a seu
     redor. Pensou que tinha sido uma estupidez no ter visitado o bosque
     anteriormente. Inspirou o ar fresco da manh e se sentiu bem, tranqila.
     ao longe, divisou um claro cheio de maleza e apressou o passo, queria
     chegar at ali. Deixaria pastar ao cavalo e ela se recostaria um bom
     momento na erva a contemplar o cu, que parecia mais limpo que
     nunca.
            Pareceu a ela, ou realmente havia algum detrs desse tronco?
     Como uma sombra que desaparece, acreditou ver o cocuruto de uma
     pessoa, que se desvanecia entre as rvores. Depois, pensou que no era
     mais que uma m jogada da luz do sol, que se esfumava por aqui e
     reaparecia mais  frente.
            Ah, no! Esta vez sim tinha visto algum entre as tipas. Atou o
     cavalo em um ramo baixo e correu em direo  apario. Metros mais 
     frente divisou a silhueta de uma mulher que se dirigia rapidamente para
     o claro do bosque. Uma elegante chalina pendurava em pico sobre suas
     costas e se arrastava pelo cho, levantando um pouco de p.
            "Uma mulher!", disse-se, sem tirar os olhos dela.
            Talvez a vista lhe falhava, mas estava quase segura: essa no era a
     esposa de nenhum peo.
            Muito resolvida, levantou a saia de seu vestido e correu, sem
     analisar o que fazia. O vento movia as folhas mais altas das tipas.
     escutavam-se algumas loras parlanchinas e, de vez em quando, algum
     bem-te-vi. De Silva lhe havia dito que havia muitos por ali, recordou.
            A momentnea distrao foi suficiente para que perdesse de vista
      mulher. Sem flego, apoiou-se em um tronco a descansar. Olhou para
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     cima, como esquecendo sua caada. Os raios do sol contornavam as
     taas das rvores, e davam totalmente sobre os olhos da Fiona, lhe
     esquentando o rosto, que a corrida indevidamente tinha esfriado.
             de repente, um rudo distinto, como a ramos seca que se partem,
     quebrou a harmonia do stio.
             --H algum a? --Esquadrinhou o lugar, atemorizada, e dando-
     se nimos elevou a voz--: Por favor, saia, no desejo lhe fazer danifico.
             Esperou uns instantes, mas nada. de repente, a figura feminina
     apareceu novamente frente a ela; corria como enlouquecida, deixando
     atrs a densidade do bosque que at esse momento lhe tinha servido de
     escudo.
             --Ey! Espere, senhora! Espere!
             A mulher no se deteve. Fiona correu atrs dela. Por momentos, a
     silhueta se desvanecia entre a maleza, por momentos voltava a divis-la,
     um pouco mais longe. Repentinamente, advertiu que j no a via mais.
             --OH, no! --gritou, decepcionada.
             Estava agitada e exausta; deteve-se um momento para recuperar
     o flego. Olhou para o horizonte. Era um lugar magnfico aquele;
     pensou que j se entrou muito, e que devia voltar. Mas estava muito
     intrigada para abandonar a aventura. ergueu-se, e ps-se a andar outra
     vez, agora sem pressa.
             No soube quanto tempo esteve perambulando por aquelas
     paragens. No sabia se voltaria ver a mulher misteriosa e, pior ainda,
     nem sequer tinha a certeza de se poderia recordar o caminho de volta 
     manso. Entretanto, isso no pareceu perturb-la muito, e seguiu
     avanando, guiada por seu instinto.
             Deveu caminhar mais de duas horas antes de topar-se com uma
     casita, a meias oculta depois da espessura do monte. Parecia desabitada.
     aproximou-se com precauo, tratando de no deixar-se ver, mas logo
     descobriu que no havia nenhum perigo, e se encaminhou audazmente
      porta. Subiu os degraus da escada de madeira e se deteve uns instantes
     para observar a galeria que circundava a moradia. Tudo estava
     ordenado e limpo. Havia vasos em qualquer parte com as novelo mais
     variadas. Hortnsias, agapantos, margaridas; todas bem cuidadas e
     florescentes.
             Sem chamar, abriu a porta. Ali estava a mulher, sentada em uma
     cadeira de balano, olhando pela janela. Certamente, teria estado vendo-
     a enquanto ela se aproximava.
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            --Desculpe --comeou a dizer Fiona com a voz algo quebrada--.
     Pensei... No sabia...
            --Est bem, querida --disse a mulher, enquanto se incorporava.
     Logo, encaminhou-se para uma mesa apostada em um rinco do
     comilo--. Te estava esperando. Vamos, entra. Vem aqui, comigo --e
     lhe estendeu a mo.
            Com passo indeciso, Fiona se foi aproximando sem lhe tirar os
     olhos de cima. Era uma mulher de mdia idade, teria talvez quarenta ou
     quarenta e cinco anos. Era muito linda, e seus movimentos tinham uma
     cadncia aristocrtica que recordaram aos de misia Mercedes.
            --Dou yon want a cup of lha, dear?
            Pergunta-a em ingls a surpreendeu tanto que no soube o que
     responder; ento, a mulher lhe explicou.
            --Escutei-te falar em ingls com sua criada; sua pronncia 
     excelente.
            Fiona no saa de seu assombro.
            --Escutou-me falar com a Mara?
            --Sim --replicou, em meio de uma risada cndida, quase
     infantil--. s vezes me d de espiar aos da casa grande.
            --Ah... --foi tudo o que atinou a dizer Fiona. No pde zangar-se
     com ela; sentiu que teria sido como zangar-se com uma garotinha de
     cinco anos.
            --A cup of lha?-- insistiu a mulher. Com o xale que arrastava e a
     cabea erguida tinha o porte de uma rainha.
            --Please--respondeu a jovem.
            A mulher tomou a bule e verteu a beberagem em uma taa. A
     mesa estava to bem arrumada como em casa de sua av; no faltava
     um s detalhe. At havia um floreiro de cristal com umas rosas brancas.
            --Vem, querida, sente-se. Tomemos juntas o ch.
            sentaram-se. Fiona lhe agradeceu quando lhe alcanou a taa e
     quando lhe serve um pedao de bolo de amoras que, conforme disse, ela
     mesma tinha colhido.
            --As rvores esto que caem de amoras. Olhe! --Levantou as
     mos e lhe mostrou as Palmas--. Me ficaram tintas de tantas que recolhi.
            --Est deliciosa, senhora... Perdo, como se chama voc?
            A mulher no respondeu em seguida. ficou olhando-a
     atentamente, como se queria apreci-la em detalhe.
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           -- to formosa --disse por fim--. Meu nome  Catherine
     Emmet. Mas no me chame Catherine, ningum o faz. me chame
     Catusha, como todos.
           "Todos? --pensou Fiona--. Quem, Por Deus, em meio de um
     nada?"
           --Catusha?
           --Esse apodo me ps isso meu pai, quando ainda nem
     caminhava. --Riu outra vez, e esclareceu--: Ele sempre dizia que eu era
     to pequeita e suavecita que me parecia mais a uma gatita que a uma
     beb.
           Fiona se sentia cmoda, mas no conseguia sair de seu assombro.
     Quem era essa mulher? Que fazia ali, no meio do monte, sozinha?
           --Vive voc sozinha, senhora Catusha?
           --No me chame senhora, faz-me sentir velha --a repreendeu--.
     O que me perguntou, querida? Ah, sim! Se vivo sozinha... Bom, sim, mas
     meu filho vem a me visitar, de vez em quando.
           --Seu filho?
           --Sim, ele  um homem j.  muito importante, sabe? Quase tanto
     como o era seu pai.
           Naquele instante seu olhar se perdeu, e deixou de mover as mos
     como tinha vindo fazendo-o at esse momento.
           --Senhora... N, digo, Catusha, est voc bem? sente-se bem? --
     Teve que repeti-lo, porque parecia que a mulher j no estava ali.
           --OH... Sim, querida Fiona, sim.
           --Sabe meu nome!
           --J te hei dito que s vezes espio sua casa. No te incomoda,
     verdade?
           --No,  obvio que no. --Que mais podia lhe dizer?, perguntou-
     se--. Mas talvez teria sido melhor que se apresentasse; dessa forma a
     teramos convidado para jantar, Catusha. A meu marido e a mim...
           --Ah, no! Seu marido me d medo, Fiona querida! No quero
     nem me cruzar com ele.
           A extrema sinceridade da dama no fazia mais que desconcert-
     la.
           --Sim, compreendo-a --respondeu, e olhou para baixo.
           --OH, me perdoe, fui uma grosseira! depois de tudo,  seu
     marido. Mas... no sei... Esse olhar... Voc no lhe teme?
           --Sim, s vezes... Bom, em realidade, sempre. Mas...
           --Sim, j sei; est apaixonada por ele, verdade? Quer mais ch?
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            --No!
            --No deseja mais ch? --Olhou-a incrdula.
            --No... no. Bom, sim, um pouco mais de ch estaria bem.
     Referia-me a que no estou apaixonada por ele.
            Depois que o disse, sentiu-se mau, mas j o tinha feito.
            --No est apaixonada por ele?
            Olhou-a to assombrada que Fiona se envergonhou.
            --Ah, no! Eu amava muito a meu Manuel e ele me amava
     tambm. Sim, senhor.
            Fez um gesto divertido que a Fiona causou hilaridade.
            --Tem um dos sorrisos mais lindos que vi, Fiona. Deveria sorrir
     todo o tempo.
            --Obrigado, Catusha.
            A jovem olhou a seu redor. A casita era pequena mas muito
     acolhedora; distinta s casonas uso mourisco de Buenos Aires; por certo,
     distinta  manso. Mas havia algo ali que a fez sentir-se
     extraordinariamente bem. Suspirou.
            --Esta casa  dela?
            arrependeu-se de pergunt-lo; no queria ficar como uma
     colocada.
            --Sim, meu filho a fez construir. --Parecia orgulhosa.
            --Mas, isto no  ainda territrio de La Candelaria?
            --No sei, querida. Suponho que no --respondeu, sem lhe dar
     muita importncia ao assunto-- Mais bolo?
            --No, obrigado.
            Fiona jogou outra olhada a seu redor.
            --Touca o piano, Catusha? --perguntou sem tirar a vista do
     instrumento apostado em um rinco da sala.
            --Sim. Desejas que toque para ti? Posso te ensinar novas
     melodias. --ficou esperando a resposta.
            --Sim, claro, eu gostaria de muito escut-la tocar.
            O resto da manh junto a essa mulher to estranha resultou
     encantador. Embora havia coisas dela que no conseguia explicar-se no
     se preocupou muito. Pensou que, em meio de sua amargura, tinha
     encontrado a algum com quem conversar. Maria no a entendia por
     esses dias; at parecia estar de parte do imbecil de Silva. E Candelaria...
     Bom!, Candelaria nem pensar.
            Catusha insistiu em acompanhar a de volta e Fiona aceitou; no
     sabia se poderia orientar-se para voltar para a manso. Tinha
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     perambulado por essas paragens sem reparar muito em nada, guiada s
     pelo desejo de encontrar  mulher misteriosa.
            O cavalo da Fiona, agarrado ainda ao ramo da tipa, estava
     impaciente. Como o lugar no tinha erva no tinha podido comer; ao v-
     la aparecer, relinchou zangado. De ali, Fiona j recordava o caminho;
     despediu-se de seu amiga Catusha com a promessa de retornar muito
     em breve.
           Ao chegar  casa, Maria a arreganhou duramente. Fazia horas que
     a buscava e ningum conhecia seu paradeiro. Fiona escutou suas
     provocaes e lhe prometeu no voltar a desaparecer assim.
            --pode-se saber onde estiveste, Fiona? Por Deus Santo,
     Candelaria est que brama com seu desaparecimento! --exclamou a
     criada levando-as mos  cabea.
            --E o que tem que meter-se ela no que eu fao! Nem que fora
     minha proprietria! O nico que me faltava! No est meu carcereiro,
     mas tenho uma carcelera! --explorou a jovem.
            --Bom, minha menina, lhe tranqilize --a acalmou Maria,
     arrependida de ter renomado  negra. Fiona, muito sensvel por esses
     dias, no suportava nada, em especial nada que tivesse que ver com seu
     marido.
            --vais dizer me onde esteve? Sim ou no? --insistiu Maria.
            Fiona a olhou de soslaio e pensou em contar-lhe tudo. Depois se
     arrependeu; Maria era muito medrosa, a todo temia. Se lhe confessava
     que tinha encontrado a uma mulher to estranha no meio do monte,
     logo depois de cruzar sozinha o bosque proibido, poria o grito no cu e
     lhe proibiria retornar com a Catusha. Melhor seria calar.
            --Andei por a, sem rumo fixo.



                                            * * *

            --Camila!
            No mesmo momento em que Fiona descia pelas escalinatas da
     entrada principal a grande velocidade, Camila descendia da volanta de
     seu pai auxiliada pelo lacaio. encontraram-se no caminho de pedregulho
     que bordeaba a manso e se abraaram. No se viam do casamento da
     Fiona, quase dois meses atrs, e se tinham sentido saudades muito.
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            --Tenho tantas coisas que te contar, Fiona. J no tenho com
     quem falar. Bom, est Blanquita, mas algumas vezes no me
     compreende; no como voc.
            --Ento, vamos dentro a nos empachar de relatos. Eu tambm
     preciso te contar coisas. me passa o mesmo com a Maria.
            Tomou pelo ombro e a conduziu escada acima.
            -- bela, muito belo --comentou Camila mdio boquiaberta,
     dando voltas sobre si para poder admirar em toda sua magnificncia o
     salo principal--. Quando vi a manso da volanta no podia acredit-lo;
     jamais vi uma casa como esta --adicionou, enquanto observava atnita
     um gobelino que ocupava toda uma parede.
            --Sim,  muito bela --respondeu Fiona sem maior interesse--.
     Vem, vamos a meu quarto. Ali estaremos mais cmodas.
            Ao chegar  escada, apareceu de improviso Candelaria; deteve-se
     ante as duas jovens e olhou a Camila com cara de poucos amigos.
            --Camila, apresento a Candelaria...
            No sabia nem seu sobrenome, nem sua posio dentro da casa.
     No era a me de Silva, no era o ama de chaves, no era a tia nenhuma
     parienta longnqua. O que era, ento? A que o tinha criado? Sim, mas
     apresent-la como "Candelaria, a que criou a de Silva" no lhe pareceu
     correto; por isso, preferiu deixar a frase inconclusa.
            --Candelaria, ela  Camila Ou'Gorman, minha mais ntima
     amiga.
            Camila e Candelaria se estreitaram as mos com frieza.
            --Se necessitar algo, senhora de Silva, me chame --adicionou a
     negra antes de desaparecer detrs dos cortinados.
            As jovens comearam a ascenso com menos entusiasmo que
     antes.
            --Tem cara de bruxa, Deus me libere e me guarde --sussurrou
     Camila.
            --Parece uma bruxa, mas no est to mal depois de tudo;
     embora, em certa forma, tem razo.  muito parca e sria. --Um sorriso
     de menina se desenhou nos lbios da Fiona. E tomando a Camila do
     brao, adicionou--: vamos esquecer nos dessa mulher; no quero que
     nada empane este dia, sim?
            --Est bem.
            Camila sorriu; comearam a subir as escadas correndo, como
     meninas, e no se detiveram at que chegaram ao quarto da Fiona.
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            --No posso acreditar o dormitrio que tem. Olhe esta gaze...
     Que suavecita ... --disse Camila, esfregando contra sua bochecha o
     tecido do baldaquino--. Este homem te d todos os gostos, Fiona --
     comentou, admirando os mveis e os pebeteros de prata.
            Fiona no dizia nada. S observava como seu amiga ia ficando
     aniquilada por coisas que a ela em nenhum momento lhe tinham
     causado a mais mnima emoo. Mas, sim, devia reconhec-lo, o luxo
     que a rodeava era certamente impressionante.
            --Assim imagino que so as manses em Paris. No crie, Fiona?
            Camila se voltou. Seu amiga, absorta, olhava atravs da
     puertaventana.
            --Fiona, escuta-me?
            --Vem aqui. Olhe a vista --escolho Fiona, sem voltear.
            No parque da estadia a primavera se desdobrava em todo seu
     esplendor. O verde o dominava tudo; os ciprestes, mais  frente as tipas,
     os clices sagrados de pedra abarrotados de agapantos violeta, a imensa
     fonte em cujo centro os brincalhes angelotes de bronze arrojavam
     incansavelmente seus jorros de gua cristalina.
            de repente, Fiona compreendeu que via todo aquilo pela primeira
     vez, e um certo desassossego a invadiu. Mas a alegria que lhe provocava
     a presena da Camila voltou a impor-se, e se entusiasmou com a idia de
     lev-la a conhecer a escuelita e a cremera. sentia-se orgulhosa de suas
     duas obras e queria as compartilhar com ela. Tambm lhe contou a
     respeito de seu amiga do monte e a levou a conhec-la; para desencanto
     de ambas, Catusha no estava na casa, nem no jardim, nem nos
     arredores. Buscaram-na um momento, mas no a encontraram. Ao fim
     se deram por vencidas e retornaram. Talvez, pensou Fiona, Catusha se
     tinha partido uns dias  cidade com seu filho.
            --Por favor, Camila, no comente com ningum minha amizade
     com a Catusha.  um segredo --pediu, muito sria, enquanto
     caminhavam de volta. Camila assentiu, sentida saudades, mas no lhe
     perguntou nada.
            Almoaram em um bosquecito que Fiona tinha descoberto em um
     de seus passeios a cavalo, a um quilmetro da manso. Elseo conduziu
     o carro e dormiu uma larga sesta depois de comer, enquanto Camila e
     Fiona tagarelavam como periquitos.
            --J fiz o amor com o Ladislao --confessou Camila com o olhar
     sobre a erva e as mos nervosamente entrelaadas.
            --Sente-se feliz?
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            A Ou'Gorman fixou os olhos nos da Fiona. Estava um pouco
     desconcertada; talvez esperava um sermo, uma reprimenda ou um
     olhar de espanto. Nada disso.
            --Sim, imensamente feliz --replicou ao cabo de uns segundos--.
     E voc, Fiona,  feliz agora?
            -- No... Bom, no sei... Eu...
            No sabia o que responder. Sinceramente, como se sentia? No
     tinha a menor ideia. Tinha abarrotado seus dias com todo tipo de
     atividades; talvez, para no pensar. Mas de noite... De noite era
     inevitvel pensar.
            --Est bem, Fiona?
            Camila a tirou da mo com preocupao; repentinamente, Fiona
     se havia posto plida.
            --Faz semanas que de Silva se foi. A ltima noite que esteve aqui,
     foi a minha habitao e, como eu tinha travado as portas para que ele
     no entrasse, abriu uma a patadas... Foi horrvel, estava como louco.
            Fiona conteve a respirao ao recordar.
            --E, o que aconteceu?
            --Disse-me que eu era uma malcriada e uma torpe, e que... --No
     pde seguir; sentia humilhao e vergonha.
            --O que acontecer, Fiona?
            --Disse-me que..., que se no queria que me fizesse o amor o
     dissesse de frente.
            --E logo depois disso no o viu mais?
            Fiona assentiu.
            --Eu o vi em Buenos Aires recentemente --disse Camila, e
     esperou a reao de seu amiga.
            Fiona sentiu que o corao lhe dava um tombo.
            --Quando o viu? Onde, Camila? Onde?
            --Um momento, senhorita, um momento... A ver, a ver... Bom...
            --Camila, por amor de Deus! --exasperou-se Fiona.
            --Bom, te tranqilize. Vi-o em uma reunio, em casa de misia
     Joaninha, faz uns quantos dias. No sei, umas duas semanas atrs, mais
     ou menos.
            --Falou com ele?
            --Sim; saudou-me a, no de misia Joaninha, mas alm disso esteve
     jantando em minha casa, uns dias depois. Quando mame lhe
     perguntou por que voc no tinha vindo com ele, disse que s estava de
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     passagem pela cidade por assuntos de negcios; e que logo retornaria ao
     campo.
            Camila tomou entre seus dedos um pedao de compota e o
     deixou cair em sua boca, saboreando-o lentamente. Fiona parecia a
     ponto de perder a prudncia por um pouco mais de informao.
            --Vamos, Camila, me diga que mais sabe!
            --No muito mais. Mas, como  que voc no sabe nada? No
     pode averiguar?
            --Embora te parea mentira, no --e moveu a cabea, com
     preocupao--. me Diga, danou com algum essa noite? No de misia
     Joaninha, digo.
            --Que se danou? Com todas, Fiona, com todas.
            --Danou com a Clelia Coloma? --perguntou com medo.
            --Sim, a maior parte do tempo.
            Camila no podia saber at que ponto esse comentrio ia
     impressionar a. Fiona ficou muda; separou os lbios e abriu ainda mais
     os olhos.
            --No entendo, Fiona. O que importa a ti o que de Silva faz ou
     deixa de fazer? No  que o odeia e que nada te interessa dele?
            --No... no... No  que me importe por mim, Camila --tratou
     de repor--. Me importa porque no quero que se fale. J sabe, pela
     Grandpa --esclareceu, e desviou o olhar dos olhos de seu amiga.
            --Ah... Claro, pela Grandpa--repetiu Camila mecanicamente.
            --Claro, por ele. Por quem mais, se no?
            --Por ti, Fiona Malone, por ti.
            --Por mim! --destacou-se o peito, com os olhos exagerados--. O
     que diz, Camila? Voltou-te louca? Jamais me interessaria por mim --
     assegurou, com uma careta de aborrecimento.
            --Bom, bom...no ponha assim. Alm disso no grite ou
     despertar ao Eliseo e no poderemos continuar com a conversao.
            Tomou o copo de seu amiga, cheio de azedo, e o ofereceu. Fiona o
     bebeu de repente.
            --Deve te tranqilizar, noto-te muito inquieta --insistiu Camila.
            --Sim, pode ser, me desculpe, no quis te gritar --respondeu
     Fiona baixando a vista--. Em realidade, no sei o que me acontece
     ultimamente. Sinto-me muito estranha, no sei.  como se, s vezes,
     necessitasse que de Silva estivesse na casa embora mais no fosse brigar
     com ele. Sonha estpido, no crie? D-me raiva. Muitas vezes penso nele
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     e trato de record-lo com odeio pelo que me fez, mas no posso. s
     vezes quero que esteja junto a mim, de noite.
            --Crie que te est apaixonando por ele? --perguntou Camila
     quase com medo.
            --No!
            Esta vez sim despertou ao servente. De todos os modos, j era
     hora de voltar.
            Camila no desejava ir-se. No s a tinha passado de maravilha:
     alm disso, custava-lhe deixar a Fiona; no a encontrava nada bem, no
     era a mesma de sempre. Mas seu desejo de retornar aos braos de seu
     amante, o curita do Tucumn, foi mais poderoso.  manh seguinte, e
     apesar dos rogos da Fiona, partiu para Bons.



            --Fiona... Fiona...
            A mulher se estremeceu sob o corpo nu do Juan Cruz quando o
     escutou murmurar esse nome. Mas no disse nada, no fez nada,
     limitou-se a seguir seus movimentos, como de costume.
            Clo Despontin era a amante de Silva desde fazia mais de cinco
     anos. Bastante maior que ele, ainda conservava algo da espantosa beleza
     de seus anos moos, e toda sua mestria na cama. Nisso ningum a
     superava.
            Clo tinha chegado a Buenos Aires muitos anos atrs, escapando
     de um amante parisino que tinha ameaado matando-a se voltava a v-
     la. E Paris no era to grande. De modo que decidiu embarcar-se rumo
     ao desconhecido; assim foi como chegou ao Rio da Prata.
            Logo se converteu na madama de um dos bordis mais famosos da
     cidade, a ponto tal que seu renome chegou at as mais altas esferas do
     governo de Buenos Aires.
            Em 1832, quando o ministro Tiram da Anchorena decretou o
     desterro das mulheres pblicas, ela se valeu de seus contatos e pde
     permanecer na cidade escondida em uma casa que lhe alugou seu novo
     amante, um jovem e arrumado militar.
            Juan Cruz tinha dezesseis anos nnaquele tempo naquele tempo e
     estava acostumado a freqentar a casa de senhoritas cada vez que Rosas
     o enviava  cidade com algum encargo. As meretrizes brigavam por
     atend-lo: a potncia e o tamanho de seu membro eram coisas que j
     todas conheciam. E, apesar de que Juan Cruz s queria deitar-se com ela,
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     a madama do local lhe sorria sardnicamente, aplaudia-lhe a cabea e lhe
     dizia:
             --J falaremos quando deixar de ser menino.
             Um dia em que Clo estava na casa que lhe alugava um de seus
     novos amigos, Juan Cruz bateu na porta.
             --J deixei de ser um menino. Falemos.
             A mulher ficou estupefata e boquiaberta. De Silva tinha para
     ento quase vinte e cinco anos, e certamente tinha deixado de ser um
     menino. converteu-se em um homem que destilava virilidade pelos
     poros. Seu rosto, embora nada perfeito, era to atrativo que desejou
     beij-lo nesse mesmo momento. E assim o fez.
             Abandonou a seu amante de volta e a casa onde vivia, e se
     instalou em que lhe alugou Juan Cruz, longe da cidade, perto dos
     barracos do porto, onde acabava de abrir sua salga.
             A relao foi explosiva de um primeiro momento, do preciso dia
     em que ele chamou a sua porta. Jogou-a no cho do hall de entrada,
     chutou a cancela para fech-la e lhe fez o amor a mesmo. Fez-o quase
     com raiva, sem lhe interessar sequer se havia algum dando voltas pela
     casa. Ao Clo nada pareceu lhe importar; sentiu que pela primeira vez
     em sua vida tocava o cu com as mos.
             --Casarei-me com ela por seu sobrenome --disse um dia Juan
     Cruz enquanto acendia seu acostumado charuto, depois de lhe haver
     feito o amor.
             --Apesar de meu dinheiro e a amizade com dom Juan Manuel,
     para eles sigo sendo um bastardo. Necessito que minha descendncia se
     libere desta carga.
             Clo sentiu que a transpassava com o olhar. Os olhos do Juan
     Cruz sempre a tinham estremecido; um pouco de temor, um pouco de
     paixo... um pouco de amor. De Silva no era homem com o que se
     pudesse jogar. Ela conhecia muito bem sua histria e sabia que no era
     nenhum santo. Mais ainda, sabia que era capaz de algo com tal de
     cumprir seus objetivos e defender o seu. Era imprevisvel. Sim que o era.
             O aluguel da casa no lhe importava, nem tampouco os vestidos
     que lhe comprava, nem os mantimentos que comia, nem os serventes
     que a atendiam. Quo nico contava era que se apaixonou
     profundamente dele.
             --Fiona... --voltou a sussurrar de Silva. Clo sentiu que o corao
     lhe contraa. antes de que Juan Cruz chegasse ao orgasmo, uma lgrima
     rodou por sua bochecha.
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                                            * * *



             De Silva entreabriu os olhos; a luz que se filtrava pelos portinhas
     da janela lhe feriu a vista. Tinha dormido poucas horas. depois de fazer
     o amor com o Clo, ficou na cama, fumando seu charuto e pensando. O
     sonho no tinha chegado a no ser quase ao amanhecer e agora deviam
     ser perto das dez.
             incorporou-se na cama e se esfregou os olhos. Girou a cabea a
     um lado e o outro. Tinha uma aguda dor na nuca e mau sabor na boca,
     mescla do tabaco e o lcool da noite anterior. Sentia o cabelo gordurento
     e a pele transpirada.
             Olhou ao flanco; Clo, nua, dormia plcidamente a seu lado.
     Passou-lhe os dedos pelas costas, mas no conseguiu despert-la. S se
     moveu um pouco entre os lenis, murmurou umas palavras
     ininteligveis e seguiu dormindo, respirando ruidosamente. Juan Cruz
     sorriu.
             Nesse momento se decidiu. Era hora de retornar.



                                            * * *



            Jamais terminaria de descobrir pequenos elseos em La
     Candelaria?, perguntava-se Fiona. Todos os dias apareciam ante sua
     vista paisagens incrveis. Aquele lugar, cheio de formosura e
     magnificncia, era como uma caixa da Pandora.
            A fonte dos vasos de barro. Assim a tinha batizado Fiona. Era um
     reservatrio retangular, de dois metros de largura e vrios de
     comprimento, cheia de nenfares; largos jorros de gua rompiam o
     espelho da superfcie aqutica e moviam as folhas que flutuavam a seu
     redor. Em sua borda, revestida de mrmore branco, encontravam-se os
     vasos de barro; simples, de terracota, eram tantas e albergavam flores
     to formosas que no pde lhe pr outro nome mais que esse, "a fonte
     dos vasos de barro". Ao flanco, cresciam ciprestes altos, agapantos, e
     novelo das mais variadas que Fiona jamais tinha ouvido sequer
     mencionar.
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            Instalou seu suporte de livro em um dos extremos do reservatrio
     e, de ali, disps-se a desenh-la em perspectiva. No era to boa com a
     pintura como com o piano, mas lhe encantava e isso era quo nico
     contava.
            Era muito cedo, apenas as oito. Candelaria havia partido
     pressurosa a cremera depois de tomar o caf da manh. Cada dia
     parecia mais entusiasmada com a empresa, e at lhe tinha ocorrido que
     poderiam vender alguns dos produtos em armazns de Buenos Aires. A
     Fiona tinha parecido uma idia fantstica. Mas, apesar de tudo, essa
     manh no tinha vontades de trabalhar. Tomou o suporte de livro, uma
     grande folha de papel duro, uns lpis de cisco, e se dirigiu no carro at a
     fonte.
            O sol ia pegar duro esse dia. Assim o apregoavam as cigarras nos
     espinillos, com um som montono, algo cansador, que ao cabo de um
     bom momento se mimetizava com a paz do lugar. Os pssaros cantavam
     e as mariposas revoavam sobre as flores nos vasos de barro. Desejou que
     permanecessem um bom momento posadas em uma flor, assim poderia
     as desenhar.
            Comeou a mover a mo sobre o papel e o lpis se deslizou com
     suavidade, deixando um rastro negro em seu caminho. No seria fcil
     mas o conseguiria; tinha decidido que depois o coloriria com aquarelas e
     o daria de presente a Catusha. Luziria formoso na sala de sua cabana.
            Fazia mais de duas horas que se empenhava sobre o suporte de
     livro e o esforo parecia estar dando seus frutos. As primeiras linhas,
     imprecisas e sem muita lgica, tinham comeado a transformar-se em
     um reservatrio cheia de vasos de barro em sua borda e com altos
     ciprestes a seu redor. Estava mais que concentrada; nem o sol, que dava
     totalmente em seus olhos e a obrigava a franzir o sobrecenho, parecia
     perturb-la. Tampouco escutou os cascos de um cavalo que se
     aproximava. S quando a sombra imponente do animal se projetou
     sobre o papel, Fiona se voltou, intrigada.
            --Senhor de Silva! --exclamou.
            Tinha-a tomado to de surpresa que no soube que mais dizer.
     ficou olhando-o como uma parva, entre embevecida e confusa.
            Com as rdeas ainda em alto, Juan Cruz tratava de controlar a seu
     padrillo, que se movia impaciente de um lado ao outro, soltando fortes
     bufos.
            De Silva luzia irresistvel essa manh. Vestia calas de gnero azul
     escuro, e um cavour claro que se ajustava a seu corpo e deixava ver a
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     brancura das mangas de sua camisa de cambraia. Mas nada disso a
     atraiu tanto como o leno vermelho que Juan Cruz levava na cabea
     pacote "a corsrio" que lhe sujeitava o cabelo, lhe limpando o rosto. Seu
     olhar a aniquilou.
             O homem no disse uma palavra. S a fulminou com seus olhos
     escuros antes de esporear a seu cavalo e reatar a marcha.
             Fiona no pde retomar a tarefa. depois de que de Silva se perdeu
     na plancie, tratou de voltar para desenho sem muito xito. A
     concentrao de minutos atrs se esfumou. Sua mente aturdida dava
     voltas e voltas em torno de uma s certeza: ele tinha retornado.
             Por fim, tirou o papel do suporte de livro, pregou-o rapidamente
     e subiu todas suas coisas ao carro. Decidiu retornar  manso para
     arrumar-se um pouco; talvez de Silva almoasse com elas.
             Ao chegar, passou correndo ao lado de dom Pietro Fidelio, o
     jardineiro italiano que de Silva tinha contratado para que parquizara A
     Candelaria. O homem a olhou sentido saudades; estava plantando umas
     hortnsias ao p da escada e pensou que a proprietria de casa se deteria
     conversar com ele sobre isso; sempre o fazia. Mas no esta vez;
     simplesmente lhe gritou "bom dia, Pietro!", e comeou a ascenso dos
     degraus to rpido como o vestido o permitia. O jardineiro, logo depois
     de observ-la uns instantes, encolheu-se de ombros e continuou com sua
     tarefa.
             --Mara, j chegou! --exclamou Fiona quando entrou
     precipitadamente em sua habitao. A faxineira deu meia volta e ficou
     olhando-a.
             --Quem, pois?
             --Pois de Silva. Quem vai ser se no?
             --Ah... de Silva. Sim, j sei, chegou esta manh, justo depois de
     que voc foi.
             --Y... falou com ele?
             Fiona lhe aproximava com passos tmidos.
             --Para que quereria ele falar comigo, Fiona?
             --Bom, Mara, no sei. Poderia ser que... bom... que queria saber
     onde estava eu.
             --No me perguntou nada. --Volteou, e a escrutinou fixamente--
     . E, por que tanta ansiedade?
             --Ansiedade? Ansiedade, eu? Est louca --replicou, e foi deixar
     cair em um dos confidentes.
             --me parece que sim.
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             "Bendito seja Santo Antonio", disse para seus adentros a mestia.
             --No, s desejo falar com ele pelo da escola e o da cremera.
             --Ah, claro... A escola e a cremera. E, que desejas falar com ele
     sobre isso? Se  que posso sab-lo,  obvio --se apressou a adicionar
     ante o duro olhar da jovem.
             --H muitos pees que no deixam a seus filhos ir  escola por
     medo a de Silva; o mesmo passa com as mulheres. Desejo legitimar a
     situao. Isso, legitimar a escola e a cremera.
             --Acredito que deveria hav-lo pensado antes. Pressinto uma
     catstrofe. J conseguiu que arrancasse uma porta da parede e que
     fizesse pedacinhos uma cadeira mais que pesada. Que mais quer? Que
     lhe mate?
             Ao escutar essas palavras, Fiona sentiu frio em todo o corpo.
             --No, como vou desejar isso, Mara. Que estupidezes diz?
             --Ento, Fiona, me prometa que te levar bem de agora em mais.
     Que far tudo o que se supe que uma esposa deve fazer.
             A criada se agachou e ficou quase em cuclillas frente a ela.
             --prometa-me isso No quero que te acontea nada mau.
             --Mas, Maria...
             A criada tomou entre as suas as mos suarentas e frite da Fiona e
     as apertou com fora.
           --prometa-me isso
             Maria estava assustada. Naqueles dias em La Candelaria tinha
     escutado as histrias mais incrveis a respeito de Silva e tinha
     amaldioado uma e mil vezes ao William Malone por ter entregue a
     Fiona a esse demnio. Mas o dano j parecia; agora terei que enfrent-lo.
             --Est bem, Maria, est bem! Comportarei-me como uma menina
     boa --replicou Fiona com um sorriso picasse nos lbios.
             Maria no soube se Fiona tinha conseguido interpretar o terror
     em seus olhos.



                                            * * *



            De Silva no almoou com elas. Fiona e Candelaria comeram
     sozinhas, como desde fazia vrias semanas. Fiona morria por perguntar
     a respeito da chegada do Juan Cruz, mas se mordeu a lngua e no disse
     nada.
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            depois de almoar, preparou-se para ir a escuelita. No quis que
     Eliseo a levasse porque j tinha advertido que preferia ficar entre os
     pees, fazendo as tarefas do campo. Em certa forma, isso a reconfortou.
            Chegou  capela e se encontrou com os meninos que a esperavam
     fora. Os maiores se aproximaram do carro e a ajudaram a descender. Os
     mais pequenos brigavam por levar suas coisas e as meninas se
     atropelavam por lhe entregar seus regalitos. Todo aquilo a fazia sentir-se
     bem.
            Cada um conhecia seu lugar nos bancos e j no fazia falta
     repreend-los para que ingressassem como seres humanos e no como
     turba de vacas. depois de tudo, essa tambm era a casa do Senhor.
            Uns dos majores desdobrou o suporte de livro e lhe colocou a
     piarra em cima, ainda com restos de giz do dia anterior. Rapidamente,
     Fiona passou um trapo mido e o apagou tudo. Sem tempo que perder,
     comeou com a classe. Escreveu onze frases curtas e simples no
     pizarrn, uma para cada aluno, e fez que as lessem, da um por vez. As
     meninas eram as que mais de pressa aprendiam. Sempre dispostas, e
     muito minuciosas, eram as melhores da classe. Fiona lamentava que os
     homens as considerassem inferiores.
            A porta da capela se abriu de repente, e os alunos voltearam para
     ver quem era o intruso. As meninas deram um grito e correram
     espavoridas a cobrir-se detrs da Fiona que, parada no altar, ficou-se
     rgida como uma estaca pelo inesperado da irrupo. Os mais
     pequeitos imitaram s meninas; os maiores se apressaram a ficar de p.
     Era o patro.
            De Silva comeou a rir a gargalhadas quando divisou a cabecita
     negra de um dos mais pequenos aparecer sob a saia da Fiona, como se o
     pequeno se refugiou em uma carpa. Todos o olharam incrdulos.
     Quando Fiona viu o menino, suas gargalhadas no foram menos
     sonoras que as de seu marido.
            --Vamos, Carne... Sal da, vamos --ordenou Fiona--. por que te
     esconde?
            O garotinho saiu de seu esconderijo, no muito convencido. De
     Silva, de p junto  porta, olhava-os com esses olhos que eles tanto
     temiam. Carne se aproximou do ouvido de sua professora.
            -- que est o patro, senhora --sussurrou.
            Fiona lhe sorriu, e logo depois de lhe acariciar a bochecha suja,
     indicou ao resto que voltassem para seus lugares. Depois, percorreu o
     trecho que a separava de seu marido disposta a enfrent-lo.
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           --Senhor de Silva...
           --Est bem. S queria confirmar com meus prprios olhos algo
     que no podia lhe acreditar no Celedonio. --O tom do Juan Cruz era
     calmo. Logo, consciente da ansiedade que embargava a Fiona,
     adicionou--: Hei dito que est bem. Falaremos esta noite, no jantar.
           E dando-a volta, abandonou a capela. Pela segunda vez no dia,
     Fiona o viu desaparecer sobre o lombo de seu cavalo e se sentiu mau.



                                            * * *



            depois de tomar um banho com sai, Fiona se poliu especialmente.
     Fez-lhe ensaiar a Maria vrios penteados at que encontrou o melhor: as
     mechas emolduravam seu rosto tomados no cocuruto, enquanto o resto
     caa pesadamente, cheio de cachos de cabelo que Fiona tinha desarmado
     lhe acontecendo os dedos entretanto.
            --Assim est melhor --disse.
            Estava realmente bela. Ao chegar ao salo se sentiu segura; sua
     formosura lhe dava segurana. Juan Cruz ficou atnito ao v-la, mas o
     dissimulou.
            Separou-lhe a cadeira e permaneceu uns instantes detrs dela,
     inspirando os aromas que emanavam de seu corpo. O vestido,
     encantador, era de loira cor lavanda e o xale, de cachemira marfim,
     estava festoneado por guardas da mesma cor. Um cinto de gro do
     mesmo tom do traje, largo, muito largo, delineava com graa os
     contornos afinados e perfeitos de sua cintura. Sobre sua saia deixava cair
     um relicrio de ouro que pendurava da fivela do cinturo. E esse
     extravagante penteado, no como o de todas as portenhas, com sua raia
     ao mdio e esses dois coques sobre o rosto em forma de banana... Juan
     Cruz odiava os peinetones. Por sorte, disse-se, Fiona nunca os usava.
            --Como te foi em sua viagem, Juan Cruz? --perguntou
     familiarmente Candelaria.
            --Excelentemente bem. Cumpri velhos compromissos... --olhou a
     Fiona de soslaio--, e fechei negcios muito convenientes.
            Candelaria se assombrou de que se mostrasse to loquaz com o
     tema de seus negcios; de todos os modos, pensou, melhor seria no
     perguntar mais.
            --me diga, Fiona, o que tem feito todos estes dias?
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            O tom de seu marido era afvel, mas aos ouvidos da jovem soou
     hipcrita.
            --OH, Juan Cruz, voc no sabe todo o... --Candelaria se
     interrompeu. O olhar furtivo e frio que de Silva lhe dedicou foi mais que
     eloqente.
            --Perguntei a ela, Candelaria.
            --Bom... No tenho feito muito, senhor... --apressou-se a replicar
     Fiona, sem muito nfase. Toda sua segurana se desmoronou com
     apenas escut-lo.
            --Eu no acredito assim. Isso da escola e a cremera... --Girou a
     cabea e fixou o olhar na negra.
            --OH, no senhor! No diga nada a ela. foi todo minha idia; ela
     s aceitou colaborar. Ver: fiz uma percorrida pelas casas dos pees.
     Quando me dava conta de que os meninos eram analfabetos e as
     mulheres pouco sabiam fazer, tomei o atrevimento...
            -- claro que sim que foi um atrevimento --a cortou em seco
     Juan Cruz.
            Naquele momento ingressou no salo uma das mestias com a
     comida. Enquanto ela servia o peru, ningum abriu a boca. Fiona, que se
     levou a taa nervosamente aos lbios, no podia evitar que suas pernas
     tremessem sob a mesa. Candelaria, em troca, no parecia muito
     preocupada.
            --causaste grande revo entre a peonagem com essas idias,
     Fiona --disse por fim Juan Cruz, quando a criada se retirou.
            O que mais estremecia a Fiona era o tom. Parecia-lhe muito
     cordial. perguntava-se se aquela no era a calma que predizia s
     tormentas.
            --Eu...
            --Puseste-os muito nervosos com todas essas idias... --parecia
     procurar a palavra adequada--...escandalosas, diria eu.
            --Escandalosas?
            Fiona o olhou aos olhos com rabugice; nesse momento, a
     promessa que tinha feito a Maria horas atrs ficou no esquecimento.
            --Eles no esto acostumados a essas coisas Y...
            --Senhor de Silva, com todo respeito --interrompeu Fiona--. O
     que tem de escandaloso ensinar a ler e a escrever a um punhado de
     meninos? O que tem de escandaloso ensinar a fabricar queijos a um
     punhado de mulheres?
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             Fiona tinha elevado a voz. Tinha apoiado suas mos com fora
     sobre a mesa, e seu rosto tinha avermelhado de fria contida. "Muito
     bem, pensou nesse momento, j hei dito o que tinha que dizer; se quer
     estalar, que estale." Mas voltou a equivocar-se. Em lugar da tormenta
     sobreveio um profundo silncio durante o qual Juan Cruz lhe sustentou
     intensamente o olhar.
             Sua esposa era, sem dvida, pensou ele, uma mulher valente.
     Estava seguro de que ningum se teria atrevido a desafiar o desse modo.
             --Ai, Fiona Malone --disse por fim Juan Cruz, com um suspiro--
     .  uma menina para compreender algumas costure. Mas...
             A jovem tentou lhe replicar, mas lhe apoiou um dedo sobre os
     lbios.
             --me deixe falar, querida. Acredito que  muito inteligente, e no
     passar muito antes de que compreenda como se dirige o mundo
     realmente.
             --J sei como funciona. O que acontece  que eu no gosto de --
     murmurou apenas. De Silva,  obvio, escutou-a. Mas se limitou a lhe
     sorrir e a trocar abruptamente o tema de conversao.
             Fiona pensava que depois de jantar lhe pediria que tocasse o
     piano. Mas no foi assim. Ordenou a Candelaria que lhe levasse o mate
     a seu estudo e, depois, desapareceu depois do vo da porta.
             Fiona no podia acredit-lo. sentia-se humilhada, cheia de fria.
     Imaginou mil desculpas para ir a seu escritrio e brig-lo, mas todas lhe
     pareceram infantis. Pensou em lhe levar ela mesma o mate para ter
     oportunidade de conversar com ele; da escola e da cremera,  obvio.
     depois de tudo, na hora do jantar no tinham ficado em nada; nada
     claro, pelo menos. Finalmente essa idia no a convenceu. Abatida,
     decidiu partir a seu dormitrio; talvez ao dia seguinte poderiam falar
     melhor; e a ss.
             J em seu dormitrio, comeou a dar voltas na cama, sem poder
     conciliar o sonho. No queria apagar o quinqu; temia a sensao de
     absoluta escurido. Tampouco desejava ler; tinha-o tentado e sua vista
     se atrasava largos minutos no mesmo artigo. Tampouco queria levantar-
     se. Simplesmente, no achava paz.
             J muito entrada a noite, de Silva no havia tornado ainda a seu
     dormitrio. Fiona tinha estado muito atenta a qualquer som que
     proviesse da habitao do lado, e sabia que no se equivocava. Durante
     muito tempo esse dormitrio tinha permanecido em silncio; agora,
     estava ansiosa por escutar novamente seus sons. O sapateio de Silva
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     quando retornava, o suspiro que sempre exalava, o rudo da fivela de
     seu cinto ao golpear o respaldo da cadeira, o som da gua na bacia
     quando se enxaguava o suor e o p do rosto, os tacos das botas quando
     davam totalmente contra os tablones do piso, e os passos desejosos at a
     habitao dela. Fiona esperou, mas no escutou nada. Tudo estava na
     mais absoluta quietude.
            levantou-se da cama e, antes de deixar a antecmara, envolveu-se
     em uma bata de musselina, que tinha a obscenidade justa para aquelas
     noites calorosas. Decidida, encaminhou-se pelo corredor para o estudo
     de seu marido; falaria com ele essa noite, ou no voltaria a conciliar o
     sonho em sua vida. Baixou as escadas quase adivinhando onde estavam
     os degraus. A escurido era absoluta; nenhuma s vela parecia estar
     acesa e no se escutava nenhuma voz. Seus escarpines apenas se
     roavam o tapete da escada.
            O estudo tambm permanecia s escuras; de Silva no estava ali.
     Tampouco o achou no salo azul. Nem na biblioteca, nem no salo de
     baile, nem na cozinha. cansou-se de procurar s cegas; j se tinha
     golpeado vrias vezes e quase tinha atirado ao cho um poliche de
     porcelana que seus reflexos lhe permitiram apanhar no ar. J no o
     buscaria mais. Esperaria-o em seu dormitrio; cedo ou tarde teria que
     retornar a dormir. Ou se teria partido novamente? sentiu-se mau, e
     tratou de sobrepor-se. Sem pens-lo, encaminhou-se  antecmara do
     Juan Cruz.



                                            * * *



            --No deveria mortific-la tanto com o tema da escola. Est to
     entusiasmada, a pobrecita! --comentou Candelaria.
            Juan Cruz tomou o mate que lhe entregou a negra e se sentou
     frente a seu escritrio. Tinha o sobrecenho franzido e o olhar pensativo.
            --Teria que ter visto como se empenhou contudo. Com a
     cremera, com a escola... Tem um carter! Dirigia aos pees melhor que
     voc --prosseguiu Candelaria, sonriendo.
            Taciturno, de Silva lhe devolveu o mate sem levantar a vista. A
     mulher o olhou de soslaio antes de voltar a cevar. Sabia que o
     incomodava com tanta alharaca, mas queria lhe contar tudo.
            --Os meninos esto muito contentes porque...
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             --J no diga mais, Candelaria! --bramou Juan Cruz.
             A negra no se alterou. Mais ainda, j lhe resultava estranho que
     no tivesse reagido antes. Enquanto se tomava seu mate, contemplou-o
     com carinho. Conhecia-o tanto que sabia exatamente o que Juan Cruz
     pensava nesse momento. No era o assunto da escuelita o que o deixava
     srio, claro que no. Mas nem louca de arremate lhe ia atirar da lngua
     para que lhe contasse. ficaria feito uma fria se suspeitava que ela
     pressentia o motivo de seu mau humor.
             depois de um silncio, Candelaria se levantou disposta a
     abandonar o estudo. aproximou-se do escritrio para despedir-se do
     Juan Cruz.
             --E desde quando a defende tanto? --perguntou de Silva de
     repente--Me pareceu que no te caa nada bem a mucosa.
             --No te cria que a adoro; mas no  to m. O parvo foi voc por
     lhe escolher isso to arisca e cocorita. Embora tenha que admitir que 
     to, mas to bonita, que seus defeitos se dissimulam bem.
             Juan Cruz a olhou com um sorriso que equivalia a um
     assentimento. ficou de p e caminhou sem rumo pela habitao.
     Candelaria compreendeu que era quo nica podia ajud-lo. Para isso,
     tinha que falar. E sabia perfeitamente o que era o que devia dizer.
             --O outro dia cozinhou a perguntas a respeito de ti. Que desde
     quando te conhecia, que dia tinha nascido, que isto, que o outro --
     comentou a negra, como ao passo.
             Ao escut-la, de Silva se aproximou de sua criada com o rosto
     alterado, como o de um menino ansioso. deu-se conta em seguida de seu
     arrebatamento e tentou recuperar sua habitual falsidade; mas foi intil: a
     impacincia por saber mais o delatava.
             --E?
             --E o que?
             Candelaria ps cara de inocente; sabia que o estava exasperando,
     e que essa era a nica maneira de obter que seus sentimentos aflorassem.
             --Que mais te perguntou, mulher?
             --Ah! Nada mais. Disse-lhe que se queria saber perguntasse a ti.
     zangou-se comigo, mas no me importa. Alm disso, j lhe passou. No
     lhe duram muito os manhas de criana --disse a propsito.
             Com a desculpa de que estava muito cansada, a negra se
     despediu e o deixou sozinho. De Silva a seguiu com o olhar at que a
     mulher fechou a porta; depois, ajeitou-se no sof. de repente, sentiu em
     seu corpo o esgotamento de um dia muito duro. Tinha sado de Buenos
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     Aires antes do amanhecer, com a inteno de chegar  a Candelaria para
     o caf da manh, s sete. Uma demora involuntria jogou por terra seus
     planos. Um dos cavalos perdeu uma ferradura e deveram desviar o
     caminho em busca de um ferreiro. De Silva se enfureceu com o peo que
     cavalgava o cavalo em questo; supunha-se que deviam alist-los na
     cidade para no perder um minuto ao dia seguinte.
            A viagem a cavalo, a paisagem formosa da aurora e o clima
     benigno lhe devolveram o bom aspecto e a ansiedade com os que havia
     partido da cidade. Chegou passadas as nove. decepcionou-se quando
     perguntou pela Fiona e Candelaria lhe informou que tinha sado muito
     cedo no carro, mas que no tinha idia de onde se dirigiu.
            --Disse-te que a vigiasse... --repreendeu-a de Silva.
            --Sim, pediu-me isso; mas  impossvel. Essa menina  plvora e
     no se deixa dirigir to facilmente. Crie que posso estar lhe perguntando
     dia e noite que coisa faz? Vrias vezes o tentei e me freou em seco.
     "Candelaria, sou uma mulher, no uma menina, no o esquea", dizia-
     me; dava-se a meia volta e me deixava parada como estaca. Que queria
     que fizesse, que a atasse  pata de sua cama? No cria...
            --Bom, bom! J deixa de te queixar --interrompeu Juan Cruz.
     Depois, abraou-a com carinho e a beijou em ambas as bochechas.
            --Ai, minha negra linda! O que vou fazer com essa chinita?
            Enquanto Candelaria lhe contava as ltimas novidades, Juan
     Cruz tomou o caf da manh algo na cozinha. No tinha fome. Tinham
     comido algo no caminho, assim ao cabo de uns minutos saiu com seu
     padrillo a percorrer a fazenda.
            Encontrou-a na fonte, pintando. No lhe disse nada; fascinado,
     limitou-se a contempl-la. Depois, na capela, rodeada de meninos
     medrosos, resultou-lhe encantadora. E agora sabia que sua esposa estava
     na quarto, preparando-se para ir  cama. De seguro Maria estaria
     penteando-a. Sempre cheirava to bem... Sua pele naturalmente tinha
     esse aroma. ergueu-se de sbito e abandonou o sof.
            Estava de mau humor, mas no se devia ao alvoroo que Fiona
     tinha armado essas semanas em sua ausncia, nem a cremera, nem a
     escuelita; nada disso. Por fim, de Silva se justificou consigo mesmo.
     Sentia pavura de que sua esposa voltasse a recha-lo. Sabia que no o
     suportaria; mataria-a, cheio de raiva e despeito.
            Pavura, ja! Ele, o grande de Silva, tinha-lhe medo a uma menina
     de dezoito anos. Deu-lhe um violento chute a uma cadeira. Melhor seria
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     sair um momento a avivar-se. Os pees o tinham convidado ao fogo
     essa noite, uma boa oportunidade para tirar o mau humor de cima.
             Receberam-no com afeto. Um deles escondeu uma garrafa de
     aguardente; tinham proibido beber. De Silva se deu conta, mas se fez o
     zonzo. No tinha vontades de repreend-los. Tinha chegado at ali em
     busca de um pouco de distrao. Possivelmente, at lhe sentariam bem
     uns goles de algo forte; entretanto, conteve-se: no era questo de
     desautorizar-se frente a seus homens. Sempre terei que estar atento e
     no colocar a pata.
             As horas que passou com sua gente lhe vieram bem. divertiu-se e
     conseguiu afastar os maus pensamentos. Mas ao outro dia terei que
     trabalhar, e muito duro; comeava a poca da tosquia, uma tarefa que,
     embora rdua, resultava estimulante para os pees. Organizavam
     concursos para ver quem tosquiava mais ovelhas em um tempo
     determinado. Os prmios no tinham muito valor; sim a sensao de ser
     o mais rpido na tarefa. A nenhum lhe ocorria competir com de Silva; a
     ele, ningum o igualava.
             Algum apagou o fogo lhe jogando terra, outro se fez cargo do
     mate e seu equipamento, e assim terminou a farra dos gachos.
     despediram-se, encaminhando-se cada um a sua choa.



                                            * * *




             O estalo de um yesquero despertou. Olhou a seu redor, um pouco
     sobressaltada, e tratou de recordar onde estava; doa-lhe o pescoo e lhe
     tinha dormido um brao, no que comeava a sentir o molesto comicho.
     Esfregou seus olhos e tratou de ver atravs da luz de um abajur aceso,
     uns passos mais  frente.
             De Silva estava sentado em uma cadeira, com o respaldo para
     frente. Nesse instante guardava no bolso da cala seu yesquero de cauda
     de tatu e se levava o charuto aos lbios. Depois, apoiou tranqilamente o
     queixo sobre o encosto de madeira e continuou observando-a com
     seriedade. Tinha o torso nu e s vestia as calas azuis que levasse para o
     jantar.
             --O que faz voc aqui? --perguntou Fiona com voz sonolenta.
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             --meu deus, Fiona! --Seus lbios sorriram divertidos--. Chego a
     meu dormitrio e te encontro dormida em minha poltrona... No crie que
     deveria ser eu o que pergunte isso?
             Fiona recordou. Tinha decidido esper-lo em seu quarto; tinha-o
     aguardado um comprido momento, at que o sonho a venceu e ficou
     dormida no canap. Sentia vergonha; queria escapar dali a toda pressa:
     j no lhe importava falar com ele, s queria fugir. levantou-se, correu as
     mechas encrespadas de seus olhos e tratou de acomod-la bata, que se
     abria, insinuante, ante o olhar lascivo de Silva.
             --Desculpe, senhor. S queria falar com voc. Ser melhor deix-
     lo para amanh. Agora deve estar muito cansado. --Enquanto o dizia,
     encaminhava-se para a porta comum.
             --Um momento!
             Juan Cruz se ps de p.
           --No acreditar que te observei dormir por mais de meia hora
     para me deixar agora com a intriga de que coisa to importante tinha
     para me dizer que no podia esperar at manh. No, senhora. Voc no
     se vai daqui at me dizer isso
             aproximou-se lentamente, interpondo-se entre ela e a sada.
             --Mas... --balbuciou Fiona, com o rosto encarnado--. Talvez seja
     melhor que...
             No pde seguir. Juan Cruz a tirou dos ombros e comeou a beij-
     la to febrilmente que lhe fez doer os lbios. Fiona sentiu que se estava
     afogando; mas o certo era que no queria det-lo: comeava a sentir o
     roce ertico das mos dele sobre sua cintura, seus quadris, suas ndegas;
     logo, de novo sua cintura e seus peitos.
             --No... No o faa... me deixe... --Tratou de vencer a tentao,
     tratou de separar o de seu corpo: resultou-lhe impossvel; tratou de
     sentir-se ultrajada e humilhada, mas no o conseguiu.
             --por que no, Fiona? O que acontece? Voc no gosta? --
     Enquanto suas mos seguiam percorrendo-a, falava-lhe com os lbios
     apoiados nos seus--. No me deseja, Fiona? No entende que me
     consumo por esta paixo que sinto por ti? me toque, por favor, me
     toque.
             De novo essa voz torturada em seus ouvidos, em sua boca, em
     seus peitos, em todo seu corpo.
             --Por favor... senhor... me deixe... --Sua voz era um sussurro
     entrecortado.
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             Juan Cruz a separou de si bruscamente; Fiona pensou que tudo
     acabaria nesse momento. Mas no. De Silva lhe tirou a bata, que caiu ao
     flanco do corpo da Fiona; logo, tomou entre seus braos e a levou a
     cama. Esta vez, Fiona no esperneou, no gritou, no o mordeu. tirou-se
     do pescoo de seu marido e o deixou fazer; e o deixou fazer porque
     assim o queria. J no podia neg-lo: esse homem a enchia de um desejo
     fsico que ela no podia controlar. Arrastava-a como um furaco,
     levando-a at acima e deixando-a cair como uma pluma depois de hav-
     la feito gozar do prazer mais arrasador.
             Essa noite, Juan Cruz lhe fez o amor uma e outra vez. Fez-o como
     nunca antes em sua vida; ele mesmo estava desconcertado. deu-se conta
     de que a tinha desejado terrivelmente e que a tinha sentido saudades
     mais ainda.
             Por momentos, Fiona sentia que devia det-lo, deter-se. Mas no
     podia; aquilo a dominava como uma potente fora externa, dobrava-a
     como uma papoula frente ao vento. Era impossvel lutar contra ele. E os
     gemidos escapavam de sua garganta cada vez que Juan Cruz lhe
     acariciava o ventre, cada vez que lhe roava os mamilos endurecidos
     com sua lngua mida e ofegante, cada vez que sussurrava "Fiona... meu
     deus... Fiona...".
             Quando por fim terminaram, tendeu-se ao lado dela e,
     sustentando-a cabea com a mo, permaneceu largos minutos
     observando-a dormir. Parecia tranqila; sua respirao era compassada
     e apenas se se escutava. Seu nariz era to pequeita. Desejou ro-la com
     o dedo, mas temeu despert-la. Seu cabelo flamgero se pulverizava ao
     redor, sobre o travesseiro. Esse marco perfeito, pensou, ressaltava ainda
     mais a brancura de sua pele.
             Recostou a cabea; o cansao comeava a venc-lo.
             --Fiona... formosa Fiona --sussurrou antes de ficar
     profundamente dormido.




                                       Captulo 9
            Eram muitos os que pensavam que o grupo de patrcios que
     assassinou ao general Juan Lavalle a manh de 9 de setembro de 1841
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     estava, em realidade,  busca da Bedoya, o governador cordovs que
     dias atrs tinha passado a noite no Jujuy, em casa da famlia Zenarruya.
     Havia algo de certo nessa hiptese. Aqueles patrcios sim procuravam a
     Bedoya, mas uns dias antes lhes tinha somado um moo de uns vinte e
     cinco anos que dizia estar procurando o Lavalle. Foi esse jovem quem,
     em meio da confuso do resto da partida, abateu ao Lavalle de um
     balao na garganta no momento em que o general se encontrava no
     saguo da residncia Zenarruya, disposto para fugir. antes de
     abandonar o lugar, o moo cortou com seu faco as medalhas que, agora
     ensangentadas, tinham engalanado o uniforme do militar unitrio.
            --Pelo coronel Dorrego, meu pai --disse Juan Cruz, enquanto
     Lavalle se retorcia sobre seu sangue. Nunca soube se o tinha escutado.
     No lhe importava; tinha vingado a morte de seu pai e isso era
     suficiente.
            Semanas depois, de Silva reapareceu no estudo da casa de
     Moreno e Peru propriedade da famlia da esposa de Rosas. Ningum
     sabia onde tinha estado, nem sequer o governador. Muito menos
     Candelaria, que permanecia angustiada na estadia.
            Quando Juan Cruz transps a porta, Rosas lhe ditava uma carta a
     um de seus ajudantes. Seus olhares se cruzaram, e o governador
     entendeu que seu protegido precisava estar a ss com ele. Despediu-se
     dos assistentes e se sentou em sua poltrona de couro, sem pronunciar
     palavra. Aquele dia soube que Juan Cruz era o filho bastardo do
     Dorrego.
            --Primeiro por meu pai, o coronel Dorrego; logo, por voc.
            O jovem arrojou as medalhas sobre a mesa e se retirou do lugar.
     Rosas reconheceu imediatamente as medalhas do Lavalle, seu amigo da
     infncia e seu inimigo na maturidade. Ento, a incerteza que rodeava a
     histria do moo se limpou e tudo saiu  luz.
            Desde muito pequeno, Juan Cruz tinha chamado a ateno do,
     por ento, prspero pecuarista dom Juan Manuel de Rosas. Era um
     menino muito inteligente e vivaz que sempre estava entre os pees
     escutando-o tudo, aprendendo-o tudo. Tanto, que aos doze anos j
     tosquiava mais de dez ovelhas em uma hora, montava  perfeio e
     sabia dirigir um trabuco melhor que muitos gachos. E Rosas lhe
     ensinou as artes do faco.
            afeioou-se muito com o mucoso. Havia algo em seu olhar, certa
     galhardia mesclada com soberba e inteligncia, que recordava a outra
     pessoa, mas no sabia a quem. Alm disso, era um menino educado; lia
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     e escrevia  perfeio e Rosas lhe tinha pedido muitas vezes sua
     colaborao para redigir suas cartas e missivas.
            Mas a consagrao do carinho para o menino de Silva veio
     quando, estando Rosas exilado na Santa F, em poca da anarquia,
     Crucito, como ele o chamava, tomou um dos cavalos de Los Cerrillos e
     partiu rumo a essa provncia ao encontro de seu patro. Ao v-lo
     aparecer, Rosas no pde acreditar que esse menino de apenas dez anos
     tivesse sorteado os perigos de semelhante viagem que a mais de um
     granduln lhe havia flanco a vida. Os saques e desmandos dos exrcitos,
     as animlias, a fome e o frio eram s alguns dos escolhos. Mas Crucito
     tinha chegado a Santa F com vida, morto de fome e com um olho
     inchado pela picada de uma vespa.
            --Para o que voc mande, meu patro --respondeu com vaidade
     quando Rosas quis averiguar o motivo de sua presena.
            E resultou muito til. Serve como falso mensageiro do Lavalle,
     levando uma missiva ao general Paz, em que seu companheiro de luta
     lhe assegurava que tinha tudo sob controle e que a presena de seus
     exrcitos no seria necessria. Crucito entrou no acampamento de Paz e
     entregou a carta falsa em prpria mo. Depois, voltou para a estadia.



                                            * * *



            Rosas no pde deixar de evocar intimamente aqueles episdios
     de anos atrs quando Juan Cruz transps a porta de seu estudo do
     Palermo.
            --Ah, Crucito! J quase no vem por aqui --disse o governador a
     modo de saudao.
            --bom dia, dom Juan Manuel.
            --Parece que o matrimnio te apanhou entre suas garras e no te
     deixa escapar.
            Tomou pelo ombro e lhe aplaudiu as costas.
            --Nem tanto, nem tanto --disse de Silva, com um sorriso--.
     Ultimamente viajei que estadia em estadia, tal corno voc me mandou a
     dizer com o Cosme. Para isso vim, para lhe contar as ltimas novidades.
            --Muito bem, sente-se e desembucha.
            Rosas olhou a seu redor, procurando entre seus empregados ao
     Pai Vigu, seu bufo pessoal.
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            --Pai Vigu, lhe diga a Manuelita que nos prepare mate fresco
     para mim e para o Crucito.
            --Sim, sua excelncia, em seguida --replicou o bufo.
            E como ficou ali imvel, Rosas lhe sacudiu um tapa nas costas, ao
     tempo que vociferava:
            --Hei dito j, Pai Vigu! Ou tem voc gradeio nos ouvidos?
            Aturdido, o servente saiu rapidamente do salo temendo uma
     golpiza mais forte. Juan Cruz ria a gargalhadas da cena. Nunca tinha
     podido compreender a esse idiota do Vigu; Rosas o tratava pior que
     pior, humilhava-o, insultava-o, pegava-lhe, submetia-o aos torturas mais
     espantosos e ele seguia a, talvez por um prato de comida e um teto
     onde cobrir-se.
            A atitude de Rosas com de Silva era diametralmente distinta. Juan
     Cruz era uma das poucas pessoas s que o ditador na verdade
     respeitava. Em realidade, admirava-o. Admirava sua inteligncia, sua
     sagacidade, e, por sobre tudo, sua frieza.
            --Manuelita morre por conversar com sua mulher, mas ela nunca
     aceita os convites que lhe faz para as reunies das quartas-feiras.
            Juan Cruz sabia que isso era uma recriminao mais que um
     simples comentrio. Ningum se animava a rechaar um convite  casa
     do governador. "Ningum, exceto Fiona,  obvio", pensou de Silva.
            -- que esteve um pouco ocupada. Custa-lhe adaptar-se a seu
     novo lar Y...
            --Ou ser talvez essa escuelita que armou para os filhos dos
     pees?
            O governador cravou seus olhos nos do Juan Cruz, que pareceu
     no alterar-se. Enquanto isso, se devanaba os miolos tratando de
     lucubrar a melhor resposta.
            --No, no acredito que seja isso --respondeu de Silva, sem
     maior nfase.
            Era incrvel, no tinha feito dentro da Confederao que lhe
     escapasse ao ditador; sempre sabia tudo. Sua rede de informao era
     endiabladamente eficaz, nunca falhava.
            --No crie que  perigoso andar educando aos filhos dos pees?
     J sabe o que penso a respeito disso, Crucito.
            --Sim; sei mais que bem o que voc opina. Mas tudo est sob
     controle, dom Juan Manuel.
            Com isso, de Silva ps ponto final ao assunto.
            --Se voc o disser...
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           Rosas se aproximou do escritrio repleto de papis e expedientes;
     tomou um e o estendeu ao Juan Cruz.
           --E agora, voc que  mais rpido que eu com os nmeros, quero
     que controles estas contas. No me do.



                                            * * *



            --Dormiu bem ontem  noite, Fiona?
            Juan Cruz se sentou  mesa. Tinha chegado tarde do de Rosas e
     Fiona e Candelaria estavam esperando-o para jantar.
            --Sim, senhor, obrigado --sussurrou Fiona, com o olhar baixo.
     No queria que se notasse a vermelhido em suas bochechas. A situao
     lhe resultava embaraosa; essa manh tinha amanhecido na cama de seu
     marido e, embora ele j no estava ali, havia-se sentido estranha. Antes
     nunca tinha passado toda a noite junto a ele. E o desconforto se
     mesclava com uma sensao que desde fazia tempo no conseguia
     explicar-se.
            Candelaria observava ao matrimnio e, por momentos, suas
     atitudes a desconcertavam. Juan Cruz parecia contente, e Fiona, menos
     aguerrida.
            --Convidaram a uma reunio no Palermo, na quarta-feira de
     noite --comentou Juan Cruz.
            --Ah sim... E, qual  o motivo da reunio? Se posso sab-lo,
     senhor... --perguntou Fiona sem olh-lo.
            --Nenhum em especial. A mesma de tudas as quartas-feiras;
     divertir um pouco a Manuelita e conversar de poltica. Haver o mesmo
     jantar americano de sempre, cantar-se um pouco, danar-se... No sei,
     Fiona, o que est acostumado a fazer-se nessas ocasies, voc sabe.
            De Silva levantou a vista do prato e a descobriu olhando-o fixo.
     Estava muito belo. de repente, sentiu uma excitao e um regozijo
     inexplicvel.
            --Voc no gosta das festas e essas coisas, verdade? --perguntou
     por fim Juan Cruz.
            --No muito, senhor.
            A jovem ainda lhe sustentava o olhar, sem um espiono do
     acanhamento de minutos atrs.
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            --Que estranho que a uma jovencita como voc no lhe agradem
     as reunies! --comentou Candelaria.
            --O que eu no gosto, Candelaria,  o que a gente faz nessas
     reunies --replicou Fiona. Seus olhos azuis no se separavam dos de
     Silva, que a olhava impvido.
            --E o que  o que a gente faz nessas reunies, Fiona? --perguntou
     a negra, como se no soubesse.
            --Ver voc, Candelaria... As jovens solteiras no comprometidas
     se oferecem aos cavalheiros solteiros ou vivos como se fossem fruta no
     mercado. As mes ou as avs passam horas inteiras organizando os
     encontros de suas filhas ou suas netas com os homens mais
     enriquecidos;  humilhante, me crie. Os homens, por sua parte, no
     perdem a oportunidade de caar alguma presa mais ou menos atrativa e,
     se for milionria, to melhor. E se for de linhagem, bom!, isso  o elixir,
     Candelaria.
            Ambos a observavam divertidos. Fiona parecia poseda enquanto
     destrambelhava contra a sociedade em que lhe havia meio doido nascer.
            --E no vai acreditar me Candelaria, mas tambm esto as
     planchadoras.
            --As planchadoras!
            --Sim, as planchadoras. As mais feias, as mais fracas, as mais
     gordas... ou as mais pobres, qualquer que presente algum defeito que a
     faa descartvel, Pode acredit-lo, Candelaria? passam-se toda a noite
     nos corredores ou nos ptios da casa porque nenhum convidado as
     pediu para nenhuma pea! E apesar de semelhante humilhao,
     continuam indo a cada um dos bailes aos que as convida. Pois eu, ao
     demnio com todos os bailes de Buenos Aires!
            Fez uma pausa; deu-se conta de que estava dizendo de uma s
     vez mais palavras que as que tinha pronunciado desde que chegasse  a
     Candelaria. Tomou um sorvo de gua e continuou, animada; depois de
     tudo, esse discurso, em parte, estava dirigido a seu marido.
            --eu adoro ir com as planchadoras. --Fiona advertiu a expresso
     de surpresa no rosto da Candelaria--. Sim, Candelaria. Geralmente so
     pessoas agradveis, amansadas pelo sofrimento de considerar-se menos
     que o resto. Alm disso,  o melhor lugar para ocultar-se se um no
     deseja danar com algum cavalheiro a quem j lhe prometeu uma pea.
            De Silva j no pde conter-se e soltou uma gargalhada. Fiona o
     olhou desgostada; esse no era o efeito que desejava lhe causar.
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            --Com que era por isso que ningum te encontrava no do Sanz
     aquela noite --afirmou Juan Cruz.
            Fiona estava furiosa; ficou olhando-o como lista para lhe saltar em
     cima.
            --meu deus, Candelaria! Teria que ter visto o pobre Estar
     acostumado a... Buscou-a toda a noite, desesperado...
            Voltou a rir, e a raiva da Fiona recrudesceu.
            --O pobre diabo no conseguiu sequer saud-la --retomou Juan
     Cruz com inocultable desprezo. Depois, apartou a vista da Fiona e
     permaneceu calado, com as mos juntas sobre os lbios.
            Palmiro Estar acostumado a, tipejo mau parido. Desde dia em que
     Rosas os apresentou, na quinta de So Benito do Palermo, resultou-lhe
     insuportvel. O governador acabava de nome-lo secretrio geral da
     Sociedade Popular, um posto bastante cobiado; o imbecil se acreditava
     um deus por isso.
            Juan Cruz desprezava o sorriso hipcrita de Estar acostumado a e
     seus modos de garotinho bem. Baixo esse oropel se escondia um homem
     baixo, sem princpios, com desejos doentios por subir no entorno que
     rodeava ao governador. De Silva sabia que Estar acostumado ao
     invejava. Tirava-o de gonzo que Juan Cruz fora to especial para Rosas,
     como um filho, de sua inteira confiana; e para pior, milionrio.
            Foi misia Mercedes Sanz a que o ps a par de que Estar
     acostumado a fazia tempo cortejava a Fiona, ou, mais exatamente, que
     estava meio loquito atrs dela. Mas a jovem nem o olhava. Lhe gelou o
     sangue de s pensar que esse maldito pudesse pr uma mo sobre sua
     mulher, embora s fosse danar o minu. Mas no terei que preocupar-
     se. Estar acostumado a estava longe, na cidade, ruminando sua derrota;
     em troca ele, desfrutava da vitria.
            Voltou a vista a sua esposa. Ela o olhava fixo, com nsias. Tinha
     que lhe dizer algo; precisava desafogar-se da raiva que lhe tinha feito
     sentir com seus sarcasmos.
            --voc saiba, senhor de Silva, que eu no dano com
     mazorqueros.  algo que me tenho proibido.
            --Seriamente, Fiona? Ento, me diga... --arqueou as sobrancelhas
     e ensaiou sua cara mais inocente--. por que no quis danar comigo essa
     noite? Que eu saiba, no sou mazorquero, nem penso s-lo.
            Definitivamente, no o esperava. Essa pergunta foi como um
     balde de gua fria. Como se atrevia a lhe perguntar isso? Respirou
     profundamente e bebeu um sorvo mais de gua. Devia manter a calma.
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     No permitiria que de Silva seguisse enredando-a em seus tentculos
     com sua inescrupulosa habilidade.
            --Voc me pediu para uma pea no momento em que eu me
     retirava da festa. Estava cansada e tinha uma terrvel enxaqueca --
     mentiu Fiona.
            -- obvio --adicionou de Silva em tom irnico, pondo ponto final
      conversao.
            --Desejas mais bolo de choclo, Juan Cruz? --interveio
     Candelaria.
            --No, obrigado. --E adicionou--: Comam a sobremesa sozinhas,
     eu estarei em meu escritrio arrumando uns papis. --Logo, desviou o
     olhar para a Fiona--. Quando terminar, preciso falar contigo. Vem meu
     estudo, por favor.
            Fiona no respondeu; limitou-se a observ-lo at que desapareceu
     detrs da porta.



                                            * * *



            --Dever deixar de dar classes aos filhos dos pees, Fiona. --A
     voz de seu marido soou imperativa.
            Fiona no chegou a sentar-se no sof de couro; deu um coice e
     esteve outra vez em p. Tratou de tranqilizar-se; sabia que se perdia a
     calma perderia tambm a batalha.
            --Senhor de Silva... --comeou quase com doura--. Eu entendo
     que esta  sua estadia e nenhum direito tenho A... --deteve-se
     bruscamente e com o dedo indicador indicou a de Silva que no a
     interrompesse--. Por favor, me deixe terminar.
            Juan Cruz a olhou, divertido.
            -- certo que no tenho nenhum direito sobre sua propriedade
     ou sobre o pessoal de La Candelaria --seguiu Fiona, imperturbvel--,
     mas, como acredito que  voc um homem muito inteligente, sei que
     compreender quo benfica  a educao para os meninos. Porque tem
     que saber, senhor, que a ignorncia  um inimigo encoberto ao que se
     deve combater sem quartel. Contra ela nada se pode, s fica elimin-la.
            De Silva, que tinha permanecido de p detrs de seu escritrio,
     comeou a caminhar pela habitao, cabisbaixo, as mos tomadas nas
     costas e o charuto entre os lbios.
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             --Certamente, Fiona, tem lido a muitos revolucionrios europeus
     --afirmou, em tom severo.
             --Como diz voc, senhor? --Fiona tratou de dissimular o melhor
     que pde o estremecimento que lhe provocaram aquelas palavras.
             --Digo-o por essas idias sobre a educao dos meninos e a
     ignorncia. Tem lido muito sobre isso, verdade? --Agora a olhava direto
     aos olhos.
             --Sim,  certo, senhor. Eu leio muito. Parece-me que, ao menos
     nisso, voc e eu coincidimos. --Fiona olhou as paredes a seu redor. Altas
     bibliotecas, repletas do cho ao cu raso.
             --No posso acredit-lo! Fiona Malone admitindo que coincide
     em algo com seu marido.
             A jovem sentiu vergonha e se ruborizou. Entretanto, no ia deixar
     se vencer to facilmente.
             -- mais singelo pensar que minhas idias correspondem a
     outros, verdade? Nem sequer por um msero instante pode acreditar que
     isto que lhe digo  algo no que eu acredito firmemente e que nada tem
     que ver com minhas leituras?
             --Sim, custa-me pensar que seja algo que surge de ti como por
     arte de magia.
             --Arte de magia! Arte de magia h dito voc! Senhor de Silva,
     nada  por arte de magia. Voc deveria sab-lo j... Tudo o que eu sei e
     conheo, tudo o que penso e acredito,  meu maior tesouro.  algo meu;
     me ganhei, e nada nem ningum me vai tirar isso. Apesar de vestir saias
     e levar o cabelo recolhido em um coque, eu tambm sou capaz de criar
     minhas prprias idias, senhor.
             Sua postura era desafiante: a cabea para frente, os braos em
     jarras sobre a cintura, o olhar fixo no rosto dele.
             --Fiona... Fiona... sim que  uma mulher especial --murmurou de
     Silva para si. estava-se divertindo com a conversao, mas no desejava
     zang-la muito; tinha outros planos para essa noite. deixou-se cair na
     poltrona, sem apartar o olhar dela.
             Entretanto, o tom condescendente do Juan Cruz avivou ainda
     mais a Fiona.
             -- lamentvel que se considere "especial" a uma mulher s por
     querer superar-se e aprender um pouco mais que as nimiedades que nos
     ensinam. --Um sorriso irnico se desenhou em seus lbios--. Mas
     tambm tenho que reconhecer que a culpa no  de vocs, os homens.
     No, senhor. A culpa  nossa, das prprias mulheres.
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            De Silva arqueou as sobrancelhas com assombro, mas no disse
     uma palavra.
            --Sim, das mulheres... --voltou a afirmar--. Porque so elas as
     que se submetem s normas que outros lhes impem sem sequer pensar
     por um minuto se lhes convierem ou no. E no dizem nem mu; ao
     contrrio, humilham-se por obter a ateno de um "cavalheiro" que as
     possa pedir em matrimnio. Fazem algo por isso; e uma vez que o
     apanharam, apanhada-las so elas. Mas parecem no dar-se conta. E
     assim vivem, vegetando. Como diz Elseo: "A culpa no  do porco, mas
     sim do que lhe d de comer".
            --No acredito que todas as mulheres sejam como voc diz --
     apontou de Silva--. No acredito que misia Mercedes Senz o seja.
            -- obvio que no! --assegurou Fiona com veemncia--. Mas ela
     teve e tem ainda que suportar as lnguas viperinas de muitas das
     mulheres mais elevadas de nossa sociedade. Ser assim, to livre e aberta,
     causou-lhe sempre problemas; ela mesma me h isso dito.
            --me h dito que se sente feliz de ser assim --retrucou Juan Cruz.
            -- obvio --replicou Fiona, encorajada--. Ningum pode sentir-
     se infeliz se fizer o que deseja com toda a alma.
            --E voc, Fiona,  feliz?
            Pergunta-a que fazia tempo estava evitando a formulava agora a
     pessoa menos indicada. Sua mente comeou a girar em crculos; nada
     lgico lhe ocorra como resposta. As mos lhe suavam, as pernas lhe
     tremiam.
            Juan Cruz viu como Fiona se transformava, e de ser a mulher
     mais segura passava a ser a mais temerosa e vulnervel. incorporou-se e
     foi para seu escritrio, tratando de ocultar o gesto lastimero de seu rosto.
     Talvez, ele tampouco queria escutar a resposta. Abriu uma das gavetas e
     tirou um livro encadernado em couro. Logo, aproximou-se da Fiona, e o
     tendeu.
            --Toma.
            Fiona o recebeu com mos trmulas e o apertou contra seu peito;
     depois, separou-o para ler o ttulo. Pde ver as duas manchas midas
     que o suor de suas mos havia impresso no couro da coberta.
            --Sugiro-te que as a pgina cento e trinta e trs; logo, se o desejar,
     d-me seu parecer.
            Fiona levantou o olhar do livro e se encontrou com os olhos
     escuros do Juan Cruz. Por um momento, sentiu um forte desejo de
     abra-lo; talvez sua expresso, mais mansa e tenra, talvez o tom de sua
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     voz, mais doce e pormenorizado, enterneceram-na. Sem esperar mais,
     abriu o livro e procurou a pgina indicada. A cor spia das folhas
     denotava sua antigidade; voltou-as com cuidado, parecia que
     poderiam quebrar-se como madeira ressecada.
            --"O mito da caverna" --leu Fiona.
            Ao voltar a vista  frente, pde sentir a respirao do Juan Cruz, a
     s um passo de distncia. aproximou-se ainda mais a ela e agora a
     contemplava dessa forma que tanto a impressionava. Sem lhe tirar os
     olhos de cima, Juan Cruz lhe tirou o livro e o deixou em uma mesita
     prxima a eles. Logo, roou com suas mos os mas do rosto da Fiona,
     que sabia tersos como a seda. Ela, hipnotizada, Conteve a respirao.
     Tinha as mos inertes aos flancos do corpo, a boca entreabierta e o peito
     agitado.
            Fiona sentiu que uma fora animal a atraa quando o brao de lhe
     rodeou a cintura e uma de suas mos a sujeitou pela nuca. Beijou-a
     desaforadamente, enquanto a apertava contra ele; e, logo, quando
     baixou pouco a pouco as mos para suas ndegas, e a empurrou contra
     sua virilidade endurecida, Fiona o escutou ofegar. Parecia ter
     enlouquecido, parecia outro.
            --me abrace --ordenou de Silva por fim, quase sem flego.
            Fiona passou os braos por detrs do pescoo de Silva e se deixou
     levar uma vez mais. No podia control-lo, aquele desejo era mais forte
     que sua vontade. E embora o no poder dominara enfurecia, teve que
     admitir que nunca havia sentido tanta sorte como entre os braos do
     homem que odiava.
            Com o olhar extraviado, de Silva procurou com desespero um
     lugar onde lhe fazer o amor; pensou no escritrio, no sof, no mesmo
     cho. No, nada era adequado para ela. Fiona, ainda agarrada a seu
     pescoo, observava-o confundida, sem atrever-se a dizer uma palavra.
            Juan Cruz a levantou no ar e saiu de seu estudo. Fiona se
     sujeitava a suas costas; agora que se aferrava lhe parecia mais larga e
     robusta. O flego entrecortado dele a estremeceu e no pde evitar beij-
     lo; primeiro na mandbula, depois na bochecha, algo spera pela barba
     incipiente, e, por fim, no pescoo. De Silva se contorsionaba cada vez
     que sentia os lbios midos da Fiona sobre sua carne. Era a primeira vez
     que o beijava dessa forma, to voluntria, e aquilo terminou de
     desenquadr-lo; depositou-a sobre o tapete do salo principal e comeou
     a despir-se. Parecia alienado, e a expresso ofegante que animava o rosto
     de sua mulher o avivava ainda mais que seu prprio desejo.
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            Fiona observava o jogo e a tenso de seus msculos  medida que
     ele se despojava da camisa, das calas e, finalmente, dos cales. Afogou
     um gemido na garganta quando Juan Cruz lhe rasgou de um puxo a
     bata de fofoqueiro, liberou-lhe os peitos e comeou a beijar-lhe e sugar-
     lhe Um torvelinho de sensaes comeava a envolv-la quando sentiu
     que a penetrava. Logo, o den.



                                            * * *



             --Senhor... senhor de Silva.
             Fiona lhe sussurrava ao ouvido para despert-lo. Ainda estavam
     tendidos sobre o tapete; ela, despida pela metade, ele, completamente
     nu. Parecia dormido; um brao a envolvia pelas costas e o outro
     descansava em seu ventre; paradoxalmente, embora apanhada, no
     desejava sair dali.
             --Senhor de Silva... --insistiu, levantando um pouco mais o tom.
             A casa estava em silncio; os serventes dormiam,  exceo do
     guarda que passava a noite vigiando possveis malones da torrecilla.
     Estava muito longe, quase nos limites do casco da estadia, no havia
     riscos com ele. Mas, o que aconteceria algum dos serventes despertava e
     os via?
             --Senhor de Silva, por favor, desperte! --Agora o sacudia
     freneticamente.
             Juan Cruz dormia como um menino a seu lado; de repente
     comeou a mover-se com lentido e a fazer sons estranhos com a boca.
     Isso a fez rir.
             --Senhor de Silva, desperte de uma vez, por favor. Devemos ir
     antes de que algum nos descubra.
             Juan Cruz se incorporou com uma gargalhada; doa-lhe as costas
     e tinha uma perna e um brao mdio intumescidos, mas se sentia bem.
             --por que ri, senhor? --perguntou Fiona ofendida; e desviou o
     olhar ao advertir que Juan Cruz ficava de p e seu corpo nu se projetava
     ante ela.
             --Fiona, esta  minha casa; e voc  minha esposa. --Levantou a
     cala do cho e comeou a ficar o Ningum pode nos dizer nada,
     entende?
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            --Sim, mas melhor vamos --disse ela, enquanto tratava de
     levantar-se.
            Nesse momento Juan Cruz tomou as mos, atraiu-a fada ele e a
     beijou nos lbios. Ela se ruborizou e ele sorriu.
            --me deixe te ajudar com sua bata. Fiz-a farrapos... --
     Contemplou-a com picardia, com as mos ainda sobre o tecido--.
     Amanh mesmo ir a Buenos Aires e encarregar todos quo vestidos
     deseje. Est bem?
            --No  necessrio, senhor, tenho...
            --Nada disso, Fiona. Minha esposa tem que ser uma rainha.
            Recolheu a camisa e o calo do piso e os carregou ao ombro. A
     Fiona fez graa v-lo assim.
            --Alm disso, em minha ltima viagem a Buenos Aires aceitei
     algumas convites a reunies e festas. --Olhou-a de soslaio e pde
     advertir um gesto de aborrecimento. Atraiu-a para ele pela cintura antes
     de lhe dizer--: J sei que voc no gosta; mas, faria-o por mim? --
     Cruzou com ela um olhar fugaz--. Melhor no me responda.
            Juntos comearam a ascenso silenciosa pela escada. De Silva
     semidesnudo, ela, toda desalinhada.
            --Senhor de Silva, poderei continuar com meu escuelita? --
     perguntou Fiona quando chegaram  porta de sua habitao.
            --Amanh falaremos disso.
            Juan Cruz sabia que a resposta era no, mas no estava disposto a
     romper a magia desse momento por nada do mundo.
            Com inocncia, Fiona juntou as mos como em uma prece e as
     levou a peito.
            --Por favor, senhor, o suplico.
            Juan Cruz pensou que poderia voltar a lhe fazer o amor ali
     mesmo, com igual mpeto.
            --No, Fiona. --Acariciou-lhe a bochecha--. Agora no. Amanh
     veremos; agora estou muito cansado. --Voltou a beij-la.
            -- Rosas, verdade? Ele no quer meu escuelita, no  certo?
            Era to sagaz. Possivelmente deveria ter eleito uma mais tola; e
     menos impetuosa. Como Clelia, talvez. Mas no, era a Fiona a quem
     mais desejava em sua vida.
            --v dormir, amanh falaremos.
            Fiona entrou em sua habitao. Sabia que no devia insistir; no
     com de Silva.
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             --Qual  seu sobrenome, Candelaria? --perguntou Fiona como ao
     passar.
             A mulher comeou a tossir com nervosismo.
             --Faz dias quero perguntar-lhe e sempre me esquecimento.
             --Bom... ver... este...
             --Acontece-lhe algo mau, Candelaria? --perguntou com fingida
     ingenuidade--. Eu s desejava saber seu sobrenome.
             --E para que desejas saber seu sobrenome?
             A voz profunda e viril do Juan Cruz se deixou escutar no
     momento em que ingressava no comilo. aproximou-se da negra e a
     beijou em ambas as bochechas, como cada manh; depois, sentou-se.
             --Por nada em especial, senhor --se apressou a responder
     Fiona--. Simples curiosidade,
             Juan Cruz no a olhava; parecia estar muito concentrado em
     desdobrar o guardanapo sobre seus joelhos. Enquanto, uma faxineira lhe
     servia caf e Candelaria lhe escolhia alguns pozinhos.
             --Seu sobrenome  de Silva, Fiona --disse por fim.
             Fiona franziu o sobrecenho e olhou  mulher, que tinha baixado a
     vista, envergonhada.
             --Isso significa que vocs so parentes, senhor? --perguntou
     quase com medo.
             --No, no o somos. Candelaria me deu seu sobrenome porque
     ningum mais estava disposto a faz-lo.
             Fiona se ergueu um pouco mais na cadeira. Jamais teria
     imaginado que lhe daria uma resposta to direta.
             --Isso foi muito nobre de sua parte, Candelaria --disse.
             --Obrigado --murmurou a negra.
             --Que deliciosa manteiga! --comentou Juan Cruz, pondo ponto
     final ao Este tema  a que fazem na famosa cremera?
             --Sim --replicou Candelaria mais reposta--. E isso que ainda no
     te dei a provar os queijos.
             --Quase no posso esperar para comer um --disse ele, tomando a
     mo.
             Fiona os olhou e compreendeu que se tratava de outro desses
     momentos nos que ela no existia. Sentiu cimes.
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             --E tambm poderemos continuar com a escuelita, verdade,
     senhor? --disse, aproveitando o momento de euforia.
             --No, no poder seguir com a escuelita.
             Fiona sentiu raiva, tristeza, impotncia, uma mescla muito difcil
     de controlar. E no pde evitar umas lgrimas.
             --Por favor --pareceu suplicar de Silva.
             Nesse preciso instante, Candelaria se levantou e abandonou a
     habitao. Isso a enfureceu mais ainda; era a mulher perfeita, sabia como
     proceder em cada ocasio, sempre fazia o que lhe agradava, jamais o
     zangava. Em troca ela, sempre cometia algum engano que terminava por
     tirar o das casinhas.
             --J falei com o professor Pellegrini para que venha a te dar aulas
     de pintura. O outro dia te vi na fonte com...
             --No quero classes de pintura! Quero meu escuelita!
             At para ela as frases soaram como as de uma garotinha
     caprichosa.
             --No pode seguir com isso. Os meninos tm que trabalhar para
     ajudar a seus pais, e eles se queixam porque esto todo o dia colocados
     entre livros...
             De Silva tratava de manter a calma, mas no estava acostumado a
     que suas ordens no se obedecessem.
             -- Rosas!  ele o que no quer! --A jovem se levantou da
     cadeira--. Maldito tirano!
             Fiona pensou que seu fim tinha chegado quando viu o brao do
     Juan Cruz elevar-se no ar. Instintivamente, fez-se para trs, cobriu-se o
     rosto e afogou um alarido de terror. Mas antes de toc-la, de Silva
     deixou cair a mo. Logo, aferrou-a bruscamente pelos ombros, elevou-a
     no ar e a apoiou contra a parede; os ps da Fiona bailoteaban
     freneticamente sem apoio.
             --me baixe, me baixe!
             --Alguma vez volte a cham-lo tirano --disse Juan Cruz com os
     dentes apertados de raiva--. entendeste? --gritou-lhe perto do rosto.
             Como pde, Fiona moveu a cabea em sinal de assentimento. Lhe
     tinha arrepiado a pele de todo o corpo e um tremor frio lhe sulcava as
     costas. "Outra vez no", pensou angustiada ao recordar a ocasio em que
     de Silva quase tirou a porta de seu stio e destroou uma pesada cadeira.
             Ento, sentiu que de Silva descomprimia a fora que tinha estado
     exercendo sobre seus ombros e, pouco a pouco, voltava-a para terra
     firme. De todas formas, no a deixou escapar; colocou ambas as mos 
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     altura de seu pescoo, to perto que lhe cravava os polegares na carne. O
     fazia doer. As mangas da camisa de Silva se correram para cima e Fiona
     pde ver como os msculos se esticavam sob sua pele bronzeada e
     suarenta.
            --Sou um bastardo, Fiona. --Disse-o em um sussurro resistente,
     como querendo destro-la com os dentes--. Um bastardo --repetiu--.
     Voc no tem idia do que isso significa, nem a mais remota idia. O que
     vai ou seja voc, mucosa malcriada, se jamais te faltou nada? --sorriu
     com ironia.
            Ela se moveu um pouco, tratando de escapar das tenazes que a
     mantinham aprisionada: foi impossvel. Pior ainda: apenas se moveu,
     Juan Cruz tomou pelo pescoo.
            --D-te asco te haver casado com um bastardo? Por isso me
     rechaou de um princpio, porque sou um bastardo, verdade?
            Os olhos de Silva a queimavam. Fiona tratava de negar com a
     cabea, mas sentia que a cada movimento os dedos dele lhe cravavam na
     carne. A dor era, momento a momento, mais intenso.
            --Mentirosa!  uma maldita mentirosa! --bramou Juan Cruz.
            Fiona sentiu o flego quente do homem em seu nariz e comeou a
     tremer.
            --Mas no me importa. J te tenho,  minha --disse ele com
     desdm.
            --me solte, por favor --choramingou a jovem.
            --No antes de que escute o que tenho que te dizer.
            Retirou sua mo do pescoo da Fiona e voltou a apoi-la contra a
     parede.
            --Quando Candelaria chegou comigo  estadia de Rosas, eu tinha
     apenas dias de nascido. Estava morta de fome e sem foras porque tudo
     o que tinha o trocava por leite para mim. --Fez uma pausa em que
     baixou a vista; depois, continuou com a mesma veemncia--. Rosas a
     acolheu em seu campo, deu-lhe um rancho onde viver e lhe ofereceu
     trabalho. Nunca nos deu de presente nada; sim nos brindou a
     oportunidade de subsistir quando todos nos desprezavam. me tratou
     sempre como a um filho, e eu o quero como a um pai.
            Baixou cansativamente os braos e voltou para sua cadeira.
            --Sente-se, Fiona.
            Estava cansado de brigar com ela. Preferia-a mansa e disposta
     como quando faziam o amor. No queria brigar mais.
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             Obedientemente, Fiona se sentou  mesa, com as mos sobre a
     saia e a vista na toalha; no queria olh-lo aos olhos. sentiu-se miservel
     e triste; nesse momento compreendeu que dom Juan Manuel era para o
     Juan Cruz o que Sejam Malone para ela. Que fazia de Silva com ela?
     depois de tudo, teria que odi-lo; mas no podia.
             --Senhor...
             --Fiona...
             Os dois falaram com mesmo tempo. depois de olhar uns
     segundos, sorriram tristemente.
             --O que foste dizer me?
             --Queria lhe pedir perdo por chamar assim a dom Juan Manuel.
     Eu no sabia nada. --Voltou os olhos  toalha.
             --Est bem, Fiona. Talvez a culpa seja minha por no haver lhe
     contado isso, mas...  to difcil falar contigo... Sempre  defensiva,
     sempre to mordaz...
             --Bom, senhor, voc tampouco fica atrs --argiu Fiona com
     novas presunes.
             Juan Cruz se limitou a lhe sorrir.
             --Fiona, o que vou fazer contigo? por que insiste em me desafiar?
     --perguntou-se, enquanto aproximava uma mo ao pescoo de sua
     esposa e o acariciava; sabia que lhe tinha causada dor com seus dedos.
     Tinha uma pele to suave, to vulnervel.
             --Eu no quero desafi-lo. S desejo continuar com minhas
     classes. --Viu-o sobressaltar-se levemente na cadeira, e se apressou a
     adicionar--:  que no compreendo que mal fao ensinando a ler e a
     escrever aos meninos.
             --H tantas coisas que no compreende... E no porque no seja
     inteligente! --adicionou em seguida ao ver que Fiona franzia o
     sobrecenho--.  claro que sim que o ; mas no viveste o suficiente para
     entend-lo tudo. O mundo  mais complicado do que voc crie.
             ficou de p, disposto a abandonar o comilo.
             --Senhor... --chamou-o Fiona antes de que cruzasse a porta--. E
     sua me, senhor? O que ocorreu com ela?
             --Minha me est morta.



           A negra Paolina se aproximou do mostrador da recepo. O
     homem que atendia estava concentrado em sua tarefa: anotava algo,
     com letra mida e clara, em um enorme livro que tinha diante.
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            Paolina apoiou a confuso de roupa que trazia em um espao
     livre do mostrador e pigarreou, delatando sua presena. O homem
     levantou a vista por sobre seus culos.
            --bom dia, senhor Keen --saudou a criada.
            --bom dia, Paolina. perguntou por ti trs vezes no que vai da
     manh. por que demorou tanto, menina? --perguntou Keen, o dono do
     hotel, um velho irlands que desde fazia alguns anos vivia em Buenos
     Aires.
            --Est zangado? --perguntou Paolina com medo.
            O homem se encolheu de ombros e fez um gesto com a boca.
            --Com de Silva nunca se sabe, menina. O melhor  no faz-lo
     rabiar. Vamos, sobe; est na mesma habitao de sempre.
            A criada subiu com rapidez as escadas, mas demorou um pouco
     em bater na porta. Em realidade, embora de Silva nunca tinha sido mau
     com ela, sabia que podia s-lo se no se cumpriam suas ordens. A
     verdade  que tinha tido toda a inteno de chegar mais cedo, tal e como
     tinha ficado com ele; s que, com a senhorita Clo rondando por a,
     tinha-lhe resultado impossvel.
            --Adiante --disse de Silva, quando por fim Paolina se atreveu a
     chamar--. Chega tarde. Faz momento que teria que ter sado para a
     estadia --a repreendeu.
            A jovencita comeou a tremer; as palavras no lhe saam.
            --Patro, desculpe, mas... Perdo, patro, o que acontece... Bom,
     no pude antes porque...  que...
            --Paolina, Por Deus, te explique de uma vez!
            --A senhorita Clo no me deixou em paz nem um minuto,
     patro. Logo agora pude escapar da casa porque ela saiu a fazer umas
     compras --explicou a negra, espremendo-as mos, com o olhar fixo no
     cho.
            --Est bem. --Juan Cruz trocou o tom de voz e continuou--. De
     agora em mais, manda-o ao Mateo; com ele ser mais fcil.
            --Sim, patro.
            --Trouxe-me o que te pedi?
            A negra estendeu os braos e entregou a confuso de roupa. Juan
     Cruz o jogou sobre a cama.
            --Estas so todas as coisas delas que ficavam na casa, patro. J
     no h nada mais --assegurou a jovem.
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            Sem falar, de Silva se aproximou de um mvel, tirou de uma das
     gavetas um saco com moedas, e o entregou a Paolina. Depois, despediu-
     a.
            --Vete agora. No esquea mandar ao Mateo o ms que vem.
            A jovem estava a ponto de abandonar a habitao quando Juan
     Cruz a deteve.
            --Como est ela? --perguntou.
            A jovem soltou um flego de indigesto antes de responder.
            --Como louca, patro. Desde que voc j no vai  casa, a
     senhorita Clo est como louca. No faz mais que me perguntar por
     voc. Quer que lhe diga onde nos encontramos. Ela sabe que voc me
     entrega o dinheiro todos os meses , por isso me pergunta, patro. Mas
     eu no lhe digo nada, nenhuma palavra.
            Esperou uns segundos antes de ir-se; talvez o patro desejasse lhe
     perguntar algo mais. Mas de Silva deu meia volta e se dirigiu  janela.
     De ali divisou a Praa da Vitria e a Recova Nova. Era um hervidero de
     gente, alguns comprando, outros vendendo, todos entre meio dos ces e
     os cavalos. Um transtorno. Queria retornar logo  a Candelaria; ali
     encontrava paz. Quando se voltou, Paolina j no estava.
            Decidiu tomar um banho. Sempre retornava a sua casa com
     aroma de cavalo e tudo suado; no gostava que Fiona o visse assim;
     menos ainda, que o abraasse e o beijasse. Fechou os olhos, inspirou
     profundamente, e se entregou a pensar nela, cheio de gozo. Apesar do
     da escuelita, ela no tinha trocado com ele. Embora no deixava de dar
     rdea solta a seu carter irlands cada vez que podia, seguia bem
     disposta, e cada vez mais carinhosa. Por outra parte, pensou, o que seria
     de sua vida sem seu Fiona aguerrida e mordaz? Nada, disse-se.
            A tina estava preparada. deslizou-se dentro dela, at relaxar-se
     por completo. A gua morna era um prazer. Desejou que Fiona estivesse
     ali nesse instante, banhando-se com ele. A pele lhe arrepiou de s pens-
     lo. imaginou lhe ensaboando as costas, o pescoo, os seios. Sua mente
     recordou esses mamilos rosados e translcidos endurecidos pela
     excitao. Sentiu a ereo e se estremeceu.
            A porta da habitao se abriu de repente. De Silva retornou de
     suas fantasias e se encontrou com o Clo, sob o dintel. Em um ato reflito,
     ficou de p; a mulher fechou a porta e avanou para ele.
            --Pensando em mim, talvez? --perguntou, sarcstica, com a vista
     posta no membro ereto.
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            O rosto do Juan Cruz se mudou. Gesticulou uma toalha e se
     cobriu. Clo no podia acreditar que estivesse to envergonhado, e riu a
     gargalhadas.
            --O que faz aqui? --repreendeu-a de Silva de mau modo, j fora
     da tina. Tratou de recompor-se. No gostava que o vissem alterado. No
     gostava que soubessem o que sentia, nem o que pensava.
            --Como que o que fao aqui? --exclamou a mulher, fazendoa
     surpreendida--. Venho a verte. Faz tempo que no visita a casa. Voc
     estranho, meu amor. --Tinha abandonado o gesto pcaro, trocando-o
     por outro, carregado de desejo. aproximou-se dele e lhe apoiou as mos
     sobre o torso molhado--. Est irresistvel --lhe disse ao ouvido, lhe
     mordiscando o pescoo.
            De Silva permanecia de p, com os braos ao flanco do corpo. O
     contato ntimo com a mulher o incomodou. De fato, encheu-o de raiva.
     Que fazia ela a? Como tinha chegado? Claro! Seguiu a Paolina. Negra
     estpida! Havia-lhe dito que tomasse cuidado.
            --me solte, Clo --ordenou, apartando a dele.
            --Antes te enlouquecia que te tocasse. Recorda-o?
            Outra vez se equilibrou sobre ele, rodeando-o com os braos, lhe
     beijando o peito. Tirou-lhe a toalha que o envolvia e lhe acariciou o
     traseiro. Um sbito calor envolveu o corpo do Juan Cruz, enchendo o de
     desejo, mas o rosto de sua esposa lhe apresentou e se desfez do Clo
     com rudeza. Tomou a toalha do cho e voltou a cobrir-se.
            --Mas, o que te passa! --vociferou a mulher, furiosa.
            --Disse-te faz tempo que o nosso no pode ser. Pelo visto no me
     entendeu. Agora lhe repito isso! O nosso se acabou, e basta.
            Clo o propin uma bofetada, com o gesto alterado pela raiva.
     Juan Cruz apertou os dentes para conter-se. Teria querido estrangul-la.
     Com lentido, voltou a cara at encontrar-se com os olhos da mulher.
            --me perdoe, meu amor, me perdoe --balbuciou Clo, com as
     mos sobre o peito e o olhar choroso.
            De Silva no disse nada. separou-se dela e, encaminhando-se 
     cama, comeou a vestir-se.
            --No pode me deixar, Juan Cruz, eu te amo.
            De Silva pensou que a teria admirado mais se se tivesse
     economizado a splica, e tivesse abandonado para sempre sua vida.
     Essa mulher se estava convertendo em um perigo. Era do tipo cruel e
     ladino, e agora estava ferida em seu orgulho. Todo isso, junto, era de
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     cuidado. Conhecia-a bem, sabia capaz de muito. Era um inimigo para
     respeitar.
            --Clo, eu jamais te prometi nada. Voc sabia que o nosso podia
     terminar tal como tinha comeado, de um dia para o outro.
            --Mas eu me apaixonei por ti, no entende? No posso viver se
     no sinto a meu lado, Juan Cruz.
            Oxal Fiona lhe dissesse essas coisas. No, ela nunca as diria,
     embora ele o desejasse mais que nenhuma outra costure neste mundo.
     Em troca as dizia uma mulher da qual j no sabia como desfazer-se sem
     armar um escndalo. Um escndalo com uma puta, pensou, seria o fim
     de seu matrimnio. Fiona jamais o perdoaria, e a sociedade de Buenos
     Aires tampouco. Mas, ao diabo com a sociedade! O nico que lhe
     importava era sua esposa. Ela jamais devia inteirar-se da existncia do
     Clo.
            --No entendo, Juan Cruz, por que no podemos nos ver?
            --J lhe disse isso; esta  uma cidade muito pequena, aqui todo se
     sabe. E no me convm um escndalo neste momento. Seria como jogar
     meus planos pela amurada --respondeu Juan Cruz, sem olh-la,
     acomodando o pescoo frente ao espelho.
            --Mentira! Isso  uma mentira! --gritou como louca Clo.
            De Silva a espionagem pelo espelho; o que viu no gostou. Eram
     o olhar e o gesto de uma pessoa desenquadrada.
            --O que passa  que te apaixonou por essa bienuda! Maldita
     menina do demnio!
            --Baixa o tom de voz, estpida!
            De Silva lhe aproximou rapidamente e, tomando-a pelo cotovelo,
     sacudiu-a com fora.
            --Sim --afirmou Clo, olhando-o aos olhos--. Apaixonou por ela
     como um jovenzinho inexperiente. Eu te conheo, Juan Cruz de Silva. O
     escndalo e a sociedade lhe importam um nada. Caga-te neles! Mas a
     imbecil essa, a Fiona maldita, essa te traz como louco. Est
     completamente apaixonado por ela.
            Clo comeou a rir convulsivamente. Suas gargalhadas eram
     doentias, tinha os olhos muito abertos e uma expresso de loucura que
     no lhe apagava da cara.
            --Que estupidezes diz, mulher! --exclamou de Silva, soltando-a
     com estupidez.
            --Estupidezes? Que estupidezes?  a pura verdade.
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            fez-se um silncio incmodo. Clo no lhe tirava a vista de cima.
     Ele, em troca, olhava para outro lado.
            --Sabe? --comeou a dizer Clo com voz mais calma--. Estive
     averiguando a respeito de seu Fionita adorada.
            Juan Cruz se voltou com o rosto desencaixado.
            --Sim. Disseram-me que  uma preciosura, mas que no gosta
     que a leve a cama. Alguns de quo brigados teve com ela por isso
     chegaram at aqui, queridito. Ai, a servido...! Um mal necessrio! --
     exclamou, com gesto de artista--. No  to linda como dizem, em
     realidade. Uns domingos atrs tive que me agentar uma missa
     completa no Socorro para conhec-la.
            Juan Cruz se aproximou da mulher e a olhou fixo, sem pestanejar.
     Clo retrocedeu, temerosa, mas continuou com seu relato insidioso.
            --A estava, com seu abuelita e seus parentes, rezando como uma
     monja Ora! Segui-as at a casa. Linda casa.
            Juan Cruz tomou pelo pescoo e a empurrou contra a porta.
     Aproximou-lhe o rosto at quase lhe roar o nariz. Clo tinha a cara
     morada e no podia respirar.
            --Se voltar a lhe aproximar isso voc Mato.
            Soltou-a. A mulher caiu ao cho, ainda enjoada. sovava-se o
     pescoo e respirava com dificuldade. Doam-lhe o peito e a garganta,
     mas isso no importava. O que sim contava era que ela tinha razo. Juan
     Cruz estava perdido pela maldita Malone.
            --Agora vete, Clo, e no volte mais. Seguirei te enviando
     dinheiro, todos os meses, como at agora, pelo tempo que voc queira;
     mas no volte a me buscar. Entende-o, no desejo verte mais.
            Clo ficou de p, com o rosto cheio de lgrimas. No eram
     lgrimas de tristeza: estava furiosa, cheia de dio.
            --te coloque o dinheiro no culo! No o quero! Eu sou uma puta
     respeitvel. Pagamento se disposto o servio --gritou, exaltada, e lanou
     uma curta gargalhada.
            Juan Cruz se estremeceu.
            --Entende-o bem, querido meu... No poder te liberar de mim
     to facilmente! Nunca poder!
            E se foi dando uma portada.
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                                      Captulo 11
             Fiona j no agentava mais assim, to quieta. Fazia mais de uma
     hora que posava para um retrato e para uma miniatura. Seu marido
     tinha convencido a um dos artistas mais tornados famoso da poca,
     Enrique Pellegrini, para que a pintasse e fizesse para ele sua miniatura
     em marfim com marco de ouro e brilhantes engastados. Em realidade,
     Pellegrini tinha abandonado a pintura para radicar-se em um campo do
     Cauelas. Mas ningum podia negar-se a um pedido de Silva, que, por
     outra parte, quando lhe pediu uma fortuna pelos retratos aceitou o
     preo sem falar.
             -- voc mais bela do que se comenta, senhora de Silva.
             Fiona se limitou a sorrir.
             --O senhor de Silva me pediu que lhe desse classes de desenho e
     pintura --comentou Pellegrini--. Infelizmente, ser impossvel. Eu j me
     retirei. Entretanto, se voc me permitir isso, posso lhe recomendar um
     discpulo meu que viria a lhe dar aulas encantado.
             --Est bem --respondeu Fiona sem muito entusiasmo. Em
     realidade, ela no desejava classes de desenho; isso era algo que Juan
     Cruz tinha decidido para encher seu tempo.
             --Uns minutos mais, senhora, e a deixarei em liberdade. Meu
     plano  me levar estes traos a meu atelier terminar as pinturas ali.
             --Muito bem --disse Fiona.
             --Calculo que mais ou menos em um ms estaro terminadas. Eu
     mesmo as trarei at aqui.
             -- voc muito amvel, senhor Pellegrini.
             Fiona se sentia vazia sem suas classes, sem seus alunos. E embora
     em ocasies tinha ido  casa de alguns deles a lhes ensinar algo,
     finalmente teve que resignar-se; no por ela, mas sim pelas splicas das
     mes que, aterrorizadas, temiam ser descobertas. A ordem do patro
     tinha sido: "no h escola". E ela, pouco a pouco, estava-se acostumando
      idia.
             Passava as tardes lendo na biblioteca, que era muito completo;
     havia livros mais que proibidos na Confederao e, assim e tudo, de
     Silva os conservava. Leu as obras completas do Shakespeare, Graziella do
     Lamartine e tantos outros. Agradava-a como nada tomar o ch com a
     Catusha e passar a tarde em sua cabana. Em ocasies, seu amiga parecia
     esquecer-se dela e se internava no jardim para dedicar-se a seu novelo e
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     flores. Fiona a contemplava comprido momento e at isso lhe resultava
     prazenteiro. Algumas vezes, Catusha cantava velhas canes em ingls,
     com uma voz muito doce e afinada. Gostava das escutar; eram as
     mesmas que entoava sua av nas festas familiares ou em Natal.
             O salo azul se converteu em um de seus favoritos. Era um stio
     especial, cheio de luz pela tarde. De ali, a paisagem do parque se
     apreciava em toda sua extenso e ela, enquanto tocava o piano, no
     apartava a vista do verdor; passava-se horas praticando os scherzos que
     conhecia e as melodias que mais gostava. s vezes visitava a cremera,
     que ia vento em popa. Apesar de que tinha sido sua iniciativa, o
     estabelecimento j no lhe pertencia; Candelaria era ama e senhora ali.
     Mas isso no lhe incomodava; no pretendia passar o dia inteiro entre
     leite e queijos.
             de repente, sua vida social adquiriu um ritmo e uma intensidade
     vertiginosos. Quase todas as semanas concorria a Buenos Aires junto a
     de Silva a alguma reunio. No pde evitar assistir algumas quartas-
     feiras ao tradicional ch da Manuelita, e embora odiava essas reunies, a
     filha do governador lhe resultava mais que encantadora; tinha certa
     ingenuidade que contrastava com o tosco e ladino de seu pai. Manuelita
     lhe brindava ateno especial quando a recebia e nunca deixava de lhe
     dizer que a sentia como uma irm muito querida. Nas poucas ocasies
     em que se cruzou com Rosas na quinta do Palermo se limitou a
     intercambiar com ele uma saudao formal e fria. Apenas o via, sentia o
     forte impulso de lhe cantar umas quantas verdades, e se se continha era
     porque no desejava incomodar a Manuelita, e menos ainda a de Silva.



                                            * * *

            Essa noite havia uma festa muito importante no de Domingo
     Riglos, uma das personalidades mais destacadas de Buenos Aires, e Juan
     Cruz parecia notavelmente interessado em concorrer. Tinha-lhe
     ordenado a Fiona que se fizesse confeccionar o melhor dos vestidos, e
     para ele tinha encarregado um luxuoso fraque.
            Fiona suspirou com aborrecimento: era hora de ir arrumar se.
     Logo chegaria de Silva, e como era escrupulosamente pontual, quereria
     sair com tempo se por acaso lhes apresentava algum inconveniente no
     caminho.
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            Comeou a subir as escadas e, antes de chegar ao descanso,
     escutou a voz de seu marido que dava algumas indicaes, certamente
     ao Celedonio. deteve-se e permaneceu uns instantes escutando-o, como
     enfeitiada; estava profundamente cativada por ele, e j no tinha
     sentido tratar de ocult-lo. De Silva tinha conseguido meter-se o na
     mente e no corao, at convir-se para ela no centro de tudo. Tinha
     comeado odiando-o e tinha terminado... Isso que sentia, era amor?
     Aquilo do que sempre lhe tinha falado aunt Tricia? Aquilo que ela
     alguma vez tinha experiente com nenhum outro? Todos lhe tinham
     parecido muito pouco homens. Em troca, Juan Cruz, com seu corpo
     formoso, seu rosto masculino, suas maneiras algo torpes, seu sorriso,
     sua fria devastadora, seu cabelo murcho e negro, era a virilidade feita
     carne. Reprimiu um gemido ao record-lo sobre ela, lhe fazendo o amor.
            Quando escutou seus passos firmes sobre o mrmore dos
     primeiros degraus, subiu correndo os ltimos degraus. Parecia uma
     chiquilina escapando assim dele, mas preferia ocultar-se de seu olhar
     nesse momento. Seu olhar. Pensou que nem em cem anos poderia
     acostumar-se a ela. s vezes, iracunda, parecia queim-la; outras vezes,
     excitada, parecia querer devor-la; e quando era indiferente a enchia de
     desassossego, e ela sentia que um pouco muito importante lhe faltava. O
     que tinha feito dela esse homem? J quase no dormia se no era em
     seus braos. Sentia vergonha por isso, mas muitas vezes o desejo
     turvava de tal forma seu pensamento que ela mesma se escapulia pela
     porta comum, e se metia furtivamente entre os lenis dele. E essas eram
     as vezes nas que mais louco de paixo se voltava, at faz-la gritar de
     prazer. S assim Fiona conseguia dormir em paz.
            Quando entrou em seu dormitrio, Maria j tinha tudo disposto.
     O vestido sobre a cama, as jias sobre o penteadeira, e os escarpines de
     cetim prolijamente acomodados no cho.
            --Vamos, te apresse, ainda deve tomar seu banho --a apressou a
     faxineira.
            A gua estava muito quente para uma tarde do vero, mas ao
     cabo de uns minutos seu corpo se habituou at tal ponto  temperatura
     que, enquanto Maria a ensaboava, comeou a adormecer-se.
            O rudo da porta ao abrira avivou. Era Juan Cruz.
            --Maria, me deixe uns instantes com minha esposa.
            A faxineira se escabull mansamente.
            Juan Cruz fechou a porta detrs de si, aproximou-se da tina, e se
     acuclill frente a ela. Fiona se ergueu e ficou olhando-o espectador.
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             --Que deseja, senhor? --perguntou--. Seguiu com seus olhos os
     de Silva e o rosto lhe arrebatou quando descobriu que a tnica de
     liencillo que usava para banharse ajustava a seus peitos e os punha
     claramente em evidncia.
             --Vi-te com menos roupa que esta, Fiona --disse Juan Cruz
     quando descobriu seu rubor.
             --Senhor... por favor... --suplicou ela.
             --No me pea que no te olhe quando quo nico desejo neste
     momento  te levar a cama, querida.
             Fiona teve que esconder suas mos sob a gua para que Juan
     Cruz no descobrisse que lhe tremiam.
             --Muitas vezes no se pode fazer o que se deseja, no crie?
             --No para voc, senhor. Voc sempre faz o que quer.
             De Silva riu. Acariciou-lhe a bochecha mida e a contemplou com
     ternura.
             --S vim a te avisar que esta noite ficaremos em Buenos Aires.
             --Em casa de meu av? --perguntou entusiasmada.
             --No; comprei uma casa na cidade. Ali ficaremos.
             Pde adivinhar o desencanto em seu olhar. Esta vez, entretanto,
     Fiona no fez um escndalo. Desde fazia um tempo estava mais
     tranqila, mais mesurada, parecia outra; apesar de que a picardia e a
     sagacidade no a tinham abandonado. Ele a preferia assim, como a
     menina rebelde e inteligente que tinha conhecido, a das respostas
     afiadas e as olhadas desafiantes.
             --Est bem --aceitou por fim com tom desiludido.
             De Silva se incorporou e abandonou a sala l banho.
             --Pode passar, Maria --o escutou dizer.



                                            * * *



           Ao entrar na casa dos Riglos do brao de seu marido, Fiona no
     soube que foram muitos os que suspiraram, e no poucas as que a
     contemplaram com inveja.
           --Est voc muito formoso, minha querida --disse o anfitrio ao
     receb-la. Dom Riglos era um bom homem, muito amigo de seu av.
     Tinha-a visto crescer e sempre tinha sido carinhoso com ela e com sua
     irm. Fiona pensou que no era mais que uma zalamera. Entretanto,
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     dom Domingo Riglos nunca tinha sido mais sincero em sua vida.
     Realmente estava deslumbrante. O vestido de seda branca, como
     desenhado sobre suas curvas, parecia parte de sua prpria carne. Os
     seios, que apareciam sugestivamente depois do decote do traje, davam
     um toque de voluptuosidad a sua figura mida. As mulheres
     observavam atentas seu penteado. Recolhido no cocuruto, seu cabelo
     caa como uma cascata sobre suas costas em centenas de saca-rolhas. E
     entre mdio do meio doido, mirades de prolas pequenas descendiam
     da parte mais alta at perder-se entre os limites dos cachos de cabelo, lhe
     dando um toque de magia  cabea mais bela da festa. Seus olhos azuis
     ressaltavam ao contrastar com sua pele translcida semelhante  seda do
     vestido.
            Juan Cruz se sentia orgulhoso. A atitude da Fiona, que bastante
     insegura e algo trmula se aferrava a seu brao, enchia-o de felicidade.
     Ela era seu maior tesouro, sua jia mais apreciada.
            Enquanto se internavam no salo lotado de gente, Fiona olhou a
     seu marido com dissimulao. O fraque sentava s mil maravilhas.
     Levava o cabelo penteado para trs, tal como lhe gostava. Fiona espiono
     para um flanco e se encontrou com os olhos da Clelia posados
     insolentemente sobre o rosto do Juan Cruz. ''Matarei-te se te atreve
     sequer a danar o minu com ele", pensou, com os dentes apertados.
            Logo soube o interesse especial que levava a de Silva a essa
     reunio. Ao chegar Rosas acompanhado por sua filha, Juan Cruz saiu a
     seu encontro e se perderam em meio de um grupo de comerciantes
     ingleses que acabavam de atracar de Londres. Fiona se perguntou como
     fariam para entender-se com os londrinos se nenhum dos dois falava
     ingls. Pensou que poderia oferecer-se como tradutora, mas em seguida
     se arrependeu: era uma idia muito ousada. Ao pouco momento
     apareceu George Thomas, o diretor do British Packet: ele oficiaria de
     intrprete.
            Entre a concorrncia no descobriu a ningum que no tivesse
     visto nas outras reunies. Os Arana, os Coloma, os Anchorena, os
     Martnez de Foice, os Mansilla... Sempre a mesma gente. Tambm
     estavam Imelda e seu prometido. Fiona se alegrou muito de ver sua
     irm. Era estranho, mas agora sentia que um pouco muito distinto as
     unia. Pensou que, paradoxalmente, a distncia tinha conseguido as
     aproximar. Tinham passado mais de sete meses desde sua partida do lar
     de seu av, e a lonjura e as coisas vividas em La Candelaria tinham
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     obrado uma mudana muito profunda nela. J no era a mesma Fiona
     de antes.
             Suspirou longamente. Era certo, todos estavam ali, mas faltava a
     nica pessoa que tinha desejos de ver. Camila Ou'Gorman. Fazia mais
     de trs meses se escapou junto a seu curita tucumano e ningum sabia
     dela. Sua famlia, envergonhada pelo comportamento de sua filha,
     encerrou-se na estadia da Matana. Suas irms j no assistiam s
     reunies e o prometido de Clara, uma das mais garotas, tinha-a deixado
     plantada ao p do altar. Fiona no podia acreditar o comportamento
     absurdo dos Ou'Gorman, mas conhecia de sobra a realidade
     anquilosada da sociedade em que viviam; nunca ningum lhes
     perdoaria a indecente faanha da Camila. Ela mesma se sentia um tanto
     deslocada essa noite; cada vez que se aproximava de algum grupo de
     mulheres, estas deixavam de conversar e a olhavam framente e de reojo.
     Todo Buenos Aires sabia que Camila e ela eram amigas inseparveis;
     portanto, suspeitavam que Fiona conhecia seu paradeiro. Fiona no
     sabia nada. Quo nico sabia, em realidade, era que estava muito
     contente por seu amiga; Camila amava ao Ladislao e seria feliz junto a
     ele. Isso lhe parecia o nico importante.
             --Fiona!
             A voz de misia Mercedes a voltou para a realidade.
             --Tanto tempo, querida!
             A mulher tomou as mos e a afastou do bulcio para poder
     conversar. Sempre era um prazer praticar com ela.
             A reunio se desenvolvia normalmente. De Silva, Rosas, e outros
     pecuaristas portenhos, no se separavam do grupo de comerciantes
     londrinos. De todas maneiras, isso no impediu ao Juan Cruz vigiar a
     sua mulher; sabia que podia ser uma presa apetitosa para mais de um
     essa noite, em especial para o Palmiro Estar acostumado a, que no lhe
     tinha tirado os olhos de cima desde que a viu transpor a porta principal.
     O mazorquero no era homem de dar-se por vencido facilmente.
             Juan Cruz interrompeu sua conversao com os ingleses quando
     surpreendeu a Fiona danando o minu Estando acostumado a. Sentiu
     que a jugular comeava a lhe pulsar. Maldito Estar acostumado a. Em
     um momento advertiu que a roava innecesariamente e, pior ainda, que
     seus olhos esquadrinhavam avidamente o decote de sua esposa. Na
     primeira mudana de pea, a arrebatou das mos.
             --Se me permitir, estimado Estar acostumado a... No pude
     desfrutar de minha esposa em toda a noite.
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            Tomou pela cintura, fez-a girar no ar e a levou longe de ali.
            --Obrigado por me salvar, senhor --disse Fiona, divertida.
            --por que aceitou danar com ele, ento? Comigo no teve muitos
     reparos no da Mercedes Senz aquela vez.
            O tom de sua voz a desconcertou. Estava ciumento?
            --Voc no tem muito que me reprovar, senhor de Silva. No h
     reunio em que no dance com essa estpida da Clelia.
            --Est ciumenta, Fiona Malone?
            --Nem o sonhe, de Silva. S digo que voc no tem autoridade
     moral para me recriminar com quem dano porque voc no escolhe
     muito bem a sua companhia.
            Estava furiosa e isso o fascinava.
            --No posso acredit-lo! Voc me diz "obrigado" por te salvar de
     Estar acostumado a e agora resulto ser eu o que escolhe mal suas
     companheiras de valsa.
            --Olhe, senhor, que eu no tenha podido me negar a Estar
     acostumado a porque desde que cheguei esteve me assediando, no 
     minha culpa. Em todo caso  culpa dela. Sim, sua --repetiu com
     veemncia quando Juan Cruz elevou as sobrancelhas, surpreso--, por
     me haver deixado tanto tempo sozinha. De todas formas, isso no
     significa que Clelia Coloma no seja a mulher mais melindrosa, afetada,
     vcua, estpida... Uyy!
            Deu meia volta e se disps a deixar o salo.
            --Ey, detenha! --Juan Cruz elevou a voz involuntariamente e,
     aferrando-a pelo brao, fez-a voltar sobre seus passos--. No voltarei a
     te deixar reveste esta noite.  muito formosa para andar por a sem mim
     --murmurou perto de seu rosto, e a beijou na bochecha.
            Tal como tinha prometido, no voltou a separar-se dela no que
     durou a festa. Estar acostumado a teve que conformar-se contemplando-
     a como se se tratasse de uma obra de arte em um museu.



                                            * * *



            Ao dia seguinte, quando Juan Cruz entrou em sua casa nova da
     cidade se encontrou com que Estar acostumado a, sentado na poltrona
     da sala, conversava animadamente com a Fiona. Falava em um tom
     baixo e meloso, e sorria todo o tempo.
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            Fiona advertiu em seguida a expresso de aborrecimento que
     escurecia o rosto do Juan Cruz.
            --Boa tarde, senhor --o saudou enquanto se incorporava--. Estar
     acostumado ao est esper... --interrompeu-se, incmoda, ao dar-se conta
     de que seu marido no lhe emprestava a menor ateno.
            Juan Cruz estirou a mo para o visitante
            --O que o traz por aqui, Estar acostumado a? --perguntou, em
     um tom deliberadamente neutro.
            --Como est voc, de Silva? Antes que nada, felicito-o por sua
     nova casa;  muito confortvel.
            Juan Cruz se limitou a fazer um movimento quase imperceptvel
     com a cabea.
            --O que me traz por aqui  algo que faz tempo que lhe venho
     comentando --explicou Estar acostumado a.
            Nesse momento, de Silva cravou os olhos sombrios nos de sua
     mulher e a mensagem foi claro.
            --Se me permitirem, cavalheiros, farei-lhes preparar algo afresco.
            Fiona, angustiada, abandonou o lugar com a certeza de que seu
     marido estava furioso com ela. No compreendia por que.
            De Silva e Estar acostumado a esperaram at que Fiona
     desapareceu da vista. Juan Cruz advertiu com desgosto que o olhar do
     mazorquero se atrasava indiscretamente no meneio natural dos quadris
     da Fiona.
            --Tome assento, Estar acostumado --s palavras de Silva soaram
     mais a ordem que a convite.
            --Obrigado. Como lhe estava dizendo, dom Juan Cruz, vim por
     algo que voc j conhece de sobra.
            O homem fez uma pausa para acender um charuto. De Silva se
     apressou e tirou seu yesquero.
            --Obrigado --disse Estar acostumado a depois da primeira
     vaia--. tive uma conversao com o coronel Salomn. Hoje vim,
     justamente, a lhe pedir uma vez mais, em seu nome, que se voc
     incorpore  Sociedade Popular.
            O coronel Salomn, um gordo bastante desagradvel, de rosto
     redondo como uma roda, com carnes que lhe penduravam da papada,
     olhos pequenos e muito juntos, nariz violcea e deformada pelo excesso
     de bebida, e lbios cor fgado, era dono de uma pulpera e, tambm,
     presidente da Espiga de milho, ou Sociedade Popular, como a conhecia
     oficialmente. Centenas de cabeas estaqueadas na Praa da Vitria
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     tinham sido colocadas ali por sua prpria mo; vrios corpos melados
     com breu tinham ardido lentamente graas a seu yesquero; era um
     personagem sinistro, desses que as autoridades sabem aproveitar muito
     bem para seus fins. Juan Cruz no queria que a lngua repugnante desse
     cristo tivesse a oportunidade de mencionar seu nome sequer. Ele no
     era um santo, mas tampouco era uma besta.
            --Voc sabe, dom Juan Cruz, a honra que seria para ns que voc
     integrasse nosso comit diretor. Isso sim, voc entraria na Sociedade
     como secretrio geral, com toda a autoridade que emana desse cargo, e
     gozando de todas as prerrogativas dos scios populares mais antigos.
            Para a Espiga de milho, ter ao Juan Cruz entre suas hostes era
     benfico desde dois pontos de vista. Primeiro, era um dos melhores com
     o faco e com o trabuco. Por suas veias corria gua geada e no hesitava
     um segundo se terei que derramar sangue pelo bem da causa. Era uma
     lenda entre a gente do campo e da cidade. Lhe conheciam grandes
     faanhas e se murmurava que a vida do Lavalle tinha terminado sete
     anos atrs no Jujuy  mos dele. Segundo, era o homem de confiana de
     Rosas. Ningum estava mais perto do governador que ele e isso era mais
     valioso ainda que o anterior. Salomn o queria na Espiga de milho como
     fora e Estar acostumado ao desejava perto em alguma revolta com os
     unitrios. Porque em uma circunstncia assim, quem poderia afirmar
     que a bala que o matasse no provinha de um selvagem unitrio? Nesses
     distrbios, a gente nunca sabia de que lado viria a morte.
            --Senhor Estar acostumado a, acredito que falamos muitas vezes
     deste tema.
            --Sei. De todos os modos, ns no perdemos as esperanas de
     contar com voc, senhor. Como lhe disse, Salomn em pessoa me pediu
     que viesse a v-lo. Sua ajuda seria muito valiosa para a Confederao --
     se apressou a explicar Estar acostumado a.
            --O Brigadeiro Rosas conhece melhor que ningum minha
     devoo  causa. Meu apoio s decises do governador  total e no h
     coisa mais importante para mim que defender  Confederao desses
     asquerosos unitrios. Mas...
            deteve-se quando viu que a faxineira cruzava a porta com uma
     bandeja.
            --Gosta de voc um pouco de limonada, Estar acostumado a?
            --Sim, obrigado. Este calor que no afrouxa... --comentou o
     mazorquero, enxugando-a frente com um leno. Logo, tomou o copo
     que lhe oferecia a mulata.
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            De Silva observava a Estar acostumado a atravs do cristal de sua
     taa, com olhos srios e matreiros.
            --Como lhe dizia, Estar acostumado a, minha devoo  causa se
     expressa em outras aes, que o governador conhece e aprecia tanto
     como as de vocs. Meus negcios fazem cada vez mais prspera a
     economia da provncia e enriquecem os laos com grandes naes do
     mundo. Alm disso, a administrao das estadias do governador me
     leva muito tempo. No, Estar acostumado a, agradeo-lhe enormemente
     a voc pela molstia, e ao coronel Salomn por me considerar tanto, mas
     no acredito poder me fazer carrego de uma funo to importante sem
     descuidar outras que no o so menos.
            --Parece muito convencido, dom Juan Cruz.
            Juan Cruz assentiu sobriamente.
            --Ontem  noite, no do Riglos, vi-o muito animado conversando
     com esses gringos... --comentou Estar acostumado a, como se queria
     congraar-se com ele.
            "Enquanto tratava de conquistar a minha mulher, maldito
     imbecil", pensou Juan Cruz, sem deixar de lhe sorrir.
            --Bom, a tem voc. Esses so negcios muito importantes, e o
     governador quer que se concretizem rapidamente. Dessa maneira
     daramos s autoridades inglesas uma pauta de que este bloqueio sem
     sentido deve terminar. A Argentina e a Inglaterra devem ser amigas, no
     inimizades.
            Intimamente, Juan Cruz sabia que com tudo esse palabrero vazio
     no tinha satisfeito sua curiosidade.
            Nesse momento apareceu Fiona. Estar acostumado a pareceu
     esquecer-se de tudo.
            --Senhora... --disse o mazorquero, ficando de p.
            --Desejava saber se gostarem de algo mais, senhor --disse Fiona
     sem apartar a vista de seu marido.
            --No, est bem. O senhor Estar acostumado a j se ia.
            Estar acostumado a, extasiado na contemplao do rosto da
     Fiona, parecia no ter escutado. de repente, o mazorquero tomou
     conscincia de seu comportamento imprudente e afirmou:
            --Sim, j ia, senhora. Obrigado pela limonada, estava deliciosa.
            Os olhos de Estar acostumado a, carregados de desejo, posavam-
     se com insolncia nos lbios da Fiona.
            --Boa tarde --o despediu Fiona, enquanto o visitante lhe beijava
     a mo. A jovem se sobressaltou quando sentiu a umidade da lngua de
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     Estar acostumado a sobre sua pele, mas tratou de compor-se: no
     desejava nenhum escndalo. Retirou rapidamente a mo e baixou a
     vista. Embora era muito tarde; de Silva se deu conta.
             --Acompanho-o, Estar acostumado a --disse Juan Cruz.
             Tomou pelo ombro, guiando-o at a porta.
             --Fiona, lhe diga ao Elseo que aliste o cavalo do senhor Estar
     acostumado a.
             Quando chegaram ao saguo, de Silva fechou a porta detrs de si.
     O olhar que dispensou ao mazorquero foi inequivocamente ameaador.
             --Parece-lhe que minha esposa  uma mulher formosa, senhor
     Estar acostumado a?
             Estar acostumado a, surpreso, franziu o sobrecenho; comeou a
     levantar nervosamente as comissuras dos lbios.
             --Senhor de Silva... Bom... Surpreende-me, pois, pergunta-a...
             --Parece-lhe ou no, Estar acostumado a?
             aproximou-se dele e lhe falava sem lhe tirar os olhos de cima.
     Estar acostumado a, muito mais baixo, levantava a cabea para olh-lo.
             --Bom, senhor de Silva, ningum pode negar que a senhora de
     voc  muito formosa...
             No pde continuar; de Silva o tinha tomado pelo pescoo e o
     arrastava como a um menino. Por fim, depois de apoi-lo contra uma
     das colunas da entrada, colocou-lhe um joelho sobre a entrepierna do
     mazorquero.
             --Por favor... por associao de Futebol...
             Estar acostumado a no podia falar; as enormes mos de Silva se
     atiam como tenazes a sua garganta.
             --Se voltar a descobrir que toca para mim esposa, ou que
     simplesmente, detm seu olhar sobre ela embora seja por um segundo,
     asseguro-lhe que no poder voltar a faz-lo. Eu mesmo me encarregarei
     de lhe arrancar os olhos e de lhe cortar as mos. Compreendeu-me bem,
     Estar acostumado a?
             S depois de que Estar acostumado a assentiu como pde, de
     Silva o soltou. O mazorquero comeou a tossir sonoramente e a esfregar
     o pescoo, no que tinha os dedos marcados do Juan Cruz.
             --Aqui est seu cavalo --lhe indicou Juan Cruz no mais suave
     dos tons.
             Estar acostumado a lhe lanou um olhar de soslaio carregado de
     dio; entretanto, no pareceu intimidar a de Silva, que agora o
     contemplava com um sorriso nos lbios.
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                                      Captulo 12


            De Silva retornaria essa noite de Buenos Aires e ela, ansiosa, no
     podia ficar quieta.
            --Maria, por favor, me prepare o vestido amarelo plido... Esse
     com o encaixe branco nas mangas. Sabe o que haver para o jantar?
            --No, disso se encarrega Candelaria.
            Fiona caminhava nervosa pela habitao.
            --por que quer sab-lo, Fiona? --perguntou Maria, sentida
     saudades.
            --Tinha pensado em carne de cordeiro assada com bolo de
     abbora. Talvez de entrada, humita. No, humita no! Melhor um pouco
     mais leve. Te ocorre algo?
            --No sei, estaria bem uma salada. O que te deu de organizar o
     jantar?
            --Ah, saladas, claro! Mas no sei que saladas prefere de Silva.
     No importa, perguntarei a Candelaria.
            --No posso acreditar tanto alvoroo por um jantar pra de Silva!
     Quem te viu e quem te v, Fiona Malone! --A criada sorriu com
     picardia.
            --Ai, Maria! s vezes  insofrvel. --Deu meia volta, e se disps a
     abandonar a habitao--. lhe Indique a Candelaria como dispus o jantar
     antes de que faa preparar outra comida --ordenou antes de sair.
            --Como voc diga, senhora de Silva --respondeu Maria com tom
     malicioso.
            --Uy! Hoje no te agento.
            Fechou a porta e partiu. O melhor seria sair um momento a
     avivar-se.



                                            * * *
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            Fazia dias que no visitava seu amiga do monte. Sempre era bom
     conversar com a Catusha enquanto tomavam o ch. Fiona encontrava
     muita paz em seu cabaita. De todos os modos, no podia queixar-se: as
     coisas foram melhor com de Silva, depois l todo.
            Chegou e a encontrou no jardim, cuidando uns gernios. Essa
     mulher tinha uma afinidade especial com as novelo. A seu redor, tudo
     parecia crescer sem dificuldade. As flores eram mais bonitas, e suas
     cores mais brilhantes. Catusha falava com as roseiras e os gernios como
     se fossem meninos. Dizia-lhes coisas bonitas e quanto os queria. Ao
     princpio Fiona se sentiu muito incmoda; chegou a pensar que seu
     amiga do monte estava louca de arremate; mas ao pouco tempo se
     acostumou.
            Catusha ficou to contente ao v-la que Fiona se imaginou a
     pessoa mais importante para ela. A jovem se sentia a rainha do mundo
     quando visitava sua cabana: assim era como seu amiga a tratava.
     Enchia-a de cuidados e a mimava mais que ningum. Conversavam de
     tudo durante horas, e Fiona sempre aprendia algo. Comiam os
     aprimoramentos que ela mesma preparava, tocavam o piano, e at liam
     juntas. Embora, em ocasies, Catusha perdia o olhar ao longe e por
     compridos minutos no dizia uma palavra; em especial quando
     mencionava ao Manuel, seu ditoso Manuel.



                                            * * *



           De Silva chegou  estadia e farejou que algo estava acontecendo.
     E no parecia ser nada bom.
           Candelaria dava ordens a um grupo de pees na porta do
     estbulo principal; pareceu-lhe estranho no ver o Celedonio; Maria
     chorava com desconsolo, enquanto escutava  negra dar suas instrues
     aos empregados. Elseo tampouco estava  vista.
           Candelaria se calou quando viu o Juan Cruz entrar em estbulo
     montado em seu padrillo. Maria afogou um grito de terror e seus
     soluos recrudesceram.
           --O que acontece? --perguntou alarmado, embora j o estava
     imaginando.
           --Juan Cruz...
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            --Vamos, Candelaria, o que acontece!
            --Fiona... Saiu muito cedo esta tarde e ainda no tornou.
            --meu deus, senhor de Silva! Que no lhe tenha passado nada! --
     exclamou Maria, com a voz quebrada.
            --Cipriano, me passe esse farol! --ordenou de Silva a um dos
     moos, que o olhava boquiaberto--. Sabem sequer que rumo tomou?
            --No... --replicaram a negra e a criada ao unssono.
            Candelaria se sentia um pouco responsvel; Juan Cruz sempre lhe
     pedia que cuidasse da Fiona quando ele se ausentava.
            --Celedonio organizou dois grupos de busca, um a cargo dele e
     outro a cargo do Eli... --A negra se interrompeu bruscamente; j no
     havia quem a escutasse.
            De Silva tinha aulado ao cavalo e se perdia na escurido da noite
     a toda velocidade; s viram por uns segundos mais a luz do abajur, que
     logo, pouco a pouco, tambm desapareceu.
            Candelaria suspirou, afligida; depois, ps-se a chorar.



                                            * * *



            --Est bem, Catusha, volte para sua casa. --Fiona no conseguia
     convenc-la--J est muito escuro, algo mau pode lhe ocorrer.
            --A ti pode te ocorrer algo mau. Eu j sou um caqutico, o que
     poderia me passar? Mas voc, querida,  to bela... Qualquer zopenco
     quereria te fazer danifico.
            A mulher no afrouxava o passo, apesar de que sua voz soava
     agitada.
            --Bom, Catusha, at aqui est bem. Olhe, l est minha casa. --
     Assinalou mais  frente do bosque de tipas--. Pensando-o bem, acredito
     que o melhor ser que esta noite fique em minha casa...
            --No! Nem o pense, querida Fiona! Posso retornar sozinha;
     conheo este caminho como a palma de minha mo. Vamos, corre at a
     casa grande. Assim eu posso verte.
            Fiona comeou a correr maquinalmente. de repente se deteve, deu
     meia volta, e tratou de distinguir a figura da mulher entre as rvores;
     mas Catusha j no estava ali.
            Um momento depois, ao entrar na casa, encontrou a Mara
     escancarada no confidente do hall, chorando a mares; Candelaria tratava
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     de acalm-la, mas ela tambm tinha a voz congestionada; o resto da
     servido se apinhava  entrada da cozinha, observando a cena.
             Maria proferiu um grito de angstia ao v-la s e salva. jogou-se
     de joelhos ao cho enquanto com a mo em alto mostrava a imagem de
     So Patrcio.
             --Obrigado, muito santo So Patrcio, obrigado! Bendito seja,
     bendito seja!
             --Senhora de Silva! --exclamou Candelaria.
             Ajudada pela negra, Maria ficou de p; com os braos estendidos,
     encaminhou-se onde Fiona. A jovem a contemplava sobressaltada; sabia
     que j era de noite, mas no tinha cansado na conta do escndalo que
     provocaria. A tarde lhe tinha passado como um relmpago e, quando se
     deu conta, o sol se ps.
             Maria a abraou forte.
             --Minha menina, minha garotinha! --repetia uma e outra vez.
             Ao cabo de uns momentos, separou-se dela. Tinha os olhos
     inchados e avermelhados de chorar. Fiona lhe aconteceu a mo pela
     bochecha.
             --Mas, onde estiveste? --perguntou Maria enquanto lhe
     acariciava o rosto--. Quase nos matas da angstia.
             Durante o desaparecimento l Fiona, a Maria lhe cruzaram mil
     idias pela cabea, mas havia uma em especial que a torturava. "Uma vez
     que tenha a certeza de que esse homem pagou todas as dvidas de meu av,
     escaparei-me, fugirei longe, onde ningum possa me encontrar."
             --Bom, j, Maria, te tranqilize.
             Fiona rodeou com seus braos  criada. Seus olhos se cruzaram
     com os da Candelaria que a olhava absorta de um rinco do hall. Fiona a
     chamou e lhe tendeu o brao. A negra caminhou at ela e tomou a mo.
             --me perdoem, sinto-o tanto. Olhem como as tenho feito sofrer.
     S sa a dar um passeio, caminhando. De repente, dava-me conta de que
     se feito de noite. Isso foi tudo.
             --Alguma vez mais, entende?, nunca mais volte a faz-lo-a
     repreendeu Maria.
             --Senhora... o senhor de Silva saiu para busc-la --balbuciou
     Candelaria.
             --O senhor de Silva j chegou de Buenos Aires?
             No o esperava. Agora sim, "Troya", como dizia Celedonio.
             --Chegou faz mais ou menos uma hora e saiu a procur-la,
     imediatamente. Todos esto procurando-a.
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            "Sim, definitivamente, Troya", disse-se Fiona com resignao.



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            Fiona parecia uma leoa enjaulada. Ia de um lado ao outro de sua
     habitao, olhando o cho e mordendo-as unhas. J eram mais das dez
     da noite e nenhum dos que tinham sado a procur-la, tinha retornado.
            Chegou a puertaventana e, apesar de que a noite era fresca, saiu
     ao balco. Sentiu que a pele lhe arrepiava e se disfarou em seu salto de
     cama. Quis esquadrinhar a imensido do campo mas logo que alcanou
     a ver a fonte dos angelotes.
            O rudo dos cascos de um turba de cavalos a tirou de seu
     ensimismamiento. Eram Celedonio e seu grupo.
            --J est aqui! --gritou Candelaria.
            Fiona a ouviu, mas no conseguiu v-la. Tambm escutou as
     exclamaes que lanou o grupo de pees e a maldio do Celedonio.
            --O senhor de Silva j sabe? --perguntou o capataz, ainda
     montado em seu alazo.
            --No, ainda est fora, buscando-a --respondeu a negra.
            --E Eliseo tampouco retornou. --Agora era a voz torturada da
     Maria.
            Fiona sentiu que se o fazia um n na garganta. "meu deus, de
     Silva vai matar me."
            --Elseo e seu grupo se uniram ao patro faz mais ou menos uma
     hora --comentou Celedonio. Logo, dirigiu-se ao resto dos homens--:
     Guardem os cavalos e vo a suas casas. Eu irei procurar ao patro.
            --No quer que o acompanhe, dom Celedonio? --perguntou um
     dos pees.
            --No, est bem. Irei sozinho. J sei onde encontr-los. --E sem
     mais, saiu a todo galope.
            Passou mais de meia hora. Celedonio no aparecia. A angstia da
     Fiona ia em aumento.
            Tinha voltado para dormitrio e tinha deslocado as cortinas. No
     tinha sentido ficar no balco, morrendo de frio, olhando um nada. De
     todos os modos, no pde ficar quieta: percorria a habitao de uma
     ponta  outra, uma e outra vez.
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            de repente, escutou os saltos das botas do Juan Cruz no corredor
     e por uns segundos o corao lhe deteve. De p junto ao bordo da cama,
     com as mos sobre o peito e os olhos muito abertos, no se atrevia se
     queira a pestanejar. Um momento depois, a porta se abriu de repente.
            Juan Cruz a olhava to fixamente que Fiona no pde evit-lo e
     comeou a soluar convulsivamente. Tremia como uma folha, lhe tinha
     nublado a vista e no podia controlar o pranto que a fazia to vulnervel
     frente a seu marido.
            De Silva se aproximava dela lentamente. O rudo de seus passos
     sobre os tablones de madeira era como uma marcha fnebre nos
     ouvidos da Fiona. Era o fim, no tinha a menor duvida.
            Juan Cruz estava muito agitado. A pesar do frio noturno, tinha a
     camisa aberta at a metade do torso e seu peito peludo subia e descia em
     um intento por normalizar a respirao.
            Quando esteve junto a ela, de Silva a rodeou com seus braos
     como se ao abra-la-se mantivera ele com vida. Apertou sua cara contra
     o cabelo da Fiona e, depois, comeou a beij-la, primeiro no cocuruto,
     logo nos olhos, no nariz, na frente, nas bochechas, na boca, com
     desespero. Fiona comeou a gemer de excitao.
            --O que faz de mim, Fiona? O que faz de mim que se no te tenho
     sinto que morro?
            Aquelas palavras a surpreenderam. Jamais tinha sido to doce e
     sincero com ela.
            --me perdoe, senhor, me perdoe.
            Era tudo o que podia dizer; ela tambm se aferrava a ele como
     uma desenquadrada. Com suas mos lhe acariciava o cabelo, o tirava
     dos olhos e lhe roava as bochechas, algo speras j pela barba.
            --meu deus! --gemeu Juan Cruz--. Se algo te passasse... --
     Levantou os olhos e olhou o cu raso.
            Fiona o beijou no peito.
            --Onde estiveste? --perguntou, enquanto a separava apenas.
            --me perdoe, senhor. Eu... Sa a caminhar, por a, como sempre e,
     sem me dar conta, fez-se de noite --respondeu Fiona, causar pena por
     lhe mentir.
            Sua voz de menina o enterneceu, e a espremeu novamente contra
     ele.
            --Tola, no te d conta que j quase estamos no inverno e que
     obscurece muito cedo? Se algo te acontecesse!
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            Fiona no podia acreditar o que estava passando. sentiu-se mal
     por ter pensado que de Silva a mataria, sentiu-se mal por no lhe contar
     a respeito de seu amiga do monte, e se sentiu mal por... porque tinha
     deixado de abra-la e parecia que desejava partir.
            --vai, senhor?
            --Agora, que j sei que est a salvo, vou comer algo. Estou
     esfomeado. Candelaria me est preparando isso.
            --Ah... Bom... --olhou para baixo e deu meia volta--. Est bem,
     at manh --o despediu, sem olh-lo.
            De Silva tomou pela cintura e a elevou no ar, lhe passando um
     brao sob os joelhos.
            --Embora pensando-o bem... Para que jantar se aqui tenho o
     nico que me sacia por completo?
            Olhava-a e no podia acreditar que ainda se ruborizasse quando
     ele dizia essas coisas. Depositou-a na cama com suavidade; logo, tirou-se
     a camisa.
            --A porta... senhor.
            Juan Cruz a olhou por um segundo antes de ir fech-la. Fiona o
     observava da cama, apoiada em seus cotovelos. O torso nu, os msculos
     que lhe remarcavam naturalmente e faziam um jogo de movimentos
     quando ele, ainda parado ao bordo do leito, tirava-se as botas, as calas...
     E seu membro ereto... Decididamente, no podia deixar de olh-lo.
            depois de lhe tirar o salto de cama e a camisola, e sem dizer uma
     palavra, cobriu-a com seu corpo.



                                            * * *



           Candelaria se tinha partido cedo a cremera. Maria estava em seu
     dormitrio, bordando. As faxineiras, ocupadas em seus quehaceres. Era
     o momento ideal, tal como o tinha planejado. Mas Catusha no chegava.
           Havia-lhe flanco um mundo convencer a de que viesse  manso.
     Fiona desejava convid-la com uma taa de ch, com alguma saborosa
     bolacha da Maria, mas o que mais desejava era que tocasse em seu
     piano. Alm disso, queria lhe mostrar a biblioteca do Juan Cruz. No
     tinha demorado para descobrir que a Catusha fascinava ler. Era uma
     mulher extraordinariamente culta e refinada; resultava incrvel que
     algum como ela vivesse isolada nessa paragem.
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            Comeou a rir ao vislumbrar um par de ojitos celestes que a
     observavam divertidos da janela do salo azul. Era Catusha. Com um
     gesto lhe indicou a porta principal; ela mesma lhe abriria.
            --Passa, Catusha! Bem-vinda a minha casa!
            A mulher permaneceu uns instantes sob o vo, olhando de
     esguelha e com desconfiana. Depois, entrou.
            -- to formosa por dentro como o  por fora, Fiona --
     sentenciou, com o olhar cravado na aranha do hall.
            O salo azul no a deixou menos boquiaberta. Tinha-o espiado de
     quando em quando da janela, mas, era bvio, no tinha conseguido
     descobrir a beleza da habitao.
            --Que formoso piano!
            aproximou-se pressurosa e, sem pedir permisso, levantou a
     tampa e brincou com as teclas.
            --Est muito melhor que o meu. O pobrecito j est velho e um
     pouco desafinado.
            A mulher cravou seus olhos nos da Fiona e lhe sorriu.
            --Por isso queria que viesse a minha casa, para que tocasse em
     meu piano. Touca to bem, Catusha! Alm disso, quero que veja isto.
            A jovem a tirou da mo e a levou a sala da biblioteca.
            --Por Deus! Isto parece a biblioteca de uma universidade!
            --Sim --afirmou Fiona, orgulhosa.
            Aproximou com dificuldade a escada e a apoiou em uma das
     prateleiras mais altas; subiu para tomar o livro que tinha pensado lhe
     emprestar. Total, de Silva no se daria conta de nada.
            --Aqui est --disse Fiona.
            Tomou pelo lombo e o observou um momento. Depois,
     descendeu com cuidado os degraus.
            --Tome, Catusha, se o disposto para que o leia --lhe disse, lhe
     alcanando o livro.
            --Para mim? --De novo essa atitude aniada--. OH, obrigado!
     Mas vejamos do que se trata.
            Catusha leu o ttulo com ateno.
            --O que faz aqui, mame? --A voz grosa de Silva ressonou na
     biblioteca.
            Fiona levantou a vista e ficou lvida. "Como, o que faz aqui,
     mame?". Juan Cruz parecia tranqilo, mas seu olhar lhe deu pnico.
            --Mame, estou-te falando --repetiu.
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            Catusha tinha a vista perdida no primeiro captulo do livro. Fiona
     no podia mover-se, nem pensar; s observava. Mas a vista lhe estava
     nublando e comeava a sentir-se enjoada.
            --Ah, Manuelito!  voc. --A voz da Catusha tinha adquirido um
     matiz estranho. -- O que faz aqui? Deve ter muito cuidado, nesta casa
     vive um homem muito mau.
            A mulher se aproximou de Silva. Era muito mais baixa que ele, e
     teve que estirar bastante o brao para lhe mostrar o livro.
            --Olhe, meu amiga Fiona me vai emprestar isso.
            Catusha se deu volta e fixou seus olhos na jovem, a quem j lhe
     custava manter-se em p.
            --Como "mame", senhor de Silva? --Por fim, e como pde,
     perguntou a moa.
            S naquele momento Juan Cruz olhou a Fiona; viu-a to plida
     que se assustou. Com passo firme, aproximou-se dela, tomou pelos
     ombros e a guiou at o sof.
            --Fiona, sente-se mau? --Tomou as mos. Estavam geladas--.
     Candelaria! --gritou.
            Os lbios da Fiona empalideciam. No pde lhe explicar que a
     negra se encontrava na cremera. No conseguia modular as palavras; a
     lngua lhe pesava toneladas e sentia a garganta seca como uma lixa.
            --Mame! --Juan Cruz se deu volta e viu que Catusha ainda
     tinha a vista fixa no livro.
            --Mame! --gritou mais forte--. Procura a alguma das faxineiras
     e traz-a aqui. Entendeu? --Viu-a assentir com a cabea--. Vamos, v
     agora!
            --Como mame, senhor? Voc... Voc me escolho que estava
     morta... Morta...
            --Fiona, te tranqilize, no  nada. lhe posso explicar isso tudo.
     Mas agora, deve te pr melhor --disse, lhe beijando os dedos; seguiam
     frios.
            Um momento depois retornou Catusha com uma criada. Fiona
     cheirou as sai que lhe aproximou a mulher e comeou a sentir-se melhor.
     Juan Cruz a carregou em seus braos e a levou a quarto. No lhe tirava
     os olhos de cima. No podia deixar de pensar no que acabava de escutar.
     Catusha era a me de seu marido. por que no vivia com eles? por que o
     chamava Manuel?
            --Agora, trata de descansar --disse com doura Juan Cruz,
     enquanto a criada corria as cortinas.
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            --No! --aferrou-se a seu brao e o atraiu para ela--. No,
     senhor, por favor... me conte tudo, no posso esperar. No se v.
            O desespero de sua esposa o angustiou.
            --Mame, volta para a sala e fique ali. Compreendeste-me?
            Catusha, de p junto  porta do dormitrio, observava impvida a
     cena. Ao cabo, desapareceu.
            --Acenda umas velas, Branca --ordenou de Silva  faxineira--.
     Assegure-se de que a senhora permanea na sala e mande a algum a
     procurar a Candelaria a cremera, j mesmo. Que ela se faa cargo da
     senhora.
            Voltou os olhos a Fiona. Viu, com alvio, que lentamente as cores
     voltavam para seu rosto.
            --Quantos mistrios, senhor de Silva... Quantos secretos.
            --Fiona, meu pequena e doce Fiona. Quanto te tenho feito sofrer!
     Poder me perdoar algum dia? --No quis esperar a resposta--. No
     importa isso agora, talvez nem sequer merea seu respeito. fui to duro
     contigo...
            Fiona apoiou sua mo nos lbios dele.
            --Isso no importa j. --Baixou o brao e retornou ao tema que a
     preocupava--. Ela  sua me, senhor?
            --Sim --Apartou a vista do olhar da Fiona--. Est louca,
     completamente louca.
            Fechou os olhos. sentiu-se protegido quando sua mulher o
     abraou.
            --por que alguma vez me contou?
            --alm de tudo, uma me louca... No, Fiona, j me odiava muito!
     Ainda no sei se no me detesta. E no posso suport-lo... Mata-me por
     dentro.
            Fiona se separou dele, e tomou o rosto entre suas mos. Ensaiou
     um tom de voz mais pcaro e alegre.
            --Saiba, senhor, que sempre aparentou o contrrio. Parecia que
     minha irritao nem o alterava.
            De Silva sorriu com expresso afligida.
            --Louca por que?
            --Desde que ficou grvida de mim, conforme me conta
     Candelaria, j comeou a estar estranha. Desvairava muito e se perdia
     durante horas em reflexes que pareciam atorment-la. Eu recordo, era
     um menino ainda, que ela parecia estar bem, e de repente se calava,
     sentava-se em sua cadeira cadeira de balano e por comprido momento
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     no dizia nada. Podia um lhe gritar ao ouvido at desgaitarse e nada.
     Isso foi agravando-se com os anos.
            --por que no vive aqui, conosco?
            --Ja! Essa  outra histria. Em parte, porque eu no quis. No
     desejava que chegasse e te encontrasse com ela aqui, dizendo disparates.
            Fiona o olhou com ar admonitrio.
            --No me julgue, Fiona, por favor. Ela tampouco desejava viver
     aqui, esta casa lhe dava medo. No sei, resultava-lhe muito grande;
     sempre esteve acostumada a viver em espaos pequenos. Alm disso,
     sempre tive a sensao de que prefere estar sozinha; sabe dirigir-se to
     bem como se estivesse em seus cabais. Por isso lhe constru uma casa,
     no longe daqui; suponho que j a conhece...
            --Sim. Alm disso, diz que meu marido  um homem mau. mais
     de uma vez me perguntou se no lhe temo.
            --E voc, o que lhe responde?
            --Respondo-lhe que, s vezes sim, temo-lhe.
            De Silva cravou seus olhos nos de sua mulher. Olhou-a srio, com
     uma expresso de profundo abatimento; Fiona no teve medo esta vez.
            --Sua me no tem famlia?
            --Em realidade, em Buenos Aires, no tem a ningum. Ela
     chegou da Irlanda.
            --Da Irlanda!
            --Sim, do norte. Sua famlia vem do sul.
            --Voc est bem informado, senhor --disse ela burlonamente.
            --Chegou da Irlanda em 1803; tinha apenas cinco anos. Ela e sua
     me escaparam dos ingleses de milagre; acabavam de pendurar a seu
     pai, meu av.
            --OH, no, Meu deus! Pobrecita!
            --Sim, Robert Emmet; era um conhecido agitador irlands; por
     isso o mataram. Uma vez me contou que ela e sua me presenciaram a
     execuo de meu av. Deus, como pde sua me lev-la a semelhante
     espetculo!
            De Silva golpeou os ndulos contra o respaldo da cama com tanta
     fora que Fiona sentiu necessidade de esfregar-lhe Ele a deixou fazer;
     depois, tomou a mo de sua esposa e a beijou.
            --Minha av morreu a pouco de chegar. No sei muito a respeito
     dela porque nem minha me se lembra. A mame a criaram uns
     irlandeses muito bons, os Keegan.
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             --Os Keegan! --exclamou Fiona. Eram uma das famlias mais
     tradicionais de Buenos Aires, de grande fortuna e muito cultivados.
     Fiona compreendeu o por que da delicadeza e a educao da Catusha.
             --Sim. Conforme pude saber, quiseram-na como a uma filha.
     Nessa casa conheceu a Candelaria. --De Silva se calou, e por uns
     instantes brincou com os dedos da Fiona--. Bom, pode imaginar o resto.
             --No, no posso.
             Juan Cruz soltou um suspirou e sorriu sem vontades.
             --Quando tinha dezoito anos ficou grvida de mim. Por
     vergonha, escapou de seu lar.  obvio, com a Candelaria detrs. J eram
     carne e unha. Em realidade, minha me e eu devemos a vida a
     Candelaria. Ela foi a que me deu seu sobrenome: minha me no queria
     faz-lo. Ela foi a que lhe pediu trabalho a Rosas na estadia "Os Cerrillos"
     porque no tnhamos aonde ir, nem o que comer. Minha me jamais
     trabalhou. Sempre foi Candelaria a que trouxe o po a casa e, bom,
     quando pude, comecei a trabalhar eu. Minha me, sempre como uma
     rainha... --No o disse com rancor, mas sim mas bem, com orgulho.
             --E quando comeou a trabalhar voc?
             --Y... --ficou a mo no queixo--. Mais ou menos, aos sete anos.
             --meu deus! To pequeno...!
             --Minha me me ensinou a ler e a escrever, em castelhano e em
     ingls.
             --Sabe falar em ingls?
             Fiona pensou nas muitas vezes em que havia dito a Mara, em
     ingls, coisas imprprias de Silva, estando justamente ele na mesma
     habitao, e se mordeu os lbios. Juan Cruz torceu a boca: ele tambm
     recordava essas ocasies. Curiosamente, pensou, nada disso lhe
     importava j.
             --E foi ela a que lhe ensinou a tocar o piano, verdade?
             --Se se pode dizer que monte o piano, Fiona. Apenas se conhecer
     algumas melodias.
             --A ama, senhor de Silva? Digo, a sua me.
             --No sei, Fiona. Em realidade, a que quero  a minha negra
     Candelaria.
             Era a primeira vez que a chamava assim frente a ela; foi to doce
     ao diz-lo que Fiona sentiu um comicho em todo o corpo. Nunca
     tinham conversado to sinceramente, em tanta paz.
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            --Bom, basta de conversa. Melhor ser que te recoste e trate de
     dormir. Sofreu uma forte impresso hoje, verdade? --disse ele,
     ajudando-a a tampar-se com a colcha.
            --Desde dia em que o conheci voc, senhor, no fao mais que
     receber fortes impressione.
            De Silva a olhou com uma mescla de ternura e perplexidade.
     Nesse momento, ali recostada, com esse rosto de menina indefesa,
     parecia em extremo vulnervel. Era uma imagem que contrastava tanto
     com a eloqncia de suas rplicas que o desconcertava. Se acuclill a seu
     lado, sem lhe tirar os olhos de cima. Tambm lhe sustentava o olhar.
            --Desde dia em que te conheci, Fiona Malone, no fao mais que
     te amar com loucura.
            Beijou-a com entrega e paixo. Esta vez, ela no pde nem falar.



                                            * * *



            Juan Cruz se sentia melhor que bem. Recostado sobre o respaldo
     de sua cama, fumava impassvel um charuto. Fiona, profundamente
     dormida, fazia ruiditos com o nariz e a boca, agora apenas entreabierta.
     sorriu-se. Era a mulher mais formosa que tinha conhecido, e, alm disso,
     pertencia-lhe. Era dela. Sua querida e adorada Fiona.
            Quando tinha comeado essa loucura, essa carreira desenfreada
     por consegui-la, essa sensao de que se no tomava entre seus braos
     pereceria? Sups que tinha sido aquele dia, no Socorro, quando a voz
     senhorial de misia Mercedes Sanz verteu veneno em seus ouvidos...
     Nem o pense, senhor de Silva.  inalcanvel. E entretanto, a estava ela,
     mdio nua, tendida a seu lado.
            Agora, depois de que lhe tinha revelado alguns de seus segredos
     mais temveis, passavam virtualmente todas as noites juntos, em sua
     cama, ou na dela. Era estranho, mas ainda no se animava a lhe pedir
     que acabassem com essa absurda idia dos dormitrios separados. Ja!
     Ele, o grande de Silva, no se animava. tirou-se o charuto apagado da
     boca e o jogou no cho com displicncia.
            --Que horas so, senhor? --Fiona se esfregava os olhos tratando
     de dissipar sua sonolncia.
            --Segue dormindo, j quase amanhece. --Juan Cruz lhe
     acariciava as mechas que, desordenados, caam-lhe sobre o rosto.
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            --E voc, senhor, no dorme?
            Juan Cruz se encolheu de ombros.
            --Ainda insiste em me chamar senhor? --comentou, risonho.
            Fiona se incorporou at ficar apoiada no respaldo, junto a ele.
            --Nunca me pediu que o chamasse de outra forma.
            --Poderia me chamar Juan Cruz? Por favor... --adicionou.
            --No, senhor.
            A gargalhada de Silva retumbou na habitao; ela tambm
     comeou a rir.
            -- incrvel --disse ele entre risadas.
            --Senhor, posso lhe fazer uma pergunta?
            De Silva assentiu. Colocou a mo sob a manta e comeou a lhe
     acariciar a curva da cintura.
            --Essa noite, quando me salvou de ser atropelada pela volanta...
     Que fazia por a, senhor? Lembrana que chovia muito; era uma noite
     horrvel para caminhar.
            Juan Cruz curvou os lbios e os olhos lhe faiscaram. Fiona o
     seguia com o olhar, ansiosa por saber.
            --Essa noite cheguei tarde  reunio de misia Mercedes; tinha-me
     demorado em uma pulpera com seu pai arrumando... Bom... Fechando
     o... Voc sabe...
            Fiona riu ao ver at que ponto aquela lembrana o perturbava. E
     se surpreendeu ao comprovar que a ela j no a afetava.
            --Sim --completou a jovem--. Arrumando o matrimnio entre
     voc e eu.
            --Sim, claro --respondeu de Silva, ainda incmodo--. Seu pai me
     disse que te diria o de nosso compromisso essa mesma noite. Eu sabia
     que isso seria depois da reunio, porque misia Mercedes te havia
     convidado especialmente a pedido meu, e me tinha confirmado que iria.
            --Misia Mercedes? Misia Mercedes tramada com voc?
            Fiona no podia sair de seu assombro. Estava cada vez mais
     interessada em conhecer o resto da histria.
            --Sim, misia Mercedes Senz. poderia-se dizer que foi meu
     celestina em tudo isto. Graas a ela cheguei a te conhecer sem cruzar
     palavra contigo. Vi-te uma vez no trio da Igreja do Socorro, mas
     resultou ser algum impossvel de achar. Nunca foi a nenhum lado. O
     que outra coisa ficava por fazer? Misia Mercedes organizou a reunio do
     Dia da Independncia a pedido meu, para que voc assistisse.
     Assegurou-me que se a reunio era em sua casa, voc iria.
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            --No posso acredit-lo!
            --Tambm me contou que foi muito impulsiva e que odiava a seu
     pai. Por isso, depois que deixou o do Senz te segui, temendo algum
     problema. Alm disso, tenho que te confessar, estava ansioso. Esperei
     sentado em meu volanta frente  casa de seu av. No passou muito e
     saiu como louca. Lembrana que me arrepiou a pele nesse momento.
     Jamais pensei que reagiria assim, escapando de sua casa.
            Juan Cruz tomou as mos; tinha-as geladas. As esfregou um
     momento antes de continuar.
            --Disse-lhe ao chofer que nos escoltasse de longe e te segui a p.
     A chuva era intensa, mas podia te escutar chorar. No compreendia o
     que tentava fazer, at que de repente te vi, quieta no meio da lama,
     esperando a volanta que se precipitava a toda velocidade sobre ti. Bom,
     empurrei-te, e com o golpe te desvaneceu. Os dois fomos um s barro,
     cheirando a bosta de cavalo, mas no me importou, tinha-te entre meus
     braos, pela primeira vez.
            Juan Cruz se incorporou e se aproximou de sua esposa. Olhou-a
     fixamente e no encontrou rancor em seus olhos azuis; s paz, e um
     pouco de picardia. Atraiu-a para ele, e comeou a beij-la com frenesi.
     Ao separar a de seu peito, Fiona, com a boca entreabierta e os olhos
     fechados, parecia estar em outro mundo. Quando sentiu em seu ombro a
     mo firme e viril de Silva, beijou-a com doura.
            O frio do iminente amanhecer os obrigou a cobrir-se outra vez
     com a manta. Fiona, acurrucada sobre ele, comeou a brincar com o plo
     de seu peito.
            --Estive ontem com minha me... Insiste em que deve escapar, o
     tal de Silva  um energmeno, segundo ela --sorriu amargamente.
            --Tambm insiste em cham-lo Manuel, senhor. --Fiona calou, 
     espera uma explicao.
            --Juan Cruz Manuel de Silva, esse  meu nome. o do Manuel vai
     por meu pai.
            Fiona se ergueu como impulsionada por uma mola.
            --Por seu pai? Acaso seu pai  Rosas!? --exclamou com espanto.
            --No o quer muito, verdade? --Roou com os dedos os lbios de
     sua mulher--. No, Fiona. Dorrego era meu pai.
            --Dorrego? Que Dorrego? --No podia acredit-lo--. O coronel?
     que faz anos foi governador? que fuzilou Lavalle? --Viu-o assentir com
     os olhos fechados. O que outro secreto lhe estaria ocultando de Silva,
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     Por Deus Santo?--. Era... era muito amigo da Grandpa --disse como
     para si Fiona. de repente, havia-se posto triste.
            --J sei. --Uma sombra nublou os olhos do Juan Cruz.
            Fiona viu, como em um relmpago, toda a vulnerabilidade e a dor
     que se refletia no rosto srio de seu marido. Acariciou-o e o beijou na
     bochecha.
            --Senhor... --murmurou-lhe Fiona.
            Os braos do Juan Cruz se fecharam ao redor dela. Desejava faz-
     la parte de sua carne. Tinha medo de separar a de seu corpo, como se
     algum fosse arrebatar se a
            --Est bem, Fiona. J tudo passou. Ele morreu e jamais se inteirou
     de que tinha tido um filho com minha me. J est. Seriamente... J nada
     de quo mau houve em minha vida parece me atormentar agora. No
     como antes. --Tomou o rosto dela entre suas mos; o contraste entre o
     branco da pele da Fiona e o torrado de seus dedos o avivou--. Agora
     est voc; minha vida  voc;  minha paz, minha felicidade, tudo.
     Nunca me abandone, Fiona, meu amor, nunca me deixe; isso sim no
     poderia suport-lo. J no me odeie tanto, por favor... Por favor... No
     me odeie mais... --Sua boca roou os lbios da jovem e suas mos
     percorreram as curvas de seu corpo.
            --No o odeio, senhor... Eu no o odeio, no o odeio... --repetia
     Fiona entre suspiros entrecortados.
            Logo amanheceu. No se deram conta. Seguiam fazendo o amor.




                                       Captulo 13
          Fiona entrou na cozinha e encontrou a Maria sentada perto do
     trbede. Chorava sem consolo, com sua alhada imagem de So Patrcio
     em uma mo e, na outra, um leno empapado. Algumas das faxineiras
     tratavam de tranqiliz-la. Fiona estava desconcertada: no tinha a
     menor ideia do que podia lhe acontecer. Pensou que talvez se brigou
     com o Elseo. Fazia tempo que se deu conta de que eram amantes.
          --Maria, o que te passa? Vamos, deixa de chorar. Branca, por favor,
     me traga um pouco de gua fresca --ordenou a jovem.
            --Fiona, Meu deus... Como farei para lhe dizer isso
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           Branca deixou o copo de gua sobre a mesa, perto da Maria, e se
     retirou dali. Fiona sentiu uma aguda opresso no peito.
           --O que acontece, Maria? --perguntou com medo.
           --Fiona... No se como lhe dizer isso sem que...
           --Passou-lhe algo a de Silva?
           --No, minha menina, ele est bem. trata-se... trata-se de... Camila.
     Os soldados de Rosas a apanharam, a ela e ao curita. Trazem-nos para
     Santos Lugares.
           --No, Por Deus!
           Fiona, afligida, deixou-se cair em uma banqueta, com a cabea
     entre as mos. O crcere de Santos Lugares... Ningum saa com vida
     dali.
           --Como sabe? --perguntou por fim.
           --Elseo levou hoje ao patro a Buenos Aires e trouxe a notcia. Diz
     que Rosas est furioso. A famlia dela tambm. Ningum se anima a
     falar em seu favor. Nem sua me, nem seu pai.
           --Malditos sejam! Malditos covardes! --Fiona deu um murro sobre
     a mesa e ficou sbitamente de p.
           --Vamos, Fiona, no ponha assim. J ver que tudo vai solucionar
     se Y...
           --Com Rosas de por meio? Nem o sonhe, Maria! Esse... esse...
     Jamais os perdoar. --Fez uma pausa e voltou a sentar-se--. Quem  ele
     para perdoar ou no a algum que no causou nenhum dano? meu
     deus! crie-se o dono de nossas vidas!
           --Fiona, por favor, te cale --rogou Maria, enquanto se assegurava
     de que no houvesse nenhuma faxineira perto. Era mais que sabido: elas
     e os lacaios e criados eram os espies mais eficazes do governador. Por
     isso, sempre estava informado de tudo.
           --Sabe algo mas?
           --No, minha menina.
           --Diz que de Silva est em Buenos Aires?
           --Sim. Ele no te disse que hoje partiria  cidade? --perguntou-lhe
     incrdula.
           --No. Jamais me diz o que vai fazer.
           Fiona se levantou com presteza. Estava decidida a fazer algo. Era
     bvio, lhe notava nos olhos.
           --Vamos, Mara, iremos a Buenos Aires. Preciso falar com o
     governador. Se ningum interceder pela Camila, eu o farei.
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          --No, Fiona! Por isso mais queira, no o faa! Por-o furioso, e
     quem sabe com que coisas te sair. --A criada a sujeitava do brao, com
     pnico no olhar.
          Fiona a observou uns instantes, tempo suficiente para compreender
     que devia refletir a respeito de seus arrebatamentos. Muitas vezes tinha
     tido que arrepender-se deles; esta vez, o assunto era muito delicado. Se
     atuava por impulsiono Rosas saberia rebat-la habilmente. No,
     esperaria e pensaria.
          --Est bem; vamos ver o que acontece.

           Transcorreram vrios dias que esteve como louca. Fazia quase uma
     semana que Juan Cruz tinha partido para a cidade e no retornaria
     ainda. Precisava falar com ele. O que esperava para retornar? Desejava
     consult-lo, lhe perguntar qual era exatamente a situao da Camila e
     Ladislao, o que podiam fazer. Estava inquieta, afligida, e nada a
     acalmava. Tratava de passar as horas lendo, mas no podia concentrar-
     se. Os passeios tampouco sortiam efeito. foi visitar a Catusha, como
     sempre, mas no quis lhe contar nada. Temeu perturb-la mais do que
     estava. depois de tudo, a histria de seu amiga com o padre era to
     clandestina como o tinha sido a dela, trinta anos atrs. De todas formas,
     Catusha conseguiu faz-la rir com suas ocorrncias e comentrios, entre
     inteligentes e infantis.
           Quando disse que queria ir a Santos Lugares, onde ainda os
     mantinham presos, Eliseo lhe advertiu que no o fizesse: no deixavam
     entrar em ningum. Armou vrios pacotes com roupas podas e comida
     fresca. Sua imaginao a torturava; pensava no estado lamentvel no
     que se encontraria seu amiga, em meio de uma cela fria e imunda,
     alimentada com comida de presidirios, e se desesperava. Eliseo levou
     os pacotes, mas voltaram intactos. A Ou'Gorman e Gutirrez tinham
     proibido receber nada.
           Finalmente se decidiu: iria a Buenos Aires para falar com de Silva.
     J no podia seguir perdendo um minuto mais; alm disso, a espera
     terminaria com sua prudncia.
           um pouco a contra gosto, Maria aceitou acompanh-la. Eliseo
     oficiou de chofer, tambm  fora. Sabia que dom Jun Cruz no o
     passaria. Mas no pde negar-se ao pedido da Fiona. Alm disso, seria
     melhor que a levasse ele; do contrrio, Fiona chegaria  cidade embora
     fora caminhando.
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           Entraram em Buenos Aires de noite. A neblina que Expulsava pelas
     ruas lhe dava  cidade um aspecto fantasmagrico que era um reflexo
     perfeito do estado de nimo da Fiona. Era difcil distinguir a luz mortia
     das velas entre a espessura da bruma.
           Apareceu a cabea pelo guich da volanta. O ar mido e frio, que
     deu totalmente sobre seu rosto, obrigou-a a fechar os olhos. Voltou para
     arrellanarse no assento. Naquele momento, Eliseo deteve os cavalos; o
     relincho que soltaram foi to estrondoso que a assustou. Estava to
     sensvel que algo a sobressaltava ou a fazia chorar. Estaria voltando-se
     louca?
           Voltou a aparecer pelo guich e divisou a casona que de Silva tinha
     comprado tempo atrs, escura e silenciosa. Parecia abandonada.
           --Senhora de Silva... --murmurou a faxineira que lhes abriu a
     porta, com expresso de surpresa.
           --O que acontece, Luzia? --perguntou, zangada.
           No esperava que a recebesse lhe fazendo festas, mas tampouco
     que ficasse olhando-a como se se tratasse de uma desconhecida.
           --No, nada, senhora.
           A mulher reagiu rapidamente, apartando-se da entrada. O que
     acontecia era que a notcia da Ou'Gorman tinha deslocado pela cidade
     como reguero de plvora e todos conheciam a amizade entre ela e Fiona.
     Por isso, quando a viu a...
           --por que est tudo to escuro fora? Faa acender os faris agora
     mesmo.
           antes de que a faxineira se dispusera a cumprir a ordem, deteve-a.
           --Um minuto, Luzia. Est meu marido?
           --O senhor h dito que esta noite no retornar  casa, senhora.
           A resposta foi um golpe muito duro. Como que no passaria a
     noite em casa? Onde a passaria, ento?
           --No h dito onde estar esta noite? --sentia-se humilhada. No
     suportava ter que lhe perguntar a uma faxineira onde se supunha que
     dormiria seu marido.
            --Passar a noite na casa do salga, nos barracos. Surgiu um
     problema ali e devia estar a primeira hora tie a manh.
           --Est bem, Luzia. V no mais.
           sentiu-se mais tranqila; depois de tudo, eram questes de
     negcios as que obrigavam ao Juan Cruz a pernoitar em outro stio.
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          Ao momento, depois de que teve guardado a carruagem na
     cavalaria, apresentou-se Eliseo pela porta que dava ao ptio da
     servido.
          --Come algo e mais tarde nos leva a salga, Elseo. Preciso falar com
     meu marido esta mesma noite.
          O aroma de carne podre comeava a lhe arder o nariz. Tirou um
     leno e o colocou sobre seu rosto. Maria j tinha feito o mesmo um
     momento antes. Fiona se lamentou pelo pobre Elseo; de seguro, estaria-
     se chateando com o aroma fedido que alagava o lugar.
          Os tablones da ponte do Mrquez rangeram quando a volanta os
     cruzou. Por debaixo, o Riacho, e, mais  frente, o salga maior de toda a
     Confederao, o "Esmeralda". depois de que "As Higueritas", que tinha
     pertencido a Rosas, osito, o "Esmeralda" tinha passado a ser o mais
     importante. Cada dia se sacrificavam ali ao redor de quatrocentas
     cabeas de gado; muitos quilogramas de charque se secavam em outros
     tantos quilogramas de sal; centenas de couros se curtiam ao sol; mais de
     duzentos empregados trabalhavam em suas instalaes. Era uma
     indstria extremamente prspera, e de Silva era seu dono. Toda graas a
     Rosas, que em seu momento lhe tinha emprestado o dinheiro para
     adquiri-lo. naquela poca estava virtualmente abandonado; parecia
     desolado, e no havia mais de quinze ou vinte catezas de gado dando
     voltas pelo rodeio. Ao cali de dois anos era o que agora. O primeiro
     que fez de Silva foi lhe devolver o dinheiro a Rosas; mais ainda,
     ofereceu-lhe uma participao no negcio. Embora no aceitou, o
     Restaurador se sentiu adulado pelo convite de seu protegido. Mas j
     estava muito comprometido com a causa federal e no queria meter-se
     em um problema mais. "que muito abrange, pouca apura, Crucito",
     havia-lhe dito nessa oportunidade, lhe aplaudindo as costas.
          Fiona jamais tinha estado no "Esmeralda", mas tinha escutado
     muito sobre ele. Era um lugar imponente. Mais  frente, quase ao final
     de tudo, os barracos. Eram vrias construes de tijolos branqueados
     com tetos de palha que pareciam um casario no meio l o pampa.
          O stio estava bem iluminado. As luzes enormes permitiam vigiar
     cada centmetro do lugar. Uma precauo necessria para evitar o saque
     noturno e o roubo de animais, muito comum na poca. Vrios gachos
     armados at os dentes faziam guarda noturno apostados em distintos
     pontos da propriedade.
          Fiona percorreu o lugar com o olhar. ao longe, perto do barraco
     principal, havia um grupo de pees rodeando o fogo. Viu trs homens
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     sentados sobre o espinhao de uma vaca, como se se tratasse de uma
     banqueta. A seus ouvidos chegaram os lembre de um violo e uma voz
     melodiosa. Os sons e as vozes daqueles gachos se foram fazendo cada
     vez mais audveis  medida que a volanta se aproximava do abrigo, at
     que, ao chegar ali e fazer-se visvel, o rudo cessou como por encanto.
          Fiona ficou na carruagem enquanto Eliseo conversava com um dos
     empregados do salga que se apartou do fogo para receb-los. Pelo
     modo caloroso em que se saudaram pareciam conhecer-se. Ao momento,
     Eliseo apareceu ao interior da volanta.
          --Menina Fiona, o patro est dentro do barraco, reunido com uns
     homens.
          --Est bem, entremos, ento.
          Maria preferiu ficar na volanta, com o leno na cara.
          A pouco de caminhar, Fiona se acostumou ao aroma. Os
     empregados a olhavam, alguns sentidos saudades, outros com o desejo
     pintado no rosto, mas nenhum se animou a dirigir-se a ela; era a mulher
     do diabo. Fiona passou junto a eles como se no existissem; s queria
     chegar onde seu marido, estava ansiosa por v-lo.
          Por fim, chegaram ao lugar onde estava de Silva.
          --O que faz aqui? --perguntou ele, enquanto a transpassava com o
     olhar. Era evidente que estava muito zangado--. por que a trouxe? --
     perguntou ao Eliseo, que baixou a cabea sem saber o que responder. O
     criado sabia to bem como ele que era muito arriscado chegar  salga;
     mais ainda de noite.
          --No diga nada a ele, senhor de Silva. Eu lhe pedi que me
     trouxesse.
          Fiona olhou a seu redor. O lugar era bastante confortvel por
     dentro. Havia vrios camas de armar e duas mesas enormes no centro.
     Em uma delas, de Silva e dois homens trabalhavam sobre uns papis
     grandes; pareciam planos. O calor que dava a salamandra a reanimou.
          De Silva, confundido, no lhe tirava os olhos de cima, ao igual aos
     dois homens que o acompanhavam. Juan Cruz captou o olhar libidinoso
     de seus empregados.
          --me esperem fora --ordenou em um tom resistente.
          Os homens abandonaram o barraco com a cabea baixa,
     conscientes de sua indiscrio.
          --Voc tambm, Elseo.
          ficaram sozinhos. Fiona sentiu que uma ardncia de prazer o
     recoma o corpo. O olhar devorador de Silva a fez estremecer-se; sabia
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     que o tinha enfurecido indo basta ali, mas era imperioso que falassem.
     Juan Cruz no pensava o mesmo. aproximou-se, tomou entre seus
     braos e a beijou com paixo. como sempre, a reao de seu marido a
     desconcertou; finalmente, relaxou-se, e uma vez mais se entregou a ele
     sem oferecer a menor resistncia.
            --meu deus... --murmurava de Silva--. No tinha reparado em
     quanto sentia saudades, meu amor...
            Enquanto acariciava todo seu corpo, transbordado pelo desejo, sua
     boca arremetia contra a dela. de repente, comeou a afundar o rosto em
     sua cabeleira, como se queria embriagar-se com o perfume de sua pele.
     O perfume de sua pele... Havia algo mais excitante para ele que o aroma
     da pele da Fiona? Essa delcia em seu nariz fazia desaparecer como por
     arte de magia a podrido que o rodeava. Ela era sua distrao, o recreio
     mais desejado depois da tarefa, o melhor prmio depois da luta.
            --Por favor... Senhor... Eu...
            Sabia que no devia esquecer o motivo que a tinha levado at esse
     stio, mas no o obtinha; no podia desfazer-se da atrao do Juan Cruz.
     Uns minutos mais e de Silva lhe teria feito o amor em um dos camas de
     armar do abrigo; mas era impossvel, disse-se; seus homens estavam
     fora, junto ao Elseo. E Maria estava aguardando na carruagem. Devia
     controlar-se.
            --O que faz aqui? --sussurrou sem apartar os lbios dos dela.
            --Precisava falar com voc... senhor.
            Tinha as mos ao redor do pescoo de l Silva e sentia as dele lhe
     ajustando a cintura. Pouco a pouco, Juan Cruz foi apartando.
            --O que aconteceu? --perguntou preocupado.
            --Como, senhor? No sabe voc o que aconteceu? Camila... Camila
     Ou'Gorman, meu amiga.
            --Sim, j me inteirei --afirmou Juan Cruz.
            --Temos que fazer algo, senhor. vim at aqui para lhe pedir que
     fale com o governador.
            De Silva se tornou bmscamente para trs e a olhou com dureza.
            --Deve saber uma coisa, Fiona... --Olhou ao cho antes de
     continuar--. Camila est grvida.
            Fiona afogou um gemido, aterrada. De Silva se aproximou outra
     vez a ela.
            --Vamos. Fiona --disse com pesadumbre--. Melhor ser que te
     leve a casa.
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           Juan Cruz entrou no dormitrio da Fiona e a encontrou chorando.
     Estava sentada em um tamborete e sua cabea se movia ao ritmo
     desigual de seus soluos.
           Chamou-a da porta. Viu-a girar sobre si e olh-lo. Entre suspiros,
     indicou-lhe que acontecesse.
           De Silva se aproximou lentamente, como se temesse espant-la, e se
     acuclill diante dela.
           --Vamos, Fiona, no chore. Algo faremos por ela.
           Fiona chorou com mais ganha ainda. Juan Cmz lhe corria as
     mechas e lhe secava as lgrimas com a ponta do dedo.
           -- que...  que... No desejo que... que nada mau... acontea-lhe...
     Ela  meu melhor amiga, senhor.
           Por fim, pareceu comear a acalmar-se. Juan Cruz tomou pelos
     ombros, atraindo-a para ele.
           --Vamos, pequena. Vem; te recoste e tenta descansar.
           No podia v-la assim. Rompia-lhe o corao. Recostou-a sobre o
     leito, e lhe tirou a bata e os escarpines. Tampou-a com a colcha e a
     agasalhou.
           Fiona, mais tranqila, contemplava-o absorta. Gostava de sentir o
     roce das mos speras do Juan Cruz sobre seu corpo. Gostava de
     observ-lo. Gostava de sua expresso quando lhe tirava a bata ou a
     cobria com o rebuo. Gostava de contemplar seus olhos, perdidos em
     alguma reflexo que, como sempre, ela no podia descobrir. Gostava...
     Gostava de seu marido como jamais pensou que gostaria.
           --Amanh mesmo falarei com o governador pela Camila --disse
     ele, enquanto se sentava no bordo da cama--. Agora, trfico de domiir.
           Beijou-a na frente. Fiona sentiu que lhe arrepiava a pele.
           --Senhor... --chamou-o com a voz congestionada.
           --O que, Fiona? --perguntou ele da porta.
           --Obrigado.

          --Est louco! --exclamou Rosas. O murro que descarregou sobre a
     mesa fez tremer a seus ajudantes--. Desapaream todos de minha vista,
     agora! --ordenou depois tie um momento. Os ajudantes e o Pai Vigu se
     esfumaram, aterrados. Rosas, furioso, parecia lanar labaredas pelos
     olhos.
          S Juan Cruz, o promotor dessa fria, permanecia sentado, com
     gesto indolente e despreocupado. Rosas podia atuar assim com todos,
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     menos com ele. Conhecia-o muito e sabia que o ditador estava
     acostumado a utilizar a tcnica do terror. A ele no ia intimidar o.
           --Comecemos de novo --escolho Rosas zangada--. Desejas que
     libere a Ou'Gorman, verdade?
           Juan Cruz assentiu.
           --E, pode-se saber por que? --continuou Rosas, cada vez mais
     alterado-- No, no. No me diga nada, eu lhe direi isso.  por seu
     mujercita, verdade? Fez-te uma escenita de pranto e te comoveu --
     rematou, olhando-o direto aos olhos.
           O jovem pareceu no alterar-se, e isso incomodou mais ainda ao
     Restaurador. Devia aceit-lo, era o nico que no se chateava quando ele
     gritava.
           --Foi ela, verdade? Ela te pediu que viesse para ver-me, no 
     certo? ---insistiu Rosas.
           Juan Cruz no falava. Olhava-o sem pestanejar.
           --Sim que te colocou essa a China na cabea, n? Realmente, tenho
     que reconhec-lo,  uma das mulheres mais lindas que vi em minha
     vida. Pode voltar louco a qualquer, disso no tenho dvidas. A
     qualquer, mas no a ti, Crucito. Voc  muito inteligente para te deixar
     enrolar por um par de olhos lindos.
           --No foi Fiona a que me pediu que venha a v-lo, dom Juan
     Manuel --mentiu de Silva, abandonando o sof--. vim por minha
     prpria vontade --continuou--. No vou negar lhe que minha esposa
     est desfeita com tudo isto da Ou'Gorman. Como voc sabe, so amigas
     da infncia. Apesar de tudo, vim aqui por voc.
           --Por mim! Por mim, diz? --repetiu Rosas, acalorado--. Olhe o
     que outros esto fazendo por mim! --Jogou-lhe na cara uns peridicos
     que tirou da mesa--. Os que esto remarcados com tinta --Indicou
     Rosas, framente, agitando o dedo no ar.
           De Silva leu em voz alta.
           --"... Ontem um sobrinho de Rosas que ao princpio se disse ser../'
     --passo de comprimento os nomes e seguiu--: "... tentou tambm
     roubar-se outra jovem, filha de famlia; mas se pde impedir a tempo o
     crime. Qualquer dos dois,  da escola do Palermo, onde nessa linha,
     vem-se e se ouvem exemplos e conversaes que no podem dar outro
     fruto. No podem, meu Deus!, pois aquilo, meus amigos... lhe deixemos
     sem mais dizer". --Terminou de ler e levantou a vista.
           --Esse  o maldito da Alsina, no Comrcio do Pia-a. Esse no me
     importa lauto, mas, vamos, l o outro, o do Mercrio--ordenou Rosas.
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           -"chegou a tal extremo a horrvel corrupo dos costumes sob a
     tirania espantosa do 'Caligula do Prata', que os mpios e sacrilegos
     sacerdotes de Buenos Aires fogem com as meninas da melhor sociedade
     sem que o infame strapa... --De Silva fez uma pausa neste ponto e o
     olhou de soslaio; Rosas tinha a cara encarnada. Seguiu lendo--: ... adote
     medida alguma contra essas monstruosas imoralidades."
           --Agora entende por que tenho que mand-la fuzilar, Crucito? --
     Parecia que se acalmou um pouco.
           --No, ainda no compreendo.
           Rosas pensou que de Silva desfrutava provocando-o. Novamente, a
     fria se apoderou dele.
           --Mas m'filho! Sim que est lento hoje!
           --Acalme-se, dom Juan Manuel, acalme-se e me escute.
           De Silva comeou a caminhar com os polegares enganchados nos
     bolsos do colete e o olhar fixo no cho.
           --Embora voc cria que estou aqui por minha esposa, minha
     imparcialidade no assunto est garantida. No venho aqui por pedido
     dela, a no ser para lhe aconselhar que, por seu prprio bem, no a
     fuzile.
           --Por meu prprio bem? -- Rosas o olhou, incrdulo.
           --Em tudo isto h gato encerrado, dom Jun Manuel. Algo que
     aprendi de voc  que as coisas no so o que aparentam ser. Sempre
     tomei isto como um dogma e no me foi to mal acreditando-o assim.
     Ver, em todo este assunto h algo que no entendo.
           --No tem que entender muito, Crucito. A Ou'Gorman e o curita
     estavam mais quentes que pava ao fogo e se fugiram. Isso  tudo...
           --Isso o entendo. Em realidade, o que no compreendo  isto --
     replicou, blandiendo os peridicos.
           --Agora o que no entende sou eu --Rosas o olhou carrancudo.
           -- evidente. o esto aulando para que a fuzile, para logo voltar-
     se em seu contrrio, argumentando que  um monstro sem piedade que
     nem sequer se compadece de uma pobre menina.
           --Mas, no tem lido esses artigos?
           --Sim, mas nenhum deles se pronuncia sobre qual deveria ser o
     castigo a repartir. limitam-se a falar de uma reprimenda sem dizer qual
     tem que ser. Isso o deixam, taimadamente, em suas mos.
           Rosas se tinha levado a mo ao queixo e caminhava pela habitao
     com o olhar fixo no cho. No tinha pensado nessa possibilidade.
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           --Alm disso, clone Juan Manuel, a Ou'Gorman est grvida; isso o
     compilca todo ainda mais --concluiu de Silva.
           --No sei, Crucito, no sei. O que fez essa estpida  muito.
     Parece-me que a nica sada que fica  fuzil-la. Toda a Confederao
     est furiosa com o comportamento desses dois idiotas. O que posso fazer
     eu?
           --No a fuzile, dom Jun Manuel. No o faa.

           Fiona estava decidida, iria ela mesma a ver o governador. De Silva
     se reuniu com ele dias atrs e no tinha obtido nada. No podia ficar de
     braos caizados; algo devia fazer, algum devia falar.
           Chegou ao Palermo e se encontrou com dezenas de pessoas que
     faziam fila nas galerias,  espera de que lhes concedesse uma audincia
     com o governador. Algumas fada dias que estavam ali; dormiam sobre
     jergones de palha e comiam as provises que tinham levado. Fiona
     sentiu pena por eles, mas sua causa era mais importante.
           Uma das negras faxineira de Rosas a levou onde Manuelita, que
     atendia a uns convidados no salo principal. Sem lhe importar muito
     suas hspedes, levantou-se do canap e se encaminhou ao encontro da
     Fiona.
           --Fiona, querida! Que alegria que tenha vindo! --disse, enquanto
     tomava delicadamente as mos.
           --Para mim tambm  uma alegria voltar a verte, Manuelita, mas o
     motivo que me traz para esta casa  mais que triste.
           --O que acontece, Fiona? --perguntou Manuelita com fingida
     ingenuidade.
           Em um primeiro momento, Fiona sentiu fria. Acaso Manuelita
     no conhecia a estreita relao entre ela e Camila? Do que outra coisa
     viria a lhe falar? Tratou de acalmar-se.
           --Como saber, Manuelita, Camila est presa. Por esse assunto
     de...
           --OH, sim, daro! --apressou-se a exclamar a filha de Rosas--. Em
     realidade, pensei que devias buscava ao Crucito.
           --Ah! Mim marido j est aqui... --Fiona, surpreendida, tratou de
     dissimular o melhor que pde.
           Obviamente, Fiona tinha viajado at a quinta do Palermo sem fazer
     saber a de Silva, que jamais lhe teria permitido ir falar com Rosas..Mas j
     estava a poucos metros de quem podia decidir sobre a vida ou a morte
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     de seu melhor amiga, e no se tornaria atrs pelo Juan Cruz. Em todo
     caso, depois suportaria sua ira em La Candelaria.
           --Chegou esta manh, muito cedo. Est no estudo, com tatita,
     discutindo uns assuntos das estadias, ou algo assim.
           --Manuelita, poderei ver seu pai... agora? --animou-se a
     perguntar, a pesar do medo que a embargava. Sabia que no era fcil
     chegar ao governador.
           -- obvio, Fiona.
           Manuelita a guiou atravs da imensa casona. Tinha sido construda
     segundo o tpico desenho das casas espanholas com reminiscncias
     rabes, nas que as habitaes davam a vrios ptios centrais. Fiona,
     subjugada pelo estilo francs de La Candelaria, pensou que nunca mais
     voltariam a lhe gostar daquelas antigas construes coloniais.
           depois de cruzar vrios sales e deixar atrs a mais de quinze
     pessoas, as duas mulheres chegaram  porta do estudo do governador.
     De fora, podia-se escutar claramente a voz de Rosas. Fiona sentiu que as
     pernas lhe tremiam e, por um instante, duvidou em entrar. Mas no
     podia permitir-se medos. Respirou profundo e ingressou detrs da
     Manuelita.
           --Fiona! --exclamou Juan Cruz, surpreso.
           Era a primeira vez que ela percebia certo pnico na voz de seu
     marido.
           --Fiona! Que grata surpresa! --Rosas se aproximou dela, a lom
     pelos ombros e a beijou na bochecha--. Que bela est esta tarde! Agora,
     eu me pergunto, como voc, uma jovem to formosa, pudeste te
     apaixonar por um sacana como Caicito.
           O comentrio do governador a fez rir. Olhou de esguelha a de Silva
     e pensou que, sem ser belo, tampouco era feio. Pelo menos, no para ela.
           De Silva a olhava com dureza, contendo a respirao. A viso das
     mos enormes de Rosas revestir os ombros diminutos de sua mulher lhe
     provocou um estremecimento. "No, Fiona, por amor de Deus, no o
     faa", pensou.
           --Obrigado por me receber, senhor governador. Aprecio-o muito;
     sei o ocupado que voc est --disse, sem olh-lo.
           Rosas lhe tirou seus manazas de cima e isso a tranqilizou. --Aqui
     me tem, querida. Seu marido sempre me traz problemas para resolver.
     Em realidade, prefiro verte a ti e no a ele; voc  muito mais bela --riu.
           De Silva, mudo, espectador, sentia desejos de matar a Fiona.
           --Vindo-me senhor...
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             --Ainda no perguntei a que vieste, menina -- Rosas a parou em
     seco.
           --Tatita... --murmurou Manuelita, envergonhada.
           --Fiona, melhor me espera na carruagem... --interveio Juan
     Cruz--. Eu j...
           --De maneira nenhuma --o interrompeu Rosas---. Evidentemente,
     ela veio a falar comigo, no para lhe buscar a ti, Crucito. No se ir me
     explicar a honra de sua visita.
           --vim a lhe pedir que libere a Camila Ou'Gorman --disse Fiona
     sem vacilar.
           --All, com que o assunto da Ou'Gorman! --comentou Rosas, como
     se no tivesse sabido do primeiro momento que ela tinha ido ao Palermo
     para isso--. Mas, filha, pensei que era algo mais grave!
           --Mais grave! Mais grave, diz! --Fiona sabia que estava gritando e
     que era intil lamentar-se: a indignao lhe tinha feito perder o controle.
           De Silva no suportou mais e decidiu tomar o touro pelas hastes.
     aproximou-se de sua esposa e a agarrou pelo cotovelo disposto a tir-la
     dali.
           --Vamos, Fiona.
            --No, Crucito. vou escutar o que seu mujercita tem para me
     dizer, at o final --o desautorizou Rosas.
           Fiona no entendia que Rosas se proposto tirar a das casinhas para
     humilh-la; era muito malicioso para uma mente to candida como a
     dela. De todos os modos, ao perceber que de Silva, resignado, soltava-
     lhe o cotovelo, tomou coragem outra vez.
           --Senhor governador --tentou um tom menos displicente--. Como
     j lhe disse, vim a lhe pedir, a lhe rogar se for necessrio, que libere a
     Camila. Ela no tem feito nada mau, no prejudicou a ningum, senhor.
      uma jovem de grande corao e boas intenes. Sua filha Manuelita
     pode dizer-lhe so amigas... --Girou a cabea, mas Manuelita j no
     estava ali. Tragou saliva--. Como lhe dizia. Camila  uma boa pessoa,
     muito federal, sempre defendeu a causa. Sua divisa ferroou era uma de
     quo maiores eu tenha visto, sempre a levava posta. Alm disso,
     ajudava na Igreja do Socorro...
           --Sei--a interrompeu Rosas--.Justamente ali foi onde comearam
     os amores com o sacrilego do Gutirrez.
           --O suplico, senhor... Por isso mais queira no mundo, deixe-a
     viver.
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          O pranto afogou suas ltimas palavras. Mudada, aproximou-se de
     Rosas e o tirou das mos.
          --Deixe-a viver, por favor... A ela e a seu filho --repetiu entre
     soluos.
          O ditador a olhou fixamente. Nesse momento compreendeu o amor
     que seu protegido sentia pela jovencita. A ele mesmo teria gostado de
     levar a  cama.
           --No, Fiona. No o farei.
          Rosas deu meia volta. sentia-se causar pena por ter que dizer-lhe
     assim, to frontalmente.
          --Ela no tem feito nada mau! Por Deus! Quem  voc para dizer
     quem deve morrer ou quem deve viver!
          De Silva se estremeceu; agora sim, tudo estava perdido.
          --Tem idia do que seu amiguita esteve fazendo com esse padre
     todo este tempo? Tem a menor ideia, Fiona? --Rosas havia se tornado e
     lhe gritava na cara.
          --Isso a voc no importa --disse ela, em voz baixa mas firme.
          --Dom Juan Manuel, melhor ser... --interveio Juan Cruz.
          --Como que isso no me importa! Tudo o que acontea na
     Confederao me importa! --bramou Rosas sobre o rosto da Fiona. A
     audcia da jovem o tirava l gonzo.
          --Esse  um tema privado entre ela e o senhor Gutirrez --insistiu
     Fiona.
          --Est muito equivocada, menina. Eles atentaram contra os bons
     costumes, contra a honra e contra Deus. Eu tenho que...
          --Voc  capaz de me falar de bons costumes, de honra, de Deus?
     Voc? Voc, que faz mais de dez anos mantm a sua amante Eugenia
     dentro desta casa como se fosse s uma faxineira?
          Ningum se tinha atrevido a tanto. Rosas no duvidou um
     instante.
          --Tira a de minha vista, Juan Cruz! Tira-a j, antes de que me
     esquea de que  sua mulher!
          De Silva tomou a Fiona pelo brao e a tirou rastros da habitao.
          O governador os seguiu com o olhar. Quando tiveram
     desaparecido de sua vista se aproximou da porta e a fechou de um
     chute. Logo, j junto a seu escritrio, tomou um tinteiro de bronze e o
     jogou contra o mvel com pequenas gavetas, listava fora de si. Ferido
     em seu orgulho, humilhado em sua prpria casa, e nada menos que por
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     essa estpida Malone. Agora sim, o momento tinha chegado. Os
     malditos Malone se inteirariam de quem mandava na Confederao.

           Juan Cruz arrastou a Fiona atravs dos ptios da casona de Rosas e
     em um momento estiveram fora. Bruscamente, obrigou-a a subir a seu
     carro e a depositou no assento como se fora um saco de batatas.
           Fez-lhe tina gesto ao chofer qtie havia trazido para a Fiona para
     que os seguisse. O homem o olhou confundido, mas no se atreveu a
     perguntar. Por fim. de Silva subiu a volanta e fechou a portinhola de um
     golpe. Fiona deu um coice e se acurruc no outro extremo, o mais longe
     possvel de seu marido.
           escutou-se a ordem do auriga e o som do ltego, e os cavalos
     ficaram em marcha para A Candelaria. Juan Cruz, sentado frente a sua
     esposa, olhava pela janela sem pestanejar, com o gesto tenso. Estava
     agitado e tinha a frente perlada pelo suor.
           --Em que mierda estava pensando quando te ocorreu dever ver a
     Rosas? --bramou de Silva sbitamente.
           Fiona tremeu; fez-se para atrs e se afundou na almofada do
     assento. Tinha desejos de chorar e lhe custava muito conter-se. Embora
     no era a fria de seu algemo o que mais a atemorizava; temia que sua
     reao arrebatada com o governador tivesse piorado a situao da
     Camila.
           --me responda! --vociferou novamente Juan Cruz.
           --Em lhe salvar a vicia a meu amiga! Nisso estava pensando! --
     gritou Fiona mais forte que ele. Sua voz soou firme e isso a encheu de
     valor. incorporou-se e o enfrentou. sustentaram-se o olhar; tinham os
     rostos desencaixados, vermelhos de clera.
           Juan Cruz, lanou um flego de indigesto e se atirou para atrs,
     apartando a vista de sua mulher.
           --Com a escenita que te montou logo terminou de enterrar a seu
     amiga --disse de Silva ao cabo, em um tom mais calmo, embora cheio
     de sarcasmo.
           Ao escutar essas palavras, Fiona sentiu como se lhe atirassem um
     golpe no peito. Por um instante, faltou-lhe o ar; formou-se um vazio a
     seu redor e no escutava nem via nada. Tudo havia se tornado escuro
     em torno dela.
           De Silva notou que sua esposa empalidecia e que respirava com
     dificuldade. Tinha os lbios morados e o olhar vidriosa. Rapidamente,
     Juan Cruz se sentou a seu lado e tomou as mos geladas.
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           --Fiona! O que te passa? --Tomou pelos ombros e a sacudiu.
           A jovem no reagia; seus olhos, excessivamente abertos, tinham
     perdido seu brilho natural. Ele continuava chamando-a, mas Fiona no
     respondia.
           Juan Cruz abriu uma pequena porta sob o guich e tirou uma
     garrafa. Tirou-lhe a cortia com os dentes e a aproximou do nariz de sua
     esposa. O aroma forte da bebida a alagou, e comeou a respirar
     ruidosamente.
           --Toma um gole disto, vamos... --Juan Cniz lhe aproximou a
     garrafa aos lbios e verteu um pouco do lquido em sua boca. Fiona
     sentiu que se queimava por dentro. De todos os modos, a bebida a
     ajudou; ao momento tinha superado a crise, embora estava muito
     enjoada.
           De Silva a atraiu para seu peito e a envolveu com seus braos. Ela
     ainda tremia e suas mos seguiam fritem.
           Ao sentir a ternura de seu marido, Fiona se largou a chorar como
     uma madalena. De Silva a apertou mais ainda e comeou a lhe sussurrar
     palavras de consolo.
           Juan Cruz se amaldioou por lhe haver dito isso e desejou poder
     voltar o tempo atrs. No suportava v-la assim; queria que o
     sofrimento de sua pequena Fiona terminasse rapidamente, que se
     esfumasse, e que ela voltasse a sorrir. Mas no o conseguia, no sabia
     como faz-lo; nunca havia sentido a impotncia que o afligia nesse
     momento. Impotncia ele? Nada lhe resultava impossvel para lhe
     provocar essa sensao; ele podia contudo. Mas Fiona... Fiona sempre o
     fazia viver coisas novas.
           --Por... por minha culpa... a.., a vai matar... --disse a jovem, entre
     palavras afogadas.
           --No, pequena. Voc no tem nada que ver neste assunto.
           Fiona permaneceu calada um momento. Queria acalmar-se para
     falar com de Silva. Precisava conhecer as conseqncias de seu
     exabrupto com o governador.
           --Voc me disse recm que eu tinha terminado de ente...
           --Disse-o em um momento de raiva --a interrompeu de Silva--.
     No  certo; esquece-o j --lhe pediu.
           Juan Cruz pensou que, em realidade, teria que repreend-la pelo
     que tinha feito em casa de dom Juan Manuel. Apresentar-se assim no
     estudo do governador, mediar pela Ou'Gorman, lhe jogar em cara a
     Rosas que ele no tinha autoridade moral para julgar a Camila... Deus
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     Santo! Sentiu frio ao recordar o que sua esposa acabava de fazer.
     Entretanto, devia aceit-lo, sentia-se orgulhoso dela; era a mulher mais
     valente que tinha conhecido. Finalmente, de Silva decidiu deixar a
     reprimenda para outro momento.
          Sem bem Fiona j se acalmou, continuava apoiada sobre o peito de
     seu marido, entre seus braos. No queria que Juan Cruz deixasse de
     abra-la; assim se sentia segura e tranqila, sensaes que fazia dias
     no experimentava, desde que os soldados tomassem prisioneiros a
     Camila e ao Ladislao.
          Fiona suspirou, e de Silva lhe beijou o cocuruto. Nesse momento,
     enquanto escutava os batimentos do corao do corao do Juan Cruz, e
     sentia suas fortes mos ao redor de sua cintura lhe pareceu que tudo
     estava bem.

           De Silva deixou acontecer uns dias antes de voltar para o Palermo
     para falar com Rosas e lhe pedir desculpas. Embora sabia que Fiona
     tinha razo, tambm era consciente de que seu gnio impulsivo a tinha
     levado a obrar da pior maneira. Sentia que devia recompor as coisas.
     Conhecia muito bem ao Restaurador para as deixar liberadas ao azar. E
     apesar de que Camila e Gutirrez seguiam com vida, por nada do
     mundo mencionaria o assunto.
           --Crucito! --exclamou Rosas ao v-lo transpassar a porta de seu
     estudo.
           --Viva a Santa Federao! --proclamou Juan Cruz olhando aos
     ajudantes, que lhe responderam o mesmo, ao unssono.
           --Dom Juan Manuel --lhe estendeu a mo--. Preciso falar com
     voc, em privado.
           --Reis! Despacha aos escrives; que continuem com o trabalho na
     outra sala.
           --Sim, senhor --sussurrou o homem, ao tempo que fazia um gesto
     aos jovencitos sentados em torno do escritrio.
           Rapidamente, todos deixaram a habitao. Rosas se aproximou do
     canap onde dormia o Pai Vigu e o propin um chute nas asentaderas.
           --Fora daqui, co pulgoso! --gritou.
           O idiota saiu despedido da poltrona.
           --Vamos! Fora daqui hei dito!
           Quando ficaram sozinhos, o governador o convidou a falar.
           --Agora sim, Crucito, me diga o que te traz por aqui.
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            --Em nome de minha esposa, donjun Manuel, vim a lhe pedir
     desculpas pela cena do outro dia.
            Rosas o olhou fixamente uns instantes. Juan Cruz lhe sustentou o
     olhar. O ditador baixou o rosto e comeou a caminhar pela habitao.
            --E, por que no veio ela mesma?
            --Est indisposta; mas me pediu que venha pessoalmente a lhe
     entregar esta carta e a lhe rogar seu perdo. Sabe que se comportou
     como uma caprichosa e uma mal educada.
            De Silva tirou de seu levita um sobre lacrado e o entregou a Rosas.
            Tinha resultado impossvel arrastar a Fiona a casa do governador.
     ps-se como louca quando Juan Cruz lhe ordenou que o fizesse, e por
     mais que a ameaou de mil maneiras, no conseguiu nada. To somente
     lhe arrancou umas palavras escritas, lacnicas e falsas, nas que lhe pedia
     perdo.
            --Est bem --disse Rosas, depois de ler em silncio o bilhete--.
     Mas me deixe te dizer, Juan Cruz, que tem uma mulher muito perigosa a
     seu lado. Uma mulher que pode te levar a perdio se no a controlar. 
     mais: se no lhe ensinar a comportar-se, conseguir te arruinar. parece-
     se com a Ou'Gorman. com todas essas estupidezes romnticas. --Rosas,
     muito srio, no lhe tirava os olhos de cima a da Silvia--. No s  uma
     malcriada. Alm disso, est cheia das idias unitrias do av.
            --Idias unitrias? De que fala, dom Juan Manuel? No, Fiona 
     fiel  causa federal. Voc acredita que me teria casado com ela se tivesse
     duvidado por um instante de sua lealdade  causa? No, minha esposa 
     to federal como eu. Reconheo que  uma jovem dscola e impulsiva e,
     em ocasies, no sente o que diz; mas da a ser unitria... No, donjun
     Manuel, o juro. O que acontece  que Fiona adora a Camila. So como
     irms, criaram-se juntas, voc sabe; e tudo isto a tem muito mal. Mas
     nada mais que isso. Nada mais...
            Rosas percebeu que seu protegido sentia medo. Tanto amava a essa
     jovencita que era capaz de urdir essa mentira para lhe fazer acreditar
     que ela estava arrependida e brigava por seu perdo?
              --Sei que seu av  leitor assduo dos jornais do Montevideo e
     Santiago. Tem algum contato no exterior e assim os consegue. Sua
     famlia jamais participa das reunies federais; em troca, sempre ancoram
     de amigos com todos os que tenho pontuados de asquerosos unitrios.
     Minha cunhada diz que levam as divisas federais mais pequenas de toda
     a Confederao, que ter que revis-los com lupa para tirar o chapu as
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          Embora no o mencionou, Rosas tinha muito fresca em sua
     memria a rebelio do quarenta. No podia esquecer que Malone tinha
     ajudado a muitos unitrios a cruzar ao Montevideo ou a chegar ao Chile;
     um espinho cravado no flanco que desde fazia muitos anos o
     governador desejava arrancar.
          --Ento, Crucito, o que posso pensar de todo isso? Depois, sua neta
     irrompe em meu escritrio e me insulta e me ofende como ningum
     jamais se atreveu a faz-lo.  muito, no crie? --Tomou pelos ombros ao
     Juan Cruz e os apertou at lhe fazer doer os ossos--. Entende que por
     muito menos a teria mandado fuzilar. Mas est voc no meio e por isso
     no farei nada.
          A afirmao de Rosas soou a mentira nos ouvidos de Silva.




                                       Captulo 14
           Tinha passado mais de um ms da morte da Camila, e Fiona no
     conseguia sobrepor-se  dor e  tristeza do que para ela no tinha sido
     outra coisa que um crime. Calada e taciturna, resultava difcil lhe
     arrancar um sorriso.
           De Silva no podia tirar-se da cabea essa manh de 18 de agosto
     de 1848. Elseo tinha sido enviado a Santos Lugares para trazer notcias e
     quando chegou com o anncio de que Camila e seu curita tinham sido
     fuzilados, Fiona comeou a tremer. No chorava, to somente tremia. De
     Silva a abraava muito forte, mas o corpo da Fiona continuava
     estremecendo-se.
           Com dificuldade, fizeram-lhe beber um pouco de ludano. Uma
     hora mais tarde descansava em cama, com um sonho intranqilo,
     desassossego, murmurando incongruncias.
           "Meu deus, no permita que lhe acontea o mesmo!", suplicava seu
     marido. Juan Cruz no podia deixar de pensar na Catusha.
           Fiona jamais chorou. depois daquele dia, abismou-se em um
     comprido e profundo silncio. Juan Cruz teria preferido que gritasse e
     esperneasse, que o culpasse a ele dessa desgrada se era necessrio. Seu
     desejo no se cumpriu.
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           Estava abatido; no suportava ver a Fiona naquele estado. Chegou
     a odiar a Camila; estava ciumento dela. No podia deixar de perguntar-
     se se Fiona seria capaz de sofrer por ele tanto como pela Ou'Gorman. E a
     idia de que ele no era motivo suficiente para que Fiona recuperasse a
     alegria de viver o machucava como nada.

           Catusha visitava a casa grande quase todos os dias. Era uma
     excelente companhia para a Fiona; estava acostumado a lhe falar de
     tonteras e, por momentos, a fazia esquecer sua pena. Alm disso, liam
     juntas e, s vezes, at tocavam o piano.
           Uma das tantas manhs em que Fiona, sem nimos para sair da
     cama, tinha pedido que lhe levassem o caf da manh a seu dormitrio,
     Catusha se apareceu por ali com a bandeja do ch. Ao princpio, Fiona se
     sentiu incmoda; no era esse o lugar nem eram essas as circunstncias
     em que estavam acostumados a encontrar-se. Entretanto, a naturalidade
     com que Catusha aproximou uma cadeira ao bordo da cama e se sentou
     frente a ela, com as mos cruzadas sobre o regao, fez que logo seu mal-
     estar se dissipasse.
           --Ningum melhor que eu pode te compreender neste momento --
     disse Catusha com simplicidade.
           Era a primeira vez, da morte da Camila, que lhe falava nesse tom.
     At esse dia tinha atuado como se no estivesse inteirada da tragdia.
     Fiona a olhou espectador.
           --Eu conheo tanto sua dor, querida, tanto... --continuou a
     mulher--.  como se lhe tivessem parecido uma adaga aqui, no corao,
     e o revolvessem dentro, uma e outra vez. Di tanto... Tanto que sente
     que enlouquecer do sofrimento. Talvez por isso no estou do todo
     corda... --Sorriu, com amargura--. Quando fuzilaram a meu Manuel,
     eu... --Por um momento, a voz da Catusha se quebrou, mas no
     demorou para sobrepor-se--. Eu sei, Fiona, por que meu filho me odeia.
     Ele pensa que eu enlouqueci quando fiquei grvida dele. No... Eu
     estava feliz levando-o em meu ventre. Era to feliz... Pobre meu anjinho!
     Quanto o tenho feito sofrer! Filhinha. no cometa o mesmo engano que
     eu. No perca o melhor de sua vida por algum que j nunca mais estar
     a seu lado. No o faa, Fiona. Deve te repor e voltar a ser a mesma jovem
     cheia de vitalidade que sempre foste. Faz-o por ele, no lhe faa mais
     danifico do que eu lhe fiz. Suplico-lhe isso.
           --Mame!
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          As mulheres se sobressaltaram. A figura imponente de Silva na
     porta as sobressaltou.
          --Vamos, mame; Fiona deve descansar --disse Juan Cruz, com
     autntica preocupao.
          Catusha e Fiona cruzaram um olhar cmplice.



          Desde aquele dia em que Catusha se mostrasse to sensata, Fiona
     comeou a sentir-se melhor e, pouco a pouco, recuperou suas vontades
     de viver. Voltou para seus passeios pela estadia, a visitar as casas dos
     pees, a encharcar os ps na fonte dos vasos de barro. Enfim, sentia-se
     outra vez ela mesma.
          Uns desses dias, justamente, sentiu de repente que algo novo,
     desconhecido, estava ocorrendo em seu corpo. Nunca soube como se
     deu conta. Sentiu-o, assim, de repente: estava grvida. E, embora estava
     segura de que no se equivocava, decidiu esperar uns dias antes de
     dizer-lhe ao Juan Cruz. No seriam muitos de todos os modos: o atraso
     de sua regra lhe daria a confirmao antes de uma semana.

          A manh que teve a certeza definitiva de seu embarao se arrumou
     com um delicado vestido de seda rosa plido que antes no tinha
     querida usar, segasse de que no combinava com seu cabelo vermelho.
     Esse dia se sentia distinta e lhe pareceu que era o melhor vestido. A bata
     de fofoqueiro, ajustada a seu corpo, era de musselina transparente da
     cor do vestido, e lhe acentuava as curvas de tosse seios e os quadris.
     deixou-se a cabeleira solta, murcha, sem lhe importar que no se usasse
     assim. Desarmou uma hortnsia e colocou) seus florecillas
     desordenadamente entre os cabelos. Coloriu um pouco mais seus mas
     do rosto e se remarcou os lbios.
          --Elseo, viu a de Silva esta manh?
          Temia que se partiu  cidade. Ultimamente, viajava muito
     freqentemente e de improviso.
          --Sim, menina. Est no celeiro menino, com uns pees --
     respondeu Elseo,
          O celeiro menino estava bastante afastado da manso, pelo
     caminho da alameda. Fiona se deteve uns instantes ao comeo do
     percurso. A espessa bruma matinal parecia dissipar-se entre as taas dos
     lamos. Inspirou profundamente a brisa fresca, cheia de aroma de
     campo, e se sentiu muito bem.
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          Deixou atrs a arvoredo e comeou a aproximar-se da zona de mais
     movimento da estadia. A de Silva no gostava que freqentasse esse
     lugar, de modo que ela virtualmente no ia nunca. Ali estavam as
     potreros onde juntavam o rodeio de vacas, os celeiros onde
     armazenavam a alfafa, os abrevaderos, os currais com as ovelhas. No
     entendia por que Juan Cruz lhe proibia aproximar-se desse stio.
          Os pees, assombrados, viam-na como uma apario. Alguns, mais
     atrevidos, no lhe tiravam a vista do decote. aproximou-se de um gaipo
     de homens empenhados em uma tarefa.
          --Sane Nietl --chamou a jovem.
          Os homens intemimpieron o trabalho e a olharam, intrigados. O
     ndio Sane se separou do resto, e se encaminhou para a Fiona. Ao chegar
     perto da patr, tirou-se o chapu de palha e comeou a retorc-lo entre
     as mos.
          --Senhora de Silva! O que gosto, patr!
          --Como anda essa perna? --perguntou Fiona, lhe assinalando o
     lugar l a ferida.
          --E como quer que ande se tive a melhor das doutoras?
          Ambos riram ao unisono. Depois, a jovem lhe perguntou por sua
     famlia. O ndio se mostrou preocupado: dias atrs, sua filha Ayeln se
     escapou com um moo e ainda no conheciam seu paradeiro. Fiona
     perguntou se podia fazer algo por ele; Sane respondeu que no.
          --Procura o patro, senhora?
          Fiona assentiu.
          --Est no abrigo. A, olhe... --Assinalou-lhe um celeiro a uns
     metros.
          Fiona se despediu do ndio e se encaminhou aonde lhe tinha
     indicado. apareceu ao porto do abrigo, quase com medo. Ficou atnita.
     Juan Cruz estava com o torso nu, levava postos umas calas brancas que
     chegavam aos joelhos, e tinha o cabelo tomado em um acrscimo 
     altura da nuca. Lutava com um bezerro que parecia ter a fora de dez
     homines. Os msculos l seus braos e suas pantorrilhas se esticavam
     sensualmente  medida que a tarefa ficava mais dura. A transpirao
     empapava seu corpo, lhe fazendo brilhar a pele. Finalmente, dobrou-o.
     O animal tinha ficado apanhado entre as mos de Silva, que lhe
     pressionava se cangote com um de seus joelhos e, desse modo, lhe
     impedia de mover a cabea.
          --Fica aquieto! --gritou de Silva--. Zoilo, me passe o linimento! --
     ordenou a um dos pees.
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           Fiona pde ver uma srie de feridas repugnantes no lombo do
     bezerro. De Silva afundou a mo dentro do balde que continha a mistura
     e lubrificou as leses com cuidado.
           --Um minuto mais, fica aquieto s um momento mais --
     murmurava Juan Cruz.
           Nem de Silva nem os trs pees que o rodeavam tinham reparado
     nela, mdio oculta depois do porto. Estava hipnotizada pela cena: no
     podia deixar de olhar. Nunca o tinha visto trabalhar. Parecia outra
     pessoa, com esse traje rstico, as mos meladas com o linimento e o
     rosto encarnado. A Fiona resultou irresistvel.
           -- Juan Cruz... --chamou com suavidade.
           Os trs pees e de Silva se deram volta a! mesmo tempo,
     sobressaltados. Em outras circunstncias, de Silva se teria surpreso de
     v-la aparecer por ali. Agora, quase no tinha tido tempo de pensar
     nisso. S podia pensar em que aquela era a primeira vez que a voz
     ertica e envolvente da Fiona o tinha chamado por seu nome.
           Os ajudantes se deram conta de que estavam de mais e
     abandonaram sigilosamente o celeiro. J sozinhos, Fiona avanou uns
     passos para seu marido, que ainda emudecido pelo que acabava de
     escutar, limpava-se as mos com estopa.
           --vamos ter um beb --anunciou Fiona.
           De Silva arqueou as sobrancelhas. A estopa lhe escorregou das
     mos. No podia mover-se, estava como parecido ao cho. Tinha-o
     desejado tanto... J comeava a temer que no pudessem ter meninos, e
     ele desejava ver a casa cheia de meninos.
           --Fiona... --Foi tudo o que pde dizer.
           aproximou-se dela e a contemplou longamente. "Em seu estado,
     deveria deix-la tranqila", pensou. Mas no pde. Tomou por assalto,
     como estava acostumado a fazer. Ela sentiu que uma das mos dele se
     aferrava  parte mais fina de sua cintura, em tanto a outra percorria
     amorosamente seu decote.
           Depois, enquanto a sustentava com um brao, estirou o outro tudo
     o que pde para fechar a porta do celeiro. Uma vez que teve jogado o
     ferrolho, apoiou-a contra a parede de madeira e a beijou febrilmente.
     Sentia que as mos l Fiona percorriam suas costas nua, e escutava os
     suspiros entrecortados e os pequenos gemidos que escapavam de sua
     boca entreabierta.
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           Encarapitou-a em seus braos, levou-a at um monto de feno
     sobre o qual se desdobrava uma manta, e a depositou delicadamente
     nela.
           De ali, Fiona pde ver como Juan Cruz se tirava as calas, como se
     deixava cair lentamente sobre ela at ficar com os joelhos cravados na
     manta, aos flancos de seu corpo, pde sentir como a despojava com
     destreza do vestido e a bata de fofoqueiro, e, por fim, como seus seios,
     com os mamilos endurecidos pela excitao, revelavam-se ante ele.
           --Fiona... Fiona... --sussurrou enquanto lambia sua pele e seus
     peitos com avidez.
           Fiona desejava senti-lo dentro de si, desejava v-lo balanar-se
     sobre ela enlouquecido de desejo. Nesses momentos de Silva era
     completamente dele.
           --O que faz de mim? --perguntou l.con voz rouca-- . Tem a seus
     ps como vencido em uma batalha... Poderia fazer de mim o que
     quisesse. Em troca, faz-me o homem mais feliz do mundo --seguiu
     murmurando, sem separar os lbios de seu pescoo.
           --Amo-te... amo-te... --murmurou Fiona.
           Por um momento, o delrio do Juan Cruz se interrompeu ao escut-
     la. Ento, sorriu de sorte.
           --Eu tambm te amo, meu amor. Amo-te sempre, do primeiro
     momento que te vi... To formosa, to sensual...
           Levou os lbios ao rosto da Fiona e a beijou em todas partes.
           Pela primeira vez, Fiona tinha sido completamente livre com ele,
     tinha deixado escapar os sentimentos que fazia tempo a confundiam.
     sentiam-se plenas fazendo o amor ali, em meio de um celeiro. De Silva,
     sujo e transpirado; ela, nua sobre uma manta spera.
           Juan Cruz descarregou sua virilidade dentro da Fiona; depois,
     escutou-a gemer e ofegar quando o orgasmo encheu seu corpo de
     prazer.




                                       Captulo 15
           Como de Silva devia percorrer as estadias do sul da provncia,
     Fiona disps acontecer uns dias em casa de seus avs. Ao Juan Cruz, a
     idia de deix-la por umas semanas no o convencia. Mas devia cumprir
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     com o que Rosas lhe tinha pedido; os ltimos malones tinham destrudo
     vrias construes e roubada centenas de vacas; sua presena era
     imperiosa: ele era o nico que podia avaliar os danos e dispor medidas
     de vigilncia.
          Fiona estava bem; alm disso, as descomposturas matinais que a
     tinham afligido os primeiros dias j tinham desaparecido.
          Juan Cruz a via mais formosa que nunca. E no perdia ocasio de
     dizer-lhe Como quando Fiona tocava o piano, e ele, sentado
     escarranchado detrs dela, comeava a acarici-la e a beij-la no pescoo.
     Chegava um momento em que se sentia to excitada que tinha que
     deixar de tocar, e o nico que desejava era que lhe fizesse o amor ali
     mesmo.
          Fiona ria sem nenhum recato quando Maria, baixando o rosto e
     balbuciando as palavras, perguntava-lhe se de Silva...
          --... Bom... Voc sabe... No  bom nestes primeiros meses de
     preez...
          --Que no  bom? --Fiona a insistia a seguir, sabendo o que lhe
     custava  mestia.
          --Fiona, menina, voc sabe!
          Nesse momento, a jovem soltava a gargalhada.
          --E quem o detm de Silva, Maria? No pude faz-lo quando me
     horrorizava a idia de que me tocasse, menos agora que me enlouquece
     que o faa.
          --Fiona! Deus e Ave Mara Muito puro! --Maria se benzia mil
     vezes.
          Finalmente, ao dia seguinte que Juan Cruz partiu para o sul, Fiona
     viajou a Buenos Aires acompanhada pelo Eliseo e Maria. J tinha
     comeado ao sentir saudades. A noite antes de que ele se fora a
     despedida tinha sido larga e fogosa. No podia acreditar o que estava
     vivendo junto a esse homem, o homem ao que ela acreditou odiar.
     Agora se entregava a ele, em corpo e alma, e isso a fazia senti-la mulher
     mais ditosa do mundo; e no s eram seus beijos, suas palavras, suas
     mos que lhe tinham conquistado cada rinco do corpo. De Silva era tal
     e como ela tinha imaginado ao homem de seus sonhos. Inteligente,
     sagaz, s vezes frio e calculador, s vezes mau, s vezes bom. Tudo a
     enchia de desejo. Seus arrebatamentos de fria e de paixo, quando a
     tirava da cintura por surpresa, no momento menos esperado. Seus
     arrebatamentos de bondade, quando lhe acariciava a bochecha e lhe
     contava uma anedota de sua infncia. Fiona o amava. Sempre.
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           Chegou  cidade e o primeiro que fez foi visitar a Igreja do Socorro;
     desejava rezar pela Camila e o curita tucumano. No chorou, s
     recordou as palavras que Juan Cruz lhe havia dito dias atrs.
           --Camila e o padre sabiam ao que se expor quando escaparam,
     Fiona. Mas esse era seu desejo, isso era o que mais desejavam na vida:
     estar juntos. Arriscaram-no tudo e morreram lutando por algo no que
     acreditavam, e que os fazia felizes.
           Era certo, Camila tinha morrido lutando pelo que mais amava.
     Suspirou. Pensou que, certamente, no cu, Deus tinha reservado um
     lugar para eles. fez o sinal da cruz se e saiu  rua. sentia-se mais aliviada.
     Era hora de ir a casa de seu av.
           No do Malone a esperavam ansiosos. Dias antes, Eliseo tinha
     levado a boa nova e, desde esse momento, o av Sejam e outros no
     tinham podido com sua ansiedade.
           --vai se chamar Sejam --sentenciava, muito seriamente, o futuro
     bisav.
           --te cale, irlands vaidoso! --repreendia-o sua esposa--. Nem
     sequer sabe se ser varo.
           -- obvio que o ser! --afirmava ele, desafiante.
           Foi uma bem-vinda muito emotiva. Aunt Ana e Brigid
     choramingavam; Imelda, que j se casou com a Senillosa, abraou-a
     sinceramente; e Sejam... Sejam no pde falar, s se limitou a estreit-la
     entre seus braos. Seguia sendo to mida como quando menina e
     parecia que lhe perdia no peito.
           Todo aquilo era estranho. Em geral, as famlias ocultavam a
     chegada dos meninos. As mulheres grvidas dissimulavam o ventre
     com roupas apropriadas e, nos ltimos meses, nem apareciam  porta.
     Mas no do Malone, no. Eles estavam felizes com o embarao da Fiona e
     lhes importavam um cominho os costumes da sociedade.
           Embora passou uns dias magnficos em casa da Grandpa, no
     havia momento em que no rememorasse ao Juan Cruz. s vezes,
     angustiava-se pensando nos perigos que o espreitariam perto da ltima
     fronteira. Quo nico a consolava era a certeza de que seu marido era
     um homem hbil e conhecia a zona como o melhor dos baquianos.
           Durante sua estadia em Buenos Aires, ela e Maria se
     aprovisionaram de todo o necessrio para preparar o enxoval com que o
     pequeno de Silva se encontraria ao chegar a este mundo: l, tecidos,
     agulhas, fios de cores, puntillas e encaixes. Passavam tardes inteiras
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     confeccionando as ropitas do beb, costurando os lenis para o bero,
     fazendo os fraldas, cortando o tul do Moiss.



                                             ***

          --Adiante --disse Fiona de dentro.
          --Menina Fiona?
          --Sim, Coquita, aqui estou.
          --H uma senhorita que a busca.
          --A meu? -- perguntou surpreendida--. A esta hora? Era a sesta e,
     como fazia um calor intenso, a famlia inteira dormia.
          --No me lembro o nome, menina.  mais difcil que fazer
     gargarejos de barriga para baixo.  algo assim como... --Pensou um
     momento--. No sei, no me lembro --disse, por fim.
          --Est bem, Coquita, j vou.
          Ao entrar na sala principal, encontrou-se com uma senhora de
     mdia idade, belamente embelezada, de figura atrativa. Seu rosto, um
     pouco envelhecido, conservava no obstante sua beleza.
          --Boa tarde --saudou Fiona.
          A mulher se apressou a levantar do canap. aproximou-se
     lentamente, com um andar sensual e estudado. olharam-se direto aos
     olhos.
          --Boa tarde, senhora de Silva --respondeu a mulher--. Meu nome
      Clo Despontin.



                                             ***



           Clo Despontin estava nua, tendida na cama. Olhava sem muito
     entusiasmo ao homem que, a uns poucos passos, tinha comeado a
     vestir-se. Um jovem cheio de brios, pensou. Tinha que reconhec-lo, no
     a tinha passado to mal com ele, mas, ter saboreado o melhor em outra
     poca a tinha convertido em uma mulher muito exigente.
           O jovem se grampeou as calas e comeou a fic-la camisa. Por um
     momento, contemplou-a em silncio. Fazia um tempo que eram amantes
     e nunca podia ser tenro com ela depois de lhe fazer o amor. Ora!, o
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     amor. O amor, disse-se, s o teria feito com a Fiona, no com ela, uma
     velha prostituta vinda a menos.
           --Amanh, a Malone estar em casa de seu av --comentou o
     homem, enquanto se calava um dos sapatos.
           A mulher no pareceu alterar-se.
           --O imbecil de Silva est no sul, trabalhando nas estadias de Rosas.
      o momento indicado para que o faa. Escuta-me?
           --Sim --respondeu a mulher, cortante.
           --Tem claro tudo ou lhe devo repetir isso
           --No.
           --No o que?
           --No faz falta que o repita --esclareceu ela, sem lhe importar a
     repentina irritao de seu amante.
           O homem se aproximou do espelho do penteadeira e se passou um
     pente pelo cabelo. Depois, olhou-se de perto os olhos: tinha-os cheios de
     derrames; melhor seria dormir um pouco. Ultimamente, no conseguia
     conciliar o sonho nem meia hora seguida. Este tema o mantinha em velo,
     algumas peas no conseguiam encaixar. De todos os modos, j era
     muito tarde para tornar-se atrs, havia muito em jogo. Recolheu o saco,
     ainda atirado no cho, e se disps a sair.
           --Estar acostumado a! --chamou-o a mulher. Tinha abandonado o
     leito e se aproximava dele--. No vais despedir te?
           --No faz falta que finja comigo, Clo --A olhou com certa
     compaixo--. Te deixei o sobre com o dinheiro no mvel da sala. Faz-o
     amanh, na hora da sesta, quando todos dormem. --Fechou a porta e
     partiu.
           J na rua, Mateo, o chofer do Clo, alcanou-lhe o cavalo. Estar
     acostumado a galopou depressa at sua casa, perto da Praa da Vitria.
     Entrou como louco, chamando gritos a seu servente.
           O homem se aperson tremendo. Conhecia os momentos de
     transtorno de seu amo e lhe temia.
           Estar acostumado a lhe ordenou preparar um ba com roupa para
     dez dias. Iriam ao campo. Tinha decidido desaparecer de Buenos Aires
     at que o plano se levou a cabo.
           Quando entrou em seu dormitrio, o servente j preparava as
     mudas. Estar acostumado a se encaminhou ao roupeiro disposto a
     encarregar do resto. Entre as coisas da gaveta, tomou um leno de
     encaixe branco. Era da Fiona. O tinha escamoteado em uma reunio
     tempo atrs, enquanto danavam a valsa. Recordou com um sorriso o
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     desconcerto da jovem enquanto o buscava por toda parte. Ele mesmo
     tinha ajudado na busca.
           O levou ao nariz e o cheirou. A pesar do tempo, ainda conservava
     esse perfume to caracterstico dela. Fechou os olhos, recordando-a. A
     mais formosa das fmeas, pensou; nenhuma lhe comparava. Sentiu uma
     ereo e o desejo acendeu ainda mais seu ressentimento. Tambm
     recordou como a Malone o tinha rechaado, sempre. Ele sabia que ela
     no o suportava. Mas, por que?
           Menos agradvel Foi pensar no maldito de Silva. "Bastardo, filho
     de puta!", disse entre dentes, espremendo o pauelito no punho. Com
     sua figura lhe avassalem e seus milhares de reais, tinha-a comprado
     como a um objeto. Estar acostumado a se sentiu um imbecil; no tinha
     feito nada enquanto o bastardo a arrebatava das mos. De todas formas,
     devia admiti-lo, ele no teria podido com o toldo de dvidas dos Malone,
     no era o suficientemente rico.
           Cheio de fria e impotncia, separou-se da passada uma banqueta
     de um chute. O servente se sobressaltou e abandonou depressa a
     habitao. Agora seu patro precisava estar sozinho: voltaria mais tarde.
           Estar acostumado a deixou o leno sobre seu travesseiro e se
     sentou na cama. tomou a cara entre as mos e sentiu desejos de chorar.
     No o fez, estava muito encolerizado para poder chorar.
           Recordou o dia no to longnquo em que Rosas o tinha mandado
     chamar e ele se apresentou imediatamente no Palermo. A proposta lhe
     soou desenquadrada em um princpio.  obvio, Estar acostumado a
     sabia do ressentimento do governador para o velho Malone. A Espiga de
     milho o tinha seguido de perto nos anos da anarquia, conheciam seu
     esprito unitrio e a ajuda que tinha emprestado aos exilados. Mas nunca
     puderam apanh-lo em nada estranho, sempre lhes escapava. Era uma
     presa escorregadia, um homem muito hbil.
           Sim, Estar acostumado a sabia bem do dio que Rosas sentia pelos
     Malone. Apesar de sua reticncia inicial, teve que reconhecer que, se as
     coisas se faziam como as tinha planejado o governador, lhe atiraria ao
     velho irlands um golpe do que dificilmente poderia repor-se.
           --Salomn  histria --lhe havia dito Rosas para que picasse o
     anzol--. Se fizer bem esta misso que te encomendo, Estar acostumado
     a, a presidncia da Espiga de milho  tua.
           Lhe fez gua a boca. Ele, Palmiro Estar acostumado a, convertido
     de boas a primeiras no scio popular mais respeitado, o presidente da
     Espiga de milho. A Fiona j a tinha perdido. Alm disso, no podia lhe
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     perdoar os contnuos desprezos. No a queria agora, toda manuseada
     por outro, um bastardo arrivista. Ento, por que no? Rosas lhe sugeriu
     o nome do Clo. Estar acostumado a e ela j eram amantes. Sabia que a
     mulher o ajudaria gostosa. Sentia tanto dio e raiva por de Silva como
     ele. Sim, de um princpio soube que contaria com o Clo.
           --Se no ser minha, Fiona Malone no ser de ningum! --
     exclamou o mazorquero, atirando ao cho o leno de encaixe.



                                             ***



           Recm naquele momento, Fiona caiu na conta de que a mulher
     tinha nas mos um pacote, no muito grande, envolto em papel de seda.
           --Tome assento, por favor, senhorita Despontin.
           Em um momento, entrou Coquita, com uma bandeja. Trazia
     limonada e algo para comer.
           --Que agradvel! --comentou Clo ao sorver a bebida--. Est
     fazendo tanto calor que no h com o que combat-lo.
           Havia certa cadncia singular em sua voz. Por certo, no era
     portenha, pensou Fiona.
           --Sinto incomod-la, senhora de Silva, mas me falaram tanto de
     voc amigos em comum que no pude evitar a curiosidade e quis
     conhec-la.
           -- voc muito amvel, mas, que amigos temos em comum? --
     Fiona a olhava intrigada. Era a primeira vez que essa mulher e ela se
     encontravam. Que amizades podiam compartilhar? Jamais a tinha visto
     em nenhuma das reunies, nem na Alameda, nem no da Manuelita
     Rosas.
           --Estar acostumado a, por exemplo. Palmiro Estar acostumado a.
     Esse  um amigo em comum que temos.
           Clo advertiu que Fiona se acomodava nervosamente na poltrona.
           Desde aquela vez em que Estar acostumado a lhe roou a mo com
     a lngua, no havia tornado a cruzar-lhe Viu-o em uma que outra
     reunio, mas o homem parecia no conhec-la; no a saudava, no a
     convidava para o minu, nem sequer a olhava. "Melhor assim", tinha
     pensado Fiona. No desejava que seu marido e Estar acostumado a
     tivessem uma briga por sua culpa. depois de tudo, Estar acostumado a
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     era um conhecido mazorquero, com bastante poder dentro da Sociedade
     Popular.
           --Ah, sim, o senhor Estar acostumado a! Conheo-o.
           --Ele a tem em grande estima, senhora de Silva.
           --Bom... --murmurou a jovem. Comeava a inquietar-se pelo giro
     inesperado que tomava a conversao. Decidiu passar  ofensiva--. me
     Diga, senhorita Despontin, voc vive aqui, em Buenos Aires? Jamais a
     tinha visto antes.
           --Sim, vivo aqui faz anos. O que acontece  que minha casa est
     algo retirada, perto dos barracos, na boca do Riacho, e venho pouco 
     cidade. Sou, quase, uma ermit --disse, com um sorriso zombador.
           --Ah... E, vive sozinha? me perdoe, no quero lhe parecer
     entremetida --se desculpou Fiona rapidamente.
           --No, senhora de Silva, no se preocupe. Sim, vivo s com meus
     criados, Paolina e Mateo.
           "Paolina?" Onde tinha escutado esse nome? Pergunta-a ficou sem
     resposta.
           --Desculpe, senhorita Despontin, no quero parecer mal educada.
     Mas, sinceramente, no compreendo o motivo de sua visita.
           --Sim, tem voc razo. Desculpe-me. No quero lhe tirar um
     minuto mais de seu tempo. Em realidade, vim hoje at aqui para lhe
     devolver isto.
           E, estendendo os braos, entregou-lhe o pacote.
           --me devolver? A mim?--perguntou-lhe Fiona, enquanto recebia o
     pacote.
           desfez-se do papel de seda e, ao princpio, no o reconheceu. Tinha
     passado tanto tempo que o tinha esquecido. Era o vestido da festa em
     casa de misia Mercedes, que tinha usado a noite em que conheceu de
     Silva, a mesma noite em que seu pai lhe disse que se casaria com ele, a
     noite que...
           --Como chegou isto a suas mos? --Fixou seu olhar na do Clo.
     Tinha uma feia sensao na boca do estmago.
           --Juan Cruz o deixou em minha casa, logo depois de lev-la a voc
     ali, faz mais de um ano. A Paolina custou muito voltar a p-lo em
     condies. Estava virtualmente arruinado pelo barro e, sinceramente, 
     uma p...
           --Juan Cruz? Juan Cruz de Silva? --Fiona ficou de p, com o
     vestido entre as mos.
           --Sim, Juan Cruz, seu marido.
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           Quem era esta mulher que chamava com tanta confiana "Juan
     Cruz" a seu marido?
           --Conhece-o? --perguntou Fiona, decididamente perturbada.
           --Que se o conheo? me valha Deus, faz muitos anos que o
     conheo! --Fez uma pausa--. Ele e eu somos amantes, senhora de Silva.
           Fiona sentiu que o cho se movia sob seus ps. Empalideceu
     mortalmente e comeou a tremer. O vestido lhe escorregou das mos.
     depois de uns segundos, deu-se conta de que tinha estado contendo a
     respirao. Soltou um gemido, e se derrubou na cadeira.
           Clo a observava. ps-se de p e a olhava de acima, triunfal. "A
     tem, sente o mesmo que eu, maldita estirada." agachou-se para recolher
     o vestido.
           --Deixe-o! No se atreva a toc-lo! E fora de minha casa, maldita
     mentirosa! Fora daqui!
           Fiona voltou a erguer-se. Com um enorme esforo, sobreps-se ao
     enjo que ameaava fazendo-a perder o equilbrio. Desejava lhe arrancar
     os cabelos, mord-la, lhe fazer danifico, o mesmo dano que ela acabava
     de lhe fazer. "No, Meu deus, no pode ser verdade!", disse-se,
     desesperada-se. Mas as circunstncias se confabulavam de tal maneira
     que s podia pensar que era certo. Cada vez que de Silva viajava 
     cidade, e eram muitas, ela insistia em acompanh-lo e ele se negava.
     Sempre se negava. "No, no, Deus Santo!"
           --Eu no sou uma mentirosa, senhora de Silva. Juan Cruz e eu
     fomos amantes por muito tempo e  justo que voc saiba.
           Clo fez uma pausa e observou atentamente a seu rival, olhos da
     Fiona lanavam chamas de dio, tinha os punhos fechados aos flancos
     do corpo e os lbios, apertados, tremiam-lhe de fria contida.
           -- excelente na cama, verdade? Ah, querida! Asseguro-lhe que  o
     melhor --Clo comeou a rir em forma afetada--. A voc tambm
     converte em farrapos o vestido antes de penetr-la? Ou, possivelmente,
     sinta-a nua em seus joelhos e lhe faz o amor a mesmo, sobre a cadeira,
     como a mim... Deus! Nosso homem  um semental!
           Fiona comeou a chorar. Aquilo era humilhante, no podia
     suport-lo mais. Sem esperar que a mulher partisse, saiu correndo  rua.
           Clo permaneceu de p frente  porta, olhando para fora,
     desconcertada. Parecia congelada, no lhe movia um cabelo, no
     pestanejava. No era assim como deviam desenvolv-las coisas; no o
     tinham planejado dessa forma. Estar acostumado a lhe havia dito que a
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     Malone era muito impulsiva e que reagiria lanando-se o em cima como
     uma gata raivosa. Esse seria o momento preciso para que ela...
         A mulher baixou o olhar e a fixou por umas segundas na adaga
     que tinha mantido escondo entre as dobras de seu vestido. Depois,
     abandonou o lugar.



                                             ***



           --Algum viu a Fiona? --perguntou Sejam Malone aparecendo
     pela porta da cozinha. Maria levantou a vista, repentinamente alarmada.
           --A ltima vez que a vi estava em sua habitao, patro --
     respondeu a mestia.
           --No, dali venho e no est. No sabe se tinha pensado sair esta
     tarde?
           --No, patro. Justamente, hoje tnhamos decidido no sair a
     nenhuma parte. Pelo calor...
           O grupo de faxineiras viu partir a Sejam Malone com o rosto cheio
     de preocupao.
           Um momento depois, Coquita, que parecia muito concentrada em
     sua tarefa de cortar ervilhas, interrompeu o que estava fazendo, ficou de
     p, caminhou decididamente para onde estava Maria e se plantou frente
     a ela. A criada se ficou meditabunda, pensando onde poderia estar
     Fiona, e quase no emprestou ateno ao desdobramento da Coquita.
           --Eu sei o que aconteceu com a menina. Eu escutei tudo.
           Fiona tinha sado correndo, j era de noite e ainda no retornava.
     sentiu-se comprometida a contar toda a verdade a Maria.
           --O que diz, Coquita?--perguntou Maria, alarmada.
           Todas a olharam, sobressaltadas.
           --Que eu sei o que lhe aconteceu  menina Fiona.
           --Como que voc sabe o que aconteceu a Fiona? Vamos! Fala de
     uma vez! --Maria ficou de p, e apoiou as mos sobre a mesa, quase
     ameaador.
           --Hoje,  sesta, veio uma mulher muito estranha a ver a menina.
     chamava-se Revesti, Tole ou algo assim. No posso me lembrar.
           --Como era?
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           --Era mais ou menos de cinqenta anos, bastante linda e bem
     vestida. Tinha um traje assim, cheio de puntilla e encaixe, como os da
     menina Imelda. Nunca antes a tinha visto. Alm disso, falava estranho.
           --Estranho, como?
           --No sei, Maria, como se fora fanhosa ou estivesse resfriada.
           --Vamos, Coquita, no te detenha. me diga que mais sabe.
           --Foi terrvel, Maria. --Custava-lhe contar o que tinha escutado.
           --O que foi terrvel? No me tenha sobre brasas, Coquita!
           --Essa senhora lhe disse  menina Fiona que era a amante de dom
     de Silva.
           --Que era o que? meu deus! --Maria se deixou cair novamente na
     cadeira.
           --A menina Fiona comeou a chorar como uma Madalena e saiu
     correndo  rua. Far mais ou menos trs horas disso.
           --Mas, como no me contou isso nesse momento, zopenca? Agora,
     v ou seja o que foi que a Fiona. --A Maria lhe fez um n na garganta.
           --Eu pensei que ela retornaria sozinha, uma vez que a raiva lhe
     tivesse passado. No queria que dona Brigid voltasse a me arreganhar
     por estar espiando nos...
           Maria j no a escutava. incorporou-se de um salto e correu  sala
     para contar-lhe ao patro.



                                             ***



           depois de escutar a Maria, Sejam Malone tratou de ordenar os fatos
     em sua mente. Eram mais das dez da noite e Fiona no tinha retornado
     ainda. Finalmente, decidiu que Elseo e ele sairiam a procur-la pelos
     arredores.
           Ao retornar, o velho irlands e o servente tinham o rosto
     desencaixado pela angstia. Nem um espiono da Fiona. Percorreram
     vrias quadras ao redor e mais  frente tambm. Foram a casa de misia
     Mercedes, pensando que ela poderia haver-se refugiado ali.
     Perguntaram no de Ou'Gorman, mas no a tinham visto. Entraram na
     igreja do Socorro, talvez estivesse ali, rezando. Mas nada. E j eram mais
     das duas da manh.
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          Ao entrar na sala, Sejam se encontrou com sua mulher, sua filha e
     as faxineiras, que rezavam o rosrio de joelhos. Vrias velas se
     consumiam ao redor de uma imagem de So Patrcio.
          --Apaguem essas velas --ordenou que Sejam de mau modo. O
     aroma era insuportvel.
          Sem fazer muito caso ao mau humor de seu marido, Brigid se
     aproximou dele com gesto suplicante.
          --J a encontrou, verdade, Sejam? J trouxe para minha menina de
     volta a casa, verdade? --perguntou a anci, embora sabia intimamente
     que no era certo.
          --No, Brigid, no a encontramos.
          A mulher se cobriu os olhos; comeou a chorar, e a balbuciar
     algumas palavras em ingls.
          Sem reparar em sua esposa, Sejam tomou pelo cotovelo ao Eliseo,
     que permanecia mudo detrs dele.
          --Algum deve lhe avisar a de Silva --disse ao servente.
          --Eu irei, patro, sei onde encontr-lo. Mas tomar vrios dias
     chegar, talvez trs ou quatro. Est perto do Tandil.
          --Est bem. Enquanto isso, eu organizarei grupos de busca e darei
     parte  polcia. O delegado Cuitio no poder me negar ajuda.
          --Sim, patro.
          --Vamos, Eliseo. Ser melhor que saia esta mesma noite.




                                      Captulo 16
          Estava sonhando ou, acaso, como temia, aquilo era realidade?
          Uma vez mais, e por culpa de Silva, abandonava a casa de seu av,
     em fuga para nenhuma parte.
          Correu. Correu at que teve que deter-se porque seu corao se
     sacudia enlouquecido. Tratou de acalmar-se; pensou que no devia
     deixar-se levar por outro de seus arrebatamentos. Tentou normalizar a
     respirao, mas o que no conseguia ordenar que eram os fatos,
          O que tinha feito de Silva com ela? por que a tinha enganado
     assim? por que lhe havia dito que a amava? por que tinha a essa mulher
     por amante? Ela no era suficiente? Agora estava sempre disposta a
     agrad-lo;  mais, estava desejosa de que lhe fizesse o amor. E Juan Cruz
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     parecia desfrut-lo tanto como ela. por que, ento? Ela no necessitava a
     nenhum outro homem; a idia de um amante jamais tinha aparecido em
     sua mente, nem nos piores momentos de sua relao. por que Juan Cruz
     o tinha feito, ento?
           "Talvez seja mentira", tratou de convencer-se; mas sentiu que se
     estava enganando. Para que faria isso a tal Despontin se tudo era uma
     farsa? Alm disso, as contnuas viagens de Silva a Buenos Aires...
     Viajava quase todas as semanas, e ela nunca podia acompanh-lo.
           J era de noite. O cu, encapotado, pressagiava uma tormenta. A
     rua estava sumida na escurido. As luzes das esquinas estavam
     apagadas e no havia um solo sereno as acendendo.
           No obstante, vigiou um grupo de pessoas que partiam rumo ao
     rio. Tinha comeado a poca estival e era costume arraigado nos
     portenhos tomar banhos ao pr do sol, quando a escurido lhes servia
     de aliada para no revelar seu semidesnudez.
           Instintivamente, Fiona os seguiu de longe. No sabia o que fazer,
     onde ir. Quo nico sabia era que no desejava retornar a sua casa. Mais,
     no queria voltar a ver de Silva em sua vida. Tinha cansado sob seu
     feitio como uma mosca cai em um frasco com mel. Tinha-a seduzido
     como a uma quinceaera namoradeira. Tinha-a usado como a um trapo,
     s para conseguir posio social e respeitabilidade, enquanto ria dela, e
     do que sentia por ele. Certamente, a tal Despontin e ele ririam juntos
     depois de ter feito o amor. Sacudiu a cabea tratando de apagar essa
     imagem de sua mente.
           Sentiu uma terrvel vergonha. To disposta com ele na cama, e
     tudo no tinha sido mais que um engano... At lhe tinha confessado que
     o amava. Tambm lhe havia dito que a amava, que nunca tinha sentido
     o mesmo. Para que lhe tinha mentido assim? Tudo teria sido mais fcil
     se nenhum dos dois houvesse dito nada nesses momentos de excitao.
     Mas o tinham feito.
           Quando o grupo fez um alto vrias metros mais  frente, ela se
     deteve. Comearam a desdobrar uns lenis sobre a superfcie barrosa
     da borda. Nunca tinha compreendido o que tinha de atrativo o Prata, de
     cor escura e fundo lamacento. Mas a estava, observando a uns banhistas
     que se alistavam para jogar-se no rio. Jogar-se no rio. No era m idia.
     Talvez assim, terminaria contudo.
           --No! --exclamou em voz alta, mas ningum a escutou.
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           Jamais faria algo assim, no era o que realmente desejava. levou-se
     a mo ao ventre e o acariciou. Agora estava ele, seu filhinho. Nunca o
     danificaria.
           --O que faz aqui, sozinha?
           Fiona deu um coice. deu-se volta e se encontrou com uma mulher,
     de idade indefinida, de olhos formosos e olhar triste. Vestia um traje
     spero, de confeco troca, abarrotado de cores vistosos. Estava
     descala, os ps enlameados. O cabelo lhe caa nos olhos. Em uma mo
     levava um balde com gua turva e, sob o brao, um mao de feno.
           --O que faz uma jovencita to formosa como voc, aqui, sozinha?
     --insistiu a mulher.
           --Passeava --mentiu Fiona.
           --Bom, melhor ser que d por finalizado seu passeio e volte para
     casa. A tormenta pinta feroz esta noite. A mulher comeou a afastar-se.
           --Ey, espere, senhora! --Fiona se aproximou at ela  carreira--.
     me Permita ajud-la --disse, e tentou lhe tirar o mao de feno.
           --No, jovencita. J te disse, melhor ser que volte para casa.
           --No tenho aonde ir. --Fiona baixou a vista; sentiu que o pranto
     retornava.
           A mulher ficou olhando-a. Aquela moa no parecia ser o tipo de
     pessoa que anda por a, vagabundeando. Era muito belo e elegante;
     estava poda e cheirava a flores-de-laranja. Tudo era muito estranho.
           --Est bem, me acompanhe, sempre h lugar para um mais no
     "Sarquis" --concedeu a mulher, e lhe aconteceu o mao de feno.
           Fiona ficou observando-a. O que seria o Sarquis? Brincou de correr
     uns passos at alcan-la.
           --O que  o "Sarquis"?
           --O "Sarquis"? Ja!  o melhor circo de toda a Confederao --
     afirmou a mulher, orgulhosa--. Como te chama?
           --Fiona.
           --Lindo nome. E seu sobrenome?
           Fiona no sabia o que responder. Qualquer de seus dois
     sobrenomes eram mais que conhecidos em Buenos Aires. Malone era
     uma das famlias potentadas e prestigiosas. E de Silva... Bom, de Silva
     era de Silva.
           --S Fiona --replicou por fim.
           --Est bem. Se assim o desejar, s Fiona.
           --E voc, senhora, como se chama?
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             --Clementina, mas ningum me chama assim. Todos me dizem
     Tina.
           O resto do trajeto o fizeram em silncio. Era evidente que
     Clementina no estava em bom estado fsico. Caminhar e falar,
     conduzindo alm disso o peso do balde, se o fazia muito difcil. Agitada,
     respirava nudosamente pela boca. Por sua parte, Fiona no desejava
     seguir falando.
           Perto do rio havia um grupo de quatro carretas. Estavam dispostas
     em semicrculo, pegas umas com outras, formando uma espcie de
     ferradura. Os toldos que as cobriam eram a raias grosas, bicolores,
     vermelho e branco ou amarelo e negro. Eram atiradas por bois, que
     agora pastavam mansamente. Tinham-lhes tirado os jugos, deixando-os
     a um flanco das carretas. Fiona s viu dois cavalos.
            medida que se aproximavam da caravana, crescia um murmrio.
     Algum gritava dando ordens; os bois mugiam; um dos cavalos
     relinchava e um homem, bastante robusto, martelava algo sobre uma
     pedra.
           --Sixto, deixa de fazer esse rudo! --vociferou Clementina. O
     homem, um jovem de pele escura, certamente mulato, deteve-se, deu
     meia volta, e ficou um momento olhando a Fiona com ateno. Depois, e
     sem lhe importar o pedido de Tina, continuou martelando.
           --Coloca o feno a, diante da Merina --indicou Tina a Fiona--.
     Vamos, me siga, no fique a papando moscas! --repreendeu-a, com um
     sorriso amistoso. Fiona obedeceu de boa vontade.
           --Julho! --gritou Tina a um jovencito que colocava lenha em um
     pequeno fossa--. Viu a dom Tadeo?
           --Est em sua carreta --respondeu o moo. As duas mulheres se
     encaminharam para ali.  medida que se aproximavam, podia escutar
     uma melodia divertida. --Aonde vamos, Tina?
           --Tenho que te apresentar ao dono do circo. --A mulher se deteve
     e deu meia volta. Retrocedeu os passos que a separavam da Fiona e
     adicionou--: No acredito que haja problemas para que fique.  justo o
     que est procurando... --E retomou a marcha.
           --O que est procurando? E, o que est procurando, Tina?
           --Uma beleza assim, como voc.
           --Para que? --perguntou, no sem inquietar-se.
           --Necessita uma ajudante para seu nmero de magia.
           Chegaram  carreta e no pde seguir perguntando, embora estava
     cada vez mais intrigada. Magia. A idia pareceu lhe agradar.
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          Tina abriu a porta e, desde para dentro da carreta, saltou uma coisa
     escura que lanava um chiado estranho. Fiona se tornou para atrs,
     profiriendo um grito.
          --Sisi! Sisi! Maldita Sisi, vem aqui! --vociferava uma voz de
     homem--. Tina, sabe que deve tocar antes de entrar!
          Fiona seguiu com o olhar ao Sisi, sem saber do que se tratava.
     Evidentemente, era um animal, no muito grande, talvez do tamanho de
     um gato gordo.
          --Entra, Fiona. --Tina a insistiu a subir o degrau de entrada 
     carreta--. No faa conta,  um velho resmungo. A Mona j voltar
     sozinha, quando tiver fome.
          --A Mona? O que  isso?
          --Um bichinho de Deus, como qualquer outro.
          --O que acontece? Sabe que a estas horas ensaio com o Sisi Y... --O
     homem se calou quando viu a Fiona na porta--. Quem  esta? --
     perguntou, no muito amavelmente.
          --No faa conta, Fiona. No sempre tem este humor de ces. --
     voltou-se, e lhe disse ao homem--: Anda procurando trabalho. Pareceu-
     me indicada para que te ajude no nmero de magia.
          Dom Tadeo Sarquis, um homem mas bem baixo, gordinho, com
     bigodes povoados, nariz grande e avermelhado e olhos saltados e
     desagradveis, escrutinava a Fiona, que no se moveu de ao lado da
     porta.
          --chama-se Fiona --se apressou a dizer Tina.
          --Ah... O que te traz por para c, Fiona? --perguntou o homem.
          --Estou procurando trabalho e um lugar para viver.
          --Por isso vejo, voc no parece ser uma jovencita muito
     necessitada de trabalho --comentou com ironia, ao tempo que passava a
     mo pelo encaixe do punho da Fiona.
          A jovem apartou o brao.
          --Epa...! Se no ir te fazer nada! --continuou, sem lhe tirar os olhos
     de cima.
          --Bom, j, nos diga, fica ou no? --perguntou Tina, um pouco
     molesta.
          --Est bem. Ao princpio, s comida e um lugar onde dormir. Mais
     adiante, e se for boa, falaremos de pagamento. Se o quiser assim, toma-o;
     se no, vete.
          Sarquis se deu volta, dando as costas s mulheres. Fiona sentiu que
     Tina lhe oprimia o antebrao.
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         --Est bem, aceito --disse Fiona. "No tenho nada o que perder",
     pensou.
         Depois, as duas abandonaram a carreta de dom Tadeo.



                                             ***



           O lugar onde dormir de que tinha falado o dono do circo resultou
     ser o carro no que viviam Tina e sua filha Sacramento. Essa noite,
     recostada sobre seu camastro, por fim a ss com seus pensamentos,
     entregou-se a refletir a respeito da estranha situao em que se
     encontrava.
           Estava ali, em meio de um circo, disposta a abandonar tudo o que
     at esse momento tinha amado. incorporou-se sbitamente. "O que
     estou fazendo? Estarei me voltando louca?" Recordou a seu av, a sua
     av, a aunt Ana, a Imelda... Pensou na Catusha, na Candelaria... E logo
     na Maria e no Eliseo. Os rostos das pessoas queridas apareciam em sua
     mente cada vez mais confusa e, por momentos, pareciam exort-la a
     desistir da fuga. Depois, a imagem de Silva, e, outra vez, a fria.
           de repente, em meio da noite, desatou-se uma forte tormenta. As
     sudestadas eram famosas. No era estranho que arrasassem contudo.
     Um relmpago assustador a obrigou a recostar-se novamente e a cobrir-
     se com a manta. O som persistente de uma goteira comeou a adormec-
     la. Estava confundida, angustiada, cansada... Muito, muito, cansada,
           --Juan Cruz... --murmurou antes de ficar dormida.




                                      Captulo 17
          Eliseo tinha encontrado ao Juan Cruz depois de quatro dias, em
     uma das estadias de Rosas, perto do Tandil, montado em seu padrillo.
          --Patro! Buscam-no! --chamou-o um peo que tinha interceptado
     ao Eliseo um trecho antes.
          Ao ver o servente, Juan Cruz intuiu que algo mau acontecia.
          --Patro --disse Eliseo, tirando-a boina vermelha.
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           --Boa tarde, Eliseo. O que acontece que anda por estas lareiras? --
     De Silva tratava de aparentar calma.
           --Trago ms notcias, patro.  a menina Fiona...
           --O que acontece!
           --Faz quatro dias que o busco, patro. Para lhe avisar, sabe?
           --Para me avisar, o que, Eliseo! Por Deus, fala!
           --A menina Fiona desapareceu, patro.
           --Como que Fiona desapareceu!
           Os pees escutavam atentos os gritos do protegido de Rosas.
           --Faz quatro dias, patro. Estava em casa de dom Malone e depois,
     no a vimos mais.
           --Mas, como que no a viram mais, Eliseo! Algum tem que ter
     visto ou ouvido algo! --estava-se voltando louco.
           --Sim, Coquita o viu tudo.
           --Coquita?
           --Uma de quo mulatas trabalha no de dom Malone. Ela diz que a
     menina Fiona recebeu a uma mulher essa tarde; a mulher lhe disse algo
     que  menina incomodou muito, e mais logo saiu como louca  rua. A
     mulher saiu tambm, depois de uns minutos.
           --Uma mulher? --"No, Meu deus, que no ela seja!", pensou de
     Silva.
           --Sim. Coquita no se lembrava bem o nome. Algo assim como
     Tole, Revesti... Bom, algo pelo estilo.
           J no ficaram dvidas. Era ela. Maldita Clo, o que havia dito a
     Fiona? Que mentira tinha inventado para lhe fazer danifico? De Silva
     golpeou com o punho o bordo da estacada do curral.
           --E, sabe o que lhe disse essa mulher? --perguntou, quase com
     medo.
           --Sim, patro. --Eliseo baixou a vista, envergonhado.
           Ento, de Silva entendeu.
           --Disse-lhe... Pois... Disse-lhe que... voc e ela eram...amantes,
     patro.
           De Silva no pde manter a calma. Com uma maldio, golpeou de
     novo a estacada, tirando-se sangre. Eliseo olhou para baixo, espremendo
     a boina entre as mos.
           Juan Cruz se amaldioou por estpido. Todo esse tempo tinha
     estado papando moscas. Teria que haver-se assegurado de que Clo no
     voltaria a incomodar. Depois que abandonou a habitao do hotel esse
     dia, lvida de fria, ele pensou que, por fim, a tinha tirado de cima.
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     Estpido! Tinha deixado solta a uma gata louca e raivosa e no tinha
     feito nada para det-la. Agora, sua felicidade e a da Fiona pendiam de
     um fio por causa de sua prpria inpcia.
           --Patro, eu sa de Buenos Aires faz quatro dias. Talvez, a menina
     Fiona j esteja de volta, s e salva.
           --Sairemos agora mesmo para a cidade. No vou esperar um
     segundo mais. Joaqun!
           Um muchachito se aproximou do trote.
           --voc mande, patroncito.
           --Acompanha ao Eliseo  cozinha. lhe diga a Martina que lhe d
     tudo o que lhe pea. Enquanto isso, voc prepara um cavalo novo e
     provises para uma viagem de quatro dias.



                                             ***



          Estavam perto de La Candelaria; de Silva tinha decidido acontecer
     por ali com a esperana de que Fiona estivesse na casa grande. No lhe
     importava encontr-la enfurecida: no lhe importava se lhe gritava e o
     insultava. S desejava voltar a v-la.
          J amanhecia. Estavam esgotados; tinham cavalgado toda a noite e
     tinham as asentaderas escaldadas e as pernas intumescidas.
          Com o sol, de Silva pde divisar de longe os tdios da manso.
     Estava ansioso por chegar e encontrar-se com sua esposa. Cada dia tinha
     desejado encontr-la no comilo, lista para jantar, perfumada com sua
     loo de lavanda, atrativa em seus trajes insinuantes. O corao lhe
     encolheu ao pensar que algo mau tivesse podido lhe acontecer.
          A casa j estava em pleno movimento. Algumas faxineiras poliam a
     platera do salo principal, outras sacudiam as cortinas. Tudo parecia
     to normal que de Silva se sentiu bem. At que se encontrou com a
     Candelaria.
          --Juan Cruz! --exclamou a negra. O tom de sua voz era de mau
     augrio.
          abraaram-se.
          --No esteve por para c, verdade? --disse Juan Cruz, sem apartar
      mulher de seu peito.
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          --No, querido. Dom Malone mandou a um grupo de homens
     para ver se ela estava aqui. Isso foi faz mais de uma semana, Juan Cruz.
     No sei nada mais. O que aconteceu, pois? Ningum sabe, realmente.
          --Tudo  por minha culpa, Candelaria.
          --Sua culpa! Mas, se voc estava longe, nas estadias de dom Juan
     Manuel. --desfez-se do abrao de Silva.
          --Depois te contarei. O importante agora  ach-la. Devo partir
     para Buenos Aires quanto antes, no posso perder mais tempo. --
     encaminhou-se para a escada principal--. Algum foi ao de minha me?
     Talvez esteja ali --disse de repente, esperanado.
          --Eu mesma fui, quase todos os dias. revisei cada rinco da casa de
     sua me e cada curva do jardim. Sinto muito, filho, no est ali.



                                             ***



            manh seguinte de sua fuga, Fiona despertou sobressaltada.
     Algum a sacudia.
           --Vamos, Fiona, vamos! H muito trabalho que fazer... --Era a voz
     de Tina.
           Fiona se incorporou no cama de armar to de repente que teve
     desejos de vomitar. Inspirou profundamente, e, pouco a pouco, comeou
     a sentir-se melhor.
           Olhou a seu redor. A carreta se via distinta  luz do sol. As cores
     das cortinas se refletiam como um arco ris nas paredes de madeira e lhe
     davam um aspecto menos triste que o da noite anterior. A um flanco,
     Sacramento se lavava em uma bacia de loua; causou-lhe graa a forma
     em que a moa se arrojava gua com uma bacia. Fiona caiu na conta l
     que essa manh no teria sua acostumada tina cheia de fumegante gua
     aromatizada, nem estaria Maria para massagear suas costas com azeite
     de coco, nem para pente-la, ou conversar a respeito de trivialidades.
           Comeou a vestir-se rapidamente, decidida a retornar  casa de seu
     av; ao fim e ao cabo, a caravana ainda permanecia  borda do Rio, a
     umas quantas quadras do do Malone.
           --Esse anel que leva, Fiona,  de algum apaixonado? --perguntou
     Tina.
           Fiona se olhou a mo. Os brilhos das pedras preciosas a
     deslumbraram, e no pde deixar de recordar aquela tarde, em casa de
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     seu av, quando de Silva lhe entregasse o anel. Tambm recordou que
     nunca tinha odiado tanto a uma pessoa como naquele instante ao Juan
     Cruz. E agora, o que sentia?
           Tina se deu por vencida. Era bvio, jamais lhe daria uma resposta.
           --Espero-te fora, Fiona --disse--. Deve me ajudar a preparar o caf
     da manh. --E saiu sem esperar uma resposta.
           --Sim que  estranha, Fiona --comentou Sacramento. Fiona se
     limitou a olh-la, confundida. Tinha estado comprido momento perdida
     em seus pensamentos. Compreendeu que, se continuava assim,
     acreditariam- louca.
           Sacramento terminou de trocar-se e abandonou a carreta.
           --te apresse, queridita, aqui no  a princesa que parece ser. Deve
     ajudar --disse antes de fechar a porta.
           A Fiona lhe encheram os olhos de lgrimas; a lembrana da tarde
     em que de Silva lhe entregasse o anel havia tornado a confundi-la,
     sumindo-a em uma sensao espantosa. Agora tambm o detestava, mas
     no como naquele momento. Detestava-o mais ainda, porque agora Juan
     Cruz sabia que ela estava louca de amor por ele. Tinha-lhe confessado
     que o amava. Em seu ventre crescia, dia a dia, o resultado de seu amor.
     No podia acreditar o que de Silva lhes tinha feito, a ela e a seu filho.
     No, no voltaria nunca.
           arrumou-se um pouco e saiu ao acampamento. O movimento entre
     os membros do circo j era frentico apesar de que logo amanhecia.
     encaminhou-se decidida para Tina, que atiava os lenhos que ardiam
     sob o trbede.
           --Por fim te decide a vir! Vamos, menina, h muito trabalho que
     fazer. --Essa frase era seu muletilla.
           --Sim, Tina. me diga no que posso ser til.
           A mulher tomou as mos com estupidez.
           --Humm... Tem as mos mais suaves que vi em minha vida. --
     Levantou a vista--. Alguma vez em sua vida tem feito algum quehacer
     domstico, Fiona? --Seu tom no era depreciativo.
           --Nunca.
           --meu deus!
           --Mas aprendo rpido tudo que me ensine, Tina. Asseguro-lhe
     isso.
           --Est bem, ensinarei-te --replicou Tina, e lhe soltou as mos.
           Essa manh serve o mate cozido em cada um dos tigelas de lata e
     cortou em fetas o po com torresmo. Mais tarde, apareceu dom Tadeo.
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     Ningum o saudou, e ele tampouco saudou ningum. limitou-se a jogar
     uma olhada de soslaio a todo o acampamento antes de acomodar-se em
     sua banqueta e pedir a gritos o caf da manh.
           --Quem  o dono aqui, Tina? Esqueceste-lhe isso? Todos esto
     tomando o caf da manh, menos eu. Deveria me haver levado o caf da
     manh  carreta!
           --Ah, sim, como no! Pode esperar sentado! Cansar-te menos!
     Alm disso, resmungo de porcaria, estaria tomando o caf da manh
     com todos se te levantasse mais cedo em lugar de vadiar como um
     duque --o repreendeu antes de lhe entregar o tigela.
           --Ora...! te cale, prostituta!
           Fiona observava a cena e no podia acreditar que Tina se atrevesse
     a trat-lo assim. Olhou a seu redor; ningum parecia preocupar-se com a
     discusso entre a mulher e o dono do circo. Nem sequer Sacramento,
     que continuava bebendo seu mate cozido.
           --No h nada para comer, maldita seja? --Tadeo jogou um olhar
     furioso a Fiona.
           --Vamos, Fiona, lhe alcance um antes de que o eu coloque mesma
     pelo nariz --sussurrou Tina.
           O comentrio lhe fez graa, mas conteve a risada. Lentamente,
     aproximou-se de dom Tadeo, estendeu a mo e lhe alcanou a feta de
     po de longe, como se temesse aproximar-se muito. O homem tomou o
     bocado e o levou de uma vez  boca. Mastigava com dificuldade,
     deixando cair migalhas pelas comissuras. Fiona ficou olhando-o, atnita.
           --Que miras! --vociferou Tadeo.
           O grito a voltou em si e, rapidamente, retornou a seu stio.
           Mais tarde, Fiona e Tina se encarregaram de alimentar aos animais.
           --Apresento a Merina e a Sinfonia, mimado-los do circo.
           Tina se aproximou, primeiro  gua e logo ao cavalo, e os aplaudiu
     carinhosamente.
           --So formosos --comentou Fiona.
           O cavalo mais belo que tinha conhecido era o de Silva. Um padrillo
     imponente, muito alto e estilizado. Era mau; s Juan Cruz podia
     domin-lo. Mas aqueles dois exemplares tambm eram magnficos.
           --depois do Sisi, so o que Tadeo mais ama na vida. --
     Repentinamente, a mulher deixou de acarici-los--. Sixto  o que os
     monta no espetculo. J o ver, no h quem lhe compare fazendo
     piruetas acima de Sinfonia e Merina.
           --E eu, Tina... O que terei que fazer?
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          --Voc ser a ajudante do Tadeo no espetculo de magia. Ele lhe
     explicar isso mais tarde, certamente. Vamos, Fiona, devemos continuar.



                                             ***



           De Silva decidiu que antes que nada, iria a casa dos Malone.
     Talvez, Fiona tinha retornado ao de seu av. Desejava tanto que
     estivesse ali, a idia de perd-la-o aterrava. tornou-se dependente dela;
     estar longe da Fiona todo esse tempo o tinha torturado. Sua mulher se
     converteu em uma obsesso: significava tudo para ele, e sabia que no
     poderia viver sem ela a seu lado.
           Uma culpa incontrolvel o atormentou: no tinha feito bem em
     retornar a casa do Clo depois de casado. De todas formas, tratou de
     aplacar sua conscincia pensando que s tinham sido umas poucas
     vezes, na poca em que Fiona o rechaava. Mas a culpa voltava, uma e
     outra vez.
           --Puta maldita! --gritou, ao tempo que golpeava sua bota com a
     vara.
           Elseo, que cavalgava para seu lado, olhou-o pela extremidade do
     olho.
           --J estamos por chegar, patro.
           --Sim, j sei --respondeu de Silva, sem tirar a vista do frente.
           Eliseo tinha chegado a querer ao Juan Cruz tanto como a Sejam.
     Era um homem trabalhador, cheio de fora e mpeto, conhecia o trabalho
     como ningum e gozava de grande autoridade entre seus pees. Alm
     disso, era muito inteligente e sagaz; tinha que s-lo para ter conseguido
     dirigir  menina Fiona. Sabia que a amava e que todo esse assunto da
     querida no era certo. Mas tambm conhecia o esprito precipitado da
     Fiona e entendia que no seria fcil faz-la entrar em razo.
           Ingressaram pelo sul, at desembocar na Praa da Vitria. O rudo
     dos cascos dos cavalos chapinhando no barro das ruas, o prego das
     negras vendedoras de pamonha, o sino da carreta do abacateiro, o
     bulcio de uns meninos tratando de apanhar a um co, mas nem um
     indcio da Fiona. Juan Cruz procurava com o olhar a sua mulher entre a
     multido. Tinha todo o aspecto de um desenquadrado enquanto estirava
     o pescoo tratando infructuosamente de ach-la.
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           Escaparam da algazarra do centro rumo  mansido dos bairros
     vizinhos. S viam umas poucas seoronas caminhando pelas veredas
     estreitas e a alguns cavalheiros falando de poltica. Ao reconhec-lo,
     dispensavam-lhe um movimento de cabea, frio e distante. A intriga da
     fuga da Fiona tinha chegado a todos os lares e era a fofoca do momento.
     Por mais que os Malone tinham tentado mant-lo em segredo, resultou
     impossvel em uma casa cheia de faxineiras desejosas de receber uns
     reais por um pouco de informao valiosa.
           Assim chegaram ao do Malone; de Silva, de um salto, precipitou-se
     ao saguo da manso. Coquita lhe abriu a porta.
           --Senhor de Silva!
           --Est minha esposa aqui? --perguntou, sem entrar na casa.
           --No, senhor. Ningum sabe onde est.
           Coquita reprimiu um grito quando de Silva chutou a coluna da
     entrada e proferiu um insulto subido de tom.
           --O que acontece, Coquita?
           Era a voz do Brigid; ento, de Silva entrou na manso.
           --Senhor de Silva! --exclamou Brigid.
           --Senhora Malone... --No sabia o que dizer.
           --Passe, meu marido est ansioso por falar com voc. --O tom da
     anci era duro e cheio de ressentimento.
           Entrou na sala e esperou, sem sentar-se, com o chapu entre as
     mos. Quando advertiu que ainda levava o leno vermelho a corsrio, o
     tirou rapidamente, e se enxugou a frente com ele.
           --De Silva.
           A voz grave de Sejam o sobressaltou. Ao voltear, encontrou-se
     tambm com o William, o pai da Fiona, que o olhava com desprezo.
           --Senhores... --Inclinou a cabea--. tiveram alguma novidade?
           --No --respondeu o pai da Fiona lacnicamente. Juan Cruz lhe
     lanou um olhar de advertncia. "Seras meu aliado nisto ou tenho a
     forma de te destruir frente ao velho." William, que no era tolo,
     abrandou imediatamente sua expresso.
           --Senhor Malone... --Juan Cruz se dirigiu a Sejam--. Antes que
     nada queria lhe explicar que todo este assunto...
           --Sinceramente, senhor de Silva, importa-me um rabanete seu
     assunto. Suas explicaes no tem que me dar isso . Quo nico desejo
     agora  encontrar a minha neta, s e salva. O resto no me interessa... ao
     menos por agora.
           --Sim, compreendo.
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          --Conhecemos suas estreitas relaes com o governador e
     desejamos que as utilize para encontrar a Fiona. J falamos com o
     Cuitio, mas ele diz que a polcia a seu cargo no pode mover um dedo
     sem a ordem do governador. E por mais que fui todos os dias a ver
     rosas, no pde... ou no quis me receber. --Sejam fez um gesto de
     desgosto.
          --De todas formas --continuou William--, armamos grupos com
     nossos pees que saram a percorrer a provncia. Mas at o momento,
     nada, absolutamente nada.
          Juan Cruz tinha permanecido calado, com o olhar perdido. Sentia
     que estavam procurando uma agulha em um palheiro. Mas ele no se
     daria por vencido; revisaria cada rinco da Confederao; em algum
     lugar a encontraria.
          --Enviarei ao Eliseo de volta  a Candelaria para que organize
     grupos de busca. Eu irei agora mesmo a ver rosas e lhe pedirei ajuda.
          Moveu a cabea a modo de despedida e saiu.
          Chegou  rua e inspirou profundamente; tinha o corpo tenso e as
     mos ainda lhe suavam. Como sups que o foram receber os Malone?
     Com tambores grandes e pires?. De todos os modos, pensou, isso no
     lhe importava tanto como a falta de notcias.
          --Senhor! --Eliseo no podia ocultar sua inquietao--. Alguma
     novidade, senhor?
          --Nada, Eliseo, ningum sabe nada. Mas, vamos, te apresse. Quero
     que volte para A Candelaria e, junto ao Celedonio, armem grupos de
     cinco homens cada um e que saiam imediatamente a percorrer a
     provncia, do norte ao sul, deste ao oeste. No dever ficar stio sem
     investigar. Eu permanecerei uns dias aqui. Quero que cada grupo me
     mantenha informado com um mensageiro, entendido?
          --Perfeitamente, senhor.
          --Avisa a todos que haver uma boa recompensa para o grupo que
     a encontre. Vamos, homem, sal agora mesmo para a estadia, no h
     tempo que perder.



                                             ***



         O bulcio na Praa da Vitria interrompeu as reflexes de Silva.
     Uma multido se amontoava no meio, ao redor do mastro. trataria-se de
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     algum espetculo, talvez, de alguma rixa, ou possivelmente uma cabea
     unitria estaqueada pela Espiga de milho. Logo voltou para seu
     ensimismamiento. Enquanto se encaminhava  quinta do Palermo
     analisava cada palavra que lhe diria ao governador, e calculava suas
     possveis respostas.
           --Senhor de Silva!
           O grito atraiu sua ateno por cima do bulcio da praa.
           --Senhor de Silva!
           --Paolina! --exclamou Juan Cruz ao reconhecer a quo negra
     corria para ele.
           De Silva fez girar a seu padrillo para aproximar-se da jovem, que
     tentava abrir-se passo entre a gente aglomerada na Recova Nova.
           --Senhor de Silva... --repetiu a faxineira, sem flego--. Ao fim
     retornou, patro. fui todos os dias  salga para busc-lo; preciso falar
     com voc.
           --O que acontece? --perguntou-lhe de Silva de mau modo, sem
     desembarcar do cavalo.
           Ainda no tinha decidido o que seria do Clo e no estava de
     humor para faz-lo. Encontrar-se com a Paolina implicava pensar em
     algo, e rpido, porque de seguro a negra lhe pediria instrues.
           --Patro, preciso falar com voc agora mesmo.
           Os olhos exagerados da Paolina o surpreenderam.
           --Agora no posso. Talvez, mais tar...
           --Patro, no pode esperar, o asseguro --insistiu a negra.
           --Est bem, mas no na casa --advertiu de Silva.
           --Se for pela senhora Clo, patro, v tranqilo. Ela no est a.


                                            ***


          Juan Cruz j estava aguardando na sala da casa do Clo quando
     chegou Paolina. Mateo, o chofer, havia a trazido do centro da cidade na
     volanta. A negra passou como um raio para a cozinha com uma cesta
     cheia de verdura.
          --Paolina, vem! No tenho todo o dia! --gritou Juan Cruz ao v-
     la.
          antes de entrar na sala, a faxineira se benzeu vrias vezes. De Silva
     sempre lhe tinha dado pnico, com mais razo nesse momento.
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           --Senhor de Silva, voc no pode imaginar-se como o procurei
     todo este tempo para lhe contar, senhor --exclamou a negra com voz
     chorosa.
           --Onde est a senhora Clo?
           --Bom... Pois...
           --Vamos, fala!
           A negra se estremeceu com o grito.
           --A verdade, no sei... No sei exatamente, patro. Acredito que
     est em casa de dom Estar acostumado a.
           --De Estar acostumado a? Do Palmiro Estar acostumado a?
           Juan Cruz ficou de p e franziu o sobrecenho.
           --Sim, patro, o mazorquero. O senhor Estar acostumado a e a
     senhora so amantes agora.
           --Amantes?
           --Sim, senhor! Mas desde que voc a deixou a ela! Antes, no,
     senhor, antes, no, o juro, o juro --repetia uma e outra vez, fazendo-a
     cruz sobre a boca.
           --Mas, por que no me disse isso, Paolina? Acaso eu no te pagava
     para que me mantivera informado de tudo o que acontecia esta casa?
           Os olhos duros de Silva a encheram de pnico e comeou a chorar.
           --Faz um tempo o senhor Estar acostumado a deveu visitar 
     senhora e ficou comprido momento conversando com ela. Eu no pude
     escutar bem porque se encerraram no estudo, mas cada tanto
     mencionavam seu nome e o de sua esposa.
           --Filho de puta! --Golpeou a mesa com o punho--. Vamos,
     continua!
           --O senhor Estar acostumado a vinha todas as tardes a v-la e
     ficava at o amanhecer. Eu no lhe avisei nada porque pensei que, como
     voc e a senhora... Bom, pensei que j no estava interessado nos
     assuntos desta casa.
           --Sim, mas o sobre com o dinheiro para os gastos chegava tdos os
     meses, verdade? --repreendeu-a de Silva.
           --A senhora Clo dizia ao Mateo e a mim que voc no pagava
     mais os gastos da casa, que agora os pagava o senhor Estar acostumado
     a --murmurou Paolina.
           --Mas, estpida! No recebia o sobre com seu dinheiro todos os
     meses?
           --No, senhor, o juro! --gritou entre lgrimas--. H meses no
     recebo um centavo dele!
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           --Mas se lhe enviei isso com... maldito traidor! --Outro golpe na
     mesa--. Onde est Mateo? Rato miservel! Mateo! --gritou enfurecido.
           Passaram uns segundos; o chofer no apareceu. De Silva decidiu
     que arrumaria o assunto com o Mateo mais tarde; agora se concentraria
     em Estar acostumado a e Clo.
           Paolina terminou de lhe relatar o que conhecia do assunto, que no
     era muito mais. Contou-lhe que dez dias atrs a senhora Clo se foi da
     casa. Ela supunha que se alojava no de Estar acostumado a, mas no
     estava segura. De todas formas, na semana anterior tinha recebido um
     bilhete de sua patr lhe indicando que no retornaria em vrios dias,
     que mantivera tudo ordenado e que lhe enviaria dinheiro para os gastos.
           De Silva abandonou a casa de seu antiga amante muito perturbado.
     Permaneceu uns minutos no saguo, quieto, com o olhar perdido. A
     confuso o afligia e no o deixava pensar. Tinha esquecido seu objetivo
     de falar com Rosas, e nem sequer sabia que rumo tomar nesse momento.
           de repente, sua mente pareceu esclarecer-se. Montou seu padrillo e
     saiu a todo galope. J tinha decidido o que devia fazer, e nada o faria
     tornar-se atrs.



                                             ***



           A casa de Estar acostumado a estava muito silenciosa. Os portinhas
     das janelas permaneciam fechados e ainda ardia a vela no farol do
     saguo. De Silva caminhou para a entrada; ficou uns minutos imvel
     frente a ela, atento a qualquer possvel indcio de atividade em seu
     interior. Depois, chamou a ponha, agitando vrias vezes a aldaba.
     Abriu-lhe um homenzinho ao que reconheceu como o ajudante de Estar
     acostumado a.
           --bom dia, senhor de Silva --disse o servente, sem abrir do todo a
     porta.
           --Est Estar acostumado a? --perguntou de m maneira Juan
     Cruz.
           --No, no se encontra, senhor de Silva.
           O chute que de Silva o propin  porta enviou ao servente uns
     metros mais  frente.
           --Onde est, rato miservel? me mostre a cara, covarde de mierda!
     --vociferava Juan Cruz,  medida que avanava.
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            O servente caminhava para trs, tremendo e balbuciando.
            --No est, senhor, no est... O asseguro.
            --Sal de onde esteja, Estar acostumado a filho de puta!
            Juan Cruz se deteve em meio da sala principal, escrutinando cada
     rinco.
            --Vamos, Estar acostumado a! No seja covarde! Ou s te anima
     com as mulheres, maldito filho de puta?
            --O que quer, de Silva?
            Juan Cruz girou sobre si. Estar acostumado a, que acabava de
     aparecer por uma das entradas, sustentava um trabuco com o que
     apontava a Silva direto ao rosto. O canho da arma tremia.
            --Ah! A estava...! --Juan Cruz avanou para ele com sorriso
     desdenhoso.
            --No d um passo mais ou lhe vo a cabea! --Palmiro Estar
     acostumado a tinha o rosto encarnado e brilhante pelo suor.
            --S me diga o que fez com minha mulher e logo me parto --
     Avanou um trecho--. Onde est Fiona, asqueroso rato?
            Estar acostumado a retrocedeu uns passos, tremia como uma folha.
            --Basta! No siga avanando, de Silva, porque te asseguro que te
     tiro a cabea de seu stio!
            --Voc? Voc me tirar a cabea de stio? --Juan Cruz soltou uma
     gargalhada estrondosa--. Voc no pode matar uma mosca, Estar
     acostumado a.  um maldito covarde. S tem guelra para te colocar com
     mulheres.
            A expresso de ferocidade de Silva aumentava o pnico de seu
     rival.
            --te cale, te cale, bastardo!
            O servente, que momentos atrs se escorreu por uma das entradas,
     reapareceu na sala, com outro trabuco nas mos. aproximou-se de seu
     patro, e juntos apontaram ao Juan Cruz.
            --me diga o que tem feito com a Fiona --repetiu de Silva.
            --Nada, eu no fiz nada. E agora vete de minha casa ou no
     respondo.
            Estar acostumado a tomou coragem, aproximou-se do Juan Cruz, e
     lhe apoiou o canho na frente.
            --me diga onde est minha mulher --repetiu de Silva, sem alterar-
     se.
            --J te hei dito que no sei nada a respeito de seu mujercita! O que
     aconteceu? Te escapou a maldita?  difcil de domar essa Malone,
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     verdade? Eu a queria para mim, mas ela me desprezava. Asquerosa
     presunosa! --Estar acostumado a comeava a encorajar-se--. Devo
     admitir que  a mais bela de todas. Tem um par de...
           No pde terminar. De Silva, com um movimento rpido e certeiro,
     despojou-o da arma com uma mo, e com a outra lhe aplicou um golpe
     demolidor, que o fez rodar pelo cho. Foi atrs dele sem perder um
     segundo, p-lhe um p na garganta, e lhe apoiou o trabuco sobre a
     frente.
           --No me mate, de Silva! No me mate! --suplicou Estar
     acostumado a, a ponto de chorar.
           --me traga sua arma ou no lhe vai reconhecer o focinho de porco
     a seu patro! --ordenou de Silva, Sem sequer olhar ao servente.
           O homem se aproximou, temeroso, com a arma baixa. A uns passos
     do Juan Cruz, depositou-a no piso. aproximou-se ainda mais, por ordem
     de Silva. Quando o teve ao alcance, Juan Cruz lhe atirou uma coronhada
     na frente com tanta fora, que o servente caiu inconsciente, ao lado de
     seu patro. Estar acostumado a gritou ao ver seu servente, com a frente
     partida, atirado a seu lado. Juan Cruz arrojou longe o trabuco que tinha
     nas mos e lhe deu um chute ao outro, que foi parar sob o sof.
     Rapidamente, tirou de sua bota uma adaga e a apoiou na garganta de
     Estar acostumado a.
           --Agora... --disse-lhe com os dentes apertados--, agora me dir o
     que fez com minha mulher.
           --Eu no sei nada do T... Ahhh!
           De Silva lhe abriu um sulco na bochecha. A ferida sangrava
     profusamente e o homem comeou a choramingar de pnico.
           --Agora, dir-me onde est ou te abrirei da partes, at que morra
     sangrado... Compreende, Estar acostumado a?
           --No, por favor, basta, basta. Direi-te tudo, mas no me faa mal.
     Tudo saiu mau, nada resultou como o tnhamos planejado. --Falava
     entrecortadamente, quase sem flego--. Ela...Clo, no pde faz-lo...
           --Que no pde fazer?
           --Ela... Ela devia mat-la...
           O peito do Juan Cruz se contraiu dolorosamente e sentiu que as
     foras o abandonavam. "Mat-la? O que  tudo isto?", pensou, aturdido.
           --Mat-la? Estar acostumado a, filho de puta! --gritou, enfurecido,
     e lhe cravou a ponta da adaga na garganta, lhe fazendo um corte
     superficial. No devia mat-lo, pensou. No ainda.
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           --No, basta! No a matou, no a matou. --Estar acostumado a
     tinha o terror pintado nos olhos--. No pde faz-lo... Sua mulher saiu
     correndo do do Malone e nunca mais voltamos a v-la. Ningum sabe
     onde est, asseguro-te que ns no temos idia de onde est. Por favor!
           Juan Cruz tomou a Estar acostumado a do pescoo da camisa e se
     incorporou; logo, sem lhe tirar a adaga da garganta, apoiou o corpo sem
     foras de seu rival contra a parede.
           --por que? me diga, por que? --perguntou Juan Cruz, me
     abatido--. Diga isso ou no voltar a ver em sua vida. Eu mesmo lhe
     arrancarei --disse isso, lhe aproximando a arma aos olhos.
           --No! --gritou Estar acostumado a, espantado--. No foi minha
     idia, no foi minha idia! Tudo foi um plano de Rosas para vingar-se de
     sua mulher e de sua famlia. Eu no ideei nada disto, asseguro-lhe isso...
     Por favor, no me faa mal.
           Estar acostumado a sentiu que a presso em sua garganta cedia e
     que o fio da adaga se afastava de seus olhos. Juan Cruz ficou olhando-o
     fixamente, desconcertado, como se no pudesse entender o que acabava
     de escutar.
           --O que h dito? --balbuciou de Silva--. O que h dito? --Cheio
     de ira, aprisionou-o outra vez contra a parede, disposto a esfol-lo vivo.
           --Juan Cruz! --A voz do Clo ressonou em toda a habitao.
           De Silva girou rapidamente sem soltar a sua presa, e pde ver que
     a mulher lhe apontava com uma pistola. Juan Cruz se jogou no cho no
     preciso momento em que Clo apertava o gatilho. A bala deu totalmente
     no rosto de Estar acostumado a, que caiu instantaneamente.
           Um segundo depois, de Silva se aproximou do corpo do
     mazorquero. Estar acostumado a estava irreconhecvel; o tiro lhe tinha
     destroado a cara, e seu sangue se pulverizava rapidamente pelo cho.
           --Est morto --disse Juan Cruz para si.
           Ao escut-lo, Clo lanou um gemido angustiante. De Silva volteou
     e tratou de chegar a ela. Mas j era muito tarde: nesse momento, a
     mulher se levava a pistola  boca e se arrombava um tiro mortal. Caiu
     sem vida, sacudindo-se no piso antes de ficar completamente inerte.
           Juan Cruz correu para o Clo e se acuclill a seu lado. Tomou entre
     seus braos, apoiou-a em seu regao e a olhou com compaixo. Um
     instante depois, quando fechou os olhos do Clo, as mos lhe tremeram.
           Naquele momento, de Silva o compreendeu tudo. Clo era uma
     idiota, e Estar acostumado a, um covarde. Rosas tinha sabido usar a
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     humilhao e o dio do mazorquero e o cimes da prostituta para
     vingar-se de sua esposa e de sua famlia.
          A garganta lhe fechou e um frio lhe percorreu o corpo. Apesar de
     que os fatos pareciam voltar-se mais claros e as peas comeavam a
     encaixar, sentiu que tudo a seu redor se tornava escuro. Entendeu que,
     talvez, nunca mais voltaria a ver a Fiona; e que, se algum dia a
     encontrava e eram um outra vez, no poderiam s-lo nunca mais ali. O
     Restaurador no o ia permitir.




                                      Captulo 18
           Dom Tadeo tinha decidido partir para o sul. Tanto tinha insistido
     Tina em que seria bom conhecer Tandil e Baa Branca que por fim o
     tinha convencido. Alm disso, no trajeto encontrariam muitos povos
     onde apresentar o espetculo.
           O brilho e colorido que engalanavam a funo cada entardecer se
     perdia depois, quando os habitantes se separavam do cenrio e tudo
     voltava para a normalidade. Uma sensao de angstia embargava a
     Fiona nesses momentos e, em ocasies, precisava chorar a ss.
     Procurava um lugar afastado, sentava-se no cho e, afundando o rosto
     entre os joelhos, soluava. Mas, pouco a pouco, a tristeza e o pranto
     depois do espetculo foram ficando atrs. Com o tempo, cada vez se
     sentia melhor. A pesar do mau humor de dom Tadeo, os sarcasmos de
     Sacramento e o rondo do Sixto, Fiona estava bem.
           Fazia pouco mais de dois meses que estava com eles e tinha
     aprendido muitas coisas. Era a assistente do ato de magia, e da Mona
     Sisi quando esta danava e fazia piruetas sobre o realejo. Sixto tinha
     tentado convencer ao Tadeo de que lhe permitisse trein-la no nmero
     com os cavalos, mas o dono do circo se negou. Fiona suspirou quando
     por fim o velho disse "no" ao Sixto; em seu estado no teria podido
     sequer trotar levemente.
           Tina e Sacramento eram as malabaristas. Essas mulheres, to
     arrudas, tinham resultado muito hbeis arrojando coisas ao ar e
     tomando novamente sem que nenhuma casse ao cho. Fiona ficava
     pasmada durante a apresentao, tanto que continha a respirao
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     assaltada pelo temor que algo lhes falhasse; mas isso nunca acontecia:
     sempre saam vitoriosas.
           --Vamos, Fiona, move seu culo a outro stio! --ladrou Sacramento.
           A jovem comeou a levantar-se.
           --De maneira nenhuma--disse Sixto--. Este  seu lugar, Fiona.
     Voc fica aqui, a meu lado.
           Mas Fiona no queria problemas com sua companheira de carreta.
     Sabia que era uma mulher sem escrpulos, capaz de algo por conseguir
     o amor do Sixto. De modo que abandonou o lugar: Sacramento o ocupou
     com seu volumoso traseiro, e ficou olhando ao homem com rabugice.
           --Ol, querido --murmurou Sacramento ao ouvido do Sixto.
           --Ora! --foi a resposta do homem, que se encaminhou onde Fiona.
           --Por favor, senhor Sixto, o rogo... Sacramento vai odiar me --
     disse ela, sem tirar a vista do rosto encarnado da jovem desprezada.
           --No lhe faa caso a essa gata em zelo. Eu desejo estar contigo, e
     ela no me vai impedir isso
           Essas palavras se chocavam nos ouvidos da Fiona, mas no
     replicava. Nada de rixas em sua nova vida. Com ningum. S desejava
     estar em paz, fazer um pouco de dinheiro e partir sem que ningum se
     desse conta. Uns dias atrs, dom Tadeo lhe tinha prometido que
     comearia a lhe pagar uns reais depois de cada funo. Ela necessitava
     esse dinheiro para o momento em que seu filho nascesse.
           A verdade, Sixto no era mau com ela; ao contrrio, tratava-a com
     muita deferncia, e suas maneiras no eram to rudes. notava-se que
     estava apaixonado. "Quero-a bem", confessava-lhe o homem em cada
     oportunidade. Fiona ensaiava mil e uma formas para poder afugent-lo
     sem humilh-lo. Sabia que um homem ferido em seu orgulho podia ser
     perigoso. Mas no parecia o caso do Sixto, sempre cavalheiro e galante.
           Durante o resto do jantar no disse uma palavra. S escutava como
     um eco longnquo os relatos do Sixto, os relinchos de Sinfonia e Merina,
     os chiados do Sisi, o som do vento enredado nas taas das rvores. Sua
     mente se concentrava em uma s coisa: seu beb.
           Havia momentos nos que enlouquecia de pnico e s pensava em
     retornar. Poderia viver em casa da Grandpa; ali nada lhes faltaria, seu
     beb teria o necessrio, e mais tambm. Mas a imagem de Silva chegava
     como um aoite a sua mente e desbaratava a idia de voltar. Teria que
     enfrent-lo e sabia que no poderia contra ele. Quereria lhe tirar a seu
     filho e, de seguro, conseguiria-o. Com Rosas de seu lado, no haveria
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     forma de impedir-lhe Alm disso, ela sabia que o governador a odiava e
     que faria o impossvel para afund-la.
           Nesses momentos, no podia deixar de evocar a sua sogra. Ela
     tinha conseguido sobreviver, sozinha, com um filho. Mas a pouco de
     pensar nisso, caa na conta de que Catusha tinha tido a Candelaria a seu
     lado. Ento, recordava a Maria e quanto a necessitava.
           --Fiona! --Sixto tratava de tirar a de suas reflexes--. Parece como
     se estivesse a mil lguas de c.
           --me perdoe, senhor Sixto.  que estava pensando em outras
     coisas.
           --Que coisas so, que lhe enchem os olhos de lgrimas? Nem
     sequer h meio doido a comida.
           Fiona comeou a engolir o cozido para assim no ter que falar
     mais. S assentia ou negava com a cabea e tratava de ser o mais fria e
     distante possvel; ao menos enquanto Sacramento no lhes tirasse os
     olhos de cima.
           "E o senhor Sixto?", pensou. Por um segundo o olhou pela
     extremidade do olho. No estava nada mal e era doce com ela, faltava-
     lhe um pouco de educao, sim, mas nada que no pudesse polir-se.
     Estava convencida de que faria algo se o pedia, at dar seu sobrenome
     ao filho de Silva. No necessitou muito tempo para desistir da idia. Ela
     no poderia quer-lo e a vida junto a ele se tornaria um calvrio. S
     tinha amado uma vez e sabia que jamais poderia voltar a faz-lo.
           Essa noite, no camastro da carreta, sentiu-se muito intranqila.
     Dava voltas e voltas e no conseguia dormir. Estava sozinha com
     Sacramento e isso a punha mais nervosa ainda. Tina, como sempre,
     tinha partido para a carreta do Tadeo a passar a noite com ele. Antes do
     amanhecer retornaria com o mesmo sigilo com o que se foi; escorreria-se
     entre os lenis, e  manh seguinte, simularia ter dormido toda a noite
     ali.
           Fiona no compreendia o que encontrava Tina de atrativo nesse
     homem gordo e desagradvel, mas no era assunto dele. Apesar de que
     a malabarista era boa com ela, jamais lhe tinha recuado a confiana
     suficiente para perguntar-lhe
           J quase amanhecia; soube porque escutou a Tina retornar de sua
     escapada noturna. Fechou os olhos, e, sem querer o, dormiu.

          Em comparao com os puebluchos nos que tinham atuado, Tandil
     era quase Buenos Aires. O mesmo de sempre, embora maior e com mais
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     movimento. A praa, e em torno dela, a catedral, o negcio do Ramos
     gerais, o edifcio da comuna.
           As pessoas se detinham observar essa estranha caravana
     multicolorido, com dois formidveis cavalos talheres com mantas de
     cetim e um pequeno bichinho que chiava como louco em uma jaula. Os
     tandilenses eram indivduos desconfiados e pouco amveis; viviam ao
     limite da fronteira final, e a investida contnua dos malones os tinha
     convertido em habitantes de olhar turvo e movimentos rpidos.
           Dom Tadeo decidiu acampar perto da sada sul do Tandil,
     preparado para continuar em umas semanas para Baa Branca. O lugar
     era tranqilo e as sienas lhe davam um marco imponente. Fiona passava
     largos momentos as contemplando, absorta em seus pensamentos.
           --Vamos, Fiona, vem aqui! O que tanto miras? H muito trabalho
     que fazer --a repreendeu Tina.
           Os ajudantes mais jovens, Cipriano e Julho, riscavam o dimetro da
     pista segundo as indicaes do Sixto, que necessitava muito espao para
     suas piruetas eqestres. Sacramento varria os tapetes que se colocavam
     no cenrio, e se cobria com um trapo o nariz e a boca para proteger-se da
     espessa poeirada que se levantava.
           --Seria melhor atirar estas porcarias aos porcos! J nem cor tm! --
     queixava-se sem deixar de varrer.
           --te cale! --ordenou Tadeo, comodamente sentado em sua cadeira.
           --Poderia ajudar em vez de sentar-se a miniar a essa Mona
     estpida --replicou Sacramento desafiante.
           Tadeo a olhou de esguelha. ficou de p e, depois de devolver ao
     Sisi a sua jaula, aproximou-se da jovem malabarista com as mos nas
     costas e a vista fixa no cho. Sacramento o olhava aproximar-se; deixou
     de varrer, apartou-se o leno do rosto e o olhou encorajada, lista para
     enfrent-lo.
           A bofetada de reverso que o propin Sarquis a atirou sobre o
     tapete. O dono do circo ficou, imvel, a uns passos da jovem
     esparramada. Tina arrojou o que tinha na mo e correu, com a Fiona por
     detrs, a socorrer a sua filha. Sixto contemplou um momento a cena e
     continuou dando ordens aos jovens.
           --Que me deite com sua me no significa que te converta em
     minha filha --disse Tadeo, com olhos de dio.
           --Tadeo, Por Deus! --gritou Tina, enquanto ajudava a sua filha a
     ficar em p.
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           --me solte, estpida! --vociferou Sacramento quando Fiona tentou
     tom-la pelo outro brao, e lhe deu um tranco que quase a tira ao cho.
           --Sim que  uma cadela retorcida, Sacramento. --Tadeo voltou
     para ataque--. Deixa-a, Fiona, no vale a pena. E me escute bem, em sua
     vida volte a me dar ordens ou as insinuar sequer. Est claro? Ou lhe
     encontraro degolada na sarjeta de algum caminho perdido.
           Fiona se estremeceu ao escutar essas palavras. Tadeo era mal-
     humorado, sim, mas aquilo era algo mais. Havia um pouco de promessa
     que se cumpriria nisso de "degolada em uma sarjeta".
           --Basta, Tadeo! Que estupidezes diz! --Tina estava a ponto de
     chorar--. Vem, vamos, filha.
           Tadeo e Fiona as seguiram com o olhar at que entraram na carreta.
     Sacramento ia sovando-a bochecha enquanto sua me, tomando-a pela
     cintura, murmurava-lhe algo ao ouvido.
           --Est bem, Fiona?
           A pergunta do Tadeo lhe resultou to estranha que o olhou sem lhe
     responder.
           --Pergunto se estiver bem, Fiona. Digo, porque essa idiota te
     empurrou.
           --Ah, sim, dom Tadeo! Estou bem, no foi nada!
           No lhe haveria flanco acreditar que de velho inculto e
     energmeno passasse a degollador de jovens malabaristas, mas, a doce
     homem preocupado por seu bem-estar? Isso j no poderia conceb-lo
     sequer como idia. Viu-o afastar-se, com esse andar de obeso torpe, em
     meio de uma fileira de maldies e flegos.
           Em uns dias mais fariam a primeira apresentao. O circo se
     converteu em tema de conversao para o povo inteiro; no s os
     meninos, mas tambm tambm as mulheres, e inclusive os homens,
     estavam desejosos de assistir  primeira funo.
           E apesar de que no havia uma alma em todo Tandil que no
     estivesse informado, dom Tadeo se encaprich como nunca em fazer
     propaganda. Durante dois dias, Fiona pintou uns psteres com
     aquarelas de cores vistosos e a lenda Circo Sarquis em tinta negra. Em
     realidade, preferia fazer isso em lugar de alimentar ao Sisi e aos cavalos,
     ou limpar ou cozinhar. Mas como tudo, as aquarelas lhe traziam
     lembranas que a atormentavam.
           Tadeo e Fiona, acompanhados pelos jovens ajudantes, foram 
     cidade a pegar os anncios. Sacramento morria de vontades de ir, mas
     seu orgulho lhe impedia de rogar. Desde dia da bofetada, no havia
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     tornado a cruzar palavra com o amante de sua me. Sentiu desejos de
     enforcar a Fiona com suas prprias mos quando a viu subir  carreta.
     Essa jovencita citadina, to refinada e bonita, crispava-lhe os nervos de
     cimes e inveja. Sixto estava louco por ela e agora at o Tadeo a tratava
     com amabilidade.
           Penduraram os psteres por toda parte. Debaixo do mostrador do
     negcio de abarrote, na porta da pulpera, no hotel, inclusive no edifcio
     da comuna. Ningum poderia evitar v-los.
           --Vocs dois, voltem para a carreta e esperem a --ordenou dom
     Tadeo.
           Sem dizer uma palavra, Cipriano e Julho os deixaram sozinhos.
           --Vem, Fiona, convido-te a tomar um gole --disse o velho.
           --Talvez seja melhor retornar, dom Tadeo, h muito trabalho que
     fazer.
           --Ah, menina! No diga isso que recorda a Tina. --antes de
     insistir, sorriu amavelmente--. Vamos, vamos, merece-te um gole.
           Tomou pelo cotovelo e a obrigou a entrar na pulpera. Ela
     mantinha seu corpo afastado do do Tadeo, que no deixava de atrai-la.
           --Que desejas tomar? --perguntou quando se sentaram.
           --Um copo de leite, por favor.
           --Um copo de leite?
           --Sim--murmurou Fiona, envergonhada.
           --Est bem. Pulpero, um copo de leite e outro de carne! Rpido!
           deu-se volta e, ao olhar a Fiona, j no era o mesmo homem que
     tinha estado vociferando ao dono da pulpera; seu olhar se suavizou.
           Colocou uma pequena bolsa sobre a mesa. Depois, arrastou-a para
     o extremo da mesa onde estava Fiona.
           --Isto  para ti --disse.
           A jovem tomou a bolsa e as mos lhe tremeram. Abriu o cordo
     que a envolvia e olhou dentro. Muitas moedas.
           --Por Deus, dom Tadeo, isto  muito!
           --No, Fiona. Devo-lhe isso. trabalhaste duro e  a melhor
     assistente que tive. Alm disso, a tambm vai o pagamento pelos
     psteres.
           Chegou o pulpero e lhes deixou a bebida. Fiona, com a bolsa ainda
     na mo, no sabia o que dizer. Nesse momento, um sentimento de
     ambio misturado com um pouco de necessidade imperiosa se
     apoderou dela. Alguma vez lhe tinha importado o dinheiro? Jamais.
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     Sempre o tinha tido, e em abundncia. Mas agora, no. Necessitava-o
     muito, muitssimo. Seu filho o necessitava.
           --Est bem, dom Tadeo, aceito-o. Obrigado.
           --Bem! --vociferou o homem ao tempo que atirava um golpe na
     mesa.
           Fiona lhe sorriu hipcritamente.
           --s vezes acredito... --retomou Tadeo--. Pulpero, outra carne! s
     vezes acredito que vm a verte a ti e no a mim, o grande mago Sarquis!
           Fiona tragou dificultosamente seu leite.
           -- muito formosa, sabia?
           Sarquis estirou sua mo gordinha para encontrar a dela. Fiona a
     tirou imediatamente fora de seu alcance.
           --Ey! O que acontece? S queria te tocar a mo.
           O aroma do leite comeou a invadi-la e um asco incontrolvel lhe
     revolveu as vsceras. de repente, a figura do Tadeo se fez imprecisa, e
     sentiu que o piso se movia. Sem querer, derrubou sua bebida ao cho.
     Logo, saiu aos tombos a tomar o afresco da rua.
           --O que te acontece?
           Ao cabo de uns instantes, e enquanto inspirava profundamente
     tratando de recompor-se, Fiona escutou a voz do Tadeo. Mais que as
     entender, adivinhou suas palavras.
           --Nada, nada, dom Tadeo. De repente me senti enjoada. Melhor
     ser retornar ao acampamento --respondeu com voz deprimida.
           Sem olh-lo, encaminhou-se  carreta. Com o Cipriano e Julho
     estaria a salvo.

            Sempre a levaria consigo, pendurada em seu fofoqueiro,
     enganchada a uma das baleias. Jamais a deixaria na carreta; no confiava
     em ningum. "Por dinheiro dana o macaco, verdade? Se no, olhem ao
     Sisi", pensava, enquanto terminava de costurar a bolsita com moedas a
     sua angua. colocou-se o vestido de assistente de mago e coloriu suas
     bochechas com carmim. Depois, saiu.
            Era a primeira funo e a gente comeava a chegar. preparou-se
     um lugar especial, sob um toldo, onde se localizariam as autoridades.
     At o padre viria.
            Dom Tadeo estava muito nervoso, porque, desde a de Buenos
     Aires, no tinham tido outra apresentao to importante como essa. De
     todos os modos, nada podia sair mau: tinham ensaiado at a indigesto.
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          O representante do Restaurador Rosas, o Brigadeiro Zola, chegou
     junto a sua mulher e a suas filhas; mais tarde, as autoridades da tropa, o
     comandante do exrcito de fronteira e o padre; at o mdico obteve um
     lugar de privilgio.
          --Boa tarde, Brigadeiro Zola,  uma honra o ter entre meu pblico.
     Voc honra meu espetculo com sua presena --saudou Tadeo, quase
     sem respirar, inclinando uma e outra vez para frente.
          --Por favor, senhora Zola. Passe, voc passe e fique cmoda.
     Cipriano! lhes sirva s filhas do Brigadeiro a limonada. Pai Octavio! Por
     fim se decidiu a vir. --Ao lhe beijar o anel, empapou-lhe o dedo.
          --Sim, filho, sim. A s diverso tambm  boa para o esprito --
     exortava o padre, enquanto se limpava sem dissimulao o dedo na
     batina--. No como essas peas de teatro francesas que, inteirei-me,
     esto estreando no Teatro da Vitria, em Buenos Aires --adicionou,
     indignado--. So um insulto  Igreja,  moral e aos bons costumes.
          --Meu marido e eu fomos  Vitria semanas atrs e vimos uma
     pera de... --A mulher da Zola se levou a mo ao queixo.
          --Donizetti, senhora --a ajudou seu marido.
          -- Ah, sim! E, qual era? A...
          --A favorita, senhora --disse Zola, enquanto a olhava
     envergonhado.
          --Mas no vimos nenhuma obra francesa, Pai --se atalhou a
     senhora Zola.
          --Estou seguro de que se no estarem de acordo com a causa
     federal, o governador no deixasse passar muito tempo antes das
     proibir... No se inquiete Pai Octavio --sentenciou o brigadeiro.
          --Isso espero, filho, isso espero.
          A figura do Sarquis, embutam:! em um traje vermelho e azul,
     apresentou-se no meio do cenrio e vociferou o incio do espetculo.
     Sempre comeavam igual, com o Cipriano e Julho disfarados de
     palhaos fazendo tolices. Os meninos desfrutavam de muito esse
     nmero e esperavam ansiosos a caramelada que repartiam os
     comediantes antes de abandonar o cenrio. Depois, continuava o
     nmero das malabaristas, um dos que mais agradava ao pblico. E
     quando chegava o turno do mago Sarquis, Fiona j sabia que os homens
     lhe assobiariam, gritariam-lhe obscenidades e lhe fariam gestos
     estranhos que ela nunca compreenderia. Ao princpio, todo aquilo a
     tinha deslocado; ficava como estaqueada em meio da pista, sem poder
     mover-se; mas agora, acostumou-se e atuava como se ningum
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     reparasse em sua presena. O povo do Tandil no foi a exceo e,
     novamente, teve que armar-se de valor para suportar os assobios e as
     caretas carregadas de lascvia.
           Quando aparecia no cenrio com Sinfonia e Merina detrs, Sixto
     luzia formidvel em seu traje de couro. Os espectadores continham o
     flego enquanto o cavalo galopava e Sixto fazia a vertical sobre suas
     arreios. Aclamavam-no ao v-lo erguer-se sobre os animais, com um p
     em cada arreios, uma mo estendida agarrando as rdeas e a outra
     saudando o pblico. Logo, subia  gua pelas ancas e descendia pelo
     flanco quando o animal galopava a grande velocidade; logo que tocava o
     piso com a ponta da bota e se acomodava rpido no lombo da Merina. E
     de novo descendia pelo outro flanco, agarrado s crinas da gua. Repetia
     estas sortes vrias vezes, muito depressa, e o pblico aplaudia eufrico.
           Quando Merina e Sinfonia terminaram sua apresentao, Tadeo
     anunciou ao pblico que o espetculo tinha finalizado. Todos
     aplaudiram uma vez mais antes de abandonar suas localizaes.
           Sem perder um minuto, Sarquis se aproximou do grupo de
     espectadores de luxo, e os convidou a uma taa, que se serviria em sua
     carreta, para festejar o xito da primeira apresentao. O brigadeiro Zola
     despachou a sua mulher e a suas filhas e se encaminhou com o cirquero
     a sua toca, junto ao padre e s demais autoridades militares.
           Beberam muito, e j todos um pouco brios, comearam a
     abandonar o carromato. O primeiro em ir-se foi o Pai Octavio, com a
     desculpa da missa das seis; mais tarde, o comandante do exrcito de
     fronteira, que tinha que partir muito cedo pela manh; e assim todos, at
     que Zola e Sarquis, apoltronados sobre umas almofadas, sem soltar o
     copo sempre cheio, ficaram sozinhos.
           --Assim pensa seguir at Baa Branca, dom Tadeo.
           --Sim, brigadeiro. Dizem que  uma cidade importante.  a onde
     se faz bom dinheiro com estes espetculos.
           --Claro, compreendo.
           --Outra taa, brigadeiro?
           --Sim, obrigado.
           Tadeo verteu a bebida no copo.
           --E me diga, dom Tadeo, quem  essa preciosura que o acompanha
     a voc em seu nmero de magia?
           --Quem? Ah, sim, Fiona!  bonita, verdade?
           --Fiona? Fiona, o que?
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           Tadeo franziu o sobrecenho e pensou uns segundos. No tinha a
     menor ideia; jamais lhe tinha perguntado o sobrenome.
           --A verdade, brigadeiro, no sei. O nico que me importa  sua
     cara de anjo e seu corpo esplndido; o resto no me interessa... --disse,
     em meio de uma forte Isso gargalhada  o que realmente atrai ao
     pblico.
           --Informou-me o comandante da fronteira que nas ltimas
     semanas houve muitos ataques de ndios. Estou pensando que se voc
     mantiver a idia de viajar para o sul, pode resultar muito perigoso.
     Algum muito mau poderia atacar sua caravana e mat-los a todos.
           --A minha caravana? No, brigadeiro! Faz mais de dez anos que
     sulco a Confederao do norte ao sul, e deste ao oeste, e jamais tive
     problemas com os ndios.  gente tola e sempre soube mant-los a raia.
           --No, no, dom Tadeo, agora  distinto. Andam como loucos por
     no sei que assunto. Destroam quanta caravana encontram, procurando
     vingana por algo.
           Sarquis pigarreou nervosamente e se ergueu nos almofades.
           --Ah... E, sabe-se que assunto  esse que os tornou como loucos?
           --No. Mas parecem feras. Por isso lhe digo, dom Tadeo,  muito
     perigoso que siga alm do Tandil. A menos que... bom, a menos que
     aceite uma escolta de vrios soldados bem armados que eu posso lhe
     oferecer.
           --Sim? Faria isso por mim, brigadeiro?
           --Bom, dom Tadeo, como homem de negcios compreender que
     tudo tem seu preo.
           --Sim, claro. E, qual  o preo?
           --Ver, em realidade, no lhe custasse muito. S lhe peo que deixe
     a seu assistente o tempo que voc esteja de viagem.
           --A meu assistente?
           --Sim.
           --A Fiona?
           --Sim.
           A verdade era que Zola se consumia de desejo pela Fiona. Tinha-a
     visto vrias vezes no centro do Tandil e, do primeiro momento, no
     tinha deixado de pensar nela. Fantasiava dia e noite com seu rosto
     soberbo, com seu corpo nu e transpirado junto ao dele, com sua boca,
     que imaginava capaz de lhe deixar sulcos candentes nas costas. E essa
     tarde, no meio do cenrio, com esse traje dourado que lhe rodeava a
     cintura e revelava impdicamente seus seios... Ah, no suportava mais!
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           Tadeo ficou pensativo uns instantes antes de responder.
           --Est bem, brigadeiro --disse finalmente--. Volte amanh pela
     tarde; terei tudo preparado para voc.
           --Cipriano! Julho!
           Tadeo comeou a cham-los quando, por fim, o brigadeiro Zola e
     seu cavalo se perderam na escurido.
           --Cipriano! Julho! --insistiu, aos gritos.
           --Sim, patro, voc mande.
           --O que acontece? Esto surdos ou o que?
           -- que estvamos na carreta. Faltou algo por fazer, dom Tadeo?
           --Preparem todo que samos agora mesmo para Baa Branca.
           --Agora?
           --Sim, agora! Ou me esqueci de que devia lhes pedir permisso a
     vocs? Par de inteis! Vamos, movam esse traseiro que em menos de
     uma hora quero estar em marcha!
           --Sim, patro, sim.
           --Tina! --gritou--. Tina, vem aqui!
           --O que acontece, Tadeo? Tornaste-te louco? --perguntou a
     mulher com cara de dormida, aparecida na janela do carromato.
           --Prepara tudo. Partimos agora mesmo para Baa Branca.
           --Que o que?
           --O que acontece, mame?
           --Voc te cale e comea a preparar tudo! --ordenou Tadeo a
     Sacramento, de fora.
           --voc cale-se! Estamos dormindo!
           --Sacramento, por favor! --exclamou Tina--. O que  isso de que
     vamos agora, Tadeo? Agora mesmo?
           -- Sim, mulher. Em que outro idioma tenho que lhe dizer isso
           -- All, no, Tadeo! Eu no me movo do Tandil --se encaprich
     Tina.
           Saiu da carreta e, com os braos cruzados, olhou de marco em
     marco a seu amante.
           --Ah, sim. E, poderia me informar, sua majestade, o motivo? --
     perguntou Sarquis quando a teve em frente.
           --Voc me prometeu que se a primeira funo era um xito,
     poderia ir ao povo a me fazer esses vestidos novos que necessito. J
     escolhi os gneros; at falei com a costureira e desenhamos os modelos.
     Tadeo, por favor, s sero dois ou trs dias mais! No pode esperar?
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           Sarquis arqueou as sobrancelhas, como se estivesse pesando os
     prs e os contra.
           --Est bem, ficar alguns dias no Tandil, com o Cipriano --disse,
     com magnanimidade--. Logo, alcanaro-nos pelo caminho.
           --Obrigado, querido, obrigado!
           Tina lhe equilibrou ao pescoo e lhe estampou um sonoro beijo na
     boca.
           -- Vamos, te tire! E comea a preparar tudo. Sem Tina, tudo seria
     mais fcil.
           A cortina estava aberta e a luz da lua se filtrava na carreta. Por isso
     Fiona pde ver que essa massa relatrio que se encarapitou sobre ela,
     que lhe manuseava os seios e tratava de lhe tirar a camisola, era dom
     Tadeo. O flego a lcool a decompunha e o peso de seu corpo a deixava
     sem respirao.
           --Basta! -- gritou, tratando de tirar-lhe de cima--. Saia, asqueroso!
           --Vamos, Fiona, preciosura --dizia o cirquero, muito bbado--.
     me D um besito... Vamos, sei boa comigo..,
           --Auxlio! --voltou a gritar Fiona.
           --O que acontece? --perguntou Sacramento, mais dormida que
     acordada.
           --Sacramento, me ajude! --suplicou Fiona.
           Por um instante, Tadeo afastou o rosto dela e olhou  filha de Tina.
           --Vamos, Sacramento! Sal daqui!
           A jovem, sentada em sua cama de armar, olhava a cena sem
     compreender.
           --Sacramento, me ajude! --gritou Fiona uma vez mais.
           --te cale! --ordenou Sarquis lhe tampando a boca--. Sacramento,
     estpida, sal daqui!
           --Como voc ordene, patroncito. Que o desfrute, Fiona --disse
     com ironia, antes de deixar a carreta.
           Tadeo comeou a rir, e Fiona a sacudir-se sob seu corpo obeso.
     Com as mos lhe atirava golpes nas costas que no lhe faziam nada.
     Sacudia as pernas em forma frentica mas no conseguia mov-lo nem
     um centmetro. Ao fim, mordeu-lhe a mo e pde voltar a gritar.
           --Socorro! Sixto, me ajude!
           --Aaayyy, cadela maldita! --uivou Tadeo.
           O homem se incorporou apenas e a esbofeteou com fora.
           --te cale ou lhe degola!
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           E como Fiona se movia, o propin outro golpe. O nariz comeou a
     lhe sangrar e lhe custava respirar.
           Tadeo nem se chateou; seguiu com suas carcias e suas frases
     luxuriosas. Era uma mole para a Fiona, que tinha ficado inerme debaixo
     dele. Enquanto lhe tampava a boca com uma mo, comeou a lhe
     arrancar a camisola com a outra. Seus peitos ficaram ao descoberto e
     foram presa fcil do Sarquis em um instante. Fiona, aterrada, no sabia o
     que fazer. Voltou a lhe morder a mo: no lhe fez nada; arranhou-lhe a
     cara, mas o homem, acalorado de luxria, apenas se se alterou. Estava
     como posedo. de repente, comeou a tir-los calas, mas com uma mo
     lhe resultava difcil.
           --Auxlio! --exclamou Fiona quando Tadeo lhe liberou a boca por
     um momento para desfazer-se das calas.
           --te cale! --Tampou-lhe a boca com um trapo--. Vamos, Fiona, sei
     boa comigo. Eu o fui contigo, aceitou muito gostosa as moedas que te
     dava. Crie que lhe dava isso porque  uma boa assistente? --Comeou a
     rir--. No, Fiona! Agora dever pagar por cada uma dessas moedas que
     te dei de presente.
           Fiona sentiu que lhe rasgava a roupa interior. Em seu desespero,
     tratou de mover a cabea, as pernas, os braos, mas cada parte do corpo
     parecia lhe pesar toneladas. No conseguia nada; s conseguia cansar-se
     mais. Entre o sangue que lhe emanava do nariz, e o trapo na boca, quase
     no podia respirar.
           de repente, o peso do Tadeo cedeu e deixou de manuse-la.
     incorporou-se em cima dela, e dirigia seu olhar  porta da carreta.
           --O que acontece, Sacramento?--vociferou Sarquis--. Voc fica
     aquieta! --ordenou a Fiona perto da cara.
           Nesse breve instante de alvio, Fiona escutou um grito da filha de
     Tina, e a Merina e Sinfonia que relinchavam enlouquecidos. Algo grave
     devia estar acontecendo fora.
           --O que acontece? --voltou a gritar Tadeo, sem sair de em cima de
     Fiona--.  que nem sequer posso estar tranqilo um instante? --
     vociferou, iracundo.
           A porta da carreta se abriu com uma violncia inusitada. Tadeo se
     apartou torpemente da Fiona, que por fim pde ver-se sacada daquele
     peso entristecedor. Em meio da confuso que seguiu ao alvio, quo
     ltimo a jovem pde ver foi uma silhueta colossal que irrompia
     velozmente na carreta. Depois, j sem foras, Fiona se desvaneceu.
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                                      Captulo 19
           A velha friccionava em crculos o ventre da Fiona, olhando para
     cima e profiriendo umas letanas incompreensveis. Cada tanto,
     aproximava uns ramos fumegantes ao rosto da jovem, e repetia a
     invocao.
           --Est prenhe --sentenciou ao fim a velha, sem olhar ao homem
     que, de p na porta da choa, seguia com ateno seus movimentos.
           --Ja! Com razo tanto dramalho --disse o homem, antes de
     retirar-se.
           Fiona comeou a despertar; custava-lhe levantar as plpebras. Via
     tudo nublado e escutava rudos estranhos a seu redor. Tratou de
     incorporar-se, mas no o conseguiu; estava muito enjoada. esfregou-se
     os olhos, e embora ao cabo de um momento pde ver melhor, no
     conseguiu reconhecer o lugar.
           --Onde estou?
           incorporou-se, assustada, e uma repentina descompostura a
     obrigou a desistir de seu intento. Um rosto enxuto e enrugado que a
     olhava sem expresso se aproximou do dele.
           --Fica aquieta, m'filha, no est bem. Deve ficar aquieta.
           Fiona a olhou sobressaltada.
           --Filho, vem, acaba de despertar! --gritou a anci.
           --Onde estou? --voltou a repetir, a ponto de chorar.
           --Est em minha casa, senhora de Silva --respondeu uma voz
     masculina.
           Fiona se ergueu um pouco, o suficiente para ver um homem de
     mdia idade, de p a uns passos dela. Contemplou-o uns segundos e
     voltou a baixar a cabea, confusa.
           --Deus Santo! O que aconteceu? Onde estou? Quais so vocs?
           --Tranqila, m'filha --disse a anci--. me Traga gua --lhe
     ordenou ao homem.
           Fiona bebeu a gua com lentido, ajudada pela velha. Depois,
     retornou a sua posio inicial; no suportava estar muito tempo erguida.
           --No se lembra de mim, senhora? --perguntou o homem, j junto
     ao leito.
           Fiona o olhou atentamente uma vez mais.
           --Sanc? Sanc Niet?  voc?
           --Sim, senhora, o mesmo.
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           --OH, Deus, no compreendo nada!
           --Menina, no tente te levantar! --repreendeu-a a anci, e a
     obrigou a recostar-se.
           --No se altere, senhora. Eu posso explicar-lhe tudo.
           O homem aproximou uma banqueta rstica ao camastro no que
     jazia Fiona.
           --dormiu por mais de oito horas --lhe explicou.
           --Quo ltimo recordo... No sei, tudo  to confuso. Estava
     dormindo na carreta Y... Bom...
           calou-se, angustiada; as vises que iam a sua mente eram
     espantosas.
           --Est bem, senhora, j passou tudo. No pude salv-la a ela, mas
     quis Soychu que a salvasse a voc. Igual a voc a mim, aquela vez, em La
     Candelaria. Agora estamos  mo.
           --Mas, o que aconteceu, Sane? O que aconteceu os do circo?
           --Com os do circo, nada. Foi o dono o que recebeu seu castigo.
           Sanc disse algumas palavras mais em outra lngua, que Fiona no
     compreendeu.
           --Esse Sarquis era um mau inseto, senhora, um miservel. Fazia
     tempo que o buscvamos... --golpeou-se a mo com o punho fechado--.
     O que tentava fazer com voc, senhora, fez-o com minha menina.
           --Sua menina?
           --Minha filhinha. Minha filhinha Ayeln. --Lhe fez um n na
     garganta ao mencionar seu nome--. Desculpe, senhora, devo ir --disse
     com outra voz.
           Sanc Niet partiu. Fiona, desconcertada, olhou  anci como lhe
     pedindo uma explicao.
           --No pode esquecer. O esprito de minha neta vaga por esta
     aldeia e no o deixa em paz. Talvez, agora que... De onde conhece meu
     filho?
           --Em, bom... Sanc trabalha durante a temporada da tosquia na
     estadia de meu marido. Desde a o conheo.
           --Ah...Tem marido.
           --Tinha --replicou Fiona.

           O ndio Sanc Niet sempre tinha odiado aos crioulos; tinham-lhes
     tirado a terra, tinham dividido s tribos, e as tinham confinado a lugares
     remotos e ridos. Agora, os ndios necessitavam deles para subsistir. Por
     isso, cada vez que Sanc estava escasso de reais, deixava sua aldeia rumo
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     a Buenos Aires. A sempre conseguia um bico. Mas desde que trabalhou
     para dom de Silva, nunca mais procurou outro patro; embora era
     estrito, tratava-os bem. Alm disso, dava-lhes boa comida e albergue
     cmodo. Quo nico terei que evitar para no enfurec-lo era
     embriagar-se, brigar ou incumplir a tarefa. Sentia a de Silva como a um
     deles. Era bastardo e ningum sabia quem eram seus pais; s conheciam
     a negra Candelaria, a mulher que o tinha criado.
           O respeito que tinha por de Silva se desvaneceu quando o patro se
     casou com essa estirada da Malone. No obstante, esse ano tambm lhe
     pediu trabalho, e de Silva o levou a trabalhar em sua nova aquisio, A
     Candelaria.
           Uma noite, Sanc no pde controlar-se e se esvaziou uma garrafa
     de carne ele sozinho. Estava to bbado que nunca pde recordar como
     comeou a briga com esse peo; ao cabo de umas horas despertou em
     um celeiro. A cabea lhe dava voltas e tinha desejos de vomitar. Ao ficar
     de p, perdeu o equilbrio e caiu ao cho corno um saco de batatas.
     Sentiu um ponto na perna direita e se mordeu a mo para no gritar de
     dor. Um cuchillazo bem atirado lhe tinha aberto a perna em dois.
     Quando pde examinar melhor a ferida, compreendeu que a coisa era
     grave.
           No pde ter pior sorte; nesse momento entrou em celeiro a esposa
     de Silva junto a sua criada. Sanc tratou de esconder-se depois de uns
     tablones, mas seus movimentos eram torpes e no passou muito antes
     de que o descobrissem. Mais tarde, quando Fiona e Maria lhe limparam
     a ferida, e depois, quando a curaram durante dias, teve que trag-los
     qualificativos com os que tinha adornado  mulher do patro. Fiona
     jamais lhe perguntou como se machucou; limitou-se a ajud-lo, sem
     molestos interrogatrios. Ele se teria morrido da vergonha se sua
     senhora se inteirava de que, por bbado, tinha-lhe acontecido o da
     perna. Sanc no podia reprimir a risada quando recordava o medo que
     havia sentido de s pensar na ira que se teria dado procurao de Silva
     se tivesse conhecido a verdade.
           --Se o patro se inteira que estiver aqui ferido, sem fazer nada e
     cuidado como um rei me mata, senhora --repetia Sanc uma e outra vez.
           --Nunca vai se inteirar --assegurava Fiona.

          Sanc Niet apareceu pela entrada da choa. Da, divisou a Fiona
     junto a sua esposa. Pareciam felizes juntas, fazendo po. Tinham
     passado vrios dias desde que a encontrasse na carreta do circo e no
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     sabia o que fazer com ela. Embora lhe devia a vida, sua dvida com de
     Silva no era menor. Alm disso, se o patro se inteirava de que a
     mantinha oculta em sua aldeia, mataria-o. Mas lhe tinha prometido a
     Fiona no entreg-la e cumpriria sua palavra.
          Voltou o olhar a ela novamente. Apesar de que tinha um embarao
     avanado, apenas se lhe notava o ventre. Estava muito magra e isso o
     consternava ainda mais. Se algo lhe acontecia ao primognito de Silva...
     Sentiu o peso do mundo sobre seus ombros.

          --Quer falar do Ayeln? -- perguntou-lhe um dia Fiona. Tinha-o
     procurado comprido momento, at que o encontrou sentado  borda do
     arroio. Com um palito, desenhava coisas sem sentido sobre a restinga e,
     cada tanto, suspirava.
          --No --respondeu Sanc Niet sem sobressaltar-se.
          --Talvez te ajude. Posso me sentar?
          Sanc lhe fez lugar a seu lado.
          --Vamos, Sane, cuent...
          --Voc no compreende, senhora, a angstia que se sente quando
     algum da famlia desaparece sem deixar rastro. --Cravou-lhe um olhar
     carregado de inteno--. depois de que Ayeln escapou, busquei-a
     durante semanas inteiras, mas no pude encontr-la.
          --por que escapou? --perguntou Fiona timidamente.
          --Porque eu no lhe permitia casar-se com um crioulo. Martn se
     chamava... Tinha-o conhecido na cidade. escaparam juntos e no
     soubemos mais deles; at que o moo chegou um dia aqui com a notcia.
          --Que notcia?
          Por um momento, Fiona pensou que o ndio no voltaria a falar.
     Baixou a cabea, retomou seus desenhos na borda e suspirou vrias
     vezes antes de continuar.
          --Ao pouco tempo de escapar, ela e Martn se uniram ao circo. Ali
     trabalhavam; tinham comida e teto. Mas esse maldito canalha do Sarquis
     se enlouqueceu com meu Ayeln e uma noite... bom, fez-lhe o que a
     voc no pde.
          --E Martn? No estava com ela?
          --Essa noite, o muito canalha do Sarquis o tinha mandado longe
     com no sei que pretexto. Assim que se divertiu a suas largas... Filho de
     puta... Maldito... Depois a enforcou e a jogou em um ravina, aonde a
     encontrou Martn. O circo tinha desaparecido Y... Por uns minutos, o
     ndio no falou. Abria grandes os olhos e tinha a cara avermelhada.
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          --Mas j est. Eu mesmo lhe abri a garganta de lado a lado com
     meu faco. Sarquis, maldito... --concluiu com uma mescla de fria e
     desgosto.
          Fiona se estremeceu. Logo, aproximou-se um pouco mais ao Sanc e
     tomou a mo.
          --Sinto-o muito, Sane.
          --Est bem, senhora. Agora s tenho que encontrar um pouco de
     paz.
          Permaneceram comprido momento calados, acompanhados pelo
     murmrio da gua do arroio correndo entre as pedras e o chiado
     incansvel das cigarras nos espinillos. Fiona se tinha tirado os sapatos e
     se encharcava os ps na gua fresca. Sanc continuava com seu palito
     sobre a restinga.
          --Ai! --exclamou Fiona, levando-a mo ao ventre--. Se moveu,
     Sane, moveu-se! Vamos, ponha a mo.
          --No sei se dever...
          --Vamos, no seja tolo!
          Fiona o anastr a mo para ela, e fez que a apoiasse sobre seu
     regao.
          -- certo, move-se! --exclamou o ndio, assombrado. Sorridente,
     manteve a mo uns segundos sobre o ventre da Fiona. Depois, retirou-a
     de repente. O gesto de seu rosto tinha trocado; agora estava srio--.
     Senhora Fiona, senhora Fiona... O que farei com voc?
          A jovem baixou a vista, tirou os ps da gua e comeou a fic-los
     botas de cano longo.
          --Senhora Fiona, tenho que lhe dizer algo, no se zangue comigo.
     A semana passada, quando estive em Buenos Aires, andei averiguando
     de seu marido, sabe?
          Fiona levantou a vista.
          --Dizem que est como louco procurando-a, que no faz outra
     coisa h meses. deixou a administrao das estadias de Rosas, e as suas
     esto a cargo do Celedonio e Eliseo. Dizem que no para um minuto de
     procur-la. Tem vrios grupos percorrendo a Confederao e at oferece
     recompensa a quem pode lhe dar algum dado. Vrios lhe quiseram
     vender informao falsa, mas ele se deu conta. No deve faltar muito
     para que ele ou algum de seus grupos venham por esta zona. O que
     faremos se isso passa? --O ndio deixou vagar a vista pela restinga--.
     Pobre homem! Eu sei o que est sentindo. Est desesperado Y...
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           --Basta. Sane! Basta, Por Deus! Crie que tudo isto  fcil para mim?
     Crie que no desejaria estar junto a ele? --Comeou a choramingar--.
     Ele me enganou, Sane, disse-me que me amava e no era verdade. Isso
     jamais poderei perdoar-lhe
           Soluou um momento, cabisbaixa, mordendo-os lbios, e com os
     olhos apertados para que Sanc no se desse conta. Depois, recomps-se
     e lhe pediu que a deixasse sozinha. O ndio se perdeu entre a espessura
     do monte; ento, Fiona se recostou sobre a borda e chorou.
           Fiona se sentia bem a, embora no fora mais que um casario de
     tijolo cru e palha e apesar de que devia trabalhar duramente todo o dia
     ajudando s mulheres. Certo que, de quando em quando, angustiava-se
     pensando no futuro. Voltaria algum dia? Tinham passado tantas coisas
     em sua vida que temia responder essa pergunta. Agora no lhe
     resultaria to fcil retornar. Pensava em sua famlia, na Maria, no Eliseo,
     e o corao lhe contraa de angstia. Estavam sofrendo. Ela os estava
     fazendo sofrer. Isso a torturava dia e noite. Mas no se sentia capaz de
     voltar, no ainda. Ainda no contava com as foras suficientes para
     encar-lo; o rosto do Juan Cruz aparecia uma e outra vez em seus
     pensamentos. Fiona sentia que aquilo a desenquadrava. Mas devia ser
     forte e suportar o tortura, logo chegariam tempos de paz; ento, ela
     poderia voltar para enfrent-lo. De Silva era um homem inteligente,
     muito hbil; se existia o menor espiono de debilidade nela, Juan Cruz
     saberia encontr-lo e aproveitar-se dele. E ela ficaria a sua merc, como
     sempre. Devia pensar.
           --Olhe, Fiona, o que encontrei!
           A me do Sanc a resgatou de suas reflexes.
           --O que, Aimara?
           --Isto era de meu filho. Olhe... Encontrei-o entre umas coisas
     velhas, talvez sirva para o enjeitado --disse, lhe roando o ventre.
           Fiona tomou o objeto alhada e lhe deu as obrigado.
           --Que pequeita --disse Aimara, observando a ropita.
           --Voc a fez?
           --Claro, m'filha. Quem mais se no? antes de que nascesse Sanc
     Niet, passei-me dias inteiros costurando e costurando.
           --Sanc Niet... --murmurou Fiona para si--. Que nome estranho,
     verdade? No se parece com nenhum dos outros nomes indgenas que
     conheo.
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          -- que no  nome pampa. Meu marido o ps. Ele me disse que
     era nome de uma tribo de terras muito longnquas, muito mais velhas
     que estas.
          --Sabe o que significa?
          -- o nome de uma lenda, mas no recordo seu significado.
          --De uma lenda?
          Algum chamou a Aimara e a pergunta da Fiona ficou sem
     resposta.

           Essa noite Fiona se sentia mais triste que de costume. O fogo e
     todos em torno de recordavam aos pees de La Candelaria, sentados ao
     redor do fogo, contando histrias de almas e espritos malignos. Muitas
     vezes, de Silva se unia a sua gente nessas reunies e no voltava at
     muito tarde na noite. Fiona permanecia acordada at que o escutava
     entrar em seu dormitrio; s ento dormia. Se faziam o amor quando ele
     retornava, Juan Cruz estava suado, cheirava a fumaa e tinha o cabelo
     revolto. A pele da Fiona se arrepiou com a lembrana e baixou a vista
     para que ningum a visse perturbada.
           O som montono da dana que danavam ao redor da fogueira a
     atraiu de novo.
           --Senhora Fiona. --Sanc Niet se sentou a seu lado--. Se sente
     bem, senhora?
           Fiona o olhou aos olhos e Sanc lhe sustentou o olhar.
           --Vamos, Sane, me conte a lenda de seu nome --lhe pediu.
           Algum da tribo, perto deles, escutou  senhora da cidade e se uniu
     a seu pedido.
           --Anda, Sane, nos conte a lenda.
           A dana terminou e os ndios permaneceram em silencio em torno
     do fogo, esperando a histria. Por uns momentos, s se escutou o
     crepitar dos lenhos e os uivos de algum animal em zelo perdido no
     monte.
           Com voz tranqila, Sanc comeou o relato.
           --Faz muito tempo j, muito antes de que o crioulo chegasse a
     estas terras, muitssimo antes, existiam duas tribos, muito capitalistas as
     duas. Eram vizinhas desde sculos e sempre tinham estado em guerra.
     Milhares de homens morriam nas batalhas e a populao diminua sem
     cessar. Ento, os caciques das tribos, causar penas por tanto sangue e
     tanta morte, decidiram fazer a paz e acabar por fim com essa guerra que
     nem sequer recordavam por que seus ancestros tinham comeado.
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           Os chefes das tribos se reuniram em um monte afastado de seus
     territrios e ficaram de acordo em no que voltariam a guerrear. E para
     selar essa promessa, decidiram casar a seus filhos para que a
     descendncia unisse as duas tribos em uma sozinha, poderosa e rica. E
     assim o fizeram. O cacique da tribo do norte entregou a sua filha mais
     bela e mais inteligente e o cacique do sul deu a seu nico filho. A jovem
     se chamava Tamlika, que significa "eterna", e o jovem se chamava Sanc
     Niet, "que busca".
           A moa era to bela e acordada que Sanc Niet no demorou muito
     em apaixonar-se por ela. Tamlika, um pouco presumida e rebelde,
     tambm o amava, a sua maneira. Viviam felizes em um palcio que
     ambos os caciques tinham construdo e adornado com as coisas mais
     custosas que encontraram.
           Ao pouco tempo, os caciques morreram e Sanc Niet foi o chefe de
     todos. Era um bom cacique e a gente de ambas as tribos o amava. Mas
     havia algum que o detestava: um de seus cunhados, o irmo menor da
     Tamlika. O jovem, pouco inteligente e muito invejoso, tinha desejado
     sempre a morte de seu pai para apoderar-se da tribo e mand-la a seu
     desejo. Por isso, o fato de que se uniram as duas tribos e o resultado
     dessa unio, que seu cunhado fora o chefe de tudo, levavam-no, dia a
     dia, a odiar cada vez mais ao Sanc Niet. Com o corao cheio de
     perfdia, encaminhou-se uma tarde a visitar sua irm Tamlika ao palcio
     do cacique. Sua irm, que o queria muito, alegrou-se de v-lo. Ao pouco
     momento de chegar, o irmo disse a quo jovem seu marido tinha
     assassinado aos dois caciques, o do norte e o do sul, para apoderar-se de
     tudo e ser o chefe supremo por sempre. Alm disso, disse-lhe que Sanc
     estava planejando matar a toda a famlia da Tamlika, inclusive a ela
     mesma, para no ter que compartilhar seu poder e fortuna com
     ningum. "Para ti disps o tortura mais horripilante, porque te odeia
     mais que a ningum e deseja verte sofrer." depois de mentir, o irmo da
     jovem partiu do palcio.
           Tamlika, que com o passado do tempo tinha chegado a adorar ao
     Sanc, voltou-se louca da fria e comeou a gritar e a romper tudo a seu
     redor. Odiou a seu marido com todo seu corao e quo nico desejou
     foi v-lo padecer. Abandonou o palcio, cheia de rancor, e correu pelo
     monte pensando em como machucar ao Sanc. Sem dar-se conta, chegou
     a uma zona proibida para ela, a que s podiam entrar os sacerdotes e
     suas vtimas. Era a fossa onde se sacrificava s jovens vrgenes para
     apaziguar a ira dos deuses. Tamlika se aproximou do bordo do poo e se
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     atroj dentro: preferia morrer antes que cair em mos de seu marido.
     Mas como no era virgem, os deuses se enfureceram com ela, tiraram-na
     das vsceras do fossa e a converteram em eucalipto, plantando a  borda
     do poo.
           Ao inteirar-se de que sua mulher tinha desaparecido, Sanc Niet
     chorou. Ao dia seguinte, comeou a procur-la e no deixou rinco de
     seu territrio sem explorar. A perda da Tamlika o atormentava e no o
     deixava em paz. Sentia saudades tanto que cada noite dormia chorando.
     Seu rosto se tornou da cor das cinzas e seus cabelos estavam cada vez
     mais encanecidos.
           Um dia, Sanc chegou  zona proibida do poo. Sem saber onde
     estava, aproximou-se do fosso e o contemplou por uns minutos. Depois,
     recostou-se sobre o tronco da Tamlika, ficando dormido. Sua esposa o
     chamava do interior da rvore, mas Sanc no a escutava. Estava
     arrependida e sofria pela dor do cacique, porque os deuses lhe haviam
     dito que o de seu irmo era mentira. Tamlika o chamava, uma e outra
     vez, mas o jovem no a escutava e continuava dormido.
           Os deuses, que sabiam que Sanc era um bom homem, que amava a
     seu povo e respeitava aos supremos, tiveram piedade dele.
           Ento, despertaram. Quando o jovem abriu os olhos, esqueceu-se
     de tudo. Seu rosto era vioso novamente e seu cabelo to negro como
     antes. de repente, tornou-se para trs: do fosso das vrgenes emergia
     nesse momento uma jovem muito formosa que lhe sorriu ao v-lo. Sanc
     se apaixonou por ela e, sob o eucalipto, pediu-lhe que fora sua esposa.
           Por isso, essas gotas grosas e pegajosas que jorram do tronco do
     eucalipto so as lgrimas da Tamlika, que nunca deixou de chorar pelo
     amor perdido do Sanc Niet.

          Fiona despertou sobressaltada e olhou, aturdida, a seu redor.
     Alguns ndios dormiam perto dela, junto ao fogo. O fogo j no existia,
     s algumas brasas ainda incandescentes. Ainda no tinha amanhecido,
     embora o cu estava claro no horizonte.
          Tratou de ficar de p, mas no o conseguiu; tinha as pernas
     intumescidas e a cabea lhe pesava. Primeiro se sentou; depois, pouco a
     pouco, levantou-se. Caminhou entre as gente dormidas procurando a
     Sane. Foi at a choa do ndio e apareceu pela abertura. Sua esposa
     dormia sozinha no jergn. perguntou-se, intrigada, onde poderia ach-
     lo.
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           encaminhou-se ao arroio e o encontrou sentado sobre um tronco,
     desenhando com um palito sobre a restinga, como sempre. aproximou-
     se dele sigilosamente; no desejava sobressalt-lo. Toda estava to
     quieto ali que tampouco queria romper o silncio do lugar. Por fim,
     chamou-o.
           --Sanc...
           O homem lhe dispensou uns olhares aprazveis, sem dizer uma
     palavra. Fiona fixou os seus nos olhos escuros do ndio; ento, pediu-
     lhe:
           --me fale de Silva, Sanc.
           Fiona se sentou ao lado do homem e se disps a escut-lo. Sanc
     Niet arrojou o palito ao rio e se levou as mos  cabea, acomodando o
     cabelo. Depois, olhou um momento a corrente da gua e suspirou.
           --Sabe que  o que mais respeitamos de seu marido, senhora? Que
      um de ns. Se senhor, de Silva  igual a cada um de ns.  bastardo,
     alm de um... como  que chamam vocs aos pobretones que se fazem
     ricos?
           Fiona no falou. Permanecia muda escutando-o e olhando-o.
           --Um mal-educado!--recordou de repente Sanc Isso Niet ; um
     tipo sem linhagem que por um golpe de sorte se faz muito rico. Bom, de
     Silva  isso, rico, mas com um passado no muito distinto ao meu ou ao
     do Celedonio.
           O ndio tomou uma ramita do cho e comeou a mastig-la. No
     falou por compridos minutos, tranqilo e pensativo como estava de
     repente, pareceu encontrar sua linha de argumentao.
           --O senhor de Silva conhece o trabalho como ningum No h em
     toda a Confederao homem que conhea melhor as tarefas de uma
     estadia que seu marido, senhora.
           Olhou-a. Fiona baixou a vista, peitilho no se sentiu triste. Um
     calor lhe invadiu o peito, orgulhosa de escutar essas palavras. Sim, Juan
     Cruz amava o que fazia, por isso o fazia bem. Seus campos eram dos
     mais ricos; sua salga, o mais importante e prospero, montava como
     ningum; era um prazer para a Fiona ver como dominava a seu padrillo
     maero e dobr-lo a vontade. Tal como tinha feito com ela. Esses dias de
     dios e lutas voltaram para sua mente e a fizeram sorrir.
           --O patro no teme a nada. No tem medo de ench-las botas de
     bosta, nem de ajudar a uma gua em um parto.
           A jovem recordou aquele dia no celeiro, quando o encontrou
     lutando com o bezerro. Depois o tinha visto afundar sua mo no
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     linimento fedido e passar-lhe pelas feridas infectadas. Sabia que Sanc
     no lhe mentia; ela era consciente de cada coisa que o ndio lhe dizia,
     mas precisava escutar o de sua boca.
           --Sabe tanto que ningum lhe faz sombra. E se rompeu o lombo
     como ningum para conseguir lodo o que tem; ningum lhe deu de
     presente nada. Tem as Pelotas bem postas o patro!
           Fiona se ruborizou ao escutar essa expresso, um pouco spera p
     seus ouvidos. Mas que certa!, pensou ela sabia muito bem que seu
     marido um homem com todas as letras, ningum tinha que dizer-lhe o
     comparou com os que tinha conhecido em sua vida e entendeu que, 
     exceo de seu av e Elseo, tinha estado rodeada por meninos; meninos
     sem convices nem fora de corao.
           --por que o chamam "o diabo", ento?--perguntou a |oven.
           --No foi sua gente a que lhe ps esse mote, senhora, o asseguro O
     patro  bravo, ningum o nega, mas tambm  justo quando se cumpre,
     e at generoso. Isso seus pees sabemos. No sei, talvez algum que o
     inveja muito lhe ps "o diabo". Seu marido  uma pessoa muito
     afortunada; no deve faltar algum mentecapto bicha que o zele. Alm
     disso, levando-a a voc do brao, minha senhora, de Silva  o homem
     mais ditoso do Rio de Prata, me crie.
           Sanc Niet se levantou, disposto a retornar ao casario. Tinha coisas
       que fazer e o tempo voava quando se sentava a conversar com sua
       senhora.
           Fiona levantou a vista e lhe estendeu as mos para que a ajudasse a
     ficar de p. O ventre lhe tinha crescido nesses dias e se sentia um pouco
     torpe e intil. sacudiu-se as asentaderas e se acomodou o cabelo. Depois,
     olhou ao ndio e falou.
           --me leve a casa, Sanc j  tempo de voltar--disse com
     simplicidade.




                                      Captulo 20
           depois de cinco dias de busca, Elseo encontrou a de Silva perto do
     Carcara, ao sul da Santa F. Juan Cruz seguia a pista que um pulpero
     lhe tinha vendido.
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           O grupo acampava  borda do rio. Tinham decidido acontecer a
     noite ali e seguir ao dia seguinte rumo ao Crdoba.
           Trs meses atrs, de Silva tinha abandonado A Candelaria em
     busca de sua mulher, jurando-se que, at que no a achar, no
     retornaria a seu lar. Voltaria com ela ou no voltaria. Cada dia que
     passava, a desesperana o curvava. Nenhuma pista certeira, nada que
     lhe indicasse que realmente se tratava dela. Sempre ia acompanhado de
     um grupo de cinco homens que rodavam a cada quinze dias, lapso
     depois do qual retornavam  a Candelaria, para deixar seu lugar a
     outros pees que lhe uniam na busca. Seus homens estavam
     desconcertados com o comportamento do patro. Tinha renunciado 
     administrao das estadias de Rosas, e tinha deixado A Candelaria e os
     outros campos em mos do Celedonio. O salga estava a cargo do
     segundo de Silva nesse stio, um homem de sua confiana. "Mas o olho
     do amo engorda o gado", repetiam os pees nos foges noturnos,
     preocupados com o destino das fazendas.
           Eliseo chegou ao esse acampamento entardecer, mas no encontrou
     ao Juan Cruz. Um dos pees lhe indicou que galopava por algum lugar
     no muito longnquo.
           --Sempre faz o mesmo antes de jantar. monta-se ao padrillo e
     desaparece horas. Depois chega, to calado como se foi, jantar, e se
     perde por a, caminhando --explicou o homem ao Eliseo--. Ficou mdio
     meio doido com tudo este assunto da mulher.
           Eliseo decidiu esper-lo no acampamento. O peo lhe ofereceu um
     mate amargo e um po com graxa que engoliu gostoso. Estava
     esfomeado; fazia mais de um dia que no comia. Tinha abandonado to
     depressa a casa dos Malone que no teve tempo de preparar as reservas
     suficientes para uma viagem to larga. Alm disso, pensou que acharia a
     de Silva antes; jamais imaginou to afastado. Segundo o ltimo
     mensageiro, encontrava-se ao norte da provncia de Buenos Aires, perto
     do Satt Nicols.
           Quando obscureceu, os homens se aproximaram do fogo para
     devorar o guisado. Comiam calados, s se escutava o estalo das colheres
     sobre os pratos de lata. de vez em quando, um deles lanava um
     comentrio curto ao que ningum emprestava ateno.
           deram-se volta quando escutaram os cascos do padrillo de Silva. A
     escurido lhes impedia de v-lo, mas ao pouco momento a imponente
     figura do Juan Cruz sobre o cavalo se apresentou ante o grupo. Freou o
     animal perto da roda de homens e, sem apear-se, perguntou:
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           --Chegou o mensageiro?
           Ningum lhe respondeu. Ento, Eliseo se incorporou e, tirando-a
     boina, saudou-o.
           --Viva a Santa Federao. boa noite, patro.
           Juan Cruz aguou o olhar e reconheceu ao homem. desembarcou
     do cavalo e se encaminhou para ele, entre surpreso e preocupado.
           --Eliseo? O que faz aqui, homem? Aconteceu algo?
           Juan Cruz ficou plido, embora ningum o notou na penumbra
     noturna. O pulso lhe acelerou; pressentia algo mau.
           --Posso falar com voc, patro? --perguntou-lhe Eliseo, afastando-
     se um pouco do grupo de homens.
           encaminharam-se  nica carpa do acampamento, que era a de
     Silva. Entraram. Um jergn, uma mesita pequena com alguns papis e
     uma banqueta de lona eram todo o mobilirio. Juan Cruz acendeu o
     abajur de azeite e desdobrou uma sillita.
           --Sente-se, Elseo. Vamos... me diga o que acontece.
           --A menina Fiona retornou, patro.
           De Silva ficou de p de um salto e se levou as mos  cara.
           --Obrigado, Meu deus! --exclamou--. Est bem, Eliseo? Ela est
     bem? O beb... me diga o que seja, Eliseo, o que seja!
           Juan Cruz tomou pelos ombros com tal mpeto que o obrigou a
     ficar de p. Comeou a sacudi-lo. O peo o olhava atnito; nunca o tinha
     visto to descontrolado.
           --Tranqilize-se, patro. A menina Fiona est muito bem. O doutor
     Rivera a revisou o mesmo dia que apareceu e a encontrou bem. A ela e
     ao menino.
           De Silva o sentou na banqueta de novo. Eliseo percebeu que se
     tranqilizava. Depois, Juan Cruz apareceu pela entrada da carpa.
           --Rodrigo, me traga duas taas de caf bem carregado! --voltou-
     se, e escrutinou ao peo com o olhar--. Quando apareceu?
           --Faz seis dias, patro, mas faz cinco que o busco.
           calou-se, esperando uma nova pergunta do Juan Cruz. Mas nada;
     este continuava olhando-o fixamente.
           --Voc quer retornar amanh, patro? --perguntou Eliseo,
     intimidado pelo olhar de Silva.
           --No, Eliseo. Voltaremos agora mesmo. J.

          De Silva ia todos os dias a casa dos Malone. Embora Fiona no
     desejava v-lo, ele visitava a manso da rua Larga s para saber como
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     estava sua esposa. Conversava comprido momento com o Brigid e Ana
     e, em algumas ocasione, com Sejam. O ancio, embora se mostrava mais
     parco que o resto, comeava a ceder.
           Cada vez, Juan Cruz levava uma carta para a Fiona. A entregava a
     Maria, e ao cabo de uns minutos a criada retornava com o bilhete
     intacta, meneando a cabea de um lado ao outro.
           --Est bem, Mara, no se preocupe --murmurava de Silva.
     Recebia a carta rechaada, e a guardava novamente no bolso.
           A faxineira estava desfeita pela pena que lhe inspirava seu patro,
     mas no havia forma de convencer a Fiona de que o recebesse ou lesse
     suas cartas.
           Desde que retornasse um ms atrs, Fiona permanecia todo o dia
     em sua habitao. Falava muito pouco e quase no comia, o que
     exasperava a Maria.
           --Menina, no seja caprichosa! Come, embora no tenha desejos.
     Faz-o pelo menino --a arreganhava dia a dia, lhe aproximando a colher
      boca.
           A jovem a rechaava, fazendo um gesto de asco.
           --Uuyy!  teimosa como uma mula --exclamava a mestia, e a
     deixava sozinha por um momento.
           Apenas Maria fechava a porta de seu dormitrio, Fiona se punha-
     se a chorar. Estava muito confundida, e no sabia o que fazer.
           --Parece que foi todo mentira --disse Maria um dia como ao
     passar.
           Fiona no comentou nada porque sabia a que se referia sua criada.
     Estala desejosa por saber de seu marido, mas preferia mord-la lngua e
     no perguntar nada. Por isso, quando Maria comeou a falar, no a
     deteve.
           --Aos poucos dias de seu desaparecimento, o patro retornou do
     sul, das estadias de Rosas. Estava desesperado, menina, deveria hav-lo
     visto. Parecia a ponto de chorar...
           --Chorar! De Silva chorar?
           A repentina irritao da Fiona sobressaltou a Maria. Tinha estado
     to taciturna todo o tempo que no imaginou uma reao como essa.
           --Sim, Fiona, chorar. O te ama, menina, embora voc no queira
     entend-lo.
           A faxineira se calou, disposta a no falar mais. Por uns minutos, o
     silncio foi insondvel. Fiona estava inquieta; desejava que continuasse,
     mas no queria demonstrar-lhe
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           --E?
           --E, o que? --disse Mara.
           --O que passou depois?
           Mara lhe lanou um olhar cheia de irritao.
           --Logo soubemos tudo. O senhor de Silva foi casa de Estar
     acostumado a...
           --De Estar acostumado a? do Palmiro Estar acostumado a?
           --O mesmo, menina. Esse maldito e essa Clo andavam juntos
     nisso.
           --O que?
           Fiona ficou de p.
           --Que Estar acostumado a estava completado com a... --no podia
     nem sequer nome-la.
           --Sim. Queriam vingar-se de ti e do senhor de Silva. Parece que o
     Estar acostumado a andava loquito por ti Y... Bom... Desvairada-a essa...
     Pois... J sabe... --balbuciou a criada.
           --No, Maria, no sei! Fala clara.
           --Bom, essa louca e o senhor, pois, parece que... Bom... Tinham
     sido amantes.
           Fiona sapateou o estou acostumado a repetidas vezes com o taco
     do bota de cano longo, golpeando-a mo com o punho.
           --Eu sabia! Eu sabia que era verdade! --repetia a jovem
     enfurecida.
           --O senhor jura e perjura que no a voltou a ver desde que se
     casou contigo. O disse a seu av, menina. Por favor, te acalme.
           --Mentira, isso  mentira! De Silva sempre viajava sozinho a
     Buenos Aires e por mais que eu insistia em acompanh-lo, ele se negava.
     Era para ver-se com essa... essa... --Apertou os dentes e fechou os
     punhos aos flancos do corpo--. Uuyy! Odeio-o, odeio-o!
           --me escute, Fiona! me escute! --Maria a tinha tomado pelos
     ombros--.  bvio que a tinha deixado por ti. Se no, para que urdiu
     junto a Estar acostumado a toda essa patranha? Entende que nenhuma
     mulher teria atuado assim se o homem ao que deseja est a seu lado.
           --Sim, mas voc no sabe se a deixou antes ou depois de casar-se
     comigo --choramingava Fiona.
           --O mesmo dia que chegou a Buenos Aires--continuou a criada--,
     no sei por que, foi  casa de Estar acostumado a. Talvez, intuiu algo de
     tudo isto, no sei. A questo  que foi v-lo. Ali se encontrou com essa
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     louca... --Fez uma pausa--. A louca tratou de matar a seu marido de um
     balao.
          --meu deus! --exclamou Fiona. deixou-se cair ao bordo da cama,
     levando-as mos ao rosto.
          --Bom, o patro esquivou a bala mas lhe deu na cabea a Estar
     acostumado a. O canalha morreu a mesmo. A mulher, ao ver morto a
     Estar acostumado a, pegou-se um tiro. Tenho entendido que o patro
     tratou de det-la, mas estava muito longe e no...
          --Tratou de det-la!
          --Fiona, Por Deus! Ningum pode permitir que outro mora sem
     salvao! Embora seja a mulher que mais odeie no pode pensar que o
     patro no teria que hav-la ajudado.
          Maria abandonou a habitao, furiosa com sua ama. Fiona, por sua
     parte, no cessava de pensar: "Tratou de det-la, ele tratou de det-la".
          S trs pessoas conheciam a verdade e duas delas estavam mortas.
     De Silva nunca revelaria o segredo; no enquanto Fiona estivesse perto
     de Rosas e sua vida corresse perigo. Frente a todos, o mazorquero e a
     prostituta seriam os nicos culpados da desgraa. Frente a Rosas, Juan
     Cruz atuaria como sempre, s que agora o conhecia melhor. Depois
     decidiria os passos a seguir. Embora, nesse tempo, manteria os olhos
     bem abertos, disposto a esperar o inesperado.

          Sanc Niet se hospedou algumas semanas em casa dos Malone
     antes de retornar a seu povo. Ele relatou  famlia os fatos, j que Fiona
     pouco lhes tinha contado. Todos estavam muito agradecidos ndio que
     tinha salvado a vida da jovem. Sejam lhe ofereceu trabalho permanente
     em uma de suas estadias, mas Sanc replicou agradecido que s
     trabalhava para o patro de Silva. Ao escutar isso, Fiona se retirou a sua
     habitao. Nesses dias, at o nome de seu marido a enchia de
     desassossego.
          Sanc se tinha convertido em um grande amigo da Fiona. Com ele
     se sentia a gosto e no lhe custava lhe expressar os pensamentos que a
     atormentavam. O ndio a olhava tranqilo, escutava-a durante horas, e
     ao final, sempre lhe dizia algo que a obrigava a pensar quase toda a
     noite. Apesar de que Sanc defendia ao Juan Cruz, a Fiona fascinava
     escut-lo falar dele. Por momentos, esquecia-se de suas dvidas e
     temores, e se deixava levar pela imagem de heri que o ndio tinha de
     seu marido.
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           Uma tarde, Fiona lia no ptio e parecia estar de melhor nimo que
     outros dias. Ento, Sanc aproveitou para lhe anunciar que devia voltar
     para seu lar.
           --No, Sane, no v, suplico-lhe isso. Necessito-te. O que farei sem
     ti? --Os olhos da jovem tinham comeado a brilhar.
           --Mas, senhora, minha senhora, o que me diz? Se voc for a
     mulher mais querida de toda a Confederao. O que h com seu av,
     com sua av, Maria, todos? No h quem no a queira nesta casa. Todos
     se esforam para que voc esteja melhor cada dia. Alm disso, senhora,
     seu marido a ama por sobre todas as coisas.
           Fiona se anoj aos braos do ndio, chorando como uma menina.
           --jNo, Sane, no v!
           Soluou um momento, desconsolada. Sanc Niet a deixou fazer. Ao
     cali de uns minutos, prosseguiu.
           --Senhora, devo retornar, devo faz-lo. Tenho poucos dias para
     arrumar uns assuntos em minha casa antes de voltar para trabalho em
     La Candelaria. J falta pouco para que comece a poca em que me
     necessita o patro de Silva.
           Fiona baixou a vista. Todos pareciam amar a seu marido por esses
     dias; todos menos ela.
           --Alm disso --continuou Sane--, necessito os reais que me vai
     pagar o patro de Silva. lembra-se que lhe contei que queria comprar
     uma manada de ovelhas?
           A jovem assentiu, sem poder pronunciar palavra, chorosa outra
     vez. Deixou passar uns segundos em silncio, pensando que devia
     deix-lo ir. No podia aferrar-se a ele; Sanc tinha que continuar com sua
     vida e ela com a sua. J era hora de tomar o touro pelas hastes e deixar
     de criancices. Sanc Niet tinha razo, todos a queriam e se esforavam
     por seu bem-estar; ela, em troca, no fazia a no ser encher seus coraes
     de desassossego, mais do que j lhes tinha causado com o
     desaparecimento, que ningum lhe tinha reprovado, nunca.
           --Est bem, Sane, tem razo. Deixarei-te ir, mas com uma
     condio.
           Olhou-o com picardia. Depois, tirou de seu decote a bolsita com as
     moedas do Sarquis.
           --Isto  para ti, para que possa comprar algumas ovelhas mais.
     No  muito, mas  o que tinha economizado para mim e para meu
     filho. Dou-lhe isso. Este dinheiro te corresponde mais a ti que a mim, me
     acredite.
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           Entregou-lhe a bolsa, que o ndio recebeu desconcertado. Abriu-a e
     descobriu as moedas em seu interior.
           --No, senhora,  muito! Alm disso, voc no me deve nada. Eu o
     fiz por voc e pelo patro de Silva. --A devolveu.
           --Sane, por favor, suplico-lhe isso. Se desejas lombriga feliz, toma a
     bolsa com moedas.
           Fiona voltou a pr o saco de couro em suas mos.
           --Est bem, senhora. Eu aceito as moedas e lhe agradeo, mas sei
     que s h uma forma de v-la feliz a voc.
           Fiona o olhou com desconfiana, franzindo o sobrecenho.
           --Volte com o senhor de Silva, senhora. S junto a ele ser feliz de
     novo.
           O ndio deu meia volta e partiu. Essa noite, Fiona no pde dormir.

           Bateria na porta como todas as tardes. Abriria-lhe Coquita, faria-o
     passar e lhe pediria que esperasse sentado a misia Brigid e a dom
     Malone. como sempre, tomariam juntos o ch, falando especialmente da
     Fiona e de alguma outra banalidade. Depois, chegaria Maila o saudaria
     muito cordial e lhe receberia a carta. Durante uns minutos, aguardaria
     ansioso, mas ao ver retornar  criada com cara de angstia e o bilhete na
     mo, saberia que, tambm hoje, Fiona a tinha rechaado. Apesar de
     tudo, jamais se daria por vencido. Retornaria, uma e outra vez, at que
     ela o recebesse. A ansiedade por t-la entre seus braos o voltava louco
     pelas noites, e a necessidade de escut-la lanar com fria suas frases
     impertinentes o atormentava durante o dia.
           Apesar de que sua mulher no o tinha recebido sequer uma vez,
     ele as tinha engenhado para v-la. Fiona no saa  rua mais que para a
     missa no Socorro os domingos pela manh. Nessas ocasies, Juan Cruz
     se apresentava primeiro na igreja, esperando que ela aparecesse. 
     sada, observava-a subir raudamente  diligncia de seu av, e se perdia
     uma vez mais a beleza de seu rosto. Nesse momento e enquanto a
     volanta dobrava na primeira esquina, Juan Cruz sentia desejos de
     chorar.
           desembarcou do padrillo. Uma das moos da cavalaria do Malone
     tomou as rdeas, e se afastou com o animal. Bateu na porta e Coquita o
     recebeu. Ao cabo de uns minutos, Brigid e Sejam se apresentaram na
     sala. saudaram-se como de costume e se sentaram a tomar o ch.
           --Queria lhes comentar que talvez me ausente por algum tempo --
     disse de Silva.
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          Os avs da Fiona o observaram com gesto desconsolado.
          --Faz meses que deixei meus negcios em mos de meus homens
     e, embora se dirigiram bastante bem, agora requerem minha presena.
     Voc entender o que trato de lhes explicar, dom Malone -- adicionou.
          --Sim,  obvio, entendo; mas, por quanto tempo se ausentar, de
     Silva? --perguntou Sejam.
          --Talvez um ms. Estamos por comear com o rodeio e a erra.
          --Sim,  certo --afirmou o irlands.
          Ingressou Maria  sala, recebeu a carta de costume, e se voltou a ir.
          --Como est Fiona? --perguntou Juan Cruz com no dissimulada
     ansiedade.
          --Est muito bem. Ontem partiu Sanc e pensamos que isso lhe
     causaria grande tristeza; em troca, esteve que bom aspecto todo o dia.
     Inclusive acompanhou a Maria ao mercado, como estava acostumado a
     fazer de pequena --respondeu Brigid entusiasmada.
          --Isso sim que  bom --afirmou de Silva--. Mas... Bom, no
     perguntou por mim?
          --No, senhor de Silva, infelizmente no --demarcou a anci,
     baixando os olhos.
          Retornou Maria e lhe devolveu a carta como sempre.
          -- Est bem, Maria, no se preoc...
          -- No, senhor, no  o que voc pensa. A menina Fiona h dito
     que a espere, que hoje o receber.

           Fiona chegou  sala e seus avs no estavam ali. De Silva, de costas
     a ela, olhava pela janela. Entrou silenciosamente, tanto que Juan Cruz
     no a escutou, absorto como estava na paisagem exterior.
           --Boa tarde --sussurrou, revelando sua presena.
           De Silva volteou. Com o olhar fixo nela, no atinou a abrir a boca.
     depois de tanto tempo, outra vez a tinha frente a ele. E novamente sua
     formosura o deixou sem flego. Olhou-a de acima a abaixo, sem recato,
     detendo-se no ventre volumoso. Tinha tantos desejos reprimidos que
     avanou decidido para ela, disposto a beij-la.
           Fiona levantou a mo, lhe indicando que se detivera. No podia
     falar; tinha a voz quebrada. Tinha ensaiado essa cena em sua mente
     centenas de vezes, mas agora as palavras se desvaneceram. No sabia
     como comear, o que lhe dizer. Levantou o olhar, e se encontrou com
     seu rosto a uns passos dela. Contemplou-o atentamente. Essa levita que
     levava no a conhecia, era nova. cortou-se o cabelo e j no tinha o
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     acrscimo que a ela tanto gostava. Estava magro e ojeroso. Seguiu
     olhando-o, sem acanhamento.
           --Fiona...
           A forma em que de Silva pronunciou seu nome e o brilho em seus
     olhos destroaram as convices com que Fiona se apresentou.
     proposto-se que seria firme e dura com ele, que o faria sofrer, que lhe
     faria sentir em carne prpria a humilhao e o desamor. Mas todo isso
     ficou atrs, e as firmes decises desapareceram logo que escutou sua
     voz.
           --Fiona... Por favor...
           De Silva comeou a aproximar-se; ela retrocedeu.
           --Meu amor, no me rechace --suplicou Juan Cruz.
           A jovem levantou a vista ao escutar as ltimas palavras. A voz do
     Juan Cruz lhe soou estranha, tremente, e isso a angustiou. Depois,
     recordou.
           --No me rechace? Disse no me rechace? --Olhou-o fixamente
     uns instantes, sem falar--. Apesar de tudo, senhor de Silva, eu o aceitei.
     Foi voc o que me rechaou, foi voc o que fez a um lado, me enganando
     com essa... com essa... senhora.
           Fiona fechou os olhos e apertou os dentes. Juan Cruz completou o
     trecho que os separava e tomou as mos. Fiona se sobressaltou; deu um
     passo atrs, e se soltou de seu marido.
           --No me toque --ordenou em um sussurro resistente.
           De Silva sentiu um murro no estmago ao escut-la.
           --Por favor, Fiona, me perdoe. Jamais te enganei com ela. Isso 
     coisa do passado. Do primeiro dia em que te vi, no Socorro, amei-te.
     Ainda o recordo; via-te to formosa com seu vestido lils e sua mantilha
     branca... Seu rosto era radiante. Lembro-me que ria forte e apesar de que
     sua av se escandalizava, voc no deixava de faz-lo. Recorda por que
     ria? Sempre quis sab-lo.
           Pergunta-a a desconcertou. ficou muda, olhando-o, enquanto Juan
     Cruz esperava a resposta.
           --Eu... Pois... --resmungou Fiona--. No, no recordo --disse por
     fim--. Talvez, no sei, ria-me de alguma das velhas. Sempre me davam
     risada, com seus peinetones fora de moda, mdio rgidas dentro de seus
     espartilhos ajustados... Terei que as ajudar a que ficassem de p. --As
     comissuras de seus lbios se elevaram um pouco. Respirou profundo e
     baixou a vista.
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          --Sim, certamente te ria de algum desses carcamanes. Desde o
     comeo soube que detestava toda essa espata. Luzia to natural como
     uma flor. Nada em ti parecia medido. Movia-te sensualmente, mas eu
     me dava conta de que foi ingnua.  to sensual...
          Fiona manteve o olhar baixo porque sabia que tinha o rosto como o
     gro. Percebeu que de Silva se aproximava uns passos, mas no se
     moveu de onde estava.
          --Depois, essa noite, no de misia Mercedes... Bom, a confirmei
     todas as teorias a respeito da que seria minha esposa. --Juan Cruz
     sorriu, sem lhe tirar o olhar de cima--. Do primeiro momento em que te
     vi soube que srias minha, embora misia Mercedes pensasse o contrrio.
     Ela me disse que jamais te fixaria em mim, que foi inalcanvel para
     mim.
          Fiona se surpreendeu. Embora tratou de dizer algo, no encontrou
     as palavras.
          --Pensei que me dizia isso porque eu era um arrivista, um
     bastardo, criado por uma negra. Fiz o que fiz com seu pai porque pensei
     que me desprezaria por ser assim, e que jamais me aceitaria. Teria-me
     asco e me rechaaria.
          --No! --exclamou Fiona, com um n na garganta, dando um
     passo para frente--. No...-- sussurrou depois, sentindo-se vulnervel
     uma vez mais frente a ele--. Jamais rechaaria a ningum por isso,
     senhor de Silva.
          --Viu-me com a Clelia essa noite, verdade?
          Fiona deu um coice, envergonhada de s ouvi-lo falar daquilo.
     Conteve a respirao e no pde falar.
          --Foi isso, ento... Viu-me com ela --repetiu Juan Cruz.
          --Sim --sussurrou Fiona.
          --Com razo pensa de mim o pior. --Sorriu com tristeza--. Essa
     noite te desejei do primeiro momento em que te vi. Voc parecia alheia a
     tudo, a lguas do de misia Mercedes. Tinha o olhar perdido e luzia
     aborrecida. Mais tarde, busquei-te e no te encontrei. Um momento
     depois, entraram-me vontades de matar ao irmo da Clelia, que te tinha
     conseguido para uma pea. Estava to ciumento e desejoso de ti... Bom,
     voc sabe.
          --me diga, o que  o que devo saber.
          --Estava raivoso, tingia que descarganne com algum. E Clelia se
     mostrava to disposta que... --Fez uma pausa, desviando o olhar--.
     Depois, quando me rechaou para a valsa... --Outra vez, a careta triste
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     em seu rosto--. Ainda o recordo: "Antes prefiro estar morta", disse-me,
     to decidida como sempre.
           De Silva soltou uma curta gargalhada. Fiona tambm sorriu,
     embora tratou de dissimul-lo.
           --Acredito que com essa resposta te desejei mais ainda. --
     aproximou-se dela e tomou pelos ombros--. OH, Fiona, jamais pensei
     que te amaria tanto! Amo-te e no posso evit-lo. No posso te tirar de
     minha mente um s instante. Voc e s voc. Estou-me voltando louco
     sem ti. No durmo de noite porque no est a meu lado, no pued...
           --Senhor, por favor --o interrompeu Fiona, se desfazendo de suas
     mos e afastando uns passos--. Eu no estou preparada ainda. sofri
     muito com seu engano Y...
           --No, Fiona! Eu no te enganei!
           Juan Cruz tratou de acalmar-se; estava gritando, e Fiona luzia
     assustada.
           --Fiona, entende, tudo foi uma patranha urdida pelo Clo e Estar
     acostumado a. Eles armaram isto, tudo  mentira.
           --Mas ela foi seu amante, senhor! Voc me mentiu!
           --Sim, mas antes de te conhecer! Depois no! --mentiu de Silva.
     Jamais a perderia por uma prostituta que no havia valido um ardite
     para ele.
           fez-se um silncio. De Silva estava agitado. Fiona tinha baixado os
     olhos e tentava conter o pranto. No desejava quebrar-se frente a ele. Se
     sabia vulnervel, conseguiria despeda-la. Respirou profundo e
     recomeou.
           --Senhor de Silva, passaram tantas coisas que estou muito
     confundida. No estou segura de lhe acreditar, no sei, no posso. S
     quis v-lo hoje para lhe comunicar minha deciso. Bom... O melhor ser
     que eu permanea em casa de meu av e no voltemos a nos ver.
     Quando nascer...
           --Noo! --gritou de Silva, caindo de joelhos frente a ela, e
     aferrando-se a sua cintura--. No, Meu deus, no me diga isso!
           O homem chorava como um menino. Fiona ficou sem flego frente
      reao do Juan Cruz. Jamais pensou que viveria para v-lo chorar. A
     cabea de Silva apoiada em seu ventre, balanava-se ao ritmo de um
     pranto que no acabava.
           --Fiona, por favor, tenha compaixo de mim! --dizia Juan Cruz
     entre suspiros--. No posso viver sem ti. Este  meu castigo por te haver
     feito sofrer de um primeiro momento. Em troca voc, voc s me fez
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     feliz, meu amor. me perdoe! --Por momentos parecia afogar-se com o
     soluo; depois, continuava--. me Perdoe! me diga que me perdoa, por
     favor! --Seguia de joelhos, agarrado a sua cintura--. Necessito seu
     perdo para seguir vivendo!
            A jovem permanecia rgida. Aquela reao a tinha deixado inerme
     e sem palavras, mas de repente todo se voltava claro. Ela tambm o
     rodeou com seus braos e j no pde conter mais as lgrimas.
            Um momento depois, Fiona apoiou suas mos sobre a cabea do
     Juan Cruz, e entrelaou os dedos com aquelas mechas negras que tanto
     gostava.
            --por que o amo tanto, senhor de Silva? --perguntou-se,
     sonriendo.
            Sentiu que seu marido a apertava mais ainda e isso a encheu de
     sensaes estranhas.
            --Agora sei que o amei de um princpio, desde aquela noite em
     que me senti to atrada por voc. Jamais tinha conhecido a algum to
     viril. Caminhava como um rei e olhava a todo mundo com ar desafiante.
     Eu gostei tanto que me assustei.
            Juan Cruz se incorporou. Fiona se sobressaltou ao ver seu rosto
     empapado e seus olhos avermelhados. No pde evit-lo e o acariciou.
     De Silva tomou entre seus braos e a apertou contra seu peito.
     Desesperado, procurou a boca de sua esposa e a beijou, ao bordo da
     loucura. Depois, sem separar seus lbios dos dela, falou-lhe como
     acostumava a faz-lo. Com uma ordem.
            --Nunca mais volte a me abandonar, Fiona.
            --Nunca mais, senhor.




                                         Eplogo
           O txi se deteve na Rue Duret, a meia quadra da Avenue Foch. Era
     outra dessas rudes noites parisinas. Chovia e fazia frio. Olhou pelo
     guich tinja de descender do automvel. Havia luz na planta alta da
     manso. A cortina se abriu e a estava ela, olhando o txi de acima, com
     irritao. A moa sorriu antes de abandonar o veculo.
           --Fique com o voltado --disse, sem olhar ao condutor.
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          --Merci beanconp, mademoiselle.
          A chuva, cada vez mais forte, obrigou-a a correr at a entrada da
     manso. antes de que chamasse, uma faxineira lhe abriu a porta.
          --Bonsoir, Dorothy.
          --Bonsoir, mademoiselle Ariadna.
          A jovem transpassou o saguo e esperou ao p da escada. tira-se o
     impermevel e se sacudiu a cabeleira.
          --Ariadna, deixa de te sacudir como um co --ordenou algum da
     planta alta.
          --Grand-mre!--exclamou a jovem.
          --Chega tarde, menina --disse a anci enquanto baixava.
          --S uns minutos, grand-mre, no seja cascarrabias --replicou a
     jovem, aproximando-se do p da escada. Sua av se manteve uns
     segundos no ltimo degrau, contemplando-a.
          --Jeunessc!--exclamou por fim, com aborrecimento--. Se no te
     quisesse tanto...
          Ariadna sorriu. Sua av se empenhava em aparentar um recato e
     uma retido que no tinha, ao menos que no tinha para com ela. Desde
     pequena a tinha deixado fazer livremente; tinha-a mimada mais que ao
     resto de seus netos. Entre elas havia algo muito especial que aumentava
     com os anos; como o velho costume de esperar o aniversrio da Ariadna
     da noite anterior, jantando sozinhas, bebendo champagne.
          --Vamos, chrie, passemos ao comilo. O jantar est lista --
     convidou sua av--. Tem apetite?
          --Muito --respondeu Ariadna.
          --Ento, no poder resistir ao pato que preparou Gerard. Durante
     a velada conversaram da famlia, de poltica e de arte e, embora no
     estavam de acordo em nada, escutaram-se. Saborearam lentamente o
     Dom Prignon. As rias da Carmen soavam no toca-discos cada vez mais
     longnquas e uma sonolncia se apoderava de ambas as mulheres.
          O relgio do saguo deu as doze. A av se sobressaltou e, ficando
     de p, disse-lhe:
          --Bou anniversaire, MA chere Ariadna! Beijou-a em ambas as
     bochechas, e a jovem a abraou. um pouco intimidada pela amostra de
     afeto de sua neta, encaminhou-se ao mvel com pequenas gavetas de
     onde tomou uma caixa. Abriu-a, tirando uma mais pequena, e a
     entregou a Ariadna.
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           --Abre-o,  seu presente de aniversrio. A jovem abriu o estojo.
     Continha uma miniatura com o retrato de uma mulher. Era de marfim,
     com marco de ouro e brilhantes engastados.
           --Grand-mere,  muito belo! Merci beaucoup --exclamou Ariadna,
     sem tirar os olhos do presente.
           --OH, sim!  uma jia muito bela...
           --Sim,  obvio, a jia tambm o , grand-mre, mas me referia 
     mulher grafite.
           --Certamente, chrie. Era minha av, a me de minha me.
     chamava-se Fiona Malone.  formosa, verdade? Agora j sabe de quem
     herda esse vermelho de seu cabelo que tanto detesta --adicionou sua
     av, sonriendo.
           A jovem no respondeu. Continuava aniquilada observando a
     miniatura.
           --Ah, quase me esquecia o mais importante! --exclamou a anci,
     tirando da caixa trs cadernos prolijamente forrados com couro.
           --Toma, estes so os jornais de minha av Fiona. Esto em ingls,
     mas no ter problema para entend-los.
           Ariadna tomou os cadernos e os contemplou com avidez.
           --Dou-lhe isso porque, bom, com essa idia que tem de ser
     escritora, acredito que podem te ser teis. Est segura de que no deseja
     ser advogada ou mdica? Olhe que ganham muitos mais francos, chrie.
           --No, grand-mre, estou segura --respondeu a jovem.
           --Bom, ento, estes trs jornais so o melhor presente que posso te
     fazer, me acredite.

          Era uma e meia da madrugada quando Ariadna chegou a seu
     departamento. Estava to ansiosa por ler os jornais que lhe tinha ido o
     sonho. deu-se um banho rpido, ficou o pijama e se preparou uma taa
     de caf bem forte. depois de colocar os trs jornais sobre a mesa ratona,
     se apoltron em seu div. Sorveu um pouco de caf. Depois, tomou um
     ao azar, e o abriu na primeira folha. Tinha um aroma estranho e suas
     pginas de cor spia pareciam a ponto de quebrar-se, como folhas secas.
     acomodou-se um pouco mais no div e leu.

                Londres, 7 de setembro de 1849
                Apesar de que faz dez dias que estamos aqui, ainda no
           conseguimos pr ordem na casa que comprou o senhor de Silva.
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           Maria e Candelaria no do proviso e eu pouco posso fazer com
           meu beb to pequeno.
                A casa fica perto do Bond Street, a umas poucas quadras do de
           aunt Tricia. Ela  um grande consolo para mim, agora que estou
           longe de todos. Meu menino  formoso e saudvel; alheio a tudas as
           mudanas, sempre sorri, em especial quando escuta a voz de seu pai.
           Acredito que ele o mmica muito, mas eu nada posso fazer."

                Adiantou vrias pginas e continuou lendo.

                 Londres, 13 de setembro de 1849
                 Finalmente, consegui que o senhor de Silva me confesse o
           verdadeiro motivo de nossa partida to repentina de Buenos Aires e
           nosso assentamento nesta cidade. O conto de "assuntos de negcios"
           no me convencia. Por fim me h dito que foi esse malvado tirano de
           Rosas o que urdiu o plano Estando acostumado a e a prostituta.
           Confessou-me que Silva que Rosas odeia a minha famlia porque crie
           unitria. Maldito seja, homem do demnio!
                 De Silva acreditou conveniente partir de Buenos Aires para
           evitar uma nova patranha do ditador, mas eu estou sem consolo
           pensando na Grandpa e no resto de minha famlia. O senhor de
           Silva diz que no devo me preocupar, que meu av sabe cuidar-se
           sozinho.
                 Fez bem me confessando isso longe de Buenos Aires, porque eu
           mesma teria matado a esse malvado.

                 Londres, 10 de maro de 1852
                 Hoje esteve que visita aunt Tricia, jogando um pouco de luz ao
           comportamento estranho do senhor de Silva nos ltimos dias.  que
           Rosas tem cansado! Derrotou-o o General Urquiza a princpios do
           ms passado. Dizem que acaba de chegar a Inglaterra, como
           refugiado. No podemos ter pior sorte. Mas j no nos importa, pelo
           menos, j no me importa.

          ficou-se dormida no div, com o caderno sobre o peito. Olhou o
     relgio na parede: eram as duas da tarde. levantou-se sobressaltada;
     depois se tranqilizou: era sbado. banhou-se e se vestiu com roupas
     folgadas. Tinha pensado ficar todo o dia em casa, lendo e escrevendo.
     Estava muito entusiasmada com a histria de seu tatarabuela e j no
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     podia esperar mais. Logo, conectou a contestadora automtica; no tinha
     desejos de que a interrompessem. Estava segura de que mais de um
     chamaria para saud-la no dia de seu aniversrio; devolveria as
     chamadas mais tarde, depois de ler as efemrides.
          Almoou algo ligeiro e retornou ao trabalho. Tomou o jornal que
     tinha lido a noite anterior e apesar de que no o tinha terminado, sua
     sabida ansiedade a levou direto  ltima pgina.

                 Paris, 28 de julho de 1890
                 Acredito que ficarei vivendo em Paris, junto a minha filha
           Camila.  uma cidade formosa, apesar de que chove mais que em
           Londres. Alm disso, minhas duas netas so meu consolo por estes
           dias. Meu filho Juan Cruz est bem situado em Londres,
           continuando os negcios de seu pai. No tenho que me preocupar
           com ele. J conseguir uma boa mulher e se casar.
                 decidi que este seja o ltimo dia que escrevo minhas
           efemrides. Agora que Juan Cruz no est junto a mim, j nada tem
           sentido. Tudo se limita  lenta espera do destine; final e irremisible
           que me uma a ele. Amei-o at o desespero; tanto que por momentos
           acreditei perder a razo. Mas no me arrependo, fui livre junto a ele
           e no me reservei nada que agora pudesse me fazer sentir mesquinha
           ou afligida.
                 s vezes penso, cheia de angstia, no paradoxal que foi minha
           vida. O homem ao que acreditei detestar, meu pai, converteu-se no
           responsvel por que eu fora a mulher mais feliz do mundo junto a
           meu adorado Juan Cruz. Faz muitos anos que perdi a meu pai e j
           nada posso fazer; deixei-o ir lhe dizer o muito que o queria.
                 Camila me perguntou dias atrs como tinha sido meu amor
           por seu pai. Tomou por surpresa e no pude lhe dizer nada. Pensei-o
           muito aps, e me estremeci com tantas lembranas, em especial com
           o de nossas bodas. Deus bendito! Se meus filhos soubessem o que
           senti esse dia...
                 por agora direi a Camila que amei a seu pai com paixo, por
           sobre todas as coisas, mais  frente do Cu infinito, do bem e do mal;
           e que o amarei sempre, sem importar o tempo, por toda a eternidade.
                 Talvez, algum dia me atreva e lhe confesse que, em realidade,
           para mim tudo comeou com dio, a manh de minhas bodas,
           quando o senhor de Silva tomou como sua esposa em troca das
           avultadas dvidas de meu pai.
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           Ariadna se enxugou as lgrimas com o punho da camisa. No era
     sentimental, mas a sinceridade dessa mulher a tinha sobressaltado.
           sentou-se frente a sua mquina de escrever, arrancou a meia folha
     escrita, e colocou uma nova, em branco. estirou-se os dedos, e escutou
     com fruio o rangido de seus ndulos. Depois, centrou a folha para
     tipear o ttulo de sua nova novela. "Bodas de dio", escreveu.




                            Nota explicativa da autora

          O estilo da manso descrito para a estadia "A Candelaria" logo
     apareceu em Buenos Aires para fins do sculo XIX.
          De todas formas, trata-se de uma construo que segue os
     princpios da arquitetura francesa do sculo XVII.
